D. Değişikliği Saklı Tutma Kayıtları İçerik Denetimi
2. İşçinin gördüğü işin niteliğinin değiştirilmesi
Foto 17 – Círculo de cultura de paz da AZC – Núcleo Barra do Ceará ( 2014)
A escola de capoeira geralmente tem sua sede própria. É onde o Mestre recebe
seus alunos para repassar seus conhecimentos práticos e teóricos. Porém, alguns alunos mais graduados, podem receber a autorização para ministrar aulas, sempre com o acompanhamento de seu Mestre. Essas aulas funcionarão em outros espaços, como escolas do ensino formal, clubes, academias de ginástica.
Independente de onde aconteçam, sempre será possível encontrar no piso do salão onde funcionam as aulas, um círculo pintado com mais ou menos três metros de diâmetro onde ocorre a roda de capoeira. No lugar onde a bateria se posicionará para tocar os berimbaus, pandeiros e atabaques, pode ser visto estampado o Símbolo de Salomão, também chamado de Estrela de Davi, que funciona no imaginário dos capoeiristas, como objeto de proteção para os jogadores durante os jogos que serão realizados. Nas paredes, algumas decorações com materiais e fotos relacionados à capoeira.
Os alunos vão chegando e formando pequenos grupos, onde individualmente começam a mostrar uns para os outros, golpes e movimentos que realizam com mais habilidade, ocasião em que aproveitam para aprimorá-los, caso estejam com alguma deficiência. Aqueles que ainda não conseguem executá-los, observam e tentam colocá-los em prática.
Em certo momento, o mestre posiciona-se em um dos lados do salão e todos compreendem que é hora de iniciar a aula. Os alunos se distribuem em filas, acocoram-se e ao
comando do mestre todos juntam pronunciam o “salve”, seguido do nome do grupo. É mais um ritual em que mediante uma saudação inicial dirigida aos antigos capoeiristas, pede-se licença aos que vieram antes, para começar a aula.
Após o treino de golpes e movimentações, ocorre a roda de capoeira, espaço em que os alunos têm a possibilidade de exercitar o que vêm aprendendo diariamente. É a hora dos corpos travarem diálogos, através de perguntas e respostas simbolizadas pelos vários movimentos aplicados durante o jogo. Roda encerrada e o mestre finaliza essa etapa para iniciar outra. É o momento em que a conversa gira em torno de algum aspecto histórico da capoeira, ou sobre seus fundamentos, ou até mesmo a respeito de algum herói capoeirista. O objetivo aqui é deixar na mente dos alunos alguns pontos importantes para a reflexão, com a finalidade de que o conhecimento gerado possa vir a servir como meio de crescimento para todos.
Na maioria das escolas de capoeira essa será a dinâmica encontrada no cotidiano pedagógico dos seus praticantes. É bem diferenciado do dia a dia da escola formal, mas relembro ancorada em Freire (1996, p. 44) da importância das experiências informais para a realização do aprendizado:
Se tivesse claro para nós que foi aprendendo que aprendemos ser possível ensinar, teríamos entendido com facilidade a importância das experiências informais nas ruas, nas praças, no trabalho, nas salas de aula das escolas, nos pátios dos recreios, em que vários gestos dos alunos, de pessoal administrativo, de pessoal docente se cruzam cheio de significados.
Dessa maneira é que a experiência informal, vivenciada na escola de capoeira é uma experiência válida e muito rica para o aprendizado de alunos e mestres, de quem ensina e de quem aprende. É através da capoeira com todo o seu universo recheado de símbolos, rituais, gestos corporais, musicalidade, seus conteúdos histórico-culturais e sociais que seus praticantes fazem a “leitura do mundo” para compreenderem melhor a realidade, e chegar a importantes conclusões sobre o mundo e os aspectos que o compõem (PERKOV, 2012).
Pautada na ideia de que “vida” e “aprendizagem” se confundem, concordo com a afirmativa de que o conhecimento se desenvolve e se amplia durante a vida em todos os lugares e com a colaboração de inúmeros mestres (STRECK, 2008). A capoeira faz parte da minha existência há muitos anos, assim como da vida de inúmeras pessoas. Dessa forma é que a roda da capoeira, para nós seus adeptos, representa a roda da vida.
A roda de capoeira, segundo Perkov (2012, p. 23), “é o lugar onde, através do corpo, surge a escola de capoeira, fruto do conhecimento empírico e das experiências vividas”. O autor acrescenta: “a escola de capoeira teve sua origem num estado de natureza, e desse estado de natureza foram extraídos os elementos que formaram seus saberes, pilares da „nossa capoeira-arte-luta” (PERKOV, 2012, p. 24).
Perkov (2012) recorda que a capoeira teve seu surgimento vinculado a lógica da apropriação e da violência, permanecendo por muito tempo, e consequentemente, negada a sua prática. Seus avanços no decorrer do tempo, foram significativos, embora muito precise ser feito em termos de efetivação de políticas públicas que possibilite a exploração de todo seu potencial artístico, desportivo, cultural e educativo.
