Os estudos culturais contribuíram para um interesse renovado sobre a análise da construção de significados também nos textos mediáticos. Enquanto metodologias com base na análise de discurso eram frequentes, poucas inovações existiram em relação ao paradigma dominante nos estudos sobre a comunicação social. Teun van Dijk (1985: 3) aponta Glasgow e Birmingham como centros de pesquisa onde autores como Stuart Hall foram responsáveis por abordagens críticas, em rutura com as metodologias anteriores predominantemente quantitativas. O interesse retornava à dimensão ideológica dos meios de comunicação social, e autores como Althusser, Gramsci e Michel Foucault providenciaram uma base teórica que permitiu relacionar o discurso com estruturas e instituições sociais. Na análise empírica, a atenção voltou-se do conteúdo manifesto das mensagens dos media para os processos subjacentes de construção de significados. As abordagens que agora emergiam partiram da ideia de uma relação sistemática entre a utilização da linguagem e os contextos socioculturais. O trabalho de autores como Robert Hodge e Gunther Kress (1979) seria exemplo de uma contribuição para relacionar teorias da linguística e sintaxe com os “usos sociais da linguagem” (p. 3).
Seria neste contexto que, partindo de diferentes perspetivas, vários investigadores encontraram na década de 1990 um interesse comum sobre as relações entre a utilização da linguagem e as transformações sociais. Autores como Norman Fairclough, Theun van Dijk, Ruth Wodak e Theo van Leeuwen diferenciaram-se gradualmente no campo da sociolinguística, onde percebiam um interesse limitado nas estruturas sociais. O periódico Discourse and Society, fundado por Dijk em 1990, foi central para reunir o trabalho realizado nesta perspetiva, onde as questões sociais
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continuariam centrais. No ano seguinte, o autor assinalava o estudo das notícias como “uma das principais tarefas” da pesquisa na área da análise de discurso, dada a sua centralidade na compreensão do mundo social e político (p.110). Desenvolvida neste contexto, a Análise Crítica de Discurso (CDA) é atualmente um campo de estudos que compreende uma preocupação dupla com teoria e metodologia.
A utilização da linguagem é aqui inscrita nas práticas sociais, constituindo uma forma de reprodução das estruturas sociais. A interação entre dois interlocutores será nesta perspetiva uma construção conjunta do mundo, onde cada participante contribui com a sua interpretação particular (Chouliaraki e Fairclough, 1999: 38). As abordagens metodológicas incluídas na CDA partilham elementos com a Análise Sistémica Funcional (Halliday e Matthiessen, 2014) ao situar o discurso sobre três processos: a construção da realidade (função ideacional), a negociação de identidades e relações sociais (função interpessoal) e a construção do próprio texto (função textual).
The claim is that you cannot semiotically construct (represent) reality without simultaneously identifying yourself and relating to other people in particular ways, and vice versa; but also that you cannot do either without simultaneously engage in the semiotic activity of making text. We might say that text-making is the specifically semiotic facet of the production of social life in social practices, and that people can only engage with reality and each other semiotically through text-making. (Chouliaraki e Fairclough, 1999: 50)
Uma interação discursiva implica uma negociação de relações sociais. O modo como, por exemplo, os atores são classificados e como são descritas as suas ações5 constitui parte de padrões semióticos subjacentes a interpretações particulares da realidade social (p. 54). O foco sobre práticas sociais possui a vantagem de se situar no ponto de convergência “entre estruturas abstratas e os seus mecanismos” ou entre a sociedade e “as pessoas a viverem as suas vidas” (p. 21) – ou ainda, na terminologia de Habermas, entre sistemas e o lebenswelt. Deste modo, as práticas sociais instanciam, ou tematizam elementos dos quais se apropriam a partir de conhecimento de fundo. Tipos de atividades são associados a diferentes objetos e pessoas, locais e tempos, contextos específicos – ou rearticulados no discurso segundo normas consideradas
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adequadas na perspetiva do interlocutor. Assim, tal como cada prática social comporta em si diferentes aspetos do contexto sem a eles se resumir, também o “momento semiótico” de uma prática se apropria e recontextualiza diversos elementos na produção de discurso (idem; Leeuwen, 2008: 5). Ou de outro modo, os interlocutores “realizam” no discurso determinadas representações, relações e associações numa síntese própria à sua visão do contexto. Estas conjunturas, ou articulações concretas de elementos constituirão estruturas discursivas de relativa permanência. Quando institucionalizadas, corresponderão a uma ordem de discurso específica. O conceito é apropriado a partir do trabalho de Michel Foucault (1971), no sentido de constituir uma estruturação social das diferenças semióticas, ou a um ordenamento e hierarquização específicos das diferentes formas de construir significados (Fairclough, 2001: 124). Esta hierarquização estabelece, por exemplo, que formas ou estruturas discursivas são dominantes, e quais serão modos alternativos de construir significados. Algumas formas dominantes poderão constituir-se como hegemónicas, no sentido em que reproduzem e legitimam relações de poder assimétricas – tanto de modo explícito como implícito em pressupostos. Uma ordem de discurso é também um sistema aberto, estabelecido sobre redes de práticas, elas próprias instanciadas ou tematizadas, reproduzidas e transformadas a cada interação. A análise sociológica e a análise semiótica serão assim complementares (Chouliaraki e Fairclough, 1999: 58).
