BÖLÜM 3: GÜRCİSTAN VE ACARA ÖZERK CUMHURİYETİ’NİN
3.1. Gürcistan Bölgesel Devleti
3.1.2. Gürcistan Yönetim Sistemi
Mas como do ponto de vista crítico-filosófico se insere Marx, no debate sobre a razão moderna? Em sintonia com Saviani (2007b, p. 18), entendemos que “esse enquadramento de Marx nos limites da modernidade é um equívoco gnosiológico, isto é, científico e filosófico, embora não se possa negar que seja um acerto ideológico”. Não se deve ignorar o fato de que, embora o marxismo participe do entendimento de que a razão humana é capaz de conhecer a realidade objetivamente, “a obra de Marx se formulou em contraposição tanto ao iluminismo quanto ao positivismo, criticando-os de forma contundente” (SAVIANI, 1998, p. 11).
Ao explicitar e argumentar sobre o equívoco a que fizemos alusão, Saviani observa que se a concepção elaborada por Marx partiu do ponto mais avançado atingido pela modernidade expresso pela filosofia de Hegel, efetuou sua crítica e inverteu os termos do problema posto pelo pensamento moderno desautorizando o idealismo, então não se trata de uma concepção inserida nos limites do pensamento moderno. Para o pensador, portanto, a teoria de Marx não é uma concepção ultrapassada, mas se insere plenamente no debate contemporâneo. E, pela crítica radical ao idealismo, próprio do pensamento moderno, instaura um novo paradigma que, obviamente, não pode ser interpretado como uma volta à metafísica da objetividade anterior à modernidade. Desse modo, “Ingressamos, agora, num novo entendimento da objetividade que se beneficiou da incorporação de todos os elementos críticos desenvolvidos no seio da filosofia moderna” (SAVIANI 2007b, p. 23-24).
Löwy e Bensaïd (2000, p. 125) expressam entendimento semelhante ao asseverar que a elaboração teórica do autor de O capital lançou as bases de uma nova visão de mundo, pois, “Rejeitando tanto o velho materialismo da filosofia do Iluminismo (mudar as circunstâncias para libertar o povo) como o idealismo neo-hegeliano (libertar a consciência humana para
mudar a sociedade), Marx cortou o nó górdio da filosofia de sua época”. O autor destaca a terceira tese de Marx na crítica a Feuerbach, segundo a qual “na práxis revolucionária a alteração das condições e a transformação das consciências andam juntas” (LÖWY; BENSAÏD, 2000, p. 125). Aqui está um rico complexo de chaves heurísticas, de categorias, de posições metodológicas que distingue e distancia a teoria de Marx das concepções predominantes da modernidade.
Balibar (1995, p. 83), tal qual Marx, entende o homem como o conjunto das relações sociais, pois o único sujeito contemplado na teoria deste é o sujeito prático que é, “na verdade, um não-sujeito, isto é, a sociedade, como o conjunto das atividades de produção, de troca, de consumo”. Nas proposições histórico-dialéticas, portanto, “a constituição da objetividade não depende do dado prévio de um sujeito, de uma consciência ou de uma razão. Para o pensador, ao contrário, é ela que “constitui sujeitos que são parte da própria objetividade” (BALIBAR, 1995, p. 85). Desse modo, “Marx opera uma inversão completa do pensamento moderno: sua constituição do mundo não é obra de um sujeito, ela é uma gênese da subjetividade, uma forma de subjetividade histórica determinada, como parte e contrapartida do mundo social da objetividade” (BALIBAR, 1995, p. 85).
Ao promover a ruptura com a razão moderna, exatamente, a partir de sua expressão mais elaborada, o idealismo e a dialética de Hegel, Marx, com o materialismo histórico- dialético, inaugura um modo objetivo de compreensão do como a realidade é produzida, ao mesmo tempo em que, gnosiologicamente, estabelece uma senda científico-filosófica na história do pensamento humano que, no dizer de Saviani (2007b, p. 21), “a maior parte da produção filosófica dos últimos cento e cinqüenta anos não passa de notas à margem do pensamento kantiano que buscam retomar e discutir as conclusões de suas três críticas: a crítica da razão pura, a crítica da razão prática e a crítica do juízo”32.
