Alguns estudos (FLECHA, 2010; MARTINS, 2009) focam a análise posicional das redes de empresas de forma quantitativa, medindo a densidade, através da quantificação dos números de atores que compõem a rede e da quantidade de conexões e interações entre os atores. Outros estudos focam no viés sociológico (SACOMANO NETO, 2004; BALDI e VIEIRA, 2006 e LIMA, 2009), de forma qualitativa, por meio da análise de redes sociais e de seus laços relacionais. Nesta pesquisa, o enfoque é qualitativo sob a ótica das redes burocráticas (contratos formais) e dos relacionamentos organizacionais. A pesquisa aborda o conceito de embeddedness estrutural, por analisar a estrutura geral de uma rede de empresas (Empresa Hub) do setor metal-mecânico, e o embeddedness relacional, por tratar das relações e reciprocidade entre os membros da rede.
Para tanto, a dissertação buscou aprofundar-se em dois objetivos: o primeiro, compreender como o posicionamento dos atores pode influenciar a formação de valor em função das operações exploradas por uma rede de empresas em um determinado negócio. O segundo, propor uma abordagem metodológica que incorpore estes aspectos.
Para a compreensão do estudo foi mapeada a rede de empresas estudada e identificados os atores com maior interação e intensidade no relacionamento. Desse modo, foram escolhidos três atores chaves (Fornecedor A, Revendedor B e Provedor Logístico C) para a pesquisa de campo, que estão entre os principais atores da rede.
A aplicação da abordagem metodológica proposta (Figura 18) limita-se à Empresa Hub e outros três atores chaves, de forma complementar, também foram propostos dois quadros (9 e 10) como instrumentos auxiliares para análise da rede. Esses quadros guiaram o roteiro de entrevista, nas questões referentes às variáveis do embeddedness (estrutural e relacional) e os elementos de valor considerados no presente estudo. Os aspectos estruturais e relacionais da rede estudada forneceram subsídios para detectar e compreender a influencia do posicionamento dos atores em relação à formação de valor das operações exploradas por uma rede de empresas.
Conforme os depoimentos relatados no capítulo 5, os elementos que os atores da rede de empresas (Empresa Hub, Fornecedor A, Revendedor B e Provedor Logístico C),
consideram importantes para a formação de valor dos produtos são: os elementos tangíveis - qualidade do produto, disponibilidade de peças de reposição, capacidade de produção e flexibilidade; os elementos intangíveis: marca Hub; os serviços: desempenho de entrega e suporte técnico pós-venda e os elementos econômicos: alto valor de revenda e preço dos produtos.
Considerando a atividade econômica (manufatura de máquinas e equipamentos para movimentação de terra) da Empresa Hub, forma-se a estrutura da rede, baseada em transações, transferência de recursos e trocas de informações entre os atores. Essa estrutura é caracterizada como uma rede burocrática assimétrica, com mecanismos de coordenação interfirmas e acordos formais, conforme análise do Quadro 3, inserido no capítulo 3.
A estrutura geral da rede é difusa, composta por inúmeros atores, o que favorece a propagação de informações, beneficiando os seguintes elementos de valor: a disponibilidade de peças de reposição (estoque de peças para atender ao mercado interno e externo), a marca Hub (empresa multinacional, conhecida e reconhecida mundialmente), o suporte técnico pós- venda (ampla rede de revendedores), o alto valor de revenda (possibilita a comercialização de máquinas usadas ao redor do mundo) e o preço dos produtos (empresa multinacional favorece as negociações de pagamentos para a Empresa Hub e demais atores da rede). O núcleo dessa rede é denso, com alta conectividade entre os principais atores envolvidos no processo de manufatura. Apresenta-se, também, como um sistema fechado (rede fechada), foca no intercambio social, confiança, partilha conhecimentos (gerencial, tecnológico, processo e logístico) e normas. Dessa forma, este tipo de rede beneficia a execução e assim favorece a Empresa Hub em relação aos elementos tangíveis (qualidade, capacidade de produção e flexibilidade), serviços (desempenho de entrega) e aos elementos econômicos (preço do produto), devido à confiança e à troca de conhecimentos disseminada entre os atores da rede. A Empresa Hub atua como ator central, o que beneficia a qualidade e o suporte técnico pós- venda, por meio do acesso de recursos, poder e informações dos atores dessa e de outras redes. A centralidade pode contribuir para compreender que a Empresa Hub ocupa uma posição privilegiada na rede, o que a permite absorver e difundir conhecimento entre os atores, dentro de uma rede com estabilidade relativa (a entrada e saída de atores na rede é baixa) que contribui para os elementos tangíveis: qualidade, capacidade e flexibilidade e o elemento econômico: preço do produto.
