Dentre os pré-candidatos a sucessão de Flavinho, Kerres figurava como o principal nome, não só pelo vínculo de amizade que nutria com o prefeito mas pelo papel desempenhado tanto como vice-prefeito quanto secretário de infraestrutura ao longo da gestão.
Eu era vice-prefeito e era secretário de infraestrutura do município de Acarape. Então, durante quatro anos, por amor a minha terra, a terra de meus pais eu não parei de trabalhar. Eu fui um trabalhador incansável durante os quatro anos como vice- prefeito e secretário de obras procurando trazer indústrias para cá. Então o mote da nossa campanha era trazer indústria, industrialização para o município, trazer empregos, era trazer a volta do trem para o Acarape que havia sido cortado. E tudo isso nós conseguimos após sermos eleitos (Kerres, ex-prefeito de Acarape [1993 a 1996] e advogado, entrevista realizada em 29 de outubro de 2015).
Figura 18 - Lideranças de Acarape. Na frente, da esquerda para a direita: Antônio Jacó, Flavinho, Madalena (moradora de Cantagalo), Kerres e Sérgio Mesquita.
Fonte: Arquivo do STR (1988).
A dúvida maior era quem seria o candidato a vice-prefeito, quem comporia com Kerres. As lideranças que mostraram interesse na disputa ao cargo de vice foram os
71 pedessistas Paulo Tinoco, Agliberto Sales, Leônidas Bandeira e Fernando Bezerra40, com exceção do último, todos haviam sido eleitos vereadores no pleito anterior.
Questionado sobre sua influência na escolha dos candidatos a prefeitura de Acarape, Antônio Jacó afirmou:
Depois do Flavinho, ainda houve uma influência minha na escolha do Kerres. O Kerres era o vice, era o candidato do meu partido e depois também era o candidato do partido e da família. Mas aí depois vai se distanciando. (Antônio Jacó, entrevista realizada em 08 de novembro de 2015).
Nas disputas eleitorais de 1992, Kerres e Agliberto formaram a dupla apoiada por Flavinho contra o grupo de Franzé Costa, que lhe fazia oposição. Apesar de não ter coligação com outros partidos, o PDS, além do apoio do prefeito que gozava de boa avaliação dos munícipes, conseguiu manter basicamente intacto o arco de alianças formado na eleição anterior e lançou 27 candidaturas a vereador.
Fato curioso é que, com exceção da eleição de 2012, nos demais pleitos todos os candidatos que concorreram ao executivo municipal eram do G7 ou, durante o processo de emancipação, atuaram ativamente e/ou fizeram composição com alguém que participou do movimento, ou seja, pelo menos um dos postulantes a prefeitura acarapense (prefeito ou vice) se envolveram, de algum modo, na luta emancipacionista.
(...) o Antônio Jacó (...) queria que eu fizesse o contraponto ao Flavinho que era vereador [antes da emancipação] e corria frouxo. (...) eu não podia me dedicar exclusivamente a política. Eu tinha o meu emprego como professor. Em 1985 eu consegui entrar na SUMOV, na época do prefeito Cesar Cals de Oliveira. Então eu fiquei na oposição, na oposição ligth. (...) Nunca desejei querer ser prefeito, entendeu? (...) então fiquei na oposição de 1988 a 1992, foi quando terminou o primeiro mandato de Flavinho e não tinha reeleição. Porque se tivesse ele seria [reeleito] tranquilamente. Aí foi nesse período que surgiu a candidatura, vinda de Redenção, do Acélio, filho do Bastião, que veio ser candidato aqui em 1992 (Franzé, entrevista realizada em 22 de junho de 2016).
José Acélio Paulino de Freitas, descendente de família abastada de Redenção, é filho de Maria Estela Barroso e Sebastião Paulino de Freitas41 (Bastião Freitas, o ―pai dos pobres‖ de Redenção). Como outros filhos de famílias importantes da região, concluiu seus estudos em Fortaleza, graduando-se em Administração de Empresas pela UNIFOR. É casado com a fisioterapeuta Vivian Freitas, personagem importante nas suas administrações e com quem tem dois filhos.
40 Fernando Antônio Facundo Bezerra se candidatou a vereador pelo PDS em 1988, tendo ficado na suplência de
vereador.
41 Dono de postos de combustível em Redenção, foi cidadão bastante conhecido não apenas pelos bens de que
sua família dispunha mas pelo perfil de ―homem caridoso‖ que utilizava do ―próprio dinheiro para fazer caridade e favores para os mais necessitados‖ ficando conhecido como o ―pai dos pobres‖. Foi em razão desse perfil que fez carreira política em Redenção, sendo prefeito por duas vezes (1889 a 1993 e 1997 a 1999). Não concluiu seu segundo mandato em virtude de seu falecimento (MATA, 2011).
