O modelo de ação humana forjado na Europa Ocidental, sobretudo entre o século XVII e XVIII, expandiu-se pelo mundo como sinônimo de dominação da natureza. Francis Bacon, no século XVI, propôs a dominação da natureza pelo saber, com a finalidade de converter nosso conhecimento em algo útil e proveitoso para a vida dos homens (JAPIASSU, 1995). E, já naquela época, a intervenção da ciência na natureza tinha objetivos práticos e econômicos, pois a natureza era vista como um meio para atingir um fim, consagrando a capacidade humana de dominá-la (CUNHA e GUERRA, 2010).
Se a economia medieval era baseada em recursos como água, madeira, a força do vento e a tração animal, o modelo econômico capitalista passou a utilizar grandes quantidades de matérias primas como o ferro e o aço, mas sem o devido controle desses recursos. A natureza passou a ser elemento indispensável para a manutenção e o aumento do ritmo das máquinas e do consumo (ARENDT, 1997). Porém, este processo civilizatório, embora tenha avançado ao longo da existência humana, necessita de limites no trato com o meio ambiente (PORTO-GONÇALVES, 2006).
A Revolução Industrial permitiu o surgimento e assegurou, por um período histórico, a continuidade do processo de acumulação e de transformações tecnológicas aceleradas, disseminando a ideia de progresso como êxito econômico. Tal modelo passou a ser percebido pelo ser humano a partir da percepção da potencialidade acumulada em curto prazo na indústria, visível a partir do século XIX e, mais especificamente, nas últimas décadas (BUARQUE, 1990). Mas após a Segunda Guerra Mundial é que se institucionaliza a inovação na maior parte dos países do mundo, repleta de influências advindas do sistema capitalista (CABRAL, 2010).
E esta ideia de progresso e desenvolvimento, notoriamente expandida no pós-guerra, é vista como quase exclusivamente crescimento econômico. Tal pensamento reafirma-se como uma das premissas básicas da lógica da dinâmica predatória do capitalismo (CÂNDIDO, 2010) e de um modelo de políticas científica e tecnológica universais.
Apesar do "senso comum", que sinaliza para a aceitação de que um pujante desenvolvimento econômico representa melhores escolhas e incremento do que chamamos de "qualidade de vida" da sociedade, os benefícios da aceleração e do crescimento econômico têm sido sistematicamente mal distribuídos e carregam em si custos socioambientais expressivos (ARAUJO et al., 2014). Neste contexto, se forem considerados especialmente os últimos 30 a 40 anos, estamos diante de um desafio ambiental que nos convida a buscar alternativas ao desenvolvimento, pois o desenvolvimento é o nome-síntese da dominação e controle da natureza. Afinal, se for seguida essa ideia, ser desenvolvido é ser urbano, é ser industrializado; enfim, é ser tudo aquilo que nos afasta da natureza e que nos coloca diante de construções humanas, como a cidade e a indústria (PORTO-GONÇALVES, 2006).
Se os períodos antigos da história da humanidade foram marcados pelos materiais que destacaram uma era, como a Idade da Pedra e do Bronze, por exemplo, nós estaríamos hoje na Idade dos Materiais, uma era de excessos cujo destaque não é o uso de qualquer material específico, mas o grande volume de materiais consumidos (BROWN, 2003).
Tomando como exemplo grandes revoluções havidas no passado, como o advento da agricultura no período Neolítico (aproximadamente de 10.000 a 3.000 a. C.) e a expansão da industrialização e da automação nos tempos modernos, o ser humano precisa passar por uma revolução conceitual e prática de grande magnitude na busca pela sustentabilidade, pois se o crescimento material é necessário para garantir com suficiência e decência a subsistência material da vida, devem ser respeitados os limites impostos pela capacidade de reposição e regeneração do ecossistema regional e da Terra em geral (BOFF, 2014).
No modelo de desenvolvimento sustentável, também se procura produzir, mas sempre com atenção voltada para a manutenção da vitalidade da Terra, para a comunidade de vida e para os seres humanos desta e das futuras gerações (BOFF, 2014). Porém, a economia global atual constitui-se por forças de mercado e não por princípios de ecologia, e só será sustentável quando respeitar estes princípios (BROWN, 2003), já que o grande desenvolvimento tecnocientífico do último século produziu
mudanças socioambientais como não se conhecera até então (BAZZO, 2003).
2.1. Desenvolvimento sustentável e sustentabilidade
O modelo de desenvolvimento adotado nos últimos tempos, baseado no crescimento das relações de produção e consumo, tem como principais implicações o crescimento do nível de degradação dos recursos naturais, aumento da poluição ambiental e aumento nos níveis de desigualdade social e de concentração de riqueza. Como decorrência dessa situação, surge o conceito de desenvolvimento sustentável e da sustentabilidade, os quais procuram reduzir tais implicações, a partir do entendimento das fragilidades do modelo vigente e da emergência da necessidade de uma nova concepção de desenvolvimento de forma equilibrada e equitativa (CÂNDIDO, 2010).
