O estudo da origem do Estado implica duas espécies de indagação: “uma a respeito da época do aparecimento do Estado; outra relativa aos motivos que determinaram e determinam o surgimento dos Estados”.158
Porém, antes de abordarmos esses aspectos torna-se indispensável um esclarecimento preliminar sobre a noção de Estado, que resultam em conclusões diversas, em decorrência das inúmeras concepções adotadas pelas correntes teóricas existentes.
A palavra estado surge do latim status e define, a princípio, a condição pessoal do indivíduo perante os direitos civis e políticos. O termo foi introduzido na literatura política para denominar a sociedade política, a partir do Renascimento, por influência de Nicolau Maquiavel, que em seu clássico livro O príncipe afirmava: “Todos os estados, todos os domínios que tiveram e que tem poder sobre os homens, foram e são ou república ou principado”.159 Não há registros anteriores de que alguém tenha escrito de modo tão direto sobre a lógica do poder.
Na visão de Martin van Creveld,
Durante a maior parte da história, em especial da pré-história, existia governo, mas não Estados; na verdade, a idéia de Estado como corporação (em vez de um mero grupo, assembléia ou comunidade de pessoas reunidas que vivem sob um conjunto de leis comuns) era desconhecida. Surgindo em civilizações tão distintas entre si quanto Europa e Oriente Médio, América do Sul e Central, África e leste da Ásia, essas comunidades políticas anteriores ao Estado eram variadíssimas – ainda mais
158DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos da teoria geral do Estado. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 22. 159MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução de Peitro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2004. p. 29.
porque se desenvolviam uma das outras, interagiam entre si, conquistavam umas às outras e se fundiam para produzir uma variedade infindável de formas, a maioria delas híbridas.160
Na França, o termo estat ou état era aplicado a partir do século XIII como situação de alguma coisa, sendo que no século XV passou a determinar a posição de uma pessoa. No século seguinte, passou a ser empregado no sentido de sociedade política, embora alguns escritores tenham elegido outros termos, como Jean Bodin, République (república)161, ou como Charles Loyseau, Seigneureries (senhoria).
Para Marcus Cláudio Acquaviva,
Execrado por uns (comunistas e anarquistas), endeusado por outros (fascistas e nazistas), o Estado sempre foi objeto de estudo de seus defensores (Hobbes, Hegel) e de seus detratores (Marx, Engels, Bakunin), e hoje, com o crescente intervencionismo estatal, ele se faz presente nos mínimos detalhes da nossa vida cotidiana.162
De certa forma, é apropriado dizer que o nome Estado, indicando uma sociedade política, só aparece no século XVI, e este é um dos argumentos para alguns autores que não admitem a existência do Estado antes do século XVII.
Dalmo de Abreu Dalari explica que para eles, entretanto, sua tese não se reduz a uma questão de nome, sendo mais importante o argumento de que “o nome Estado só pode ser aplicado com propriedade à sociedade política dotada de certas características bem definidas”.163 A maioria dos autores, no entanto, admitindo que a sociedade ora denominada Estado é, na sua essência, igual à que existiu anteriormente, embora com nomes diversos, dá essa designação a todas as sociedades políticas que com autoridade superior fixaram as regras de convivência de seus membros.
Assim, sob o ponto de vista da época do aparecimento do Estado, as inúmeras teorias existentes podem ser reduzidas a três posições fundamentais:
A primeira delas menciona que o Estado, assim como a própria sociedade, existiu sempre, pois desde que o homem vive sobre a Terra acha-se integrado numa organização social, dotada de poder e com autoridade para determinar o comportamento de todo o grupo.
160CREVELD, Martin van. Ascensão e declínio do Estado. Tradução de Jussara Simões. São Paulo: Martins
Fontes, 2004. p. 2.
161Vide BODIN, Jean. Los seis libros de la república. Tradução de Pedro Bravo Gala. Madrid: Tecnos, 1997. 162ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Teoria geral do Estado. São Paulo: Saraiva, 1994. p. 4.
