2. İŞ SAĞLIĞI VE GÜVENLİĞİ
2.4. İş Sağlığı ve Güvenliğinin Tarihi Gelişimi
Tendo uma trama familiar como fio condutor e uma especulação literária como pano de fundo, Historia secreta de Costaguana é, em boa medida, um livro sobre a Colômbia oitocentista. Da conquista da independência, em 1819, ao movimento que culminou na emancipação do Panamá, em 1903, o romance percorre a história colombiana mostrando a “tradição de intolerância” que, segundo Fabio López de la Roche (1990, p.112), caracteriza o país. Presente em toda a trilogia de Vásquez, a ideia de uma nação convulsa que afugenta seus habitantes se materializa no personagem narrador, José Altamirano, que vai para Londres dizendo-se expulso pela história e a política colombianas. É de lá que ele recorda, 20 anos depois de emigrar, sua vida e o passado nacional, prometendo investigar nas raízes de sua desgraça “los desastres que los Grandes Momentos pueden imprimir en las Vidas Pequeñas” (VÁSQUEZ, 2007, p.15).
Altamirano começa a escrever em 1924, imediatamente depois da morte de Conrad, mas sua iniciação como narrador se dá em 1903, no depoimento que presta ao romancista tão logo chega à Inglaterra. “Hablé sin parar, desesperadamente”, lembra-se, acrescentando que então, na casa de Santiago Pérez Triana – “entre los restos acumulados de la política colombiana” –, finalmente descobre seu lugar no mundo (p.249). Esse lugar, podemos inferir, é o lugar do narrador deslocado, da voz que, de longe, conta a história de seu país, “de sus gentes violentas y de sus pacíficas víctimas”. Lugar, em seu caso, assumidamente político, pois o despertar para a literatura é nele indissociável da aquisição da consciência política.
É a perda de sua mulher, Charlotte – morta por um desertor da Guerra dos Mil Dias – que lhe infunde, a um só tempo, a consciência política e a identificação da palavra como horizonte de ação.
Y así fue que la Gorgona Política acabó por invadir la casa de los Altamirano- Madinier. Así fue como la Historia, encarnada en el destino particular de un soldadito cobarde y desorientado, echó por los suelos mis pretensiones de neutralidad, mis intentos de alejamiento, mis afanes de estudiada apatía (VÁSQUEZ, 2007, p.224-225).
Até esse episódio, a Colômbia submergia “en la sangre de los dos partidos” (p.63), mas Altamirano, em sua “casa apolítica, apática y ahistórica” (p.197), mantinha-se predominantemente alheio aos acontecimentos do país. Sua experiência no Panamá – onde estava há 24 anos – por muito tempo se resumira à observação passiva das atividades do pai, de cujos artigos discordava, mas sem opor resistência. Somente a tragédia pessoal o defronta efetivamente com o que está à sua volta e lhe impõe a necessidade de relatar os
acontecimentos que arruinaram sua família. É com esta perspectiva que escreve seu livro: “ahora”, diz,“la dama exigente de la Política reclama perentoriamente mi atención y yo, al menos durante el término de este livro, soy su obsecuente servidor” (idem, p.151).
Trata-se então de um relato de cunho político, considera seu narrador, assim como Juan Gabriel Vásquez admite o rótulo “romance político” ao falar de Historia secreta de Costaguana20. Partindo disso, podemos nos perguntar então em que consiste a literatura política de José Altamirano.
Um primeiro aspecto que ressalta é o tom jocoso com que se refere à Colômbia, zombando da história, da sociedade e dos supostos atributos pátrios. É evidente que, entre os alvos de suas críticas, está a própria reverência à nação e seus símbolos mais caros. Ao mencionar, por exemplo, as constantes mudanças de nome do país – República da Colômbia, Nova Granada, Estados Unidos da Colômbia –, propõe uma alcunha informal, “Esa Mierda de Sitio” (idem, p.16), também aplicável à igualmente volúvel Bogotá. Nas vezes em que comenta a história colombiana, destaca sua “trama tragicómica”, criação de “dramaturgos mediocres”, “escenógrafos chapuceros”, “empresarios inescrupulosos” (p.37). Se a Colômbia é uma comédia, o narrador de Vásquez está à altura, compondo as páginas mais engraçadas publicadas pelo autor. Nem mesmo o hino nacional – “un crimen [...] contra la poesía, contra la decencia” (p.173) – escapa a sua verve corrosiva.
