B) İflas Halindeki Kurumların Ba – Bs Bildirim Formlarının Verilmesi
III- BA-BS BİLDİRİM FORMLARININ DÜZELTİLMESİ
Entre 2007 e 2008, o discurso sobre uma crise financeira como resultado da gestão irresponsável dos estados estava completamente ausente dos discursos oficiais. Como notam Abreu et al. (2013: 49), a tónica era colocada na necessidade de reforço da regulação dos mercados financeiros e do sector bancário. Se Keynes perdera terreno nas décadas de 1970 e 1980 (Lindvall, 2009:709), a crise financeira levou inicialmente a um retorno às suas propostas, colocando em causa a ideia da eficiência dos mercados. As dúvidas surgiram mesmo entre economistas liberais, que juntaram a sua voz a keynesianos (como Joseph Stiglitz, Paul Krugman e Barry Eichengreen) a favor da aplicação de estímulos à economia. A 15 de Novembro de 2008, Dominique Strauss-Kahn23 propunha ao G20 um programa de estímulos na ordem dos 2 por cento do PIB mundial com o objetivo de manter o crescimento. O consenso parecia ter sido alcançado (Farrell e Quiggin, 2012: 20).
Para Keynes, a despesa do governo durante uma crise de liquidez (ou em contraciclo) poderia compensar a retração do investimento privado, contribuindo para manter os níveis de emprego, os rendimentos disponíveis e a procura, conduzindo deste modo a economia de novo à estabilidade24. A política keynesiana representa assim, nas palavras de Soromenho-Marques (2014: 113), uma “troca de desempenho económico resultante da reanimação da procura (expresso em aumento do PIB e em
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Dados disponíveis em http://databank.worldbank.org
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Ministro das Finanças francês de 1997 a 1999 e Diretor executivo do FMI entre 2007 e 2011.
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Propostas desenvolvidas por Keynes em “The General Theory of Employment, Interest, and Money”, publicada em 1936.
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criação de emprego) por um incremento na dívida pública”. Encontra-se presente o risco de estes incentivos levarem ao aumento das importações, sendo por isso necessária uma resposta coordenada no plano internacional (Farrel e Quiggin, 2012: 17). Em abril de 2009 foi definida uma nova agenda num encontro do G20, que passava também pelo aumento dos fundos do FMI. Segundo Joyce (2013), este foi um período de mudança para a instituição, que passou a exigir menos condições aos países que financiava. Para o autor, enquanto a instituição falhou ao não ser capaz de antever a crise, a sua resposta foi rápida e eficaz quando os problemas começaram – tanto pela providência de financiamento com menos condições do que em crises anteriores, como no incentivo à aplicação de estímulos. Entre setembro de 2008 e julho de 2009, o FMI dispensou SBAs [Stand-By Arrangement] a dezassete países, criando também novas instituições de financiamento às quais recorreram outras economias (Joyce, 2013: 170). Esta viragem para Keynes não ecoou do mesmo modo na Alemanha, ou junto do BCE (Blyth, 2013: 55; Farrel e Quiggin, 2012: 17). Jean- Claude Trichet apelava à necessidade consolidação fiscal e redução dos défices, enquanto o ordoliberalismo alemão sublinhava a capacidade do sector privado para coordenar e organizar a economia. Em dezembro de 2008, Angela Merkel considerava25 que as causas da crise eram bastante simples, e assemelhando-as à gestão de um agregado familiar. O peso crescente nos orçamentos públicos dos estímulos providenciados às economias europeias parecia fundamentar a noção de estados que “viveram acima dos seus meios”, abrindo de novo o debate sobre políticas fiscais. Nos Estados Unidos, Paul Krugman criticava o governo alemão pela sua “obsessão” com a austeridade26, enquanto na Alemanha o Ministro das Finanças Wolfgang Schäuble respondia27 com “preocupações com as implicações de défices excessivos e os perigos de uma inflação elevada”.
When confronted by a reiteration of the demand for stimulus, the German government was able to draw rhetorical resources from economists in the US and
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“One should simply have asked a Swabian housewife, here in Stuttgart, in Baden-Württemberg. She would have provided us with a short, simple, and entirely correct piece of life-wisdom: that we cannot live beyond our means. This is the core of the crisis” (citado por Farrel e Quiggin, 2012: 29).
