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İstikbal Gazetesi’nin Bolşevizm’e Cephe Alması

2 TRABZON’DA BOLŞEVİK PROPAGANDA ARAÇLARI VE TBMM HÜKÜMETİ’NİN YÜRÜTTÜĞÜ STRATEJİLER

2.1 Basının Kullanılması

2.1.2 İstikbal Gazetesi’nin Bolşevizm’e Cephe Alması

Após a estreia da “Flauta Mágica” em Viena, Praga e Berlin também receberam a peça com aplausos. Todo homem respeitável na Viena da época conhecia a afamada peça, entre eles Sigmund Freud (Anzieu, 1986). A “Flauta” exalta os ideais do homem como um ser moral e da vontade humana voltada para a realização do trabalho para o benefício da humanidade (Einstein, 1945).

A peça pode ser considerada um dos pilares da civlização ocidental uma vez que reúne questões acerca da paixão humana, da história da razão no ocidente, da formação de sociedades historicamente relevantes, de aspectos míticos, de problemas morais, além de oferecer subsídios para a investigação de cunho psicanalítico (Whitehead, 1978). A peça trata do processo de amadurecimento do homem que terá de

se desligar da ligação infantil com os laços matrimoniais para aliar-se a alguém por meio do matrimônio. O rito iniciático pelo qual o casal deve passar é o de atravessar o mundo dos mortos. Essa passagem tem a função de marcar a entrada no mundo onde o compromisso com a alteridade advém da obediência ao sistema normativo vigente. Outros exemplos literários dessa passagem podem ser encontrados na “Comedia” de Dante Alighieri, na “Eneida” de Virgílio, no “Orfeu” de Gluck ou o de Monteverdi e em “Sethos” de Terrasson (1732).

O caso da “Flauta” é uma incorporação clássica do mito órfico. No caso, a flauta substitui a lira de Orfeu como instrumento para operacionalizar o resgate da amada. Tanto Orfeu como Pamino devem passar por uma série de provações, dotados da proteção da música, para que possam reaver as suas amadas (Whitehead, 1978). O poder da lira e da flauta tem a finalidade de auxiliar os amantes (Orfeu e Pamino) nas tarefas mais árduas, servindo aos heróis como talismãs para a realização dos seguintes dizeres: “Se eu não puder dobrar a vontade dos céus, moverei o inferno54” (Žižek & Dolar,

2002).

É possível notar uma inversão do papel da Rainha da Noite e de Sarastro entre os dois atos da ópera. No Ato I, a primeira se revela como alguém que acredita na pureza e nobreza do amor e o segundo é retratado como um tirano obcecado pelo poder. No Ato II, a verdadeira face de ambos é revelada. A Rainha da Noite, personagem que ilustra a vingança, se rebela contra a fraternidade de Sarastro o que se alega ser uma alusão à perseguição sofrida pela Maçonaria, no ano de 1784, pela Rainha Maria Teresa da Áustria (Einstein, 1945; Everett, 1991).

Fotografia 2: Representação de um Círculo de Ouro fotograda no The

Metropolitan Museum, no dia 12 de julho de 2014

Na sua ira, ela nos deixa conhecer o que acontece em relação ao sentimento de perda do objeto desejado – O Círculo de Ouro. A simbologia desse precioso objeto está relacionada com o círculo astronômico em ouro maciço, que, de acordo com Diodoro de Sicília55, foi colocado na tumba de Ramsés II (Ozymandias) (Terrason, 1732). Hans-

Georg Gadamer (1994) coloca que a referência do círculo astronômico de Ozymandias, contida na vida de Sethos de Jean Terrasson (1732), é inconteste referência para a criação do enredo da flauta mágica.

Outra hipótese acerca da origem do enredo da “Flauta” é encontrada em Heródoto56: Rhampsinitus desceu às regiões infernais e jogou dados com Ceres57, recebendo o Ramo de Ouro (dádiva que permite reencontrar os mortos) após um balanço positivo de vitórias e derrotas. Essa situação se assemelha ao jogo de dados de Thoth com a Lua e a sua vitória a cada 72ª parte do dia, da qual ele fez os cinco dias chamados de Epagomenae, com os quais ele somou aos 360, totalizando assim os atuais

365. Esse calendário foi legalmente autorizado por Ozymandias e representado em seu magnífico Círculo de Ouro (Hales; 1812; Mayo, 1819; Galloway, 1869).

