A verdade por correspondência é a teoria clássica, desde Aristóteles a Tarski, conhecida como ontológica da verdade. Propõe um significado objetivo do termo “verdadeiro”. Uma proposição só pode ser dada como tal se existe um fato (estado de coisas) que a proposição expresse. Verdade é a correspondência entre a proposição e o fato, que é dado como realidade externa. Assume a “noção ontológica, que corresponde ao ser mesmo da coisa ou fato e que, portanto, exige a identidade deste com a ideia ou o conhecimento que dele se tem”97 (ECHANDIA, 1976, p. 242). É uma teoria objetiva do “verdadeiro” (FERRAJOLI, 2006, p. 52). Emprega a epistemologia objetivista no conhecimento dos fatos; parte da lógica de que o
empírico atende a um critério objetivo que radica na “correspondência ou adequação ao mundo independente, e ao conceber ademais o conhecimento como um processo guiado por regras mais ou menos seguras confia na obtenção da certeza absoluta”98(ABELLÁN, p. 1-22). O
procedimento probatório tem a capacidade de proporcionar um resultado certo e incontroverso. Tal concepção está no modelo da prova legal, que pressupõe regras jurídicas de valoração que ditam ao juiz quando e em que limite deve dar um fato como provado
(ABELLÁN, p. 1-22).
97 “[...] noción ontológica, que coresponde al ser mismo de la cosa o hecho y que, por lo tanto, exige la identidad
de este com la idea o el conocimiento que de él se tiene”.
98 “[...] correspondencia o adecuación a un mundo independente, y al concebir además el conocimiento como un
Essa teoria tem uma sólida estrutura lógica, o que, a primeira vista, a torna isenta de problemas e, até por tal razão, perdura por longo período. No entanto, há algum tempo perde fôlego, especialmente com a emergência da guinada linguística. O firmamento da premissa “universo, conhecimento, verdade e realidade são aspectos lingüísticos” (FLUSSER, 2007 p. 12)
tornou um problema ou obstáculo a ser transposto à conceituação precisa do fato para a teoria da verdade por correspondência. A partir dela, não é possível precisar aquilo com que a proposição corresponde para ser verdadeira (ALEXY, 2005, p. 120).
A partir dessa problemática, surgiram outras teorias, como a teoria consensual de Jüngen Habermas (2007). Propõe resolver os problemas associados com o conceito de verdade
até então não resolvidos pelas teorias clássicas, especialmente pela da correspondência, a iniciar pelo problema da definição do fato. A teoria da correspondência enquanto construção lógica parece irretorquível, mas a experiência prática escancara a fragilidade do conceito que carrega sobre fato. A correspondência entre a proposição e o fato só poderia existir se esse fosse algo no mundo; do contrário, ficaria sempre limitada ao âmbito da linguagem. Esse problema é bem dimensionado pela teoria consensual ao fazer a distinção entre fato e objetos
da experiência. Esses últimos são as coisas ou acontecimentos sobre a face da Terra, presenciados, ouvidos ou vistos, enfim, estão presentes no mundo, e são despidos de linguagem. Já os fatos dependem, essencialmente, da linguagem, pois são o que os enunciados, quando verdadeiros, enunciam; não são algo no mundo, mas construídos, racionalmente, no contexto das relações sociais.
A partir dessa distinção, a teoria consensual constrói a premissa nuclear para um novo conceito: a condição de verdade da proposição é o acordo (consenso) potencial de todos os demais num diálogo acerca do predicado atribuído ao objeto na situação ideal de discurso. A teoria da verdade por consenso declara como verdade o consenso “potencial” de todos os participantes no discurso (TEUBNER, 2002, p. 533-571); em outras palavras,
[...] entende verdade como a conformidade de uma afirmação (melhor dito capacidade de consenso) dos participantes na comunicação, sempre e quando obviamente esta comunicação se encontra guiada pela ideia da “comunicação livre e
universal”99 (HÄBERLE, 2006, p. 8).
99 “[...] entiende verdad como la conformidad de una afirmación (mejor dicho capacidad de consenso) de los
participantes en la comunicación, siempre y cuando obviamente esta comunicación se encuentra guiada por la idea de la ‘comunicación libre y universal’”.