No capítulo II desse estudo, refiz os passos da capoeira, desde sua origem até o momento atual, reconstruindo a trajetória dessa escola, com o intuito de conduzir o entendimento do processo histórico não como determinação, mas como possibilidade (FREIRE, 1996, p.), baseada no ideal que acalento de ampliar os esforços para a construção de uma sociedade em que todos possam viver a paz, a fraternidade e justiça.
Os estudos de Perkov (2012, p. 26) apontam nas práticas contemporâneas da capoeira diversos tipos de experiências educativas, dos quais dois modelos se sobressaem contraditoriamente: por um lado, uma escola problematizadora e propiciadora de transformação e por outro, uma escola reprodutora e adaptadora ao sistema capitalista.
Escolhi o primeiro modelo: a escola de capoeira em que seus integrantes possam dialogar e encontrar soluções para os problemas que ocorrem no cotidiano do meio capoeirista, e para, além disso, pois como frisei anteriormente, a capoeira faz parte da vida, e como tal, deve prestar sua colaboração em todos os setores da sociedade.
Seguindo esse pensamento e a programação estabelecida, os educadores, após a realização das oficinas em seus núcleos de ensino, partiram para a fase seguinte de suas ações como disseminadores da paz: implantar os círculos de cultura de paz na AZC. Assim, na tradicional conversa que finaliza a roda, foram introduzidos e debatidos assuntos pertinentes à paz nas escolas de capoeira ou ao universo capoeirista. A intenção seria, depois de algum tempo, com a receptividade dos alunos com relação ao círculo de cultura de paz, inserir assuntos relacionados à paz na vida de forma geral. Conforme já anunciei, a inspiração para essa tarefa veio dos círculos de cultura de Freire (1983) e das concepções de Guimarães (2004, 2006).
É necessário recordar que a elaboração dos círculos de cultura se deu em meio aos trabalhos desenvolvidos no Movimento de Cultura Popular (MCP), da Universidade Federal de Pernambuco, coordenado por Paulo Freire, na década de 60. Esse autor desenvolveu sua proposta de educação popular, baseado na concepção do homem como um ser histórico e cultural. Assim, propôs a formação dos círculos de cultura como instrumento de expressão, aprendizagem e participação; espaço em que é possível a interação da cultura popular, a produção e obtenção de conhecimento, a partir da ação dialógica estabelecida entre educadores e educandos. Para além da alfabetização, essa proposta intenciona o desenvolvimento de atitudes de ação-reflexão.
Tem como metodologia principal o diálogo, reunindo pessoas do povo e um coordenador em círculo, na tarefa da conquista da linguagem, a partir do debate de uma palavra geradora. O processo dialógico permite aos participantes expressarem seus sentimentos e opiniões de si, dos outros e do mundo, potencializando o compromisso que assumem, de ao desvelar um tema, apreendê-lo em sua essência, rompendo com sua aparência enganosa, na intenção de construírem caminhos comuns para dar conta de suas dificuldades (FREIRE, 1983).
Para alcançar esse objetivo, o círculo de cultura desenvolve-se de forma simplificada, por meio de três etapas que se interrelacionam:
a) Etapa da investigação: nessa fase ocorre a busca por temas ou palavras geradoras extraídas do universo cotidiano dos participantes. Através dos temas geradores os indivíduos podem desvelar os níveis de compreensão de sua própria realidade, inserindo-a em contextos mais abrangentes.
b) Etapa da tematização: aqui os temas geradores são codificados e descodificados. A codificação é a representação de uma situação da vida dos participantes e tem relação com a palavra geradora, com o tema que se quer estudar. Na decodificação são formulados os entendimentos sobre a temática em questão. É o momento em que os sujeitos tomam consciência do mundo vivido.
c) Etapa da problematização: com novos conhecimentos, os educandos são inspirados pelos educadores a superar uma visão mágica e acrítica do mundo, permutando-a por uma visão crítica, uma postura mais conscientizada, partindo para a transformação do contexto vivido.
A revisão dessas etapas, deixa claro, que a educação concebida nos círculos de cultura, apresenta-se comprometida com um ideal de humanização e transformação do sujeito,
com o intuito do homem deixar de ser espectador no mundo, assumindo as suas possibilidades “como um ser criador e recriador, que através do trabalho vai alterando a realidade (FREIRE, 1979, p. 132).
Loureiro e Franco (2012, p. 12) salientam que o círculo de cultura de Freire (1983) é uma proposta metodológica, atualmente compreendida sob designações e intensidades distintas em espaços educativos formais ou não formais, geralmente “como fonte primária de inspiração (explicitada ou não) para efetivar ações coletivas e de promoção de educação entre diversos sujeitos”.
