KOMİSYON RAPORLARI
AİLE HEKİMLİĞİ KOMİSYONU ÇALIŞMA RAPORU
Nos capítulos anteriores deste trabalho, a supervisão foi explorada a partir de seu caráter não sistemático, haja vista que até 1920, como muito bem sustenta Stein, “nada havia de sistemático nesta conduta [supervisão]1”, ou seja, não havia um método organizado, no que diz respeito à formação do analista, já que a supervisão é um dos pilares que alicerçam esse processo.
Antes de 1920, a procura por orientações sobre a prática clínica (supervisões) ocorria por via das inclinações e das demandas pessoais dos aspirantes a analista e pode ser facilmente verificada, conforme já discutido nesta tese, na correspondência entre Freud e Fliess (e com tantos discípulos desse mestre, sobretudo Ferenczi e Weiss), no caso de Sabina Spielrein e Hans, nas reuniões na casa do pai da psicanálise na capital austríaca, às quartas feiras à noite, e nos encontros da Sociedade Psicanalítica de Viena.
Coerente com esse caráter de não sistematização, não era incomum que a supervisão e a análise pessoal também transcorressem durante os passeios que os discípulos de Freud realizavam na companhia dele. A título de ilustração, lembro a descrição que Jones fez dessa situação, ao narrar a consulta de Max Eitingon a Freud, em janeiro de 1907, sobre um grave caso”2 : “Passou três ou quatro noites com Freud, dedicadas a trabalhos analíticos pessoais durantes longos passeios pela cidade. Esta era a primeira análise didática!“ 3
Ainda acerca da informalidade da formação dos analistas, recordo a viagem de Ferenczi, Jung e de Freud aos Estados Unidos, em 1909, por ocasião das conferências que este proferiu, na comemoração do vigésimo aniversário da Clark
University: durante o percurso, “os três companheiros analisaram os sonhos uns dos
outros”4.
1
STEIN, Conrad. Em que lugar, em que enquadre, para que fins falar de seus pacientes? In: Stein, Conrad (Org). A Supervisão na Psicanálise. São Paulo: Escuta, 1992, p. 20.
2 JONES, Ernest. A vida e a obra de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, Vol. I, 1989, p. 46. 3
Idem. 4
O fato de a formação dos analistas, até 1920, não obedecer a nenhuma forma de sistematização, faz Millot5 sustentar, com justa razão, que o reconhecimento do status de psicanalista se dava pelas mostras dadas pelos discípulos de Freud acerca de suas práticas clínicas e por meio das contribuições teóricas que prestavam.
É interessante pontuar, ainda, que Balint denomina essa fase do movimento psicanalítico como período de instrução6, haja vista que é marcado pela ausência de sistematização, na formação dos analistas.
Apesar de haver solicitações de supervisão dos analistas, antes de 1902, isto é, da data do estabelecimento da “Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras”, Freud se encontrava isolado em relação à comunidade científica, justamente por defender a psicanálise, tendo no campo acadêmico o amigo Wilhelm Fliess como seu único interlocutor. Seu isolamento durou cerca de 10 anos: de 1894, quando se deu o rompimento com Joseph Breuer, até por volta de 1902, com o início dos encontros às quartas-feiras à noite, na Bergasse 19 .
Nesse sentido, Jones é claro ao afirmar que
(...) Freud sofrera de solidão intelectual, aliviada apenas parcialmente pelo contato afetuoso de sua família e da vida social. Não havia ninguém com quem pudesse discutir suas novas descobertas, exceto, até certo ponto, com a sua cunhada Minna Bernays e, por correspondência e em encontros ocasionais, com o seu grande amigo Wilhelm Fliess, rinologista de Berlim.7
Tal cenário de isolamento mudou bastante, a partir de 1902: em 1907, Jung e Eugen Bleuer8se interessaram pela psicanálise; em 1908, houve uma reunião, em Salzburgo, com pessoas de diversos países manifestando interesse pelas ideias de Freud e, em 1909, como já citado, o médico de Viena viajou aos Estados Unidos, na companhia de Carl G. Jung e de Sándor Ferenczi, para proferir cinco palestras, na Universidade de Clark, a convite de G. Stanley Hall9. Assim, não tardou muito para que a psicanálise conquistasse novos adeptos, sobretudo por toda a Europa.
