BÖLÜM 2: GÜRCİSTAN VE ACARA ÖZERK CUMHURİYETİ
2.2. Acara Özerk Cumhuriyeti
2.2.3. Küresel ve Bölgesel Aktörlerin Acara Özerk Cumhuriyeti Politikaları
Nossa reflexão sinaliza que o modo de pensar pós-moderno manifesta uma inquietação, uma insatisfação com o projeto da modernidade, propondo-se uma ruptura radical com ele, ao afirmar a falência das grandes ideologias, das metanarrativas, a morte do sujeito e a relativização dos valores.
Apesar de não se poder datar com precisão o período de surgimento do movimento pós- moderno, mas, com base nos autores estudados, a reflexão sobre a crise dos paradigmas firma-se, notadamente, na segunda metade do século XX, fundada na ideia do fracasso da razão moderna em proporcionar à humanidade a libertação da opressão política e dogmática da época medieval, pelo alcance da verdade, da justiça, do bem e do belo. Os fatos históricos desprovidos de razão, como Hiroshima e Nagasáqui; o extermínio nazista; as invasões russas de Berlim, Praga, Budapeste e da Polônia; as guerras do Vietnã e do Golfo Pérsico; a crise dos Bálcãs, da Croácia e da Sérvia; o desastre de Chernobyl; a fome; a imigração; o racismo e a xenofobia; as políticas totalitárias; a destruição de alimentos para manter os preços; a corrida armamentista; as armas nucleares e as ditaduras militares, só evidenciariam e comprovariam a falência do projeto iluminista. Viveríamos, desse ponto de vista, a chamada crise dos paradigmas.
Destacamos outros marcos históricos que estão na base da chamada crise dos paradigmas: a França em 1968; a queda do Muro de Berlim; a implosão do chamado socialismo real; a decretação da morte do marxismo; o neoliberalismo e o fim da História.
Mas do que tratam as teses pós-modernas? O que elas dizem? Pela prudência já observada, recorremos inicialmente a Severino (2002) para, de modo panorâmico, entendermos do que trata o movimento pós-moderno.
O autor atribuiu ao movimento a denominação Arqueogenealogia, a respeito do qual entende que a tendência não se constituiu numa escola no sentido doutrinário; mais que uma teoria da realidade humana, ela é uma perspectiva de abordagem dessa realidade, não se preocupando com uma explicação desta. Manifesta-se na obra de filósofos, psicólogos,
psicanalistas, antropólogos, artistas e literatos, todos convergindo para a busca de certo sentido para o existir humano, na tentativa de aproximar a Filosofia do desejo e de seus desdobramentos, ampliando assim a subjetividade.
Essa tendência quer se colocar em ruptura radical com o projeto moderno da razão iluminista, tanto na filosofia quanto na ciência, pois considera exaurida a funcionalidade do Iluminismo, do positivismo da ciência e da tecnologia, incapazes que foram de cumprir suas promessas de libertação do homem. Buscam a superação das três maiores forças que aprisionaram a subjetividade: a filosofia, a ciência e a religião. Em especial, as ciências humanas, nos seus fundamentos naturalistas e positivistas, trataram o homem como puro objeto natural, coisa pura; a ruptura se faz pela substituição: o sujeito não é mais cogito puro, ele é sensibilidade desejante, energético e libidinal.
Desse ponto de vista, uma intervenção atuante da razão na realidade histórica é radicalmente criticada; uma vez que não há leis, o processo histórico é efeito de eventos singulares. Não há princípio regulador, não há evolução, progresso, um aperfeiçoamento da humanidade. De acordo com Severino (2002), o que parece incomodar profundamente esses pensadores é o pressuposto de que em especial o real humano seja regido por princípios unificadores, lógico-racionais. Assumem elementos da dialética negativa dos frankfurtinianos, ao afirmarem o fim das grandes utopias pensadas pela modernidade iluminista.
Severino (2002) observa, sobre as origens do modo de pensar pós-moderno, que, como não se trata de uma escola no sentido clássico da epistemologia, as origens do pensamento pós-moderno são múltiplas: antropologia, ciências sociais, filosofia e arte.
Os inspiradores imediatos foram Nietzsche, Heidegger e Freud e os representantes característicos da Pós-modernidade são: Michel Foucault, Derrida, Gadamer, Jean-François Lyotard, Félix Guattari, Michel Maffesoli, Gilles Deleuze, Lyponetsky, Jean Baudrillard.