Narrien (1833) coloca que a datação que pode ser encontrada no Círculo de Ouro marca o ano de 716 a.C. Essa data é encontrada partir de cálculos astronômicos: a distância de duas estrelas entre Arcturus, Antares, Fomalhaut e a beta de Pegasus e a distância delas para o centro, encontrando o pólo entre a beta de Ursa Menor e a chi de Draconis. Apesar de não haver relação direta com a Roma Mitológica, esse ano marca a abdução misteriosa de Rômulo, primeiro Rei de Roma, na passagem que o transforma em deus, Quirino58 (Engels, 2007). Após o reinado de Rômulo, Numa Pompílio assume. Entre as realizações do novo monarca está a instituição do novo calendário. O calendário de Rômulo possuía dez meses de 304 dias. Numa acrescente 51 dias e os meses de Janeiro e Fevereiro. Sendo assim, ainda faltavam 11 dias para fazer o ano solar59. Para que o calendário passe a ser solar de fato, Numa inclui um 13º mês, o

55 Historiador grego que viveu no século I a.C. 56 Historiador grego do século V a.C.

57 Ceres é a deusa equivalente à deusa grega Demeter na mitologia romana. Van der Berk (2004) assinala

que ela pode ser compara à Rainha da Noite já que ambas tiveram suas filhas abduzidas (Perséfone no caso da primeira, e Pamina, no caso da segunda).

58 A apotoese de Rômulo. A morte de Rômulo o faz com que ele seja visto não apenas como um homem,

mas como um deus. Na última forma, ele é conhecido como Quirino. Em “How Jesus Became God”, Bart Ehrman conta como transcorreu a abdução de Rômulo, ao fazer revista às tropas no Campo de Marte. De repente, uma tempestade enviada por Marte faz com que Rômulo desapareça (Ehrman, 2014).

59 A relação entre o calendário solar de Numa Pompílio e o culto monoteísta ao deus-sol no Egito Antigo

Mercerônio60, com 22 dias. De quatro em quatro anos, o Mercedônio fica com 23 dias (Barradas, 1758). Outra referência nos alega que Thoth foi o descobridor dos 365 dias que completam o ano solar e que na tumba de Ozymandias, sétimo rei61 do Egito a partir de Akhenaton, foi preservado o Círculo de Ouro, dividido em 365 porções, correspondendo aos dias do ano (Rowbotham & Rutter, 1829).

O Círculo de Ouro indica que o seu portador é o sucessor na linha de grãos- mestres que veneram Osíris, deus-sol e maior deidade do Egito Antigo. Enquanto portador original do Círculo de Ouro, o pai de Pamina é a representação do Osíris mítico. Sarastro, seu sucessor, vive e ensina a viver de acordo com os princípios propostos por Osíris (Grant, 2012). Na abertura do Ato II, o grão-mestre, herdeiro do círculo, anuncia os dizeres que confirmam a sua identidade: "Ó servos dos grandes deuses Osíris e Ísis, que fostes iniciados no Templo da Sabedoria!62" (Guimarães, 1991,

p. 80).

O Círculo de Ouro é símbolo de disputa no enredo da “Flauta Mágica”. Com a morte do marido da Rainha da Noite, toda a herança é deixada para ela a não ser o Círculo de Ouro, deixado para Sarastro. Como consequência da perda da posse sobre o Círculo de Ouro, irrompe na Rainha o ódio por quem o possui. O desdobramento é um destino movido pela vingança (Whitehead, 1979).

A Rainha da Noite proclama a morte a quem detém o Círculo e ordena à sua filha que mate Sarastro e que lhe traga o seu objeto de desejo, sob a pena do oblívio. A Rainha invejosa deseja um objeto que lhe falta, e se a filha falhar em consegui-lo, ela será desligada dos laços familiares. Temos nessa questão a efetivação da lógica entre autorizar-se a vingar-se a partir de um afeto doloroso sentido pela Rainha. A ferida narcísica que se revela nela evidencia o caráter de instrusão do outro masculino que gera óbice à realização de ter posse do objeto de desejo dela – o Círculo de Ouro. Mais ainda, a sua posição em relação à ferida é a de combate, e não a de fuga. A Rainha poderia, do ponto de vista de sua escolha, ter vivido no esquecimento do objeto e na aceitação do não pertencimento à sagrada ordem de Sarastro. No entanto, ela decide destruir a ordem sagrada por não ser autorizada a participar da fraternidade e a partilhar do Círculo de Ouro (Kohut, 1972). A trama assume um novo destino a partir do datação do Círculo de Ouro e a Apoteose do Primeiro Rei de Roma, que antecedeu ao reinado romano em que ocorreu a mudança para o calendário solar.