Vale mencionar que, apesar do conhecimento psicanalítico ter conquistado alguns partidários, esse novo campo do saber enfrentou uma forte rejeição, por
5 MILLOT, Catherine. Sobre a História da Formação dos Analistas. In: JORGE, Marco Antonio Coutinho. Lacan e a Formação do Psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2006, p. 29.
6
BALINT, Michael. On the psychoanalytical system. The International Journal of Psychoanalysis, vol. XXIX, 1948, p.170.
7 JONES, Ernest. Op. cit., p. 22. 8
Psiquiatra suíço (1857-1939) que cunhou os termos esquizofrenia e autismo. 9
parte da comunidade científica, a ponto de a morte da psicanálise ter sido anunciada várias vezes.
Nas palavras de Freud,
pelo menos uma dúzia de vezes durante os últimos anos [início de 1900] li em relatórios de congressos e de órgãos científicos, ou em resenhas críticas de certas publicações, que agora a psicanálise está morta, derrotada e eliminada de uma vez por todas10.
Essa morte parecia desejada pela comunidade intelectual da época, pois, como muito bem sustenta Britto, Freud promoveu uma verdadeira reviravolta no campo científico ao defender suas teses:
O rechaço da sociedade médica de Viena às descobertas de Freud sobre a etiologia sexual da histeria, esta era uma espécie de questão tabu que fugia ao senso comum, era efetivamente uma nova visão que detonava uma verdadeira revolução na medicina da época. O saber uníssono homogêneo, totalizador do grupo médico foi rompido, algo diferente surgia; a emergência do novo, do recalcado, “o desejo sexual”, ameaçava e desagregava, apontava para o desejo de cada um, e além, para um saber incompleto. Criticado e rejeitado pelo grupo médico, Freud enfrentou anos de solidão com o qual dialogou com o novo saber, a psicanálise, e alguns poucos simpatizantes que começavam a se aproximar.11
Diante das fortes oposições que esse novo campo do saber suscitou, aliadas ao fato de a psicanálise “não se encaixa[r] em nenhum espaço acadêmico existente”12, pareceu ao médico de Viena uma grande saída a fundação de uma associação. Para a defesa e a preservação dos postulados da psicanálise, o objetivo dessa associação seria o de propagar as teses analíticas e de possibilitar o intercâmbio amistoso de ideias entre seus membros.
Nesse sentido, Freud escreveu a Ferenczi, em 01 de janeiro de 1910, questionando “... o que o Sr. acha de uma organização mais rigorosa, com a formação de uma associação e uma pequena contribuição para os membros? Acha positivo?”13
Em 13 de janeiro de 1910, ele explicitou novamente sua intenção de criar a associação, dessa vez a Jung: “Pergunto-me, embora a idéia ainda não esteja
10
FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico. ESB, Vol. XIV,1996, p. 44. 11
BRITTO, Virgínia Lúcia S. Instituição - Recortes de uma história. Salvador, Cogito, v. 6, 2004, p. 131.
12 Ibidem, p. 129. 13
FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor. (1960) Correspondência. Rio de Janeiro: Imago, Vol. I, 1994, p. 180.
amadurecida, se nossos partidários não podem filiar-se a uma organização maior com um ideal prático de trabalho.”14
Foi com a colaboração de Ferenczi, por ocasião do II Congresso de Psicanálise, em Nuremberg, em 30 de março de 1910, que a Internationale
Psychoanalytische Vereinigung (IPV)15 foi fundada.
O médico de Budapeste, em “De l’histoire du mouvement psychanalytique”16, deixou claro dois aspectos, a saber: a necessidade de o saber psicanalítico ser difundido e defendido (Ferenczi convoca os psicanalistas a “não somente trabalhar, mas também lutar por nossa causa”17) e a defesa inflamada de Jung para a presidência da associação internacional, tomando-o como uma espécie de Américo Vespúcio da Psicanálise, ou seja, aquele que seria capaz de levar o saber psicanalítico descoberto por Freud/Colombo ao continente.
O médico suíço18 pareceu, aos olhos de Ferenczi e de Freud, a melhor pessoa para presidir a associação internacional (IPA), pois, segundo este último “(...) tinha a seu favor dotes excepcionais, as contribuições que já prestara à psicanálise, sua posição independente e a impressão de firme energia que sua personalidade transmitia”.19
Assim, Jung20, como Bleuler, eram psiquiatras de destaque; o analista suíço fazia parte de uma das escolas de psiquiatria mais respeitadas daquela ocasião (a escola de Zurique), fato esse que facilitaria em muito a difusão da psicanálise, contrabalanceando-se, por sua vez, as severas críticas da comunidade científica ao saber instaurado por Freud.