32 Essa afirmação é fundamentada no entendimento de que “o positivismo toma como ponto de partida e constitui-se num desdobramento da conclusão kantiana segundo a qual apenas a matemática e a física são possíveis como ciência. O vitalismo bergsoniano, assim como o historicismo de Dilthey, procura negar a conclusão de Kant segundo a qual não existe intuição intelectual. O existencialismo e a fenomenologia e, de certo modo, também o positivismo lógico e a filosofia da linguagem partem da constatação kantiana relativa à contraposição entre fenômeno e coisa-em-si; e concluem pela negação dessa dualidade ao afirmar a precedência da existência sobre a essência (existencialismo), a descrição do fenômeno como via de acesso à essência (fenomenologia) e ao considerar que nada existe por trás dos fenômenos (positivismo lógico e filosofia da linguagem). Aliás, sinal dessa força da matriz kantiana é a denominação de escolas neokantianas atribuída aos grupos organizados no interior desses dois últimos movimentos filosóficos” (SAVIANI, 2007b, p. 21-22).
Ainda de modo bastante impreciso, contudo vinculado a esse complexo de posições, a que Saviani (2007b, p. 22) se refere e que, por meios bastante peculiares e de intrincados processos, o solipsismo33 chega até nós mediante o que vem se chamando de pós-moderno:
E, curiosamente, uma das temáticas que toma corpo nessas correntes e se insinua também no interior do pensamento atual que, de forma genética e um tanto imprecisa, tem sido chamado de pós-moderno, é a do solipsismo. Presente em Kant, mais explorado por Schopenhauer e abordado por Sartre, tal tema ocupa um lugar importante no positivismo lógico, especialmente em Carnap e Wittgenstein. Este dedica ao tema algumas proposições do Tractatus, em especial aquelas da série 5.6. Esta, a proposição de número 5.6, tem o seguinte enunciado: “Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo”.
Saviani (2007b) localiza aí, conforme nosso entendimento, a filiação teórica de boa parte do ideário pós-moderno, que se mantém por caminhos diversos desde as expressões sintetizadoras da razão moderna como Kant até os filósofos ditos contemporâneos.
O propósito que intentamos realizar foi o de, a partir do olhar de autores como Coutinho, Paulo Netto, Saviani e Severino, problematizarmos a negação da razão, à medida que: 1) explicitamos seu vínculo direto aos interesses da burguesia enquanto classe hegemônica interessada na perpetuação de sua condição; 2) mesmo no interior da mistificação hegeliana já se encontra na dialética idealista o princípio da contradição e, desse modo, a própria razão moderna já contém os gérmens de sua negação – apesar da predominância da lógica formal, portanto, a lógica dialética já está aí, mesmo que na sua forma mística; 3) Marx, a partir dos elementos mais avançados da teoria de Hegel, os incorpora por superação e, numa crítica radical ao idealismo hegeliano, coloca a dialética na sua forma materialista, inaugurando, desse modo, uma original e nova concepção de ciência; 4) o enquadramento da teoria de Marx nos limites da modernidade – na medida em que se ignora todo seu trabalho de crítica aos pilares da ciência burguesa, nas suas bases cientificistas – não é apenas um equívoco gnosiológico, mas sim um acerto de contas ideológico; 5) o conhecimento não é desinteressado, contudo, não significa a impossibilidade do conhecimento objetivo, científico da realidade.
O esforço apresentado até aqui encontra seu sentido no compromisso com a compreensão objetiva da realidade, notadamente os desafios educacionais da contemporaneidade. As teses pós-modernas estão ganhando espaço cada vez maior nas universidades, nas pesquisas acadêmicas das diversas áreas do conhecimento e na sala de aula.
33 “Tese de que só eu existo e de que todos os outros entes (homens e coisas) são apenas idéias minhas” (ABBAGNANO, 2000, p. 918).
Em sintonia com Goergen (2006), temos o entendimento de que não se trata de submeter o pensamento pós-moderno a um processo sumário de julgamento e condenação, mas de impor-lhe o rigor do pensamento crítico desde o viés do interesse emancipatório do homem e da sociedade, examinando com o máximo de cuidado e rigor o que significa identificar sentido, realidade e verdade com a totalidade social. Cabe examinar o que significa subsumir a ideia de história às noções de progresso e de superação; o que significa assumir um pensamento identificatório que desconsidera a natureza contraditória da realidade e a vontade de mudança manifestada por indivíduos e grupos pelo mundo afora; o que significa conformar-se com uma realidade que se revela perversa e injusta com a maioria dos seres humanos.
