4. BULGULAR VE YORUM
4.2 İş İle İlgili Kararları Etkileyen Faktörler
Outra faceta do Livro das Noivas foi o seu papel de orientar a leitura. Seja na indicação ou na reprovação de romances, seja na exaltação ou no repúdio a certos escritores o manual teve um fim pedagógico. Em crônica intitulada “Os livros”, Júlia Lopes aderia às teses que defendiam a formação e a instrução da mulher:
Os pais antigos proibiam a leitura às filhas, afirmando que os livros eram os piores inimigos da alma.
289
Para livrarem então as pobres inocentes de, por qualquer casualidade, entrarem um dia em contato com tão perigosos conselheiros, faziam uma coisa que lá consigo julgavam muito acertada – não as ensinavam a ler!
Era, evidentemente, o meio mais coercitivo.
Hoje em dia o não saber ler é, felizmente, considerado uma vergonha, e não há uma pessoa que propositalmente condene os filhos a tamanha desgraça; agora o que ainda há são chefes de família que abominam os livros, ordenando às filhas que não toquem nunca em semelhante coisa.290
Fig.07 - O pai que instrui sua filha. (ICSELN).
Ao recomendar o contato com os livros, Júlia rompeu com a tradição obscurantista de negligenciar tal instrução às mulheres. Assim, caso houvesse insistência por parte dos pais das moças, estas poderiam:
... mentir-lhes, lendo às ocultas no seu quarto, de noite. Perdem assim as horas consagradas ao repouso, tão necessário à saúde; de manhã estão pálidas, abatidas, nervosas, alegando uma doença qualquer, como desculpa dos olhos pisados e do cabelo em desalinho; sentam-se à mesa sem apetite, com um modo pasmado...291
Deste modo, os pais deveriam recomendar os bons livros, para que as mulheres tivessem uma educação sólida:
[...] se o pai as acostumasse aos bons livros; se, em vez de os apontar como nocivos, os buscasse como profícuos, escolhendo-os criteriosamente; se lhes fizesse
290 ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das Noivas... Op. cit., p.35. 291
compreender as mais brilhantes páginas da história, se guiasse o espírito indeciso das crianças pelo caminho honesto da verdade e da franqueza; se as fizesse estudar e meditar bons autores, apontando-lhes belezas ou defeitos, e criando-lhes uma educação perfeitamente sólida, elas não leriam por certo contos mal traduzidos nem pouco morais e fugiriam espontaneamente de gastar o seu tempo e de estragar o seu gosto. 292
No entanto, segundo Lajolo e Zilberman, Júlia Lopes de Almeida manteve o discurso prescritivo que restringiu as leituras, censurando obras que não tinham um fundo moral ou pragmático e condenou ainda, os textos ditos escapistas.293 A leitura desses, tornava “a alma suja pelas novelas prejudiciais, insalubres, recheadas de aventuras românticas e de heróis perigosos”. 294
Cabe também mencionar que a escritora, como já visto anteriormente,295 escreveu grande parte de seus livros sob a forma de romances-folhetins, mas criticou e constatou que as senhoras só liam seção literária, nada mais além destes.
É raro encontrarem-se nas nossas salas duas senhoras que falem de literatura, mostrando interesse pelos bons autores, principalmente pelos de seu país! Do jornal leem o folhetim, isto é, romance de enredo, onde as deleitam as cenas imprevistas, as astúcias de lacaios e de agentes falsos, os véus negros de adúlteras em entrevistas amorosas, e os lampejos de espadas no campo da honra!
Mas por que é que deixamos arrastar por uma torrente assim tão turva e tão falsa?296
A resposta da escritora é imediata. Creditou a culpa aos pais que são indiferentes às leituras de seus filhos, ao permitir a estes a escolha ao acaso da biblioteca, “envenenando-se com todas as paixões de Montepin, e chorando em todos os duelos de Ponson Du Terrail”297. Pode-se supor que a escritora ao invés de priorizar histórias cheias de peripécias e aventuras extraordinárias, deu atenção às de cunho moral e pragmático, fato no mínimo curioso, visto que as obras publicadas em folhetins de Júlia Lopes são repletas de aventuras amorosas e romanescas.