72 Por influência de Bastião Freitas, sua entrada na arena política se deu aos 25 anos, nas eleições de 1992 em Acarape. Candidato a prefeito pelo PDT compôs com Franzé Costa (PMDB) na coligação ―Geração Acarape melhor‖ (PDT/ PMDB/ PSDB) e teve o apoio de 34 candidaturas a vereador. Ao longo das campanhas, assumiu uma postura assistencialista, de ―grande doador‖ – ao que parece, buscou (e essa foi uma marca sua em todos os pleitos em que disputou e na sua gestão) alinhar sua imagem à de seu pai, tentando reproduzir o símbolo de ―pai dos pobres‖.
Kerres, segundo eleitores acarapenses, não possuía os mesmos atributos de Flavinho (boa oratória e a capacidade de ser ―carismático‖, ou seja, manter relações de caráter intimista com seus eleitores), era ―uma figura apagada, mal falava‖ (Tadeu, realizada em 15 de novembro de 2014). O fato de ter participado igualmente da emancipação e do governo de Flavinho não converteu seu trabalho em capital político que lhe conferisse identidade própria, desvinculada de figura pública de seu maior cabo eleitoral, o prefeito Flavinho. Sua indicação derivou de uma escolha pessoal de Flavinho com o aval de Antônio Jacó.
(...) porque eu achava que era o melhor amigo que eu tinha. O Kerres me obedecia. O Kerres não sabia nem falar. Mas por ele ser meu grande amigo, na época, o Kerres foi meu vice. Depois ele foi meu prefeito, meu candidato a prefeito e eu fiz dele o meu sucessor. O Kerres não falava, não dizia uma palavra, mas eu tinha uma
credibilidade tão grande que eu elegi o Kerres (Flavinho, entrevista realizada em 07
de junho de 2016, grifos nossos).
Como revelou a fala de Flavinho, Kerres foi, para usar a expressão de Carvalho e Lopes (2016), o seu ―candidato-poste‖. O fenômeno dos ―candidatos-postes‖ está vinculado à impossibilidade de chefes do executivo em final de mandato, e cuja gestão foi avaliada positivamente, concorrerem novamente à reeleição. Desse modo, a ―falta de brilho próprio‖, de imagem pública própria o credencia a concorrer no lugar do outro, dando continuidade ao mandato de seu patrono. Por esse motivo, as vitórias ou derrotas não são creditadas ao ―candidato-poste‖, mas à figura que representa. Esse fenômeno, característicos de ciclos políticos mais longos, se aprofundou com a tendência situacionista em todas as esferas de governo.
Um governante com uma marca de gestão positiva alimentada pela publicidade institucional pode ao fim do segundo mandato ser vicariamente ―reeleito‖ através de um ―candidato poste‖. A duração de um ciclo político centrado em um personagem político pressupõe que o nome escolhido para sucedê-lo seja uma decisão pessoal do mandatário, apresentado e reconhecido como seu sucessor para dar continuidade ao legado político que lhe é entregue. Vale ressaltar que esse fenômeno permite compreender como o personalismo – elemento relevante da cultura política brasileira – foi paradoxalmente exacerbado na fase mais recente da redemocratização (CARVALHO e LOPES, 2016, p. 93-94).
73 emancipador e de responsável pela implantação do polo industrial no município, Acélio recorreu ao seu ―carisma‖, ao prestígio de seu pai e orientou sua campanha em cima da construção da imagem de ―grande doador‖, segundo nossos interlocutores, através da distribuição de bens materiais.