60 Mercidonii Dies: O mês para o pagamento dos salários (Latina Merces). 61 Faraó.

momento que a Rainha não consegue renunciar à ferida de forma feliz. Nessa situação, temos o Ideal do Eu colocado numa posição difícil pela via do interdito que vem de Sarastro aliado ao não encontro com uma disposição mais humilde da Rainha, que não irá abrir mão da sua vontade. Assim, a filha da Rainha, cujo destino é se casar com o príncipe Tamino, recebe a ordem de assassinar Sarastro e de roubar o Círculo de Ouro, o que são evidências do enfrentamento ao poder moral e quem representa ela, que a Rainha deseja destruir (Castarède, 2002).

10 A VINGANÇA E O IDEAL DO EU NO CONTEXTO DA CLÍNICA E O CASO DA RAINHA DA NOITE

A vingança é um complexo estado emocional que advém de uma dor e uma raiva que, por sua vez, é consequência de alguma perda. Nesse sentido, a vingança se perfaz no presente do indicativo, pois é somente nesse momento que a pessoa pode sentir no seu corpo vivido a experiência emocional de vingança. Enquanto mais próximo do que é sentido em vez do que é percebido, o sentir ligado à vingança é de ordem pathica e, portanto, de grande interesse para o pensamento clínico (Weizsäcker,

1958; Tatossian, 1979).

Socarides (1977) observou algumas características de pessoas que querem se vingar a partir de observações clínicas. Elas desejam se afastar de ameaças de castração ou tomar uma ação violenta contra quem promoveu a castração sobre elas. No contexto de produção artística, “A Guerra de Tróia” (narrada na Eneida de Virgílio), “O Conde

de Monte Cristo” (Alexandre Dumas) e a “Rainha da Noite” (Mozart e Schikaneder)

são exemplos de narrativas com a presença de personagens que sofrem uma ação castradora e que tem a vingança como forma reação (Socarides, 1977).

O objetivo do vingador nem sempre é somente o de punir quem lhe provocou alguma dor. Por vezes, existe a vontade de gerar no outro que opera a ameaça da castração (ou a castração de fato) a admissão: “Me desculpe por ter feito isso com você; você é superior, mais poderoso e eu devo me curvar ao seu julgamento e decisão63” (Socarides, 1977, p. 372). A tristeza e a depressão são as respostas mais comuns ao sofrimento ligado a uma perda – perda essa ocorrida em virtude da castração. Nesse caso, a agressão pode surgir como uma ação do indivíduo em resposta às desventuras da

vida, no entanto não é sempre que a depressão devém para atos vingativos (Socarides, 1977).

Entre outras características da pessoa vingativa podemos citar, entre outras, a presença do sentimento de inveja, a ausência da vontade de perdoar e de ser compassivo, a implacabilidade, a inflexibilidade, o ódio, o desejo de destruir o objeto perdido e de submeter a pessoa que ameaçou ou feriu ao seu subjugo. A pessoa vingativa vive para a vingança: ela é o seu único propósito. Passionalmente, quem deseja se vingar realiza ações punitivas ou retaliatórias desejando ficar quite com alguma situação que lhe foi desagradável. Ela também não mostra preocupações com as consequências sociais e morais de seus atos (Socarides, 1977).

Freud, em “Das Ich und das Es” (1923), forneceu uma pista para o desvendar do mecanismo psíquico que opera na vingança (Socarides, 1977). Freud (1923) colocou que, nas neuroses obsessivas, o que garante a segurança do eu é o fato de que o objeto de amor está retido por meio de uma regressão para a organização pré-genital64. A neurose obsessiva envolve a retenção do objeto de amor, que não pode ser abandonado que, por sua vez, toma refúgio na identificação narcísica enquanto que, na depressão, o objeto em si é abandonado. Em contrapartida, na depressão, o objeto foi perdido e o componente destrutivo se incorpora ao supereu e se volta contra o eu. Nesse sentido, nem sempre a pessoa na posição depressiva se deprecia, podendo ela se colocar como muito superior aos outros (Abraham, 1970). Já a pessoa na posição vingativa pode tratar a pessoa de quem ela quer se vingar como as fezes das quais ela quer se livrar (Abraham, 1970). É preciso notar que inicialmente esse objeto perdido seja introjetado, como os cabelos grisalhos de um paciente de Groddeck (1923), que tomou esse aspecto do pai, após o seu falecimento, por meio da incorporação física, oral-canibalística. Depois, a pessoa em crise vingativa irá expelir o objeto retido, o que é típico da fase sádico-anal (Abraham, 1970).