Numa ordem de discurso, diferentes géneros e tipos de discurso são associados a contextos e práticas particulares. Por exemplo, uma entrevista respeita a uma sequência específica de perguntas e respostas particular a uma prática, ou a um conjunto de práticas profissionais, seja no caso do jornalista ou do técnico de recursos humanos. Diferentes relações de poder estarão implícitas. No segundo caso estará implícito o poder, subjacente à posição do entrevistador, para tomar a iniciativa para colocar questões, bem para a avaliação das respostas.
As convenções em torno das quais são construídos os significados no texto jornalístico poderão assim ser definidas como uma ordem de discurso particular. Estabelecidas sobre géneros específicos (reportagem, entrevista, notícia, etc.), elas respeitarão tanto aos processos de aprendizagem formal do jornalismo, como por exemplo às práticas nos bastidores de televisão, ou ainda aos condicionalismos económicos e materiais das organizações de comunicação social – retornando a Hall
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(1982: 64), organizações em torno das quais se reúne um conjunto de práticas sociais particulares, especificamente dirigidas a práticas de produção simbólica e dirigida a um público difuso. Sendo um sistema aberto, uma ordem de discurso estará em interação constante com outros domínios e redes de práticas. O conceito de intertextualidade é central a esta perspetiva, definido por Chouliaraki e Fairclough (1999: 49) como a combinação de várias vozes num mesmo discurso – seja através de discurso indireto, ou pela inclusão de diferentes géneros e discursos no mesmo discurso. O termo “interdiscursividade” caraterizava o segundo caso, quando “diferentes tipos discursivos são misturados” (p.59). Decorre daqui, por um lado, o reconhecimento da mutabilidade e interdependência dos discursos como resultado de um processo de seleção e apropriação de elementos diversos, incluindo elementos provenientes de outros contextos e outras ordens de discurso. Por outro lado, é realçada a dependência do texto em relação a “recursos históricos e sociais” (Fairclough, 1999: 184), ou elementos semióticos institucionalizados em estruturas discursivas relativamente permanentes que são apropriados no discurso. Ruth Wodak (2001b:70) salienta aqui a importância de uma perspetiva histórica-discursiva na análise de discurso, atenta à génese e transformação de argumentos. A autora sugere que determinadas estruturas discursivas poderão contribuir para perpetuar relações desiguais de poder entre os diferentes participantes.
Em traços gerais, a CDA assenta numa dialética entre o momento de interação e as estruturas discursivas que servem de recurso a escolhas de interlocutores situados num dado contexto. Tal como para Habermas, o interesse será nos media sobre os “contributos generalizadores de interesses” que os meios de comunicação social transportam para as agendas políticas públicas. A questão recai então sobre a filtragem e seleção das opiniões publicadas e difundidas na comunicação social, como instituições dedicadas ao trânsito da comunicação, que deste modo contribuem para a delimitação do “espectro das políticas possíveis e consideradas legítimas” (Habermas, 2009a: 105). Mas a análise de um tipo de discurso específico, como o discurso político, terá de atender às suas características próprias. Neste sentido, o modelo de análise proposto por Fairclough e Fairclough (2012) situa as estruturas do discurso político sobre a razão prática, onde as pretensões de que uma determinada ação será
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adequada, suficiente ou necessária, para a realização de um objetivo específico, num determinado contexto e conforme um dado quadro normativo considerado adequado.