Severino (2002) esclarece que, na base, há duas fontes-mestras: Nietzsche e Freud. Em especial nos pontos em que essas orientações introduzem elementos não racionais na descrição do existir humano. Nietzsche é redescoberto e assumido. Para ele, todo desenvolvimento filosófico do ocidente é pura decadência, decorrente do sufocamento dos instintos estéticos pelo saber racional. A moral é manifestação de fraqueza e oposição à vontade de potência; contrapõe-se à vida, sufocando seus suportes básicos. Freud é reavaliado. Os desejos do inconsciente pulsional e libidinoso, em vez de revelar, podem estar camuflando ou travestindo a verdade autêntica. Foucault compõe com Nietzsche e Freud o
terceiro vértice desse triângulo de fundadores; propõe uma nova prática epistemológica – a Arqueologia. O discurso é considerado um monumento e o que se impõe é descobrir o seu princípio arqueológico. No plano do inconsciente existe o espírito anônimo, estruturas ocultas que determinam o modo de pensar e ser dos homens.
Entendemos que as teses pós-modernas se dirigem muito mais a uma concepção de ciência própria do positivismo, do naturalismo e sua lógica formal e que, apesar de não bastar, tem sua validade; porém, ao reduzir a modernidade aos limites desses momentos, pode estar, para usar uma máxima popular, “jogando a criança fora da bacia junto com a água suja do banho”.
Cabe-nos indagar sobre a concepção de pós-modernidade para a qual nossos estudos têm sinalizado. O que entendemos, de fato, por pós-modernidade? Assim, em consonância com Paulo Netto (2010), assumimos o entendimento de que a pós-modernidade é:
Espelho da sociabilidade tardo-burguesa, o pensamento pós-moderno põe-se justamente como uma ideologia – não uma mentira, mais uma falsa consciência: falsa, na exata escala em que não pode reconhecer a sua própria historicidade (ou seja, o seu condicionalismo histórico-social); mas igualmente consciência, na precisa medida que fornece um certo tipo de conhecimento que permite aos homens e mulheres moverem-se na sua vida cotidiana. E é nesta condição de falsa consciência que ela opera seja como orientador de comportamentos, seja como indicador de problemas, tensões e contradições. Donde, aliás, a sua heterogeneidade e as suas diferenças internas – todas adjetivas. (PAULO NETTO, 2010, p. 266, grifo do autor)
Como ideologia31 que é, o pós-modernismo funciona como ideologia incidindo no
comportamento e na vida prática daqueles que se orientam por esse modo de pensar. Como uma ideologia específica do capital em seu processo de universalização e mundialização, seus pensadores parecem desconhecer a economia política do capital e tomam “acriticamente o espelhamento que opera deste complexo como a sua expressão, fática e simbólica, o pós- modernismo se instaura – nolens volens – como ideologia funcional à sociedade tardo-burguesa, com todas as consequências societárias aí implicadas” (PAULO NETTO, 2010, p. 267).
Mas como acontece seu caráter funcional à ordem burguesa? A partir de Paulo Netto (2010), entendemos que por mais distintas que sejam as teorias pós-modernas, alguns traços são
31 “A ideologia pós-moderna, configurando o espírito do tempo do tardo-capitalismo, está longe de ser um resultado direto e imediato da sociabilidade tardo-burguesa. Na sua constituição intercorrem e confluem diferentes linhas de força da cultura ocidental, em desenvolvimento pelo menos desde a segunda metade do século 19. Mas foi então somente na sequência de 1968 que se criaram as condições teóricas e ídeo-políticas para
o giro à direita ocorrente em meados dos anos 1970 [...] – donde, pois, a similitude de 1968 com 1848: ali se
abre a curva descendente da cultura progressista e humanista, ali se limpa o caminho para o derradeiro estágio da decadência ideológica, no qual se inscrevem o pensamento pós-moderno” (PAULO NETTO, 2010, p. 267).