Para Guimarães (2006) os círculos de cultura podem contribuir num processo de educação para a paz, seja através do acento participativo, dialógico e democrático que essa metodologia traz em seu cerne, seja pela probabilidade de dar à educação para a paz visibilidade e concretude. O autor acrescenta que os círculos de cultura possibilitam a reunião de pessoas em torno da preocupação comum pela paz, apontando para a humanidade a tarefa de realizá-la. Nesse sentido, Guimarães (2006, p. 17-18) apresenta a proposta de recriar os círculos de cultura de Paulo Freire (1983) em círculos de cultura de paz, espaço em que os sujeitos, não só se empenharão em debater suas concepções e percepções sobre a paz, mas onde também vão pensar e organizar ações para sua efetivação:
Os círculos de cultura de paz apresentam-se assim, como uma possibilidade de conduzir a educação para a paz, dentro e fora do meio escolar. Nas escolas, reunindo estudantes e professores no protagonismo pela paz. Fora delas, articulando a comunidade como um todo, ou mesmo, segmentos específicos, como grupos organizados.
Seguindo essa sugestão, os círculos de cultura de paz da AZC passariam a funcionar no término da roda de capoeira. Seria o lugar em que os participantes, independente da posição, se mestre, educador ou aluno, pudessem dialogar, aprender e ensinar novas formas, solidárias e coletivas, de pensar e agir no mundo na construção da paz. Interessante reforçar que a iniciativa dos círculos de cultura na roda de capoeira, na visão de Perkov (2012, p. 26) também possibilita aos alunos a “fazer e refazer a leitura do mundo, de forma criativa, pela via corporal”, através dos vários jogos.
Também é importante frisar que o itinerário dos círculos de cultura de Freire (1983) e as ideias de Guimarães (2006) serviram como inspiração para a elaboração dos círculos de cultura de paz na AZC, sendo adaptados para a realidade da roda de capoeira e para o objetivo perseguido pelos educadores, de gerar conhecimento, reflexão e ação
transformadora relacionadas aos temas geradores vinculados ao ideário da paz dentro da instituição.
Buscando atingir esses objetivos, os educadores estabeleceram durante o processo formativo, na oficina Multiplicando os Círculos de Cultura de Paz, alguns aspectos a serem observados nos círculos de cultura de paz da AZC:
1) O facilitador do processo, no caso o mestre ou o educador do núcleo, pode expressar suas opiniões e sentimentos da mesma maneira que os outros participantes. Esse item apresenta um diferencial dos círculos de cultura de Freire (1983). Nestes, não existe alguém que ensina, mas um coordenador que busca propiciar as condições adequadas para o desenvolvimento da metodologia, fornecendo aos participantes as informações solicitadas, procurando não intervir no diálogo.
2)O primeiro tema gerador no qual seriam centradas as discussões seria sugerido pelos educadores. Os demais temas seriam escolhidos pelos alunos no final de cada círculo de cultura de paz da AZC, sempre relacionados à capoeira e a paz. 3) Três etapas compõem os círculos de cultura de paz da AZC, com denominações similares as fases dos círculos de cultura de Freire (1983), mas com finalidades simplificadas e específicas para a roda de capoeira:
a) Etapa de investigação: o tema gerador é apresentado e os educadores incentivam os alunos a expressarem suas ideias e sentimentos referentes às palavras geradores que deram origem ao tema em questão.
b) Etapa da tematização: são selecionados três alunos para descre verem situações vivenciadas no cotidiano dos núcleos da AZC, por eles ou por outros educandos, que se relacionem com o tema gerador (codificação). Em seguida, o grupo se pronuncia sobre esses casos ou pode acrescentar outras ocorrências. É a hora de se reconhecerem nas situações expostas. De desvelar a realidade que estava oculta. É hora de romper com o silencio ou a indiferença. Aqui educadores e alunos podem colaborar com suas próprias experiências, percepções e sentimentos ou outras informações que ajudem na compreensão dessa realidade e na elaboração do entendimento com relação ao tema em questão (decodificação).
c) Etapa da problematização: com as informações adquiridas através das situações expostas, mais conscientes sobre a realidade da instituição e de seus membros com relação ao assunto estudado, com uma visão mais crítica, educadores e alunos são impulsionados a refletir em ações transformadoras do contexto vivido e convidados a pô-las em prática.
Foi acertado que os círculos de cultura de paz seriam realizados mensalmente nos diversos núcleos de ensino da instituição. Os educadores também definiram o primeiro tema gerador: ações de paz na AZC. Os alunos foram previamente informados sobre o uso desse importante instrumento de aprendizagem, sobre as etapas que lhe compõe e suas finalidades. Foi montado um calendário para realização dos círculos de cultura de paz, para que ocorressem um de cada vez, evitando assim o choque de horários, permitindo que os educadores pudessem participar das atividades nos demais espaços da AZC.
Acompanhei esses momentos iniciais da implantação do círculo de cultura de paz, e julgo ser esta a fase mais importante para fortalecer as possiblidades da AZC, como uma escola que enseja o desenvolvimento de uma Cultura de Paz, e também por ter proporcionado a visibilidade da capoeira como instrumento educativo, pouco explorado ainda pelos seus adeptos, estudiosos e órgãos voltados para a educação. Calcada nessa justificativa, apresento em seguida, as percepções e descobertas ocorridas durante a realização dos primeiros círculos de cultura da AZC.