No desenvolvimento de afetos vingativos, existe a necessidade da presença de sentimentos ambivalentes de amor e ódio. É preciso que as energias sexuais sejam usadas para suplementar as energias hostis do vingador. O afeto vingativo busca oferecer essa necessária sensação de segurança para o eu, de forma que a pessoa não se culpabilize, como se costuma observar na depressão. Isso implica que a aparência da

64 Karl Abraham (1970) iria enfatizar que a regressão ligada à neurose obsessiva está ligada à fase anal

depressão no afeto vingativo não pode ser exatamente a do tipo que se autodeprecia65, mas a do tipo que deseja destruir o objeto que a pessoa estando ligada, portanto, à fase anal mais tardia (Abraham, 1970).

O supereu não deve ser tomado pelo componente destrutivo já que isso implicaria num raiva voltada contra o eu. No lugar da não tomada dos impulsos agressivos do supereu, que se voltariam contra o eu, impulsos amorosos são transformados em agressivos, mas agora se voltam para um objeto secundário à regressão sofrida pela pessoa: o objeto expelido. O Isso66 também se envolve com a cena, agindo livre e constantemente por meio de operações de deslocamento. Isso porque é possível se vingar de alguém ou de uma situação por meio da escolha de outro objeto (Arlow, 1961; Socarides, 1977). Na dinâmica da vingança, o eu incorpora objetos externos com ódio em relação a eles, ou seja, pela via do mecanismo presente no traço depressivo: a introjeção. No amor, o modo do eu se relacionar com os objetos é feita com o interesse de provocar prazer no objeto e de cuidar dele. O objeto de amor será mantido via retenção, traço da neurose obsessiva enquanto que o objeto expelido passará a ser o alvo do ódio (Socarides, 1977).

No que concerne à perda que promove o surgimento do afeto vingativo, não se trata apenas de uma perda recente (Socarides, 1977). Isso porque, na crise do afeto vingativo, todas as ameaças ao eu vividas na infância são trazidas à tona por algum evento vivido na fase adulta (Arlow, 1980). Nesta, pode ocorrer a atualização de vivências ligadas às fases edípicas recheadas de sentimentos de rivalidade, ciúmes, inveja e competitividade que podem criar ou exacerbar uma disposição afetiva vingativa (Lane, 1995). Assim, não é possível dizer que a Rainha assume uma posição vingativa somente pelo fato de perder a posse direta sobre o Círculo de Ouro, mas por todo simbolismo que envolve o objeto, como questões que remetem ao Ideal do Eu, que sofreu um abalo devido à desilusão provocada pela transferência do Círculo de Outro para outra figura masculina – a cena da herança deixada para Sarastro apenas desencadeia uma série de processos afetivos: Aqui a Rainha é colocada de fora do

65 Anointe Vergote coloca que a depressão não envolve culpa, mas sim uma espécia de vergonha. Esse

autor propõe uma análise dos conceitos de melancolia (cultural), luto, depressão e melancolia (psicótica) sem considerar a posição objetivista dos manuais diagnósticos como o DSM. É possível notar que, a depressão, segundo Vergote, envolve a perda do lugar da pessoa no mundo. Não é esse o caso da Rainha da Noite? (Vergote, Ver Eecke, Sadowsky & Chwastiac, 2003). O artigo foi escrito pelo primeiro autor e traduzido pelos demais, mas a revista que possui essa publicação sugere a citação nesse formato.

espaço de pertencimento, ligado à cena originária, próprio da relação amorosa entre os pais.