Da mesma forma, personagens históricos são tratados com deboche. Simón Bolívar e sua amante, Manuela Sáenz, “gozan de múltiples Libertinajes en el lecho presidencial” (p.44); o general José María Melo dá um golpe de Estado entre os excessos de uma noite de esbórnia (p.36); o presidente Rafael Núñez (autor do execrável hino) enfia-se na cama e vomita heptassílabos; Miguel Antonio Caro, seu sucessor, faz “con una mano [...] traducciones homéricas y con la otra, leyes draconianas” (p.197). Ao referir-se a Caro – o mais célebre dos “presidentes gramáticos” –, Altamirano enfatiza o abismo que havia entre a Colômbia e a democracia no século XIX: bastava receber uma crítica para que mandasse o opositor ao desterro. Censura e fechamento de jornais também estavam entre suas práticas.
Nestas memórias iconoclastas, não há vestígio de nostalgia pátria: “sí, el aire volvía a impregnarse de patriotismo, y sí, yo volvía a tener dificultades para respirar”, recorda-se em uma passagem (p.230-231). Altamirano mostra a impossibilidade de se conceber uma comunidade harmônica mesmo nos primórdios do Estado-nação. As desavenças políticas nascem de razões pueris e quase sempre enveredam para o confronto armado. Matanças entre
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compatriotas são de tal forma regulares – “la versión nacional del cambio de guardia” (p.68) – que qualquer colombiano pode aspirar à condição de herói de guerra civil (p.61). A violência é um costume, uma prática entranhada mas sem fundamento. Sua gênese mais citada – a ferrenha rivalidade entre conservadores e liberais – também aparece destituída de sentido.
Lectores del jurado: permítanme que les dé una brevísima lección de política colombiana, para sintetizar las páginas transcurridas hasta ahora y prepararlos a ustedes para las que vienen. El hecho más importante en la historia de mi país, como acaso se habrán dado cuenta, no fue el nacimiento de su Libertador, ni su
Independencia, ni ninguna de esas fabricaciones de manual de bachillerato. […] No:
el momento que definiría la suerte de Colombia para toda la historia, como sucede siempre en esta tierra de filólogos y gramáticos y dictadores sanguinarios que traducen la Ilíada, fue un momento hecho de palabras. Más exactamente de nombres. Un doble bautismo, ocurrido en algún momento impreciso del siglo XIX. Reunidos los padres de las dos criaturas carigordas y ya malcriadas, aquellos dos varoncitos olorosos desde su nacimiento a vómitos y a mierda líquida, se convino que al más tranquilo se le diera el nombre de Conservador. El otro (que lloraba un poco más) se llamó Liberal. Esos niños crecieron y se reprodujeron en constante rivalidad, y las generaciones rivales se han sucedido unas a las otras con la energía de los conejos y
la terquedad de las cucarachas… (VÁSQUEZ, 2007, p.91)
Neste cenário desalentador, antes mesmo de nascer o protagonista perde o avô, transpassado por uma dessas “bayonetas católicas, apostólicas y romanas” (p.18) utilizadas pelo clero na luta contra progressistas. Mais tarde, as atividades jornalísticas do pai – na época “más que liberal, radical, anticlerical” (p.20) – quase o levam ao mesmo fim, quando um presbítero enfurecido faz uma emboscada para tentar matá-lo. Somente o medo é capaz de unir neste país fraturado. Altamirano, Anatolio, Santiago Pérez Triana: de tão frequente, o medo é como um animal doméstico, um cão fiel para todos os colombianos (p.141).
Vásquez parodia um topos clássico da literatura – a busca do pai21 –, para estruturar sua trama. O encontro entre os dois Altamiranos é narrado sem assombro, mas marca o início das descobertas que acompanham o amadurecimento do protagonista. Ao contrário do pai, inveterado otimista, o filho é acentuadamente cético, a começar pelos traços que identifica nos colombianos: mentirosos, fofoqueiros, superficiais... A suposta facúndia dos compatriotas é motivo de escárnio e resumida ao amor pelas palavras vazias. O que mais o incomoda, no entanto, é a conivência e a falta de memória da sociedade colombiana. Evocando uma lembrança de sua mãe, diz que ela se comportava como a maioria dos colombianos, que “suelen actuar a imagen y semejanza de sus Gobiernos, albergar las mismas irracionalidades, sentir las mismas antipatías” (p.62). Falando do pai, nota que adquirira “la célebre enfermedade colombiana de la C.S. (Ceguera Selectiva), também conhecida como C.P.
