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İstanbul Üniversitesi Reformuyla Türk Akademisyenlerin Sermaye Türlerindeki

1. BÖLÜM: TÜRKİYE’DE TOPLUMSAL ALANLARIN YENİDEN İNŞASINDA

1.3. Pierre Bourdieu’nün Sosyal Alan, Sermaye ve Habitus Kuramları Bakış Açısıyla

1.3.3. İstanbul Üniversitesi Reformuyla Türk Akademisyenlerin Sermaye Türlerindeki

Paulo narra nos seguintes termos o momento em que percebeu que havia chegado ao “fundo do poço”, devido a seu alcoolismo:

A gota d’água foi o dia em que eu trabalhei a noite e estava passando pelo processo do delírio, conversando sozinho, tendo visões, deitava e não conseguia dormir, conversava com pessoas que eu via. Eu me deitei e meu filho começou a chorar, eu levantei peguei ele no colo e o coloquei no berço e fui dormir. Eu tinha trabalhado à noite, eu estava

alcoolizado e estava passando por esse processo de delírio, e ele

começou a chorar de novo. Eu levantei disposto a fazer uma coisa:

matar meu filho. Veja bem o ponto que o alcoolismo me levou

(Paulo, entrevistado em 22 jul. 2002).

A imagem do “fundo do poço”, analisada anteriormente, traduz a situação derradeira a que chegou o bebedor, sua decadência “física” e “moral”, antes de procurar a ajuda em um grupo de A.A.. A fala de Paulo expõe as conseqüências de seu alcoolismo: de um lado, seus efeitos “mentais”: “delírios”, “insônia” e “visões”, que

denotam sua dependência do álcool e, de outro, suas conseqüências no plano “moral”: o momento em que, “alcoolizado” e em “processo de delírio”, pensou em “matar” o próprio filho, que chorava no berço.

Os efeitos “mentais” e “morais” do uso do álcool denotam que o alcoólico “perdeu o controle sobre si mesmo”, que está dependente e age de um modo incontrolável, guiado por seu alcoolismo. Não por acaso, Paulo conclui sua narrativa dizendo: “veja bem o ponto a que o alcoolismo me levou”. Trata-se de um “eu alcoolizado” que, guiado pelo alcoolismo, faz coisas “inimagináveis”, de tal maneira que o bebedor não mais se reconhece em seus atos.

Fainzang (1996: 53-68) oferece uma rica etnografia sobre o modo como os membros da associação de ex-bebedores Vie Libre definem a si mesmos como alcoólicos, ressaltando que “é a incapacidade de discernir o que se faz do que não se faz, [entre] o bem e o mal, que caracteriza a seus olhos o alcoólico, cujos signos são também sintomas da doença” (1996: 57 – trad. minha).

Aos olhos dos AAs, as alterações de seus comportamentos também são reconhecidas como a experiência da doença, que compromete, sobretudo, as relações familiares e sociais nas quais estão envolvidos. A degradação das relações familiares se expressa, entre outras maneiras, através da “agressividade”, característica do comportamento do alcoólico durante a fase ativa de seu alcoolismo: “eu já não

suportava as pessoas chegarem para mim e falarem: ‘pôxa Paulo, viu o que você fez ontem?’ Eu brigava; ficava agressivo. Eu era aquele cara super violento. Às vezes eu passava dos limites, às vezes eu arrebentava o bar todo” (Paulo, entrevistado em 22 jul.

2002).

Os AAs freqüentemente narram as mudanças em seu comportamento, provocadas pelo uso do álcool, com o sentimento de que, quando bebiam, agiam de um modo irreconhecível, de que não “eram mais eles mesmos”: “Depois que eu tomava a

primeira e a segunda, eu me transformava naquilo que eu achava que eu era” (Aurélio,

reunião de recuperação aberta em 14 fev. 2002). Ou ainda: “O álcool me tirou minha

consciência. Me tirou a consciência de mim mesmo. Eu já não sabia mais quem eu era”

(Nilson, reunião de recuperação aberta em 22 maio 2002).

Essa “perda de si”, ou a sensação de que já “não se é mais o mesmo”, é traduzida pelas “mentiras” ditas pelo alcoólico, que não aceita sua condição de doente:

“Fui agressivo com minha saúde. Mentia para todos: para o médico, para minha família, minha mulher. Fui para o hospital. Ficava umas 3 horas e depois era liberado”

(Valter, entrevistado em 24 jul. 2002). Ou ainda, como lembra Joana:

Meu sofrimento começou quando eu comecei a esconder a bebida, minha filha achava e jogava fora. Eu já tinha compulsão muito forte pelo álcool. Tinha que correr para comprar outra, mudar de lugar e ela sempre achando e jogando fora. Até que um dia eu consegui achar um esconderijo que ela jamais encontraria, como de fato nunca encontrou. Comecei a esconder a bebida dentro da minha bolsa

(Joana, reunião de recuperação aberta, 22 maio 2002).

As mentiras são um efeito do alcoolismo que traduz a “duplicidade” vivida pelo dependente. Mente-se aos familiares e aos médicos, escondem-se as “garrafas” compradas, em uma tentativa de esconder que ainda se continua a beber.

Na fala dos AAs existe, portanto, o reconhecimento de que, bebendo, o “eu” se manifesta na forma de um “outro”. Uma vez alcoolizado, o alcoólico não sabe mais quem é. Ou seja, ele vive uma espécie de “estranhamento de si mesmo”, não se reconhecendo em suas ações. O alcoólico...