Entre os doutrinadores que adotam essa posição destacam-se Eduard Meyer, historiador das sociedades antigas, e Wilhelm Koppers, etnólogo, ambos afirmando que o Estado é um elemento universal na organização social humana.164
Uma segunda ordem de autores, que representam a grande maioria, admite que a sociedade humana existiu sem o Estado durante um certo período, tendo sido constituído para atender às necessidades ou às conveniências dos grupos sociais. Segundo esses autores, o Estado foi aparecendo de acordo com as condições concretas de cada lugar, descartando a possibilidade de simultaneidade em sua formação. Eduard Meyer expõe seu pensamento a respeito deste assunto em sua História da Antiguidade, publicada entre 1921 e 1925. A sustentação dessa tese por Wilhelm Koppers é mais recente, constando de seu trabalho
L’Origine de État, datado do ano de 1960.165
Na terceira posição estão os autores que só admitem como Estado a sociedade política dotada de certas características muito bem definidas. Karl Schmidt justifica seu ponto de vista dizendo que o “Estado não é um conceito geral válido para todos os tempos, mas é um conceito histórico concreto, que surge quando nascem a idéia e a prática da soberania, o que só ocorreu no século XVII”.166 Outro defensor desse ponto de vista, Balladore Pallieri, afirma que o mundo ocidental se apresenta organizado em Estados em 1648, por ocasião da assinatura de paz de Westfália.167
Examinando-se as principais teorias que procuram explicar a formação originária do Estado, chega-se a uma primeira classificação, com dois grandes grupos, a saber:
a) Teorias que afirmam a formação natural ou espontânea do Estado, não havendo entre elas uma coincidência quanto à causa, mas tendo todas em comum a afirmação de que o Estado se formou naturalmente, não por um ato puramente voluntário;
b) Teorias que sustentam a formação contratual dos Estados, apresentando em comum, apesar de também divergirem entre si quanto às causas, a crença em que foi a vontade de alguns homens, ou então de todos os homens, que levou à criação do Estado. De maneira geral, os
164Vide DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos da teoria geral do Estado. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 43-50. 165Hermann Heller condena a amplitude dada por Meyer ao conceito de Estado, dizendo que, com tão ilimitada
extensão, o conceito histórico de Estado se desnatura por completo e se torna de impossível utilização. Vide HELLER, Hermann. Teoria do Estado. Tradução de Lycurgo Gomes da Motta. São Paulo: Mestre Jou, 1968. p. 145.
166SCHMIDT apud DALLARI, op. cit., p. 22, nota 164.
adeptos da formação contratual da sociedade é que defendem a tese da criação contratualista do Estado.168
No que se refere às causas determinantes do aparecimento do Estado, as teorias não- contratualistas mais expressivas podem ser classificadas da seguinte forma: a) origem familiar
ou patriarcal, que considera a família como núcleo social fundamental de origem do Estado, e que é defendida por Robert Filmer; b) origem em atos de força, de violência ou de conquista. Essa teoria sustenta que a superioridade de força de um grupo social permitiu-lhe submeter um grupo mais fraco, nascendo o Estado. Entre os adeptos dessa teoria situa-se Oppenheimer; c) origem em causas econômicas ou patrimoniais, onde o Estado teria sido formado para se aproveitarem os benefícios da divisão do trabalho, integrando-se as diferentes atividades profissionais, caracterizando-se, assim, o motivo econômico. Nessa mesma ordem de ideias coloca-seHermann Heller, dizendo que a posse da terra gerou o poder e a propriedade gerou o Estado, e Preuss, sustentando que a característica fundamental do Estado é a soberania territorial. No entanto, é preciso reconhecer que entre as teorias que sustentam a origem do Estado, por motivos econômicos, a de maior repercussão prática foi e continua sendo a de Marx e Engels; e d) origem no desenvolvimento interno da sociedade. De acordo com esta teoria, o Estado é um germe, uma potencialidade, em todas as sociedades humanas, as quais, todavia, prescindem dele enquanto se mantêm simples e pouco desenvolvidas. Não há, portanto, a influência de fatores externos à sociedade, inclusive de interesses de indivíduos ou de grupos, mas é o próprio desenvolvimento espontâneo da sociedade que dá origem ao Estado. O principal representante desta teoria é Robert Lowie.169
Apontadas as espécies de origem passa-se a analisar algumas das definições da palavra
Estado que são tantas quantos os autores que as doutrinam.