21 A e ção a Ped o Pá a o , de Jua Rulfo, evide te o t e ho: Vi e a Coló po ue e dije o ue
a uí e o t a ia a i pad e, el o o ido Miguel Alta i a o VÁ“QUE), , p. ; Vi e a Co ala po ue me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo (RULFO, 2002, p.65).
(Ceguera Parcial) e também como R.I.P. (Retinopatía por Intereses Políticos)” (p.143). A apatia e a desmemória são características nacionais e Altamirano se erguerá contra elas: “mi memoria y mi pluma”, afirma, estão “adictas sin remedio a los avatares de la política” (p.171). Lembrar é uma atitude política e dará o tom de seu livro.
Altamirano parte do princípio de que “callar es inventar”, que “las mentiras se construyen con lo no dicho” (p.87), e promete incluir tudo – as histórias “grandes y las pequeñas” – em seu relato sobre o Panamá, que começa na construção da ferrovia e termina no movimento que selou a independência da província. Escrever sobre o tema significa, antes de tudo, corrigir os escritos do pai, que, fascinado pela ciência e pelo progresso, tornara-se uma espécie de propagandista das obras locais, sobretudo do canal, que não chegou a ver concluído. Desde o momento de sua chegada – quando se defronta com a insalubridade de Colón –, Altamirano ressalta o contraste entre o que via e o que o pai publicava.
En sus escritos, mi padre no temía ni por un instante alterar lo que era sabido o lo que todo el mundo acordaba. Por una buena razón, además: en Panamá, que al fin y al cabo era un estado colombiano, casi nadie sabía; y, sobre todo, nadie recordaba (p.105).
O narrador resgata episódios esquecidos – ou escassamente lembrados –, como os surtos de febre amarela, o superfaturamento de obras e a morte de quase 10 mil trabalhadores durante a construção da ferrovia. Noticiados pelo pai, esses e outros acontecimentos foram minimizados, ou simplesmente omitidos, nos jornais em que trabalhava. “En las primeras crónicas de Miguel Altamirano, los muertos de la ferrovía habían sido casi diez mil; en alguna de 1863 los cifra en menos de la mitad, y hacia 1870 escribe sobre „los dos mil y quinientos mártires de nuestro actual bienestar‟” (p.106), lembra-se o protagonista. Além de seu pai, outros jornalistas atuavam da mesma forma – ou seja, a imprensa era uma das culpadas pela desinformação que reinava no Panamá, induzindo o esquecimento e manipulando a memória pública. Vale lembrar que, em Los informantes, é um jornalista que traz à luz acontecimentos que o pai desejava ver silenciados.
Inventário de tragédias e escândalos financeiros, a crônica de Altamirano é uma amostra das práticas políticas que vigoravam na Colômbia do século XIX. Um dos aspectos que enfatiza é a influência das potências estrangeiras no destino do país. Ambientado num momento-chave da história da América Latina – quando o poderio francês começa a ser substituído pela ascendência norte-americana –, o romance mostra a intervenção direta dos dois países na política colombiana, obtendo generosas concessões e o virtual controle do Panamá por parte dos Estados Unidos. Antes mesmo de a província separar-se, episódios cruciais da história colombiana foram, se não resolvidos, pelo menos intermediados por
governos de fora, como a sangrenta Guerra dos Mil Dias, em que todas as negociações decisivas ocorreram em embarcações estrangeiras, a maioria norte-americana. “Los colombianos caminábamos de la mano de los hermanos mayores, los Países Adultos. Nuestro destino se jugaba en las mesas de juego de las otras casas”, comenta o narrador (p.226), assinalando como consequência um trecho do acordo de paz que menciona a necessidade de “llevar a feliz término las negociaciones que tiene pendientes sobre el Canal de Panamá” (p.227).
Mas o romance evidencia a complexidade do imperialismo, que não se sustenta apenas nos dominadores, mas também nos dominados (SAID, 1995, p.43). Um bom indício é o frenesi que a visita do engenheiro Lesseps desperta na elite de Colón:
Lesseps hacía una pregunta banal, abría levemente los ojos ante una anécdota, y los colonizados sentían de repente que su vida entera adquiría una renovación de sentido. Si Ferdinand de Lesseps lo hubiera querido, allí mismo habrían bailado para él un mapalé o una cumbia, o mejor un cancán, para que no fuera a creer que aquí todos éramos indios. Pues allí, en el Istmo panameño, el espíritu colonial flotaba en el aire, como la tuberculosis. O tal vez, se me ocurrió en algún momento, Colombia nunca había dejado de ser una colonia, y el tiempo y la política simplemente cambiaban un colonizador por otro. Pues la colonia, igual que la belleza, está en el ojo de quien la admira (VÁSQUEZ, 2007, p.128).