peculiares a todas elas, e é pela via destes que se dão as contribuições dessas teorias com a ordem do capital, a despeito ou não da consciência de seus elaboradores. São eles:
a) como aceitação da imediaticidade com que se apresentam os fenômenos socioculturais, assim tende-se suprimir a distinção clássica entre aparência e essência; a supressão da diferença entre ciência e arte e a equalização do conhecimento científico ao não científico;
b) a recusa da categoria de totalidade, pois, no plano filosófico, a recusa se deve à negação de sua efetividade, ao passo que, no plano teórico, recusa de seu valor heurístico, ora porque anacronizada em face das transformações societárias contemporâneas, ora porque se lhe atribuem de modo ilegítimo conexões diretamente políticas – ou ainda pelas duas ordens de fatores;
c) a semiologização da realidade social: o privilégio, ou quase monopólio concedido às dimensões simbólicas na vida social acaba por reduzi-la, no limite, ou à pura discursividade ou ao domínio do signo e/ou à instauração abusiva de hiper-realidades (PAULO NETTO, 2010, p. 261-262).
Por esses caminhos, também na esteira de Paulo Netto (2010), identificamos como traços do pensamento pós-moderno o decidido abandono ou até mesmo repúdio da herança hegeliana. Nietzsche e Heidegger são os inspiradores dos autores que ergueram a ideologia pós-moderna; a entronização do ecletismo como cânon metodológico, uma vez que o conhecimento pós-moderno é relativamente imetódico; a dissolução da ideia de verdade, pois é convertida em discursividade, não apresentando a menor relação com a realidade que existe independentemente da consciência dos homens e das mulheres – a verdade se torna a resultante de um consenso intersubjetivo. A ciência é convertida num jogo de linguagens; assim, instaura-se um relativismo que em nada tem a ver com a provisoriedade do conhecimento. Para o autor, “uma tal dissolução acarreta sumariamente a supressão de qualquer estatuto que não o lógico-retórico para a verificação/avaliação do significado dos enunciados científicos” (PAULO NETTO, 2010, p. 262).
Essas posturas não veem como necessária a compreensão dos fatos a partir de suas relações, ou mediações com o universal, como também não atribuem peso de maior determinação de uma relação na produção dos fenômenos sociais. Tudo se equivale. E o que é válido são a descrição, o evento, as falas, as representações dos sujeitos. Daí as categorias saturadas de historicidade, porque resultaram da via do concreto pensado, serem consideradas anacrônicas.
Para estas concepções, um determinado fato da realidade pode ser descrito de tantas formas quanto os sujeitos que a percebem. Por isso, os conceitos de classe, práxis, revolução, ideologia, trabalho, história, ciência etc. são tidos
como pertencentes a um paradigma ultrapassado. Se em Gramsci, por exemplo, a compreensão de como os seres humanos produzem sua existência enquanto seres da natureza e indivíduos é fundamentalmente determinada pelas relações sociais, natureza, individualidade e relações sociais têm, nestas análises, o mesmo peso histórico. Em síntese, não há uma explicação da realidade que tenha mais sentido histórico que a outra, inclusive a interpretação dos próprios desconstrutivistas ou pós-modernos (FRIGOTTO, 2001, p. 39-40)
Entendemos, assim, na esteira de Frigotto (2001), que, ao padecer de uma visão caótica, fragmentária da realidade humano-social, o modo pós-moderno de pensar, mesmo não tendo a intenção, acaba por evidenciar e se colocar simultaneamente descompromissos tanto com o papel da ciência quanto com a ação ético-política. O autor afirma:
No campo do conhecimento o descompromisso revela-se no fato de que as representações presentes no senso comum sobre a realidade são niveladas ao exercício metódico e crítico do trabalho científico. No plano ético-político o descompromisso é com uma intencionalidade histórica na busca de um projeto alternativo ao capitalismo. Decisões do Fundo Monetário Internacional, do G7 (grupo dos sete países mais ricos e poderosos do planeta) têm a mesma validade histórica que as lutas dos que são atingidos em seus direitos e em suas vidas por este poder violento. (FRIGOTTO, 2001, p. 40)
Com essas preocupações, expressamos a concepção de pós-modernidade que nos foi possível elaborar no percurso deste estudo. Portanto, entendemos que, se os pós-modernos se propõem com a chamada ciência pós-moderna abrir caminho para ajudar a sociedade atual a enfrentar os seus problemas, pode-se dizer que isso é válido, mas só se for no âmbito do aprofundamento e perpetuação das relações sociais da ordem capitalista. Não vemos de modo algum como avançada uma análise que desconsidera intencionalmente (ou não) o funcionamento do capitalismo na atualidade, que toma os fenômenos da realidade na sua imediaticidade e aí fica, identificando-a como verdadeira; que não distingue a aparência dos fenômenos de sua essência, que não distingue conhecimento científico de não científico e, por isso mesmo, assume o entendimento de que a ciência é um jogo de linguagens.