14 MCGUIRE, William. A correspondência completa de Sigmund Freud e Carl G. Jung. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p. 306.
15
Segundo ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 384. Tal associação “chamou-se, a princípio, Internationale Psychoanalytische
Vereinigung (IPV). Trabalhou usando a sigla IPV até 1936, data em que a quase totalidade dos
psicanalistas da Europa continental exilou-se na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Tornou-se então anglófona e assumiu oficialmente o nome de International Psychoanalytical Association (IPA)”. 16
FERENCZI, Sándor (1911). De l’histoire du mouvement psychanalytique. In: Psychanalyse I. Paris: Payot, 1968, p. 1. Disponível em: <http://psycha.ru/fr/ferenczi/1911/histoire_psychanalyse.html>. Acesso em: 23 mai. 2015. (Tradução nossa).
17 Idem. 18
Segundo JONES, Ernest. A vida e a obra de Sigmund Freud, p. 82, a escolha de Jung para a presidência da IPA trouxe um clima de revolta e de crítica, sobretudo por parte dos vienenses, liderados por Adler e Stekel, que não concordaram com o deslocamento do centro do saber psicanalítico de Viena para Zurique. Freud interveio, nesse ponto, e se afastou da presidência da Sociedade de Viena dando lugar a Adler e concordou com a fundação do Zentralbatt Psychoanalyse, editado em conjunto por Adler e Stekel. Tais atitudes tiveram como finalidade acalmar os ânimos e conceder posições de destaque ao grupo vienense.
19
FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico, p. 52. 20
Estas são as reflexões de Birman nesse sentido:
(...) com este encontro crucial com Jung, Freud supunha que a psicanálise poderia sair não apenas de seu isolamento científico em Viena e estabelecer laços sociais importantes com a poderosa tradição psiquiátrica da Suíça, comandada por Bleuler e concentrada no hospital Burghölzli, mas principalmente deslocar-se de modo definitivo do gueto judaico a que estava até então restrita. Se desta maneira específica a psicanálise poderia ser transformada num movimento internacional de fato…21.
Além de o cristão (protestante) Jung poder viabilizar a internacionalização desse novo campo do saber, para além dos muros de Viena22, tornando-o universal como qualquer outra modalidade científica, também demonstrava ser um grande entusiasta23 das teses psicanalíticas, tomando a causa da psicanálise para si e defendendo-a com veemência diante dos opositores.
Essa postura de combatente era fundamental para Freud, haja vista que os ataques que o saber recém-nascido suscitava (como já apontado) eram intensos e frequentes, e, desse modo, ele “(...) via a Psicanálise como um movimento, uma causa que requeria combatentes, verdadeiros cruzadores, para promover sua defesa e expansão”24.
Ao escrever para o suíço, em 14 de abril de 1907, deu-lhe um conselho: “Cabe-lhe então medir-se com Aschaffenburg. Recomendo-lhe que seja implacável; nossos oponentes são paquidermes, o senhor tem de levar em conta o couro grosso que os reveste.”25
Jung, por sua vez, respondeu à altura ao desejo freudiano pois enfrentou, em novembro de 1906, um dos grandes críticos da psicanálise - Alfred Hoche26 - no Congresso de Psiquiatras Alemães do Sudeste, assim como foi “implacável” com Gustav Aschaffenburg27, como queria Freud, ao ter um sério embate com ele no Congresso de Psiquiatria e Neurologia, ocorrido em Amsterdã, em setembro de 1907 28.
21 BIRMAN, Joel. Discurso freudiano e tradição judaica. Ágora, v. 16, 2013. 22
A esse respeito ROAZEN, Paul. Op. cit., p. 263 esclarece: “O grupo psicanalítico de Viena era constituído quase que exclusivamente de judeus”.
23 Até a presente ocasião, visto que essa situação se modifica muito a ponto de haver o rompimento entre os médicos em 1913.
24
AMENDOEIRA, Wilson. Algumas questões sobre a instituição e a psicanálise. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 43, n° 4, 2009, p. 70.
25
MCGUIRE, William. Op. cit., p. 70. 26 Psiquiatra alemão.