Para Léon Duguit, o Estado decorre da origem em atos de força, de violência ou de conquista, registrados nas palavras do autor como o “grupo humano estabelecido em determinado território, onde os mais fortes impõem sua vontade aos mais fracos”.170
168DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos da teoria geral do Estado. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 23. 169Ibid., p. 23.
Na visão de Giorgio Del Vecchio, o Estado do ponto de vista jurídico, pode ser definido como “o sujeito da Ordem Jurídica, na qual se realiza a comunidade de vida de um povo”.171
Ao analisar as interações sobre o ordenamento jurídico e a entidade estatal, Antonio Carlos Wolkmer salienta que,
O Estado configura-se como uma organização de caráter político que visa não só a manutenção e coesão, mas a regulamentação da força em uma formação social determinada. Esta força está alicerçada, por sua vez, em uma ordem coercitiva, tipificada pela incidência jurídica. O Estado legitima seu poder pela segurança e pela validade oferecida pelo Direito, que, por sua vez, adquire força no respaldo proporcionado pelo Estado.172
Para Alan Pellet, doutrinador internacionalista, o Estado é um fenômeno histórico, sociológico e político considerado pelo Direito. Uma coletividade humana só pode ser um Estado quando este dispuser de uma população, de um território e de uma autoridade política (governo). “Estes elementos constitutivos do Estado, que têm um caráter objectivo, são necessários mas não suficientes. Impõe-se igualmente que a entidade que pretende a qualidade de Estado beneficie da soberania (ou independência)”173 (grifo dos autores).
Enquanto elemento constitutivo do Estado, a população174 representa a massa dos indivíduos ligados de forma estável, seja por um vínculo jurídico, seja pelo vínculo da nacionalidade.
Do mesmo modo que a população pode-se dizer que não há Estado sem território. A importância atribuída ao território como elemento constitutivo do Estado permite reconhecer uma forte interdependência entre o território estatal e os demais elementos da sua formação.
A repartição espacial das massas humanas, a situação geopolítica de cada Estado, as condições climáticas e a localização aleatória dos recursos naturais, a geologia, etc.,
171DEL VECCHIO, Giorgio. Lições de filosofia do direito. Coimbra: Arménio Amado, 1979. p. 351. 172WOLKMER, Antonio Carlos. Ideologia, Estado e direito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1995. p. 73. 173PELLET, Allan; DAILLIER, Patrick; DINH, Nguyen Quoc. Direito internacional público. Tradução de Vítor
Marques Coelho. Lisboa: Fundação Calouste Gulberkian, 2003. p. 417.
174Importante mencionar, neste contexto, a tênue diferença entre população e nação. Nenhum Estado está
proibido de englobar várias nações, cujos membros terão a mesma nacionalidade. Segundo Alain Pellet, “Os exemplos de Estados multinacionais são numerosos. São muitas vezes grandes Estados: Rússia, China; ou Estados constituídos em regiões onde coexistem numerosas etnias como é o caso da maior parte dos Estados africanos. A própria noção de nação não passa, aliás, de uma ficção para numerosos novos Estados criados a partir de federações de etnias pelos colonizadores: a sua primeira é, muito oficialmente, utilizar os poderes da instituição estatal para criar uma nação. Para estes Estados a nação não pode ser um elemento constitutivo, ainda menos um critério preliminar” (Ibid., p. 420, grifo dos autores)
justificam diversas tipologias dos Estados e uma certa diversificação do regime jurídico do Estado.175
O território é o espaço em que se aplica o poder do Estado. Onde o Estado exerce as competências deduzidas da soberania, existe o território estatal. Em sentido estrito, o espaço trata-se do conjunto do território terrestre, inclusive as vias de água. A delimitação do território estatal não é juridicamente necessária e muitas vezes se realiza tardiamente. A falta de demarcação ou o seu caráter impreciso não constitui obstáculo para o reconhecimento do Estado.