Pelo exposto, parece-nos pertinente concebê-la como uma ideologia que tanto orienta a vida das pessoas no cotidiano de suas ações, nos seus modos de pensar, sentir e agir, como também direciona o pensamento, os estudos, as pesquisas para resultados que não esclarecem os problemas da realidade como eles concretamente são e, desse modo, eliminam as possibilidades de se dispor, de modo efetivo, de meios teóricos e práticos viabilizadores de ações que venham a contribuir para que esses problemas deixem de ser o que são, ou seja, instrumentos de luta que
favoreçam a superação dos desafios enfrentados por homens e mulheres em seu processo de humanização.
Entendemos, assim, que a crítica da crítica não é crítica, isto é, a crítica do modo pós- moderno de pensar não é crítica. Essa conclusão é reforçada em especial pela constatação de que, se “à grande burguesia a crítica aberta à propriedade privada dos meios fundamentais de produção, a referência direta à exploração, o apelo à luta de classe e ao socialismo permanecem intoleráveis” (PAULO NETTO, 2010, p. 263), com efeito, para essa burguesia “não causam mossa as demandas de inclusão social, de combater as desigualdades, de requisições de cidadania e de solidariedade e de apelo a uma sociedade alternativa” (PAULO NETTO, 2010, p. 263).
Não pode surpreender, pois, que o discurso pós-moderno, tão virulento contra a ciência moderna, ocidental, capitalista e sexista – em cuja base está a razão moderna –, se revele inofensivo em face do capitalismo contemporâneo, fomentando práticas políticas minimalistas ainda que midiaticamente mobilizadores (e tanto mais inócuas em face do domínio do capital quanto mais radicalmente se apoiem nas defesas extremas do “multiculturalismo” e do “direito à diferença”), práticas que em geral envolvem os “novos movimentos sociais” e apelam à “sociedade civil”, ou derivando para o limbo das utopias. (PAULO NETTO, 2010, p. 263)
A conclusão a que chegamos se respalda na compreensão de que uma crítica é crítica quando apreende os fenômenos na sua radicalidade, em suas raízes. Mas onde estão e quais são essas raízes? Compartilhamos do entendimento de que a raiz do homem é o próprio homem; pensar assim é entender o homem como um ser histórico que se produz e se modifica em relação com os demais seres humanos “[...] como complexo das relações sociais” (FRIGOTTO, 2004, p. 63).
Esse complexo de relações sociais – na contemporaneidade, marcado por relações sociais de produção do tipo capitalista avançado – não é captado pelas teorias pós-modernas na sua essência, na sua base de constituição histórico-social, na sua estrutura, dinâmica e tendências, mas sim, na aparência, na sua imediaticidade, por mais que alguns de seus pensadores acreditem fazer a crítica ao capitalismo. Com efeito, explicitamos o que significa crítica neste estudo. Lukács (2010, p. 71), com precisão, define a concepção de crítica da qual nos aproximamos:
A crítica de Marx é uma crítica ontológica. Parte do fato de que o ser social, como adaptação ativa do homem ao seu ambiente, repousa primária e irrevogavelmente na práxis. Todas as características reais relevantes desse ser podem, portanto, ser compreendidas apenas a partir do exame ontológico das premissas, da essência, das consequências etc. dessa práxis em sua constituição verdadeira, ontológica.
Uma concepção crítica caracteriza-se, assim, pelo entendimento do homem na sua forma de ser. E se o ser dos homens é a sua práxis, é nela que residem todas as especificidades humanas, e somente por ela podemos torná-las inteligíveis. Por isso, o trabalho da razão teórica será o de tomar a prática social dos homens na dinâmica de seu desenvolvimento contemporâneo, apreendendo de modo ativo e criador os novos processos, extraindo as permanências, as rupturas, assim como seus condicionalismos e tendencialidades, de modo que possamos enxergar com relativa nitidez os caminhos a serem construídos, buscados e trilhados na tarefa da emancipação dos homens.