Altamirano corrige os escritos do pai, sem porém condená-lo. Não o enxerga como um vendido nem um inescrupuloso, mas um idealista que, dominado por suas crenças, interpreta os fatos com um filtro irremovível e não se importa eventualmente de distorcer as notícias em prol de suas convicções. Altamirano o considera uma vítima da política colombiana, alguém que naufraga junto com uma utopia. Em vários momentos, o Panamá se mostra aliás uma ilusão coletiva, um sonho abraçado por muitos que, como Miguel, careciam de opções. “Sinto que, em Vásquez, todos contribuem para cavar „a grande trincheira‟ do Canal, somente para ser enterrados nela”, comentou Carlos Fuentes a propósito do livro (2011, p.391, tradução nossa).
Por isso, para compreender os artigos de Miguel – a “ley de la refracción” que incidia sobre eles –, é preciso contextualizar sua biografia, os 70 anos que viveu entre 1820 e 1890. Como observa Erna von der Walde (1997, p.73), a polarização da política colombiana no século XIX cindiu o país não apenas em dois partidos, mas em duas visões de mundo antagônicas. Uma, sustentada pelo partido conservador, tinha como principais pilares a igreja católica, o hispanismo e a autoridade da língua22. A outra, defendida (com contradições) pelo partido liberal, preconizava a modernização, com a abertura às ciências e à técnica. Esta
22Esta t íade se fo tale eu so etudo e , o o p ojeto políti o da Rege e a ió . Ela o ado pelo e -
presidente Rafael Núñez e seu sucessor, Miguel Antonio Caro, o projeto teve como objetivo unificar a Colômbia em torno de um Estado autoritário e a Igreja Católica, e sem dúvida acirrou o conservadorismo no país.
dicotomia – cujos ingredientes, sem dúvida, extrapolam essa definição sintética – impôs várias consequências, como as inúmeras guerras civis e o desembarque tardio da modernidade. Jesús Martín Barbero observa que, diferentemente dos Estados Unidos, “onde ser moderno não apenas equivale mas se fundamenta em ter crenças religiosas, e vice-versa, na América Latina vivemos isso como uma oposição irredutível, absolutamente maniqueísta” (apud WALDE, p.73, tradução nossa). Desta forma, enquanto os defensores da modernidade viam a religião como “o passado, o obscurantismo, a sobrevivência de uma sociedade rural”, os religiosos associavam a modernidade com “o ateísmo, com uma sociedade abandonada às forças da evolução natural, uma identificação com aqueles determinismos que destroem os valores da tradição, do humanismo [...]” (idem).
É precisamente esta atmosfera que marca os primeiros anos de Miguel Altamirano, do assassinato do pai aos embates quase mortíferos com o presbítero Echavarría. Seus artigos mostram o combate encarniçado que travava com a Igreja. “Instrumentos del Obscurantismo”, escreve, em referência às meninas que, vestidas de branco e carregando flores, saem às ruas para se opor à expulsão dos jesuítas (VÁSQUEZ, 2007, p.20). “Medieval!”, redige mais tarde, ao inteirar-se da decisão do padre de proibir a utilização de cadáveres na faculdade de medicina (p.21). Alguns jornais em que trabalha – El Mártir, La Batalla – assumem já no nome a impossibilidade de diálogo. No púlpito, Echavarría anuncia a expulsão de Miguel Altamirano do reino de Deus e da Igreja; na imprensa, Altamirano anuncia o banimento de Echavarría do mundo civilizado (p.29). “Quem pertence à cidade letrada não pode dissentir no interior desta”, escreve Walde (idem, p.80, tradução nossa), recorrendo ao clássico de Ángel Rama (La ciudad letrada, 1984) para definir o círculo de poder que, na Colômbia, formou-se em torno da Igreja e das elites letradas (sobretudo gramáticos). “Toda rebelião implica uma exclusão”, complementa a autora.