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Por exemplo, http://krugman.blogs.nytimes.com/2010/06/11/dealing-with-chermany/
27
“Maligned Germany is right to cut spending”, http://www.ft.com/cms/s/0/216daeba-7f0c-11df-84a3- 00144feabdc0.html
86 Europe who were unconvinced by the need for prolonged stimulus. This allowed it to resist US demands, and the creation of global norms about fiscal politics which it found uncongenial. Neither Germany nor other states who were unenthused by Keynesianism needed to make their own alternative perspective prevail. All they needed was a clash of perspectives, in which they could draw on the arguments of some experts to deflect the criticism of others. (Farrel e Quiggin, 2012: 42)
Segundo os autores, não existindo consenso entre especialistas, os políticos têm maior margem de manobra para escolher os elementos que melhor se adequavam à sua posição. Foram importantes, neste sentido, vários estudos académicos que fundamentaram a viragem para a austeridade. Seria exemplo a análise de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff (2010), que pareceram demonstrar como o crescimento económico desacelerava significativamente a partir do ponto em que a dívida pública alcançava os 90 por cento do PIB. O trabalho destes autores seria polémico (Blyth, 2013: 271), mas com as dívidas públicas dos EUA e do Reino Unido a aproximarem-se deste limite e a relação entre a dívida e PIB da eurozona já a ultrapassá-lo, políticos europeus como o Comissário para os Assuntos Económicos e Monetários Olli Rehn utilizaram-no para justificar uma viragem para a austeridade (Einchengreen, 2015: 10). Os estudos de caso de Alberto Alesina e Silvia Ardagna (2009) iriam também contribuir para a defesa das políticas de austeridade como expansivas, principalmente se realizadas através de cortes na despesa em vez do aumento de impostos. Apesar dos resultados serem revistos e desconsiderados em análises posteriores, constituíram a base para políticos americanos e europeus argumentarem pelas virtudes da austeridade (Einchengreen, 2015: 10).
A viragem foi ainda facilitada por “fatores contingenciais”, como os problemas na Grécia e o debate consequente sobre a interdependência entre membros da UME. A posição do governo alemão seria convergente com a do BCE, e partir daqui, entre reguladores e “praticantes” nos mercados financeiros, a aparência do consenso retomava as palavras de Thatcher quando afirmara “não existir alternativa” a uma recuperação orientada pelo sector privado, com ênfase nas exportações. Do lado dos estados, cujo resgate era expressamente proibido no contexto da UEM, restava o retorno a políticas de contenção orçamental, ou de austeridade, contrárias à ideia de um estado intervencionista em contraciclo de Keynes.
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O argumento a favor das políticas de austeridade era reforçado pela ideia de que “os mercados” punem os excessos dos estados despesistas (Farrel e Quiggin, 2012: 37), conferindo um suporte normativo (e moral) que separava as “economias produtoras” dos países em dificuldades. Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha [Spain] (ou PIIGS28) eram estados de desperdício, de salários inflados e sistemas de segurança social demasiado generosos, representação reforçada por exemplo no discurso da Diretora do FMI, Christine Lagarde29. O discurso hegemónico, como nota Philomila Tsoukala (2013) numa síntese sobre as “narrativas da crise”, seria intercedido por outras vozes que apontavam para problemas estruturais na zona euro, salientando dificuldades decorrentes da sobrevalorização do euro (que, como já referido, dificultou a recuperação por via das exportações nas economias mais vulneráveis), ou a inconsistência nas exigências de austeridade quando os empréstimos ao Estado grego por parte de bancos Alemães eram dirigidos para a compra de armamento produzido na França e na Alemanha30. Mas ao nível político e nos media prevaleceu antes a analogia dos estados “preguiçosos”, incapazes de estar à altura dos seus compromissos, contra os estados “trabalhadores”31 que teriam de os salvar. As condições associadas aos acordos de financiamento implicariam tentativas de reestruturação, ou como coloca Tsoukala (2013: 259), uma completa reinvenção do Estado não muito diferente de “reformas estruturais” anteriores, propostas pelo FMI como condições para o financiamento providenciado a países em dificuldades. Mas em vez de focar as considerações fiscais e a capacidade dos países em pagar a dívida, o discurso da Comissão Europeia sublinhava a criação de uma “sociedade equitativa”, numa possível tentativa, segundo a mesma autora, de redefinir o modelo social
28
Ver por exemplo “Europe's PIGS: Country by country”, http://news.bbc.co.uk/2/hi/8510603.stm
29
"Do you know what? As far as Athens is concerned, I also think about all those people who are trying to escape tax all the time. All these people in Greece who are trying to escape tax." Even more than she thinks about all those now struggling to survive without jobs or public services? "I think of them equally. And I think they should also help themselves collectively." How? "By all paying their tax. Yeah." It sounds as if she's essentially saying to the Greeks and others in Europe, you've had a nice time and now it's payback time. "That's right." She nods calmly. "Yeah."
