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İdari İşlem Olarak Değerlendirilmesi

B. Disiplin Yaptırımlarının İdari İşlem Niteliği

1. İdari İşlem Olarak Değerlendirilmesi

Quando uma ciência é nova e, portanto, ainda muito dependente da criatividade do novo cientista, certos erros lógicos podem ocorrer. Mas essas inconsistências, oriundas de uma imaginação que ainda vagueia na superfície do novo conhecimento, são inevitáveis quando o objeto da observação é o gênero humano. (Terence Sellers)

O Naturalismo, ao se apoiar nas teorias científicas como um dogma de fé, tenta, segundo Sodré (1965), transformar a arte literária em uma espécie de ciência. Por isso, os personagens retratados por esta escola tendem a ser ajustados segundo os parâmetros das teorias científicas do período, pois “coisa no universo das coisas, o homem está condicionado pelo meio ambiente e pelo estigma hereditário que se renovam sem parar no ciclo vida e morte” (ZOLA, 1995, p.10). Assim, a discussão de diversas teorias em voga no século XIX torna-se pertinente como foco de discussão, pois faz emergir das sombras a problematização da sexualidade, ao mesmo tempo em que expõe a questão do hibridismo biológico, que visceralmente está associado ao

colonialismo e suas regras sobre o desejo, impondo-se como leitmotiv nas duas narrativas.

Nos personagens-título dos romances O Barão de Lavos, de Abel Botelho, e

Bom-Crioulo,de Adolfo Caminha, estão espelhadas teorias associadas à raça, hibridismo

e dominação colonial, pois estas estavam em voga no século XIX e eram basilares e sustentáculos para as narrativas naturalistas. Em diversos momentos dos romances, os narradores, marcados pelos momentos históricos, políticos e econômicos em que estão situados Portugal e Brasil, e atrelados ao atavismo cultural, desenvolvem e direcionam seus pontos de vista sobre questões raciais e coloniais. Em O Barão de Lavos, D. Sebastião, apresenta próximo ao final na narrativa ironicamente sua genealogia, através do ponto de vista do narrador, da seguinte forma:

trago a tatuagem da infâmia. Estava escrito... A genealogia moral dos meus é edificante... Meu trisavô, inquisidor, era um verdugo e um místico; meu bisavô, um sodomita incorrigível, morreu aos dezanove anos, esgotado, tísico; um irmão dele, que foi cardeal, organizou com tiples castrados da sé e meninos do coro um harém para seu uso exclusivo; minha avó paterna, espécie de Egéria debochada e histérica, essa pagava os madrigais e os sonetos com dormidas, por escala, às noites, no seu leito, à choldra almiscarada dos seus preciosos turiferários; e meu pai... meu pai foi mignon de D. João VI... Tudo o mais assim... Ora com tais precedentes, que querias tu que eu viesse a ser, senão isto que tenho sido – um escanzelo, um pulha? (BL, 335-336).

Em Bom-Crioulo, a questão do híbrido, ainda que nesta passagem não explicitamente ligada à questão racial, nos é apresentada tanto pelo narrador como na imagem projetada deste mesmo narrador, através da projeção do pensamento que o grumete Aleixo apresenta de seu ex-amante Amaro:

a figura do negro acompanhava-o a toda parte, a bordo e em terra, quer ele quisesse quer não, com uma insistência de remorso. Desejava odiá-lo sinceramente, positivamente, esquecê-lo para sempre, varrê-lo da imaginação como a um pensamento mau, como

uma obsessão insólita e enervante; mas, debalde! O aspecto repreensivo do marinheiro estava gravado em seu espírito indelevelmente; a cada instante lembrava-se da musculatura rija de Bom-Crioulo, de mau gênio rancoroso e vingativo, de sua natureza extraordinária – híbrido conjunto de malvadeza e tolerância -, de seus arrebatamentos, de sua tendência para o crime... (BC, 59).