Neste sentido, percebe-se que a “boa leitura” era essencial para o bem-estar do lar e da própria vida social, pois os livros influenciavam diretamente na administração doméstica. “O
292 Idem. 293
LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. A formação da... Op. cit. p. 263.
294 ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das Noivas... Op. cit., p.36.
295 Cf. o sub-capítulo 2.5 “Da importância dos Romances-Folhetins às figuras femininas em Júlia Lopes de
Almeida”.
296
livro é um amigo; nele temos exemplos e conselhos, nele um espelho onde tanto as nossas virtudes como os nossos erros se refletem. Repudiá-lo seria loucura; escolhê-lo é sensato”. 298
O elogio de escritores do século XIX, também fez parte de seu repertório. Há a sugestão da leitura de autores franceses como sendo saudável e instrutiva para as mulheres. Também lembrado por Eleonora de Luca299, é interessante observar, como essas sugestões são realizadas de forma a dar uma ideia bastante física, pelo uso da imagem da “estante”, daquilo que deveria ser uma “biblioteca feminina”:
A estante de uma mulher de espírito e de coração, isto é, de uma mulher habilitada a aprender e conservar o que ler; que souber que isso a instrui, a torna apta para dirigir a educação dos filhos, dando-lhe superioridade e largueza de vistas; a estante de uma mulher inteligente e cuidadosa, que ama os seus livros, não como um mero adorno de gabinete, mas como a uns mestres sempre consoladores e sempre justos, essa estante é um altar onde o seu pensamento vai, cheio de fé, pedir amparo numa hora de desalento, e conselho num momento de dúvida.
E o doce Michelet, o santo Michelet virá iluminar a sua ideia escura; ele lhe dirá: La femme est une autel; la femme est une école; e mostrar-lhe-á como e porque é um altar, como e porque é uma escola (...) Spencer, Edgar Quinet, todos os que se curvaram para as crianças com um beijo ou uma esmola; todos os que apontaram à mulher o caminho da justiça, do amor e do bem, daí a guiarão através dos labirintos traidores da vida, sem hesitações nem temores. (grifos da autora) 300
Quanto à citação dos autores, Edgar Quinet (1803-1875) foi escritor, historiador e político francês conhecido por suas ideias anticlericais e pela defesa do republicanismo; conviveu com Michelet e com o filósofo Victor Cousin (1792-1867); entre suas obras de grande importância destaca-se La création (1870), compêndio inspirado nas ideias de Darwin.
Já as frases alusivas a Jules Michelet (1789-1879), merecem uma citação integral, pois se encontram em La femme (1859),301 obra que privilegia a educação feminina. Nesta, o autor também teoriza acerca dos atributos altruístas do sexo feminino em geral. Assim:
Educar uma filha é educar a própria sociedade. A sociedade precede da família, cuja harmonia é a mulher. Educar uma filha é uma obra sublime e desinteressada. Pois tu só crias, ó mãe, para que ela possa deixar-te e fazer-te sangrar o coração. Ela está destinada a outro. Viverá para os outros, não para ti e não para ela. É esse caráter relativo que a põe acima do homem e faz dela uma religião. Ela é a chama do amor e
297 Idem. p.37. 298
Idem p.38.
299 Cf. DE LUCA, Leonora. Amazonas… Op. cit. p.186.
300 ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das Noivas... Op. cit., (p.38-39).
301 Há a tradução brasileira feita por Maria Ermantina Galvão G. Pereira, pela editora Martins Fontes Cf. JULES,
a chama do lar. É o berço do futuro, é a escola, outro berço. Em uma palavra: Ela é
o altar. (grifos do autor). 302
O historiador francês ainda aparece na crônica intitulada “As Aves”, na qual é lembrado como o consolador.
Michelet, o consolador, o justo, o bom Michelet, que tantos e tão bons conselhos deu aos homens, voltou um dia o seu olhar de pai para os pássaros e escreveu-lhes a história, longa e ternamente, mostrando a sua superioridade, o seu mérito, o seu grande valor. L’oiseau é um livro deliciante, inocente, casto e bom. Ensina a amar, a ver nessa legião que chilreia nas árvores, nos telhados , nas florestas, sobre o manto fofo das gramas ou sobre águas profundas do mar, exemplos de firmeza, de amor e de abnegação. 303
No entanto, de não menos importância, no segmento intitulado “Educação”, há a citação de Spencer. Segundo a escritora:
O povo já começa a ver que a condição principal para o bom êxito da vida, ‘é ser um bom animal’.