27
Psiquiatra alemão – crítico severo da psicanálise. 28
Dessa maneira, obedecendo ao sentindo etimológico do termo institucionalizar - “fazer com que se mantenha em pé”29 - , a criação da IPA, isto é, a institucionalização da psicanálise, trouxe consigo a tentativa de preservar a existência desse saber. Manter a instituição em pé se traduziu como resistência dos simpatizantes da psicanálise às inúmeras críticas que o novo conhecimento recebeu, e a esse respeito Freud explica:
(...) a ciência oficial lançara um anátema solene contra a psicanálise e tinha declarado um boicote contra médicos e instituições que a praticassem, achei que seria conveniente os partidários da psicanálise se reunirem para uma troca de idéias amistosa e para apoio mútuo.30
Resistir aos ataques, desenvolver o conhecimento analítico e expandi-lo além do universo judeu de Viena, para que ele alçasse voo como uma ciência universal sem sombra de dúvida eram as missões da IPA quando essa instituição foi idealizada.
Nas palavras de seu fundador, “o que eu tinha em mente era organizar o movimento psicanalítico, transferir o seu centro para Zurique e dotá-lo de um chefe que cuidasse de seu futuro”.31
Dez anos após a instalação da associação internacional, a IPA abraçou outra importantíssima tarefa: garantir que a formação dos analistas (da qual a supervisão é parte integrante) obedecesse à psicanálise e se mantivesse sob sua égide para esta não se confundir, portanto, com nenhuma outra teoria, ou ainda, com alguma outra modalidade de tratamento psicoterápico.
Freud é claro sobre dessa questão:
Julguei necessário formar uma associação oficial porque temia os abusos a que a psicanálise estaria sujeita logo que se tornasse popular. Deveria haver alguma sede cuja função seria declarar: “Todas essas tolices nada têm que ver com a análise; isto não é psicanálise”. Nas sessões dos grupos locais (que reunidos constituíram a associação internacional), seria ensinada a prática da psicanálise e seriam preparados médicos, para cuja atividade receberiam assim uma espécie de garantia.32
Sobre essa garantia tão almejada por Freud se posiciona Roazen: “Freud lutou mais amargamente contra os apóstatas que contra os representantes do
29
LAPASSADE, George. Socioanálisis y potencial humano. Madrid: Gedisa, 1980, p. 135. 30 FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico, p. 52.
31
Ibidem, p. 51. 32
mundo exterior, para que a psicanálise não viesse a ser irremediavelmente confundida com outras técnicas e teorias.”33
Após a fundação da IPA, o movimento psicanalítico enfrentou uma série de dissensões34, a começar por Alfred Adler, em 191135, passando por Wilhelm Stekel, em 1912 e culminando em Carl Gustav Jung, em 1913.
Adler se afastou do legado de Freud ao “desexualizar a psicanálise”36, propondo, por exemplo, um ego que se contrapunha em muito aos postulados freudianos, já que os impulsos sexuais não eram centrais no ego, segundo o primeiro. Conceitos como vontade de poder, protesto masculino, sentimento de inferioridade, inferioridade orgânica e a compreensão de que “os problemas emocionais têm origem nos conflitos cotidianos e nas desarmonias culturais”37, ao invés de serem frutos de conflitos sexuais infantis, distanciaram Adler sobremaneira do movimento psicanalítico. “Os conceitos de repressão, sexualidade infantil e mesmo o do próprio inconsciente eram descartados, de modo que pouco ficava da psicanálise. A teoria de Adler era essencialmente uma teoria da psicologia do ego”.38
Desse modo, Freud temia que as novas teses da Psicologia Individual pudessem ser entendidas como psicanalíticas e, portanto, fossem capazes de ameaçar a especificidade do saber que ele havia construído. Nesse sentido, ele é claro ao afirmar que as “(...) pessoas de fora, que não estão ligadas à psicanálise, são tão incapazes de perceber as diferenças entre os pontos de vista de dois psicanalistas quanto os europeus de fazer distinção entre caras de dois chineses.”39
O temor de Freud em relação às concepções de Adler e posteriormente às de Jung não se devia somente à sua intenção de demarcar o campo psicanalítico, mas à possibilidade de tais postulados poderem ameaçar a existência da própria psicanálise, tal e qual ele havia proposto, ou ainda de substituí-la.
33
ROAZEN, Paul. Op. cit., p. 220. 34
Sabe-se que, para além das divergências teóricas entre Freud e seus dissidentes, há também aspectos transferenciais que sustentaram as rupturas. Segundo KUPERMANN, Daniel.