Tão logo “as forças ilocucionárias das ações de fala assumem um papel coordenador na ação, a própria linguagem passa a ser explorada como fonte primária da integração social. É nisso que consiste o ‘agir comunicativo’” (HABERMAS, 2003, p. 36). Chega-se, assim, ao
resultado que interessa à teoria da prova judicial: o nexo causal da prova e a verdade como critério a integrar a atividade probatória no processo de conhecimento do fato assim considerado: “Somente o pensamento traduzido em proposições ou a proposição verdadeira expressam um fato” (HABERMAS, 2003, p. 29). É que
[c]om o auxílio de nomes, caracterizações e expressões deícticas, nós nos referimos a objetos singulares, ao passo que asserções, nas quais tais termos singulares assumem o lugar da expressão do sujeito, exprimem na sua totalidade uma proposição ou reproduzem um estado de coisas. Quando tal pensamento é verdadeiro, o enunciado
que o reproduz representa um fato (HABERMAS, 2003, p. 28).
De tal sorte que não poderia ser atribuído ao “fato” outro sentido que aquele implícito nos enunciados verdadeiros, relativo a estados de coisas existentes; e assim não se poderia conceituá-lo independente do enunciado verdadeiro. Portanto, essa teoria relaciona a prova com a verdade como atividade, e não como resultado. A verdade passa a ser um critério de legitimidade procedimental do enunciado provado.
Outra teoria é a fenomenalismo de Edmund Husserl. Propõe que algo “existe” porque pode ser verificado pela experiência sensitiva. Essa premissa nos conduz à ideia de que a verdade emana da experiência empírica, e assim, em certa medida, se aproxima da teoria da correspondência. A verdade pode ser refutada, quando novos objetos da experiência se verificam. Ainda, há a teoria da verdade como coerência que é largamente desenvolvida pelo positivismo lógico. Trabalha a verdade como a inclusão coerente de uma oração no complexo dos enunciados científicos (HÄBERLE, 2006, p. 7). A verificação dos fatos se dá com o teste da
coerência, a partir de tudo o quê fora praticado no processo.
Essas teorias, ao lado de outras não citadas, têm em comum a epistemológia subjetivista, para a qual “a objetividade do conhecimento deriva de nossos esquemas de pensamento e juízos de valor, ou seja, o conhecimento do mundo está ‘contaminado’, é irredutivelmente subjetivo”100(ABELLÁN, p. 1-22). Logo, a verdade é um critério da atividade, e
não do resultado probatório. A partir disso, certas premissas serão observadas neste trabalho:
100 “[...] la objetividad del conocimimento deriva de nuestros esquemas de pensamiento y juicios de valor, es
(a) por dedução à recusa da verdade por correspondência e do fenomenalismo, a verdade se constrói pela e a partir da linguagem, articulada na lógica do discurso; aqui se faz oposição à verdade descoberta ou revelada pela correspondência da proposição com o objeto. “Estamo-nos referindo à verdade construída, que não é simplesmente revelada ou descoberta, mas que nasce do relacionamento intersubjetivo, considerado determinado quadro referencial” (TOMÉ, 2008, p. 16); com isso, distanciamos da
tradicional finalidade da prova associada à descoberta da verdade revelada pela conformidade entre a ideia e a realidade externa, de ordem físico-moral, percebidos pelos órgãos de sentido, tal como preconizava a doutrina que atribuía à prova judicial o fim de estabelecer a verdade (ECHANDIA, 1969, p. 240); a prova tem a finalidade de contribuir para a construção da verdade fática;
(b) sendo a verdade uma construção linguística, não é considerada objetivamente; isso implica a ausência de um critério objetivo e seguro; ser absoluto é algo inalcançável; e assim prevalece a ideia contrária à de que se pode asseverar a verdade objetiva ou absolutamente certa; isso é “uma ingenuidade epistemológica, que as doutrinas jurídicas iluministas do juízo, como aplicação mecânica da lei, compartilham com o realismo gnosiológico vulgar” (FERRAJOLI, 2006, p. 52);
(c) não se pode afirmar uma única verdade substancial, só a que ainda não foi refutada por outras construções linguísticas. A verdade é contingencial. Olhando o campo jurídico, se a decisão é o reduto da verdade construída juridicamente, então não é certo afirmar a existência de apenas uma justificável sobre a questão de fato; quando muito, há verdades construídas juridicamente não mais sujeitas, em âmbito de direito positivo, a refutações, como se dá com as decisões do Supremo; as verdades não são absolutas, mas relativas, porque pressupõem a “variação de sentidos e valores que uma proposição pode apresentar em virtude da influência do ambiente e condições impostas pelos diferentes sistemas” (TOMÉ, 2008, p. 18).
Estes aportes teóricos são indispensáveis para chegar à delimitação semântica de uma verdade processual, que conduz à ideia de verdade construída ou produzida no âmbito da prática processual judicial, e que é a que interessa no caminho de explicitação da prova praticada, especificadamente, no juízo decisório da inconstitucionalidade legislativa.