O aparelho político é tão necessário para constituição do Estado quanto a população e o território. O Estado, como pessoa jurídica, necessita de órgão que o represente e manifeste sua vontade. O reconhecimento de governo é uma competência de cada Estado, exercida de maneira discricionária, mas fundamentando-se na efetividade do governo.176
Nesta concepção doutrinária, o Estado não é a única coletividade humana que pode dispor de uma população, um território e um “governo” efetivo. Ao lado dele e na grande maioria das vezes, no seu interior, outras coletividades autônomas podem apresentar as mesmas características, no entanto, somente o Estado pode pretender uma efetividade completa, internacional e interna. O Estado apresenta-se como único ente personalizado cujo governo se beneficia dos atributos da soberania e da independência.
O princípio da soberania do Estado é tão antigo quanto o próprio Estado.
De início, o seu papel era essencialmente o de consolidar a existência dos Estados que se afirmam na Europa contra a dupla tutela do papa e do Sacro Império romano- germânico. Até ao século XVIII, apoiados e encorajados por Jean Bodin, por Vattel e pelos maiores filósofos do seu tempo, os monarcas encontraram naquele princípio a justificação do seu absolutismo.177
A soberania era definida como poder supremo e ilimitado. Na teoria de Jean Bodin, “o Estado define-se como um governo de muitas famílias e daquilo que lhe é comum, dotado de poder soberano e conduzido legitimamente [...] é o poder absoluto e perpétuo de um Estado,
175PELLET, Allan; DAILLIER, Patrick; DINH, Nguyen Quoc. Direito internacional público. Tradução de Vítor
Marques Coelho. Lisboa: Fundação Calouste Gulberkian, 2003. p. 422.
176“A distinção entre reconhecimento de Estado e reconhecimento de governo é por vezes mal entendida. Em
certas circunstâncias, as duas instituições confundem-se. É o caso de uma sucessão de Estados: o reconhecimento de Estado novo significa o reconhecimento das primeiras autoridades governamentais deste Estado. Noutras situações, os Estados sustentam a confusão por razões políticas, em particular quando um Estado pretende representar somente várias entidades que beneficiavam até então de personalidades jurídicas próprias” (PELLET, Allan; DAILLIER, Patrick; DINH, Nguyen Quoc. Direito internacional público. Tradução de Vítor Marques Coelho. Lisboa: Fundação Calouste Gulberkian, 2003. p. 432, grifo dos autores).
que no latim se denomina majestas”.178 A soberania significa, neste contexto, o mais elevado poder de comandar.
Gilberto Bercovici menciona que,
A partir do final do século XVIII, a nação irá se arrogar a soberania das leis e irá superar o dualismo contratual das leis fundamentais. A soberania ilimitada e absoluta de Hobber vai se realizar na Revolução Francesa. Com esta nova dimensão político-jurídica para o Estado, a constituição vai ser criada pelo poderconstituinte, não mais pelos estamentos. E a lei passa a ser entendida como fruto da vontade geral.179
Para o autor, o debate revolucionário sobre soberania está ligado ao problema constituinte, com a contraposição entre soberania nacional e soberania popular.
No século XIX, o conceito consagrou-se na ciência jurídica alemã pela influência de Hegel, que ligava a noção de soberania à onipotência do Estado. Definida por Jellinek como “competência da competência”, entendia-se assim que constituía o poder originário, ilimitado e incondicionado do Estado de determinar sua própria competência.180
Diferentemente de Thomas Hobbes e John Locke, Georg Wilhelm Friedrich Hegel não questiona de onde os Estados deduzem o seu direito para promulgar Constituições e impor direitos e deveres aos indivíduos,
De maneira geral, é simplesmente essencial que a Constituição não seja considerada uma coisa criada, ainda que produzida no tempo. Ela é, ao contrário, aquilo que simplesmente existe em si e por si, e deve por isso ser considerado como o divino e o permanente e acima da esfera daquilo que é criado.181
Contemporaneamente, o princípio da soberania do Estado se encontra solidamente ancorado no Direito Positivo. Está na base das relações entre as Nações Unidas, cuja Carta anuncia, em seu artigo 2º, § 1º, “a Organização está baseada no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros”.
Para Habermas,
178FLEINER-GERSTER, Thomas. Teoria geral do Estado. Tradução de Marlene Holzhausen. São Paulo:
Martins Fontes, 2006. p. 222.
