IV. MAKROEKONOMİK GÖSTERGELER
12. İSTİHDAM
O xamanismo da Floresta Amazônica traz equivalentes encontrados em
antecedem a formação do conceito contemporâneo de religião. No Brasil, a primeira
onda de expansão do xamanismo amazônico, para além da população indígena,
situa-se entre o final do século XIX e o começo do século XX, impulsionada
sobretudo pelo ciclo econômico da borracha, que atraiu trabalhadores brasileiros,
bolivianos, peruanos e colombianos, entre outros, para trabalhar na extração do
látex em seringais situados nos estados da região. Os contatos entre as culturas
ocorreram espontaneamente, sem prévias e muitas vezes impulsionados pela
necessidade de ajuda mútua, que implicavam em trocas diversas, fossem estas
matérias ou simbólicas.
Por conta da carência de médicos tradicionais, os seringueiros recorriam aos
conhecimentos ancestrais dos índios para curarem seus males, fossem esses
relacionados à saúde, às finanças ou de cunho emocional. Naquela época, devido à
importância dos serviços oferecidos pelos xamãs, muitos deles eram conhecidos
como mestres, doutores e médicos. Vale lembrar que o convívio continuado entre
essas pessoas já formava comunidades intermediárias, fora das tribos, constituídas
por pequenas propriedades cuja economia era baseada na agricultura de
subsistência.
Desse intercâmbio de culturas e crença, começava a surgir o prenúncio de
formação dos primeiros grupos que fariam uso religioso da ayahuasca fora do
ambiente indígena e que posteriormente iriam transformar-se nos ajuntamentos
religiosos que tomariam a frente do processo de cristianização do xamanismo. Foi
nas primeiras décadas do século XX, por exemplo, que se formou o Daime,
movimento religioso fundado por Raimundo Irineu Serra (1892-1971), conhecido
popularmente como Mestre Irineu. O termo que dá nome à manifestação sócio-
Maranhense de São Vicente de Ferrer, Mestre Irineu migrou para o então
território do Acre na primeira década do século XX e foi o responsável pela
cristianização do uso da ayahuasca. Segundo a atual documentação histórica
disponível sobre o surgimento dessa corrente religiosa no Brasil, ele teria recebido a
missão de expandir sua doutrina de uma entidade do panteão de santos da igreja
católica, autodenominada Virgem Nossa Senhora da Conceição (ou Rainha da
Floresta). Em uma visão mística, ela teria incumbido o seringueiro de disseminar os
ensinamentos de cura contidos no vinho das almas (vinho dos mortos, cipó dos
espíritos, yagé, mariri, planta-mestre, professora, todas denominações dadas à
ayahuasca, que é um termo quéchua, em que aya significa espírito, morto ou
ancestral, e huasca quer dizer vinho ou corda).
O processo de iniciação atribuído ao Mestre Irineu faz claras remissões a toda
a simbologia presente na transformação do neófito em xamã, em que são
encontradas referências à águia como primeiro xamã, ou ao animal de poder
responsável por moldar espiritualmente o xamã. A exemplo desses mitos de origem
encontrados nas práticas xamânicas descritas por Eliade, na Sibéria, ou por
Lambert, nas Américas, Mestre Irineu também foi retirado do convívio do grupo,
submetido à solidão do retiro (no caso dele, na Floresta Amazônica), à austeridade
de uma dieta alimentar restrita para, depois, retornado ao grupo do qual fazia parte,
relatar a sua experiência mística e os ensinamentos recebidos. Posteriormente,
outras lideranças ayahuasqueiras seguiram percurso similar, que remonta ao divino
a justificativa da missão que foi entregue ao então neófito.
Raimundo Irineu Serra conheceu a ayahuasca por meio dos irmãos Antônio e
Maranhão. Em muitos pontos, sua trajetória coincide com o traçado desenhado pelo
processo de urbanização e de cristianização. MacRae conta que eles haviam
conhecido um curandeiro peruano chamado de Dom Crescêncio Pizango na região
de Cobija, na Bolívia, que lhes apresentou a bebida. Na década de 1920, os irmãos
fundaram o Centro de Regeneração e Fé (CRF), do qual Irineu Serra também
participava. Depois de alguns desentendimentos com os Costa, segundo relatos da
literatura disponível, Irineu muda-se para a cidade de Sena Madureira e, depois,
para Rio Branco, no Acre. Entra para a guarda florestal, onde faz carreira até a
função de cabo. Naquele cenário de precariedade social, Irineu busca plausibilidade
espiritual em várias correntes a que tinha acesso, entre elas o Círculo Esotérico de
Comunhão do Pensamento e a Ordem da Rosa Cruz, que influenciaram na
composição dos princípios da sua doutrina. Posteriormente, com a expansão do uso
da ayahuasca para bem além da Amazônia, o Daime, mesmo cristianizado, ainda
reivindica para si boa parte da simbologia xamânica característica da sua origem
ancestral, como o princípio da expansão da consciência que possibilita o contato
com os espíritos, as viagens extáticas, a proximidade da morte como sinalizador da
valorização da vida, a figura do xamã dirigente, responsável pelo voo xamânico e
que recebe seus ensinamentos de cura para si, para os outros e para a comunidade.
Mestre Irineu iniciou seus trabalhos espirituais abertos ao público na década
de 1930, quando radicado no bairro de Vila Yvonete. O termo Santo passou a ser
usado algumas décadas após a criação do Daime e, segundo informações
atribuídas à sua viúva, Peregrina Gomes Serra, não era reconhecido pelo seu
fundador, que também teria reservas quanto à expansão da doutrina para além das
fronteiras da Amazônia. As recomendações foram seguidas pela viúva, que está à
Mas, a despeito das advertências do seu mentor, o Daime iniciou um processo de
difusão acentuado após a morte de Mestre Irineu, comandado por Sebastião Motta
de Melo, discípulo de Irineu, que, por discordâncias em relação à forma e ao
conteúdo ritualístico, rompeu com o Alto Santo e fundou o CEFLURIS (Centro
Eclético de Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra), o qual, juntamente, com a
UDV (Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, fundado em 1961 por José
Gabriel da Costa) e a Barquinha (fundada por Daniel Pereira de Mattos, na década
de 1940), são os agrupamentos que iniciaram a expansão dessa corrente religiosa e
são aqueles que possuem o maior número de adeptos no Brasil e no exterior. Esses
três grupos são os principais responsáveis pela expansão da ayahuasca para fora
da floresta.