Foi assim que a Colômbia, entre tais hostilidades, fechou as portas à modernização justamente no momento em que, no resto do continente, as ideias modernas irradiavam por todas as esferas da sociedade, influenciando estados, cidades, a educação e os costumes (WALDE, p.79). Chama atenção que a palavra “modernismo” e os livros que inauguraram o movimento literário – como Azul (1888), de Rubén Darío, publicado pela primeira vez em Valparaíso – tenham surgido quando a Colômbia dava marcha à ré no processo modernizador, concentrando a educação na Igreja e voltando as costas para toda influência que não viesse da Espanha.
A sociedade colombiana, em virtude dos efeitos do controle eclesiástico da educação, tornou-se impermeável às ideias provenientes das influências positivistas e socialistas e, consequentemente, ao desenvolvimento da ciência e da técnica. A
consciência ilustrada foi submetida à marginalização cultural e à consciência culpada (GALVIS, 1986, p.236, apud WALDE, idem, p.73, tradução nossa).
Neste cenário asfixiante, para ser moderno era preciso estar fora da cidade letrada, como diz Walde (idem, p.79) e, embora não se refira a uma cidade específica, podemos ver na mudança de Miguel Altamirano uma reação condizente com tal diagnóstico. Após as refregas com o presbítero, o personagem é caçado pelos homens de Melo e, exausto com tais perseguições, sente que Bogotá está definitivamente perdida (p.40). Distante das demais províncias e até certo ponto resguardado dos conflitos nacionais, o Panamá representava o que o resto do país reprimia: a aposta no progresso, na técnica, na modernização. Parecia, inclusive, estar fora da Colômbia, tamanha a quantidade de estrangeiros a dar-lhe um ar cosmopolita e aparentemente neutro – atributos que lhe rendem epítetos como “Babel23” e “Suíça Caribenha”, neste caso uma óbvia ironia do narrador (p.153). Por isso, desde que se depara com o chinês morto – cujas tragédias soam a ele como promessas maravilhosas –, Miguel Altamirano faz do Panamá uma utopia constantemente realimentada. Somente a quebra da Companhia do Canal – e a citação de seu nome entre os jornalistas fraudulentos – determina o fim da ilusão que criara para si e seus leitores. Nos últimos meses de vida, um de seus hábitos é embaralhar os versos do hino e recitá-los entre risos amargos. Defenestrado dos lugares que considerava seus – a ferrovia, as redações dos jornais –, termina os dias como um proscrito, um pária no Panamá. O local que escolhe para morrer – o interior enferrujado de uma escavadeira abandonada – não poderia ilustrar melhor sua sensação de fracasso.
O protagonista, portanto, herda do pai o dissabor com as ilusões perdidas, a ideia da política como algo perigoso e potencialmente destrutivo – daí a imagem da Górgona, a criatura da mitologia grega que petrifica os que ousam fitar seus olhos24. Após a morte de Miguel, sua reação é virar as costas aos acontecimentos públicos e aferrar-se ao pequeno mundo de sua casa (a filha que crescia, a mulher cada vez mais bela). Esquece rapidamente o pai, que associa ao “monstruo ubiquo y omnipotente de la política” (p.198). “Así que mi padre empezó a fundirse en el olvido tan pronto como se llevaron a cabo sus exequias, y yo no hice nada, absolutamente nada, para evitarlo”, comenta, entre as culpas que procura expurgar. Suas memórias, dessa forma, são também as memórias do pai, personagem anônimo que desapareceria entre os escombros da história. Encontrar um lugar na história é uma das angústias de Altamirano, e não à toa se ofende por ver-se fora do romance de Conrad, para o
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Este título aparece num dos primeiros romances sobre o Panamá: La noche de Babel (1913), de Ricardo Miró.
24 Hesíodo fala de t s Gó go as – “te ó a pode osa , Eu iale a ue vai lo ge e Medusa ai ha –,
filhas de Forcis e Ceto (por sua vez filhas de Pontos e Gé, isto é, o Mar e a Terra), e portanto irmãs das Graias (HARVEY, 1987).
qual contribuíra com seu depoimento. Ao contar a história de sua vida aos 69 anos – um ano a menos do que o pai à época da morte –, Altamirano também busca ser absolvido por seus erros. Daí se pronunciar como num julgamento, dirigindo-se aos leitores como “membros del jurado”. Se, como diz Pozuelo Yvancos (2006, p.64), toda autobiografia tem um fundamento de autojustificação, as memórias de Altamirano buscam explicitamente explicar três atos: o