179BERCOVICI, Gilberto. Soberania e Constituição: para uma crítica do constitucionalismo. São Paulo: Quartier
Latin, 2008. p. 135.
180JELLINEK apud PELLET, Allan; DAILLIER, Patrick; DINH, Nguyen Quoc. Direito internacional público.
Tradução de Vítor Marques Coelho. Lisboa: Fundação Calouste Gulberkian, 2003.p. 433.
181HEGEL apud FLEINER-GERSTER, Thomas. Teoria geral do Estado. Tradução de Marlene Holzhausen. São
A fusão empírica entre direito e poder político, que origina o Estado, ocorre em dois momentos. No primeiro, um membro de uma família influente assume as funções de intérprete da verdade revelada em cerimônias religiosas, juiz das causas entre sujeitos privados e líder de programas coletivos, convertendo-se em juiz-rei capaz de controlar o poder político, o qual se fundamenta no direito natural estabelecido pela autoridade de Deus, segundo a religião compartilhada por todos [...]. O Estado propriamente dito, porém, somente se constitui em um segundo momento, quando surge uma burocracia estatal especializada em questões de administração pública e aplicação da justiça, capaz de implementar os programas políticos e a solução de conflitos de ação.182
Para Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o conceito de Estado foi uma longa maturação na qual o seu elemento formal é a monarquia em que a liberdade materializa-se: “Em conseqüência, a primeira forma de governo que tivemos na história universal foi o despotismo; depois vieram a democracia e a aristocracia, e, em terceiro lugar, a monarquia”.183
Hegel evidencia a realização do Estado como reino da liberdade pela determinação político-administrativa enquanto monarquia, instância do universal pela qual a ideia concretiza-se por meio do espírito tomando consciência de si na história.
O Estado, na concepção do autor (Hegel), tem em si a ideia de representar a totalidade político-social,
Hegel pensa a comunidade no sentido politicamente estatal, ou seja, por meio da norma jurídica como instrumento político a resguardar a liberdade, atingindo sua realização num elo comum a todos. O Estado é para Hegel, ao mesmo tempo, tanto poder como função, por sinal uma função política cujo escopo é o trato da coisa pública enquanto devidamente pública, isso para a satisfação do indivíduo, socialmente.184
O pensamento de Hegel é herdeiro da Revolução Francesa de 1789 e, como tal, tem na lei o fundamento da nação enquanto sociedade organizada, cujo fim é a liberdade como valor máximo de integralidade humana.
Segundo Hegel,
A constituição política é, em primeiro lugar, a organização do Estado e o processo da sua vida orgânica em relação consigo mesmo. Neste processo distingue o Estado os seus elementos no interior de si mesmo e desenvolve-os em existência fixa.185
182HABERMAS apud DURAO, Aylton Barbieri. Habermas: os fundamentos do estado democrático de direito. Trans/Form/Ação, v. 32, n. 1, p. 119-137, 2009. p. 121.
183HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da história. Brasília: UNB, 1999. p. 93.
184TROTTA, Wellington. O pensamento político de Hegel à luz de sua filosofia do direito. Revista de Sociologia e Política, v. 17, n. 32, p. 9-31, 2009. p. 16.
Na concepção de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, a Constituição é a materialização racional do Estado, o momento em que o próprio Estado, em si, torna-se efetivamente universal, concreto, dentro de uma organização social. A Constituição assume o sentido de Estado moderno pela plena configuração de sua legítima existência no limite das relações entre os homens: “a Constituição é racional quando o Estado determina e em si mesmo distribui a sua actividade em conformidade com o conceito, isto é, de tal modo que cada um dos poderes seja em si mesmo a totalidade”.186
A Constituição, para Hegel, seria um elemento essencial do Estado moderno. Em seu sistema, “a Constituição marca o Estado como organismo funcionando biologicamente, sendo as partes naturais subordinadas ao todo em si, enquanto os seus supostos poderes são apenas funções específicas”.187
Diferentemente, Herman Heller entende que o Estado não surge a partir do direito que o constitui, mas vinculado à realidade social. “A unidade política não é um dado prévio, mas um fim ideal continuamente confrontado com a complexidade e as contradições da realidade.