É porque o Acélio é muito rasgado. Então o Acélio chegou aqui com a minha idade, candidato a prefeito, jovem, bonito e com o pai rico que era prefeito de Redenção. Ele chegou aqui com uma campanha milionária. Dava bicicleta, dava panela de pressão, dava carro de mão, dava tijolo, dentadura, óculos. E o Kerres tem o perfil de homem muito trabalhador, mas era muito fechado. E essa foi a principal dificuldade porque o Acélio é muito popular, falava muito bem e o Kerres não, o Kerres era o oposto. Além de ser antipático, não falava bem. Quem fazia a campanha era o Flavinho. O Flavinho era quem abria comício, o Flavinho era quem discursava, o Flavinho era quem pedia voto para o Kerres e o Kerres ficava só em pé porque ele não tinha o jogo de cintura que o Flavinho e o Acélio tinham. Foi assim até o final das eleições. Inclusive, na época, o pessoal fala que houve fraude, mas isso é boato... porque era aquele voto de urna, não é? Que era de cédula. O pessoal comenta mas nunca provaram nada. Eles ganharam foi na raça mesmo (Fábio, 28 anos, ex- secretário de Acarape e advogado, entrevista realizada em 23 de outubro de 2015). Na disputa pela adesão do voto, ganhou destaque as candidaturas que esboçavam o perfil ―carismático‖ tão valorizado pelo eleitorado acarapense. Nesse sentido, ―mostrar interesse pele eleitor, ouvir mesmo o eleitor e conversar com ele, se mostrar prestativo essas coisas e ser simpático, principalmente ser simpático‖ (Joana, 35 anos, costureira e eleitora acarapense, entrevista realizada em 17 de setembro de 2016) foram práticas adotadas por Acélio e que garantiram sua competitividade frente ao candidato situacionista.
Na época eu fui candidato a vice-prefeito na chapa do Acélio. Foi uma eleição memorável e, digamos assim, foi uma eleição empolgante: comícios, carreatas e tudo o que você pudesse imaginar. Foi uma eleição que de 1992 para cá nunca teve e jamais terá uma eleição naquele nível: competitiva e tudo mais, mas sem agressões. (...) mas ao longo do comício eu chamava a atenção ―Acélio, cuidado, porque as pessoas que nos acompanham são as mesmas‖ (...). Tanto é verdade, que no final, nós perdemos, até uma eleição apertada, por 300 e tantos votos. E digo mais, se o Acélio tivesse se dedicado nos teríamos ganho a eleição (sic). Por quê? A eleição era o seguinte: o Acélio vinha a noite, nós fazíamos o comício e ia embora para Redenção, para Fortaleza e aparecia no outro dia a noite. Não teve contato dia-a-dia com o eleitor, né (sic)? Aí o que aconteceu? Um mês antes da eleição, o Antônio Jacó com o Flavinho, observaram que a eleição estava perdida e caíram em campo: de casa em casa, visitando, pedindo e esses 300 votos foram revertidos. Tanto é verdade que a disputa foi linda para a eleição para prefeito (Franzé, entrevista realizada em 22 de junho de 2016).
Frente ao crescimento de Acélio, Antônio Jacó e Flavinho entenderam a necessidade de intensificar suas presenças nas campanhas bem como reforçar a vinculação da imagem de Kerres como um ―continuador do legado deixado por Flavinho‖.
Em 1992 a eleição para prefeito deu Kerres a prefeito com o Agliberto para vice. (...) eu não digo que o Kerres foi eleito prefeito, quem foi eleito prefeito foi o Flavinho. Porque o Flavinho foi quem fez a campanha, bancou, participou, levou nas costas, nos braços e o Kerres, candidato... mesmo tendo passado 4 anos como vice, jamais teria condição de ser eleito prefeito de Acarape. E a eleição do Kerres foi feito 100% pelo prefeito da época, o Flavinho, com seu prestígio, ―carisma‖, amizade o elegeu
74 prefeito (Franzé, entrevista realizada em 22 de junho de 2016).
Os resultados consagraram Kerres como prefeito de Acarape para o mandato que se iniciaria em 1993. Com 2.541 votos (56,24% dos votos válidos) venceu Acélio com uma diferença de 305 votos. A competitividade daquele pleito se refletiu também nos resultados para o legislativo: das nove vagas em disputa, cinco foram ocupadas por candidaturas pedessistas – Tetê, Fausta de Fátima Bessa Ramos Gurgel42 (dra. Fausta), Maria Luceni de Oliveira, Adriano Torres Sales e Paulo Tinoco –; as outras quatro, por postulantes da coligação de Acélio – os tucanos Francisco Liberato Barroso (Chico do Neu) e João Holanda de Oliveira (Joãozinho), o peemedebista Alexandre Coutinho Júnior (Júnior do Alexandre) e o pedetista Fernando Bezerra. Apesar de Acélio não alcançar a vitória naquele pleito (conquistou 2.236 votos o que correspondeu a 46,80% dos votos válidos), credenciou-se para as disputas seguintes na arena política acarapense.
Nesse pleito já foi possível distinguir duas facções políticas bem delimitadas e agrupadas em torno das lideranças de Flavinho e Acélio. Seriam essas lideranças que concorreriam e se alternariam na chefia do executivo municipal até as eleições de 2012.