Diante de desafios tão complexos e, ao mesmo tempo, de questões tão caras ao pensamento e à práxis humana, impõe-se a necessidade de uma criteriosa incursão analítica, pois se trata de questões pertinentes a categorias centrais como a história, sujeito, valores e ciência, razão, verdade. Nesse sentido, Goergen (2006, p. 594), ao referir-se aos limites do pensamento em questão, chama nossa atenção:
[...] nem por isso devemos nos conformar e aceitar a barbárie e a desumanidade como a cristalização de um destino, de uma visão política hegemônica e acomodada quando se trata de enfrentar os grandes problemas do mundo contemporâneo. Abdicar da ideia de um esforço planejado e coordenado de desenvolvimento – que parece estar subjacente à ideia de fim da história – e resignar-se à administração das cruéis assimetrias socioeconômicas com benefícios compensatórios que, no melhor dos casos podem aliviar a tragédia e sofrimento, não é a melhor estratégia para se chegar a uma sociedade mais justa e democrática.
Entendemos que Goergen Goergen (2006) se empenha em chamar a atenção para o fato de que a realidade, a história, a sociedade é construída pelos homens e se estamos dispostos a abrir mão dessa condição, ou seja, do homem como ser supremo de si mesmo e nos deixarmos levar pelos caminhos da barbárie.
Cardoso (1997, p. 23), ao se posicionar criticamente sobre as teses pós-modernas, ao mesmo tempo em que discute o papel das ciências sociais, com destaque para a história, afirma:
Aquilo, porém, em que me recuso firmemente a acreditar é que erros e exageros passados justifiquem erros e exageros atuais de signo contrário [...] não creio que estejamos obrigados a passar do rigor formal e muitas vezes ilusório do cientificismo para algo tão limitado quanto uma “busca interpretativa culturalmente contextuada” [...]. As ciências sociais, entre elas a história, não estão condenadas a escolher entre teorias deterministas da estrutura e teorias voluntaristas da consciência [...] nem a passar de uma ciência frequentemente mal conduzida – comprometida com teorias defeituosas da causação e da determinação e com uma análise estrutural
unilateral – às evanescências da “desconstrução” e ao império exclusivo do relativismo e da microanálise.
Tonet (2009, p. 117) contribui para localizarmos aquilo que, pelos estudos realizados, nos foi possível apreender no sentido do esclarecimento racional do que está na base dos desafios postos hoje a uma elaboração intelectual fecunda e objetiva dos problemas epistemológicos e praxiológicos com os quais nos defrontamos, pois para o autor, “Em termos de filosofia, nenhuma corrente atual, exceto aquela que tem em Marx o seu fundador (e mesmo no interior desta, nem todas as suas expressões), pensa o mundo até o fim, isto é, até a categoria do trabalho como solo ontológico fundante do mundo social”. Por sua vez, “nenhuma delas aponta o problema da exploração do homem pelo homem, cuja matriz está no trabalho abstrato, como o obstáculo fundamental para a construção de uma autêntica individualidade e de uma autêntica comunidade humana” (TONET, 2009, p. 117). Ainda a respeito dessa questão, esclarece:
O caráter especulativo de todas essas correntes se manifesta no fato, já denunciado por Marx, de que esses filósofos ainda continuam apenas interpretando o mundo de maneiras diferentes, mas não têm a preocupação de transformá-lo radicalmente (isto é, até a sua raiz). Ao contrário, sua preocupação central é com a reforma, a melhoria, o aperfeiçoamento desta ordem social, na suposição de que este é o único caminho positivo possível. É essa falta de radicalidade que faz com que essas correntes se distanciem cada vez mais da realidade concreta. Perdido ou rejeitado o solo matrizador da totalidade social (inclusive da própria razão), que é o trabalho, a razão se torna autônoma e se perde cada vez mais no labirinto do seu automovimento, supondo que a realidade deveria moldar-se de acordo com as suas (da razão) prescrições.
Do entendimento de que para conhecer precisamos ir até a raiz dos problemas, e fazer esse percurso é voltar-se para o modo como o homem produz sua vida, sua existência, sua atividade, é que, na interlocução com os autores aqui estudados, procuramos aproximar nossa análise do entendimento abstraído da tese de Marx, constante na epígrafe de abertura deste capítulo, segundo a qual não se pode estudar, avaliar uma época de transformação pela ideia que ela tem de si mesma, mas, pelo contrário, explicar essa consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas materiais e as relações de produção. Procuramos, desse modo, explicitar o ideário pós-moderno como manifestação da intensa crise contemporânea do capital e seus rebatimentos nas atividades espirituais como a filosofia34, a ciência e a arte.