O supereu está fortemente associado ao que conhecemos como Ideal do Eu, herdeiro do Eu Ideal. Na formação do Ideal do Eu temos a presença do interdito do não- materno que desmantela a experiência de “sua majestade o bebê” como um ser a quem todos devem servir. Agora, a criança passa a se submeter a uma nova ordem, na qual ela não mais será o centro das atenções. Na formação do Ideal do Eu, pode ser notada a incorporação canibalística do pai, numa identificação primária por incorporação intrusiva e oral (Gérez-Ambertín, 2003). Socarides (1977) comenta o quanto os pacientes vingativos foram privados oralmente e o quanto sofreram com isso. Na incorporação necessária à formação do Ideal do Eu, o núcleo deste será sempre a figura castradora que colocou esse não. Na vingança, esse supereu assume a posição de

depreciar a própria pessoa de forma que ela não possa ser mais amada. Existe também a oscilação de forma que a pessoa vingativa exija o reconhecimento de que ela é superior, numa tentativa de controlar a ansiedade ligada à evocação da cena originária.

A vingança se opera então pela livre descarga do Isso, autorizada pelo supereu, de forma a fazer os outros sofrerem como objetos expelidos, indesejáveis, e a torná-los inferiores ao seu Eu. Esse Eu sofre ainda, já que a presença dos sentimentos ambivalentes da depressão ora fazem com que ela se sinta “um nada”, e ora como alguém superior, provocando uma confusão na comunicação.

No caso da Rainha da Noite podemos observar a frustração do ideal do eu que

remete a questões da infância que, por sua vez são, possivelmente, de valor traumático e, portanto, fazem emergir uma sensação de raiva e ardor, como ela mesma irá narrar na Ária 14 (Castarède, 2002). É o caso então de aprofundarmos o que Arlow (1980) propõe como uma leitura da vingança a partir de experiências de perda vividas num tempo anterior e distante em relação ao que é vivido por pacientes vingativos já adultos. Tomemos a situação em que um cuidador falha em atender às demandas de seu filho, ou quando não reconhece qual é a exata demanda dele. Nessas situações, podem começar a surgir sintomas como choro, grito, afastamento afetivo e expressões de raiva. Com a intensificação dessas demonstrações de desconforto, a criança fica mais frustrada, mais suscetível a se irritar, a ficar nervosa e vingativa (Lane, 1995). É possível citar também a retirada do seio como algo decisivo para a separação entre mãe e filho, o que faz despertar um impulso por retaliação e promove o desenvolvimento de sentimentos de vingança e inveja (Klein, 1935; Fenichel, 1945). Indivíduos que sentem uma forte

ansiedade de separação possuem marcantes traços vingativos de personalidade quando em crise (Abraham, 1924).

Outra possibilidade para a efetivação de atos vingativos por parte do sujeito tem como origem a cena primária, na qual a criança presencia o intercurso sexual entre os pais, provocando uma excitação que, por sua vez, se transforma em ansiedade. Podem ocorrer, por parte da criança, erros de interpretação no sentido da atribuição à cena originária como uma cena violência entre o homem e a mulher (Freud, 1905; Freud, 1918; Freud, 1925; Arlow, 1980). Anna Freud (1967) coloca que traumas ligados à cena primária se fundem com fantasias e ansiedades primitivas levando a pessoa a um grande estado de transtorno. A derrota edípica da cena primária, na qual a criança é excluída da cena de cópula, leva a um senso de inferioridade anatômica e uma profunda mortificação narcísica. É muito comum que os pacientes na clínica do cotidiano não se lembrem de presenciar de fato a cena de intercurso sexual dos pais, o que pode surgir no ambiente terapêutico sob a forma de uma fala fantasiada, de que ela presenciou o ato (Arlow, 1980).

Otto Fenichel (1945) coloca que a reação à cena originária é marcada por um voyeurismo perverso que ocorre repetidas vezes, compulsivamente, como expressão da vontade do eu de controlar a cena, com a finalidade de permitir à pessoa que se sinta capaz de dominar o trauma primário. Nesse sentido, a pessoa tenta resgatar a cena para que possa tentar controlá-la. A pessoa, quando adulta, pode fazer com que os pais experimentem a sensação de humilhação, exclusão e traição sentida por ela que, quando criança, presenciou a cena originária. O ato de vingança a partir do trauma da cena primária se dá no sentido de provocar a ira dos pais ininterruptamente. A insônia, o exibicionismo e o voyeurismo se mostram como sintomas relativos à identificação com ambos os pais enquanto eles realizam o ato sexual (Lewin, 1932).

Na vida adulta, a rejeição e o abandono em uma relação amorosa podem ser fontes para o desencadeamento de afetos vingativos. Acessos de vingança também