Transferências Cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições. São Paulo: Escuta, 2014. p.
23, as razões transferenciais apontadas pelo médico de Viena para as rupturas se referem ao fato de Adler ter desejado ser uma figura de destaque e de ter se ressentido por ficar à sombra de Freud. Já em relação a Jung, Freud entendia que este nutria preconceitos raciais, não admitia a autoridade de outra pessoa como também era incapaz de exercer liderança.
35
Segundo JONES, Ernest. A vida e a obra de Sigmund Freud, p. 139, se trata da “primeira cisão no movimento psicanalítico”.
36
ROAZEN, Paul. Op. cit., p. 223. 37 Ibidem, p. 236.
38
JONES, Ernest. Op. cit., p. 140. 39
Roazen mostra lucidez quanto a isso:
Adler teria desviado a atenção da Sociedade de Viena do que havia de mais característico na obra de Freud. Em 1911, não era, de maneira alguma, evidente que essas idéias de Freud viriam a ter um dia, aceitação tão geral – num futuro em que os conceitos de Adler lhes poderiam trazer um corretivo muito necessário. Naquela época, a psicanálise confinava-se ao âmbito de um grupo tão pequeno de indivíduos, que Freud bem podia recear que se diluísse antes de imprimir seu selo.
Em tais circunstâncias, um renegado parecia ameaçar todo o movimento, e não apenas a Sociedade de Viena.40
Stekel, por sua vez, engrossou o coro de Adler ao compactuar com algumas das teses desse dissidente, sobretudo com as referentes à forma de interpretar os sonhos, isto é, de dotá-los de um sentido “bissexual”41.
Freud, naturalmente, rejeitou tal concepção declarando que
a consideração pela crítica científica nos proíbe de voltarmos ao julgamento arbitrário do intérprete de sonhos, tal como era empregado nos tempos antigos e parece ter sido revivido nas interpretações imprudentes de Stekel.42
Apesar da grande habilidade intuitiva do analista nascido em Bojan para detectar o material inconsciente, conforme reconheceu o próprio Freud, em 02 de junho de 1909, no encontro científico da Sociedade de Psicanálise de Viena, -Stekel tem “faro”43 para o inconsciente, - o discípulo freudiano era imprudente, superficial e pouco rigoroso no trabalho acadêmico.
Nesse sentido, Freud é preciso:
Esse autor [Stekel], que talvez tenha prejudicado a psicanálise tanto quanto a beneficiou, trouxe à baila um grande número de traduções insuspeitas dos símbolos; a princípio, elas foram recebidas com ceticismo, mas depois, foram confirmadas em sua maior parte e tiveram de ser aceitas. Não estarei minimizando o valor dos serviços de Stekel ao acrescentar que a reserva cética com que suas propostas foram recebidas não deixava de ter justificativa. E isso porque os exemplos com que ele confirmava suas interpretações eram amiúde pouco convincentes, e ele utilizou um método que deve ser rejeitado como cientificamente digno de confiança. Stekel chegou a suas interpretações dos símbolos por meio da intuição, graças a um dom peculiar para a compreensão direta deles. Mas não se pode contar com a existência desse dom em termos gerais; sua eficácia está isenta de qualquer crítica e, por conseguinte seus resultados não podem pleitear credibilidade. 44
40
ROAZEN, Paul. Op. cit., p. 220. 41
Ibidem, p. 252. 42
FREUD, Sigmund. A Interpretação de Sonhos. ESB, Vol. V, 1996, p. 385.
43 NUNBERG, H. Introduction. In: FERDERN, E; NUNBERG, H. Minutes of the Vienna Psychoanalytic
Society. International Universities Press, INC, New York, Vol. I, 1962, p. 273.
44
Ao contrário do arbitrário Stekel, Jung tinha grande prestígio junto ao pai da psicanálise, pois “dentre todos os discípulos de Freud, em vida, coube a Jung o papel intelectual mais relevante”.45
Tal relevância durou até finais de 1912, quando a relação entre esses grandes pensadores começou a estremecer. Jung, ao voltar dos Estados Unidos, onde realizou nove conferências na Universidade de Fordham, em Nova Iorque, declarou a Freud, em 11 de novembro do mesmo ano: “Naturalmente, também expressei certas opiniões minhas que se desviam das concepções existentes até agora, particularmente em relação à teoria da libido”. 46
Jung47 promoveu uma inflexão importante no conceito freudiano da libido ao