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FIGURA 1 – Instalações do Grupo de Convivência

Em 1972, Alexandrina de Souza Dayrell, a Dona Dochinha, ficou viúva. Seu marido, Geraldo Martins Dayrell, deixara-lhe uma loja de tecidos, brinquedos e artigos de perfumaria na cidade de Sete Lagoas. Ela deu continuidade ao negócio até a sua

aposentadoria, em 1978. “Nessa época, os filhos começaram a levantar vôo, uns para trabalhar, outros para estudar, e eu me senti sozinha quando o último saiu [...]. Então eu pensei: eu tenho que começar alguma coisa [...]. Resolvi mudar para BH para fazer um curso de yoga” – comenta ela.

Em 1981, alugou um pequeno apartamento na capital mineira, na Rua Alagoas, onde morou por 4 anos em companhia de Cecília Miranda, uma setelagoana que queria

prestar vestibular, mas a família não tinha condições de mantê-la em Belo Horizonte. Durante esse período, Dona Dochinha teve a oportunidade de conhecer diversas pessoas e experiências relacionadas à alimentação vegetariana, saúde preventiva, etc. Também se associou ao movimento católico dos Focolares1, que, segundo ela, a estimulou a não cruzar os braços.

Retornou a Sete Lagoas decidida a reunir as amigas para ensinar-lhes yoga. Dona Dochinha acreditava que, tal como lhe sucedera, a qualidade de vida de suas amigas, também viúvas e sozinhas, poderia melhorar. “No Sesc do centro, na Rua Tupinambás, foi ali que recebi aulas [...], eu descobri que não podia aprender só pra mim, que eu estava muito feliz fazendo yoga e que eu deveria voltar para ensinar minhas colegas de idade.” – comenta ela.

Na garagem de sua casa, improvisou um pequeno salão de yoga e deu início às aulas com uma turma de 20 alunas. Um mês depois, Dona Dochinha aceitou um convite para dar aulas na periferia, para o Clube de Mães que se reunia numa sala da Rádio Cultura de Sete Lagoas. Era 1985, ano em que a semente do Grupo Convivência encontraria terreno fértil.

“Uma velhinha procurou-me dizendo estar se sentindo melhor com a yoga, mais feliz, mas que precisava mesmo de um trabalho fora de casa que lhe gerasse alguma renda.”- relembra D. Dochinha. Era Dona Geroliza – uma senhora viúva, doente, 63 anos e mãe de onze filhos – quem lhe pedia uma ocupação. Preocupada por ser só ela em casa para ajudar os filhos e ainda por ter que cuidar de um filho com epilepsia, que fazia uso de medicamentos constantes, D. Geroliza buscava uma forma de aumentar sua renda.

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Chiara Lubich é a fundadora desse movimento católico que promove ações sociais no mundo todo. Mais informações no site oficial: <http://www.focolares.org/>

Acostumada a transformar seu dia-a-dia em pequenas grandes obras de caridade e, mais ainda, a sediar em sua própria casa seus projetos de auxílio ao próximo, não levou vinte e quatro horas para que Dona Dochinha estivesse em sua cozinha ensinando Geroliza a fazer pão integral. Já havia uma pequena clientela. Dona Dochinha costumava comercializar entre os amigos os pães que conseguia produzir. Contudo, a partir daquela data, o lucro do que fosse vendido teria um novo destino: Dona Geroliza.

Logo surgiram outras idosas à procura de uma atividade para complementar a renda do lar ou, em alguns casos, para ser o sustento da casa. Ouviam falar, precisavam de ajuda, estavam dispostas, procuravam por Dona Dochinha e terminavam dentro de sua cozinha, produzindo alguma coisa – maionese de leite de soja, pães, salgadinhos integrais, etc. – e almoçando em sua casa, como se fossem uma grande família. "Acreditei e empurrei todo mundo para dentro de casa. Foi uma zona. Mas percebi o quanto precisava daquilo para sobreviver", diz ela.

Com o aumento da demanda, Dona Dochinha idealizou pela primeira vez a organização de um grupo de idosas menos favorecidas, que trabalhasse coletivamente para melhorar sua qualidade de vida. Convocou as amigas para as quais dava aulas de yoga e colegas do movimento Humanidade Nova do grupo católico dos Focolares e fundaram o Grupo Convivência.

A primeira reunião oficial deu-se aos vinte e seis dias do mês de junho de 1986, às 20h, segundo consta no livro de atas. Nesse encontro inicial foi lido e aprovado o estatuto da entidade, além de definida a primeira diretoria, cujo mandato seria de dois anos.

QUADRO 1

Primeira diretoria do Grupo Convivência

Presidenta: Alexandrina de Souza Dayrell Vice Presidenta: Zilda Paiva Paulino 1a Tesoureira: Lúcia Pereira Rocha Abreu 2a Tesoureira: Dália Rufino dos Santos 1a Secretária: Maria José Barbosa Bahia 2a Secretária: Leomoldina França Abreu

Suplentes: Umbelina Barbosa Lanza, Myrtes Souza Viana

Coordenadoras: Anita Garibaldi Paulino César, Eurea França, Ilza França Azeredo,

Josélia Campolina

Conselho Fiscal: Rosana de Matos Silveira, Zoroastro e Ziza, Vanda e Jorge, Raquel e

Sônia, Iza e Raimundo, Mercês e Dadá, Emília e Professor Vicente, Ilza Azeredo

Assistência Jurídica e Social: Dra. Raquel Maria Barbosa Bahia (advogada) e Rosana de

Matos Silveira (assistente social) Fonte: Livro de Atas do Grupo Convivência.

Pude concluir que o Grupo Convivência partiu, portanto, da reação de Dona Dochinha ao sentimento de velhice enquanto inatividade, solidão, ausência de projetos, doenças. Ela buscou, na atividade física, nos cursos de alimentação natural e na religião, meios de combater a sensação de finitude que a viuvez e a independência dos filhos pudesse causar. Ao descobrir-se fortalecida, seus planos de compartilhar a “fórmula” com as amigas tornaram-se sua nova motivação de vida. Ela havia descoberto a importância de não parar, de querer sempre mais e de pensar para frente.

O Grupo é também fruto da abertura de Dona Dochinha a novas experiências, novas aprendizagens, o que a levou aos cursos em Belo Horizonte , posteriormente, às aulas de yoga na periferia de Sete Lagoas e possibilitou que ela tivesse contato com uma outra velhice. Trata-se de uma velhice na qual trabalhar não é apenas uma questão de dar um sentido para a vida, mas também e principalmente uma questão de sobrevivência.

Acostumada a cuidar dos outros, Dona Dochinha encontrou uma forma de ajudar- se e servir, criando condições favoráveis para a promoção humana. Analisando sua

história de vida, é possível perceber que, embora dirigida a outros sujeitos, essa atividade não era nova para ela. Educou onze filhos e alguns amigos deles que freqüentavam sua casa, participou da formação de um grupo de jovens que se reunia também em sua casa e ajudou a outras tantas pessoas, que simplesmente cruzaram o seu caminho, a alcançar seus objetivos. Não houve, portanto, na velhice, um rompimento com o que ela gostava, sabia e estava acostumada a fazer e a ser, mas um redirecionamento.