Assim, torna-se necessário navegar por estas teorias, já que, ao nos situarmos no tempo e no espaço em que os romances foram escritos e lançados, podemos mais facilmente identificar a importância dessas para a compreensão daquele mundo. Algumas inconsistências e certas divagações podem ser vistas ao longo das duas narrativas. Isto acontece por causa do próprio objeto dessas, ao pretender precisar o comportamento humano subsidiado pelas novas teorias científicas. Por este motivo, incluímos no início deste capítulo a incursão sobre as mesmas.

No Oitocentos, debatia-se diversas teorias científicas no Ocidente sobre a origem do homem. A problematização na literatura das questões de diferença de características físicas herdadas pelos diversos grupos étnicos é introduzida pela corrente naturalista a partir do segundo quinquênio do século XIX, seguindo tendências do momento, que abria espaços para a seguinte discussão: a questão biológica seria ou não determinante no fator comportamental dos indivíduos? Crescia, à época, a visão determinista – em detrimento da visão humanista do Iluminismo – estabelecendo rígidas bases para o comportamento humano. Segundo tal visão, a natureza biológica regia o proceder dos indivíduos em seus mais diversos campos de atuação, de modo que a questão da carga hereditária era percebida frequentemente como fator condicionante do desdobramento das atitudes humanas em suas interações de sociabilidade.

No século XIX, duas correntes teóricas monopolizavam os discursos sobre a origem do homem: a monogenista e a poligenista. A monogenista, que se destacou até o primeiro quinquênio deste século, defendia que a humanidade teria sua origem em uma fonte única. Assim, seus defensores buscavam explicação para as diferentes raças em

função dos níveis da moralidade. Já a poligenista trabalhava com a questão biológica para explicar o comportamento humano.

As ideias de Darwin (1974), apresentadas no segundo quinquênio do Oitocentos, em seu texto A origem do homem e a seleção sexual, passam a influenciar as discussões sobre raça e, conseqüentemente, sobre o comportamento humano nos diferentes grupos sociais. Enquanto,

De um lado, monogenistas satisfeitos com o suposto evolucionismo da origem para a humanidade, continuaram a hierarquizar raças e povos em função de seus diferentes níveis mentais e morais; de outro lado, porém, cientistas poligenistas, ao mesmo tempo em que admitiam a existência de ancestrais comuns na pré-história, afirmavam que as espécies humanas tinham se separado havia tempo suficiente para configurarem heranças e aptidões diversas. (SCHWARCZ, 1993, p.55).

Percebe-se, portanto, que a novidade que se apresentava no cerne de tais discussões era o fato de que as duas correntes incorporavam em si o paradigma evolucionista darwinista e, ao mesmo tempo, traziam à baila questionamentos concernentes ao campo político-social.

Dessa forma, a partir das idéias de Darwin, os mais diversos campos das Ciências Linguísticas, da Pedagogia, da Psicologia passam a utilizar suas teorias para analisar o comportamento das sociedades humanas. Conceitos muito utilizados por Darwin tais como os de evolução, seleção natural, hereditariedade passam a ser adotados por diferentes teóricos em seus respectivos campos de conhecimento ao longo do período.

Nesta época os debates no campo político e social foram deveras profusos. No político, os debates alicerçaram-se numa linha muito conservadora, já que o darwinismo foi utilizado para explicar e justificar o domínio imperialista da Europa “civilizada” sobre suas colônias em diversas partes do globo terrestre. No social, é ressuscitada a teoria poligenista da seleção natural e a questão da mestiçagem. Segundo

a nova versão poligenista, o hibridismo humano deveria ser evitado, já que o mestiço herdaria sempre o pior das raças cruzadas. Deste modo, a mistura levaria à deterioração da raça e, portanto, à degeneração social e traria o caos à civilização. Apesar de sabermos hoje que as discussões sobre raça devem levar em conta sua construção social, à época esta deve ser entendida como critério biológico modelado dentro de uma organização social baseada na diferenciação dos indivíduos devido a caracteres físicos hereditários. Deste conceito surge outro no mundo europeu branco, nomeado de “racismo”, que frequentemente implica a crença na supremacia da raça branca sobre todas as outras por questões políticas, sociais, culturais e econômicas. Todos esses dois conceitos serviam, sem dúvida, para respaldar o projeto de rapinagem do domínio colonial branco-europeu de dominação de uma raça sobre outras.