34 “É característico dessa crise que até essas outras atividades tenham sido profundamente subsumidas à lógica da mercadoria. É a necessidade da recomposição da taxa de lucro que faz com que o capital não hesite em
Na mesma direção, nesse contexto, a educação, atividade especificamente humana e vinculada de modo direto às elaborações filosóficas e científicas, tem seus fundamentos colocados em questão, em especial, a educação escolar com sua histórica tarefa de transmissão da cultura universal e de suas categorias como o belo, a razão, a verdade, a liberdade, a justiça, a emancipação etc.; assim como seus métodos de transmissão e sistematização dessa cultura. Em se tratando do pensamento pedagógico-didático brasileiro, questões e desafios são colocados, em especial, no tocante às pedagogias de orientação teórica contra-hegemônica com destaque para a pedagogia histórico-crítica e crítico-social dos conteúdos, uma vez que estão fundamentadas em categorias como humanismo, historicismo, dialética, classes, emancipação, universal, particular, intencionalidade, práxis, totalidade e contradição.
Assim como também ao movimento da didática crítica – resguardado o seu caráter plural, com aproximações e distanciamentos teóricos –, quando este se voltou para uma didática que superasse a dimensão meramente instrumental e tecnicista de ensino e se posicionou por uma didática crítica que se pautasse pela valorização da apropriação crítica pelos estudantes da cultura produzida pela humanidade; da escola, como espaço privilegiado de apropriação dessa cultura e de sua socialização; da formação da consciência crítica dos estudantes e da reflexão permanente da atividade de ensino-aprendizagem pelos professores e de sua imprescindível autonomia intelectual; do papel limitado, mas central, da educação e da ciência nos processos de transformação do modo capitalista de produção da vida.
A essas posições, no contexto da doxa neoliberal (BOURDIEU, 2001), são colocados desafios que exigem do pensamento crítico e do intelectual coletivo um voltar-se permanente para a crítica e a denúncia dos novos conteúdos postos pela prática social, aqui, na esfera da educação, da pedagogia e da didática, em especial, porque estas tratam do processo de formação e humanização dos indivíduos e das formas sistemáticas e métodos de apropriação da cultura pelas gerações.
Caminhamos, contudo, aqui na pesquisa advertidos por Bourdieu (2001, p. 40) quando nos diz que “todo o pensamento crítico está portanto para ser reconstruído, e ele não pode, como acreditava-se em outros tempos, ser obra de uma só pessoa, mestre-pensador entregue apenas aos recursos de seu pensamento singular [...]”. Alinhada a esse pensamento, e à
transformar todas essas atividades mais tipicamente humanas em mercadorias. Não é preciso dizer que isto tende a deformar profundamente a especificidade própria dessas atividades, rebaixando e descaracterizando o seu sentido mais genuíno” (TONET, 2009, p. 116).
especificidade do estudo – o pensamento pedagógico-didático –, entendemos que a didática continuamente está em questão; ela precisa do instrumento da crítica de modo ininterrupto porque se entende que a vida, a realidade, é movimento, mas movimento encetado pelos homens reais e, em circunstâncias específicas e espaços também específicos, onde são travadas as lutas, as ações, as ideias, os direcionamentos das práticas sociais, sempre grávidos de rupturas, continuidades, tensões, ausências e possibilidades criativas e criadoras. A educação, a prática educativa, o processo de ensino, por sua função social, pedagógico- didático, são terrenos privilegiados das características desse movimento, uma vez que aí se projetam tanto as forças criadoras – tendo em vista a formação da personalidade dos indivíduos e a construção de seu processo de humanização na relação com os outros – como aquelas que limitam e atrofiam esse processo.
E aqui, é preciso dizer, afastamo-nos das posições que acreditam que é hora do pensamento didático voltar-se para os desafios práticos da sala de aula, como se o tratamento prático do processo ensino-aprendizagem não fosse imprescindivelmente teórico-crítico. É preciso dizer, também, que nos aproximamos das posições que conhecem e reconhecem a existência de um conhecimento didático criador acumulado e que, exatamente por sua riqueza e força, necessita ser mobilizado enquanto instrumental heurístico, na problematização e esclarecimento dos novos conteúdos dos problemas postos ao agir e pensar didático na sua relação com a escola e a sociedade. Ou seja, tanto daqueles que desafiam o professor e o aluno no processo de apropriação e reelaboração da cultura, na orientação da ação, como daqueles próprios da produção do conhecimento didático pela pesquisa.
A manifestação desse entendimento tem o propósito de materializar-se no capítulo seguinte, quando apresentaremos, pelo estudo do pensamento de teóricos da didática, o que esses estudiosos têm a dizer a respeito dos rebatimentos do ideário pós-moderno na produção do conhecimento didático e no seu ensino.