Dia te da polisse ia ue e ol e os te os suste ta ilidade e dese ol i e to suste t el o se so o u e es o no meio acadêmico, algumas considerações são necessárias. De acordo com Boff (2014), foi em 1713, na província alemã da Saxônia, com o capitão Hans Carl Von Ca lo itz, ue a pala a suste ta ilidade su giu o o o eito est at gi o.
Ha ia sido iados fornos de mineração que demandavam muito carvão vegetal, extraídos da madeira. Florestas eram abatidas para atender esta nova frente do progresso. Foi então que Carlowitz escreveu um verdadeiro tratado na língua cientifica da época, o latim, sobre a sustentabilidade (nachhaltig wirtschaften: organizar de forma sustentável) das florestas com o título de Silvicultura E o i a. P opu ha e fati a e te o uso suste t el de adei a. BOFF, 4, p. 33).
J o te o dese ol i e to suste t el foi e o he ido séculos depois, a partir do Relatório Bruntland, e , ta o he ido o o Nosso Futu o Co u da Co issão Mu dial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Foi conceituado como um modelo de desenvolvimento que atende as necessidades das gerações presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias necessidades (WCED, 1987).
Neste contexto, Cândido (2010) reconhece que a complexidade existente em torno das interações entre os sistemas humanos e os sistemas ambientais, faz com que o debate sobre o desenvolvimento sustentável seja amplo e multidisciplinar, além de ser cheio de nuances que dificultam sua aplicabilidade e o alcance de resultados realmente sustentáveis sob as óticas social, ambiental, demográfica, política, econômica, cultural e institucional. Além disso, a sustentabilidade exige planejamento holístico. Exige que seja considerada a totalidade de problemas interconectados e que as intervenções humanas na busca pela sustentabilidade exigem ações em escala global, pois os problemas são planetários (VILCHES et al., 2009).
2.2. A odontologia no modelo de desenvolvimento atual
O que parece ganhar força no período atual é a tese de que o desenvolvimento científico e tecnológico não está a serviço da superação dos problemas mais fundamentais da humanidade, como a devastação ambiental do planeta, a fome e a miséria. A tecnologia tem sido direcionada para a diminuição do custo do trabalho nos processos produtivos, em especial (PORTO-GONÇALVES, 2006). Este desenvolvimento científico e tecnológico também produz resíduos. E, como resultado da falta de conhecimento sobre separação de resíduos por parte dos dentistas, por exemplo, materiais perigosos podem ser encontrados misturados aos resíduos sólidos comuns, o que representa um sério risco para a população e para o meio ambiente. É imprescindível que haja melhoria na gestão de resíduos de saúde dental (VIEIRA et al., 2009), pois algumas destas substâncias, além de contaminarem o solo e a água, são extremamente perigosas devido ao potencial de acumulação em seres vivos, como o mercúrio, podendo causar doenças graves como o câncer ou problemas neurológicos (VILCHES et al., 2009).
do amálgama utilizado em restaurações, por este possuir características como: resistência à corrosão e ao atrito, capacidade de autovedamento marginal ao longo do tempo, durabilidade e baixo custo (JESUS et al., 2010). Seus efeitos tóxicos começam a ser mais conhecidos a partir da contaminação da Baía de Minamata, no Japão, em 1951. Naquele ecossistema, dejetos contendo mercúrio foram lançados por uma indústria e contaminaram inicialmente os peixes. Porém, ao ser seguida a cadeia alimentar, houve contaminação da população, expondo seres humanos aos efeitos deletérios deste metal altamente tóxico e que causou mortes, problemas neurológicos, más-formações fetais e outros distúrbios à população local (PORTO-GONÇALVES, 2006).
Na odontologia, durante o procedimento restaurador, a perda do amálgama utilizado pelos dentistas é descartada rotineiramente como lixo comum (GRIGOLETTO et al., 2008). Outros resíduos como sangue, lâminas, agulhas, reveladores e fixadores (líquidos utilizados para obtenção de radiografias) e mesmo produtos de limpeza são despejados junto aos efluentes comuns e acabam sendo lançados para o sistema de esgoto usual, podendo causar grave risco ao meio ambiente e à saúde pública.
O exemplo da odontologia expõe a necessidade da incorporação da dimensão socioambiental às ações de saúde. A mesma deve ser revista desde a formação profissional inicial no ensino superior, como forma de possibilitar a sua concretização em ações cotidianas em saúde, incluindo a participação efetiva na formulação de políticas públicas (CAMPONAGARA et al., 2008).
Os sujeitos ue o p e os espaços a ad i os ta de e se transformadores críticos da realidade com a qual nos deparamos, ou seja, de deg adação a ie tal, ue, po sua ez, afeta a so iedade o o u todo. (CORRÊA et al., 2005).
E se os profissionais da odontologia, por meio de sua atuação como funcionários públicos, profissionais liberais, professores universitários, ou mesmo propositores de políticas públicas no meio político-administrativo, têm oportunidades para agirem como multiplicadores de conhecimentos socioambientais perante a sociedade, eis que surgem campos de atuação que devem ser considerados e fomentados. Neste contexto, como está o interesse da classe odontológica pelos problemas socioambientais? Este interesse se reflete na produção científica?