Conforme Schwarcz (1993), do evolucionismo social advêm duas escolas deterministas: a geográfica e a racial. A geográfica defendia que, através de análises do clima e do solo, poderíamos chegar ao potencial civilizatório de um grupo. Já a escola racial, que seria chamada de teoria das raças ou darwinismo social, defendia que essas constituem, já em si, fenômenos finais e que o cruzamento entre elas seria um erro. Deste modo a mistura das raças acarretaria a degeneração racial e social. É a partir dessa visão que surge a defesa da eugenia, que buscava o aprimoramento da raça humana como um todo através da destacada reprodução das raças ou grupos étnicos “ditos” puros. Segundo essa teoria, o aprimoramento humano se dava através da hereditariedade e não através da educação. Assim, a eugenia torna-se, a partir da quarta parte do século XIX, marca de um movimento científico e social fortíssimo, com diversas aplicabilidades. Como discurso científico, ela regulava os nascimentos, que deveriam passar pela censura da questão da hereditariedade; como movimento social, estimulava

casamentos dentro de grupos raciais fechados ou mais homogêneos para que acontecesse uma suposta purificação racial.

O que se pode deduzir é que a eugenia defendia que o desenvolvimento social e econômico viria com o aprimoramento da raça, através da “higienização racial”. Portanto, as qualidades inerentes ao homem adviriam das raças “puras” que se encaminhavam, através da evolução, para o que se alcunharia de “civilização”. Negros, amarelos, índios e miscigenados eram concebidos como raças não puras e não perfeitas, tidas como inferiores e incapazes de progredir. “A radicalidade dessa concepção chegava à própria negação do darwinismo, na medida em que duvidava não só de uma origem comum dos homens como da possibilidade de prever um destino conciliável” (SCHWARCZ, 1993, p.62-63). Pretendia-se, assim, confirmar que a chegada ao estado de civilização era somente acessível aos brancos ou pelos brancos

Naturalizar as diferenças significou, nesse momento, o estabelecimento de correlações rígidas entre características físicas e atributos morais. Em meio a esse projeto grandioso, que pretendia retirar a diversidade humana do reino incerto da cultura para localizá-la na moradia segura da ciência determinista do século XIX, pouco sobrava para o arbítrio do indivíduo. (SCHWARCZ, 1993, p.65)

Estes modelos deterministas do século XIX tornaram-se extremamente populares no Brasil e em Portugal, dando ensejo que fossem manifestados em diversos campos da ciência, da política e das artes. Contudo, apesar da questão da aplicabilidade deste modelo racial servir como explicação para a diferença e hierarquização social, não houve nas terras brasileiras, apesar de todo trabalho político de vinda de emigrantes brancos para embranquecer a raça brasileira, impedimentos legais que pudessem embargar o surgimento por aqui de uma nação mestiça.

Em Portugal, a questão da miscigenação estava atrelada, como vemos na narrativa botelheana, à decadência da monarquia portuguesa, que em sua cadeia

genealógica sofrera diversas misturas de sangue bastardo, chegando a um ponto em que não havia como reverter o dito processo degenerativo de seus descendentes comprometendo, assim, o futuro da nação. No romance português, pode-se divisar esta questão, justamente aplicada ao personagem-título nas duas citações escolhidas entre tantas: “desta romanesca mancebia porejou um filho, que vinha a ser o sexto avô do nosso barão de Lavos. O atavismo fez explodir neste com rábida energia todos os vícios constitucionais que bacilavam no sangue da sua raça, exagerados numa confluência de seis gerações de envolta com instintos doidos...” (BL, 26) e “o barão garfava por enxertia duplamente bastarda em duas das mais antigas e ilustres famílias de Portugal” (BL, p. 23). Neste romance, o narrador se apóia na ciência para demonstrar que o grande império português sucumbira devido às misturas de sangue, por parte de sua classe de nobres dirigentes. A bastardia do barão e seus atos degenerados servem de metáfora para mostrar que Portugal precisava destituir urgentemente a monarquia por uma nova forma de governo a fim de salvar o orgulho da nação e instituir novamente a auto-estima ao combalido povo português.