Nessa mesma estrutura da rede, são formadas as redes de relações organizacionais, que podem ser caracterizadas como uma rede assimétrica. As redes assimétricas ou centralizadas são caracterizadas pela presença de um agente central (Empresa Hub). As
relações entre os atores da rede são marcadas pela presença de laços fortes, através da alta interação e intensidade no relacionamento, beneficiando vários elementos de valor, tais como: qualidade, capacidade, flexibilidade, desempenho de entrega e preço do produto. A predominância da confiança também favorece a qualidade (redução das despesas de manutenção) e o desempenho de entrega, constatados pela abertura de informações para o fornecedor. Esta abertura, com o partilhamento seletivo do escopo de conhecimento, contribui para a qualidade, desempenho de entrega e serviço técnico pós-venda, possibilitando melhorias tanto no processo produtivo quanto na qualidade de informações trocadas entre os membros da rede. Existem indícios da presença de buracos estruturais através da ligação entre os Revendedores e o cliente final e também de atores da rede acessando outras redes na busca de soluções de problemas. Em ambos os casos, acessam seus laços fracos para buscar um novo conhecimento ou negócio.
Os casos analisados auxiliaram para indicar, de modo geral, que as redes difusas permitem o acesso a recursos e informações não redundantes por meio de seus laços fracos de relacionamento. Já as redes densas estão associadas a relacionamentos intensos e de longo prazo, caracterizada como um laço forte. Este tipo de rede beneficia a execução e promove a confiança entre os atores, mas as informações dentro dela são redundantes. Isto é empiricamente confirmado pelos quatro atores deste estudo. Dentro desses contextos, conclui- se que os aspectos de posicionamento estrutural e relacional identificados podem influenciar a formação de valor dos produtos. Contudo, geram um excedente para os atores da rede quando o valor de uso é percebido. Cada um faz uma avaliação subjetiva.
Não obstante, outros meios que compreendem a formação de valor dos produtos da rede estudada são: a criação de valor (através dos membros da organização) e a captura de valor (através da força percebida dos relacionamentos entre os agentes econômicos).
Na rede em estudo, para a criação de valor dos elementos acima citados, existe a influência dos membros das organizações e dos atores que compõem a rede. Ambos contribuem para a formação do valor de uso quando trabalham os insumos para o processo de fabricação dos blanks (corte de peças de aço) e conjuntos soldados (exemplo: uma caçamba do trator). Para conquistar a certificação fornecedor classe mundial, o engajamento dos funcionários e da alta gerência do Fornecedor A foi primordial para a significativa melhora da qualidade e do desempenho de entrega, itens de maior importância na redução dos PPM’s (atualmente o Fornecedor A, atingiu 422 PPM). Do mesmo modo, aconteceu com o Revendedor B, para conquistar e manter a certificação 5 estrelas e, com o Provedor Logístico C, para cumprir as metas de segurança da Empresa Hub.
Por fim, notou-se que, na captura de valor, o poder de barganha do ator central da rede (Empresa Hub) é forte nos principais fornecedores e atores de laços fortes no relacionamento, o que permite à empresa extrair mais valor através de certificações externas e negociações de fornecimentos de matéria-prima consignada. O mesmo acontece com o Fornecedor A, que consegue acessar valor em alguns fornecedores e atores de maior intensidade no relacionamento. O Revendedor B e o Provedor Logístico C não tem o mesmo poder de barganha com seus fornecedores e clientes. O primeiro não trabalha com máquinas e equipamentos (Hub) sob consignação e o segundo é advertido sobre o cancelamento de contrato, caso não cumpra com as normas de segurança da Empresa Hub.