(http://www.theguardian.com/world/2012/may/25/christine-lagarde-imf-euro)
30
“Less healthcare, but Greece is still buying guns”,
http://www.independent.co.uk/news/business/analysis-and-features/less-healthcare-but-greece-is-still- buying-guns-6257753.html
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Recorrendo por exemplo à fábula popular das formigas e das cigarras, ironicamente atribuída ao escravo grego Aesop no séc.VI (ver por exemplo o artigo de Kenneth S Rothwell Jr (1995), “Aristophanes' Wasps and the Socio-politics of Aesop's Fables”, The Classical Journal, 90, 3, 233-254.
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europeu em torno dos mercados, por via do emprego no sector privado e com redes de segurança social mínimas de modo a não “sobrecarregar” o estado.
c) Portugal nas vésperas do financiamento externo
O caso da economia portuguesa era já problemático antes da crise de 2008, sendo o país caraterizado por uma população envelhecida e baixos níveis de produtividade (Blyth, 2013: 267). A ascensão da finança e da banca privada a “uma posição de comando das principais dinâmicas socioeconómicas e políticas” constituiu o resultado de três décadas de integração Europeia, na transformação de uma “economia reprimida” saída da revolução de 25 de abril de 1974 para moldes liberais (Rodrigues, Santos e Teles, 2016: 23/39). O pedido de adesão português foi submetido em 1977, tornando-se o país membro da CEE em 1986, quando se iniciou a ancoragem cambial ao deutschmark. Em 1984, a autorização para a criação de novos bancos privados (p.41) deu início a um novo período de liberalização do sector financeiro. Com esta medida, a quota de mercado dos bancos públicos viu-se reduzida de 74 para 24 por cento entre 1990 e 1996, coincidindo com o aumento de capital estrangeiro no sector bancário, que por sua vez permitia uma abertura nos critérios de concessão de crédito. Durante a década de 1990, o crédito a curto prazo seria facilitado por novos produtos financeiros. O custo reduzido do crédito permitia também ao Estado a redução da dívida sem diminuir os custos do investimento (Abreu et al., 2013: 32). A partir de 1992, com a construção da Ponte Vasco da Gama, generalizaram-se as Parcerias Público-Privadas, contratos que contribuíram para aumentar os encargos do Estado. Estes foram realizados frequentemente por ajuste direto e, na opinião de Soromenho-Marques (2014: 75), sem dar prioridade à transparência. Como refere ainda o autor, as privatizações em vários sectores possibilitaram gerar receitas extraordinárias a curto prazo que permitiram a dissimulação da dívida. A partir 1990, o Banco de Portugal passou a estar limitado na concessão de crédito ao Tesouro, aumentando a dependência do Estado em relação aos mercados. Portugal conseguiu ainda assim manter estável o valor da sua moeda com a entrada de capitais externos, que desde 1993 aumentaram a procura da moeda nacional (Abreu, 2013: 31). Com a assinatura do Tratado de Maastricht, o cumprimento dos critérios para a participação de Portugal como membro fundador na moeda única tornou-se prioritário na
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orientação das políticas económicas. Foram levantados os limites ao crédito, sendo a sua expansão favorecida pelo fim do controlo político. Terminava pouco depois a distinção entre bancos de investimento e bancos comerciais, alinhando o sector com as diretivas europeias. O processo de liberalização incluiu ainda a transformação de reservas no Banco de Portugal em títulos de dívida pública transacionados nos mercados, contribuindo para a descida dos juros.