Diz isto Spencer, no seu utilíssimo livro – Educação.
Dar força ao corpo, eis aí, portanto, minhas amigas, o primeiro cuidado que devemos ter para com os nossos filhos. Deixá-los correr, saltar, fazer ginástica, rir, encher os pulmões de ar livre, perder inteligentemente o tempo. O que nos compete, acima de tudo, é olhar pela sua boa higiene e, sem que eles dêem por tal, como todo o jeito, irmos guiando tenazmente a sua educação através dos folguedos infantis.304
Apesar de discutido no segundo capítulo305, é oportuno lembrar novamente, que as obras de Herbert Spencer (1820-1903) eram leitura obrigatória nos círculos médicos. Pode-se supor que o pai de Júlia Lopes, o médico Dr. Valentim, tenha aconselhado a literata a ler tais livros. Esses foram de suma importância para as mães brasileiras, no desenvolvimento de uma prática de exercícios físicos para as crianças.
Outro aspecto importante a ser destacado a respeito do Livro das Noivas é a concepção de trabalho da mulher. Ao se projetar uma situação futura, próxima ou distante, em que pai ou marido fosse acometido de morte, sublinhou a escritora:
302 Idem. p. 84.
303 ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das Noivas... Op. cit., p. 105. 304 Idem. p. 115.
305
Convenci-me hoje de que todas as mulheres devem ter uma profissão. Conheço duas senhoras desgraçadas. Uma ficou órfã, a outra viúva, e nenhuma está habilitada a bem ganhar a vida. Lembrei-lhes o comércio. Não sabem contabilidade. Lembrei- lhes a tipografia, a telegrafia, a gravura, a farmácia, mas de que expedientes se hão de valer para sustentar a família enquanto estudem? Este exemplo fez-me tremer. Se eu tiver filhas... por Deus! Que hei de prepará-las para poderem vencer estas dificuldades!306
Em resumo, é sob a perspectiva da figura materna, sobremaneira valorizada pela sociedade burguesa oitocentista, que Júlia reivindicava a instrução da mulher. A mãe que fosse instruída podia orientar melhor os filhos e, cumpriria a sua missão. Assim, ao encerrar a crônica dedicada à leitura, finalizou o assunto com uma convocação: “Vamos! Minhas amigas, comecemos a ler, mas com cuidado”.307 Ainda nas palavra de Lajolo e Zilberman, o apelo de Júlia Lopes mais uma vez limita a circulação do livro. “O performativo em primeira pessoa do nós, sustado pela adversativa, é o travo ideológico do preconceito de que pais e maridos revestiam a escrita e a leitura, quando, no início do século, impediam filhas e esposas de aprender a escrever e ler”.308 Adaptado para a sociedade do final do século XIX, ler e escrever são requisitos obrigatórios, mas seriam condicionados às necessidades da mulher e aos conteúdos de tais obras.
Por fim, cabe ressaltar que a escritora Júlia Lopes de Almeida não participava do pensamento do resto da intelectualidade da época. Cabe lembrar que, muitos intelectuais creditaram a Filinto a alcunha de “acadêmico com sorte”, ao eleger Júlia Lopes como merecedora da vinculação à Academia Brasileira de Letras. O que é negado pela escritora:
Há algumas mulheres que desejam para esposos homens de inteligência inferior a sua. Julgam isso uma probabilidade de ventura, demonstrando assim um egoísmo quase grosseiro. Que prova isso? Que a mulher quer dominar quand même, quer ser temida, quer ser respeitada pelo marido, não pelo amor, não pela sua fragilidade e doçura, mas pelo medo, o vergonhoso medo de ser mais ignorante e menos polido que ela.
A mim então parece-me que deve ser o contrário; que do lado do homem, o mais forte, o responsável, o chefe, é que deve estar, mesmo para a alegria e conforto da nossa alma, a superioridade intelectual.309
306 ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das Noivas... Op. cit., p. 128. 307 Idem, p. 39.
308 LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. A formação da... p. 264. 309