Faz coisas absurdas, incríveis e trágicas, quando bebe. É um verdadeiro “Dr. Jeckyll and Mr. Hyde” [O médico e o monstro, de Stevenson]97. Raramente está só “um pouco alto”. Está sempre bêbado, num grau maior ou menor de loucura. Seu temperamento,

quando bebe, lembra muito pouco sua verdadeira natureza

(Alcoólicos Anônimos, 1994: 45 – grifos meus).

97

Como lembra Fainzang (1996: 58), a imagem do Dr. Jekyll e Mr. Hyde é freqüentemente evocada pelos membros das associações de ex-bebedores, para expressar as mudanças de seus comportamentos durante o alcoolismo ativo. Com efeito, o livro de Stevenson narra a história de um médico — o Dr. Jekyll —, que, após beber uma “poção”, tem seu comportamento e sua personalidade tão transformados que se torna um “outro” — Mr Hyde —, que, em tudo, contraria sua “natureza” original. Vale retomar a célebre passagem do clássico de Stevenson (1995: 83), na qual a personagem, Dr. Jekyll, após beber a “poção”, descreve o “outro” lado de si mesmo, representado por Mr. Hyde: “O lado maléfico de minha natureza, para o qual eu agora havia transferido o poder de se manifestar, era menos robusto e menos desenvolvido do que o bom, que eu acabava de destituir. No curso de minha vida, que havia sido, afinal, em nove partes sobre dez, uma vida de esforço, virtude e controle, ele tinha sido menos exercitado e muito menos exaurido. Daí, acho eu, deu-se que Edward Hyde era muito menor, mais leve e mais jovem do que Henry Jekyll. Do mesmo modo com que o bem resplandecia no semblante de um, o mal estava inscrito franca e evidentemente no rosto do outro. Além disso, o mal (que eu devo ainda acreditar ser o lado letal do ser humano) havia deixado naquele corpo uma marca de deformidade e decadência. Ainda assim, quando olhei para aquela imagem vil no espelho, não tive consciência de nenhuma repugnância, mas sim de uma boa acolhida. Este também era eu”.

O alcoólico vive um conflito interior, uma luta interna entre duas frações do “eu”, uma duplicidade interior; de maneira que existe um “outro em si mesmo” que ele não consegue controlar. O “eu” aparece aqui cindido, dilacerado, dividido em duas metades em conflito. O alcoólico, sob efeito do álcool, muda seu comportamento, transformando-se no seu contrário: um “outro”, que em nada lembra seu caráter original ou sua “verdadeira natureza”. Ou, nas palavras de Fainzang, “o alcoólico é um outro ser, invertido em relação à sua natureza original” (1996: 65 – trad. minha), quando está sob o efeito da bebida alcoólica. O alcoolismo, ao obliterar a “verdadeira natureza” do alcoólico, faz com que ele viva em meio à “dissimulação” e à “manipulação”, cujos emblemas são, por exemplo, as constantes mentiras ditas para esconder a própria doença.

Na fase ativa de seu alcoolismo, o alcoólico encontra-se em meio a uma relação conflituosa entre duas frações do “eu”: o “eu sóbrio” e o “eu bêbado” (percebido como um “outro”). E é no interior desse regime de alteridade que se opera a construção simbólica da pessoa dentro do grupo, estabelecendo os contornos do que podemos chamar de uma “teoria nativa da pessoa”, que pode ser sintetizada na maneira como os AAs se identificam ao iniciarem suas “partilhas”: “Meu nome é Mauro, um doente alcoólico em recuperação, que freqüenta essa reunião para deixar de ser aquele bêbado, aquele cachaceiro que eu era”. É como se tivéssemos uma passagem; uma “conversão” do “eu bêbado” para o “eu sóbrio”.

Seja DAR o “doente alcoólico em recuperação”, ES o “eu sóbrio” e EB o “eu bêbado”, a teoria nativa da “pessoa alcoólica” pode ser expressa na seguinte fórmula:

DAR = ES - EB

Isso condiz com a crença arraigada na indivisibilidade do eu, assentada na ideologia moderna do individualismo. Aos olhos dos AAs, a nova pessoa tende a manter a unicidade do “eu”, a ser “coerente” consigo mesma. Na teoria nativa, a nova pessoa, tomada pela expressão “doente alcoólico em recuperação”, se constrói em torno da passagem do “tempo do alcoolismo ativo” para o “tempo da sobriedade”, a partir de uma transição do passado, em que prevalecia a imagem de um “eu bêbado/cachaceiro”, para o presente, quando se assiste à presença dominante de um “eu sóbrio”, garantindo, assim, a “unificação” da personalidade.

Tudo se passa como se os AAs estabelecessem um corte temporal entre um

“antes”, um tempo pretérito — “o tempo da ativa”, “dos velhos caminhos”, “das velhas

amizades”, “dos velhos hábitos”, “o tempo da onipotência e da manipulação”, em que era favorecido o desenvolvimento de uma doença que sempre esteve presente, latente, à espera de se manifestar —, e um “depois”, um tempo presente — “o tempo da sobriedade”, “o tempo das reuniões”, “da prática dos Doze Passos e das Doze Tradições”, “o tempo de se evitar as velhas amizades, os velhos caminhos e os velhos hábitos”, “o tempo da humildade e serenidade” — enfim, um “tempo do agora”, no qual se deve renunciar “só por hoje” ao contato com o álcool.