A função de liquidação de operações financeiras entre duas partes (bilaterais) existe desde a Idade Média, com registros de que essa atividade ocorria nas grandes feiras de Lion138. No Século XVIII, surgiu a ideia de compensação multilateral, originando-se, com isso, a câmara de compensação – cuja implementação, à época, “encontrou as dificuldades que a atipicidade da atividade perante o código civil francês de então impunha”139. Hoje, no Brasil, a compensação multilateral recebeu definição pela Lei nº 10.214/2001 como sendo o
“procedimento destinado à apuração da soma dos resultados bilaterais devedores e credores
de cada participante em relação aos demais”. As Câmaras de Compensação servem, portanto, para garantir o cumprimento das negociações bursáteis em compensação multilateral, sendo que seu objeto, para Marcos Paulo de Almeida Salles140, pode ser assim descrito:
“[...] prestação da compensação de negócios a termo, e portanto também futuros, ou seja: administração de contratos de bolsa, com prestação ou execução diferida, de modo a receber as margens e proceder aos ajustes diários; sem prejuízo da prática das compensações também dos negócios à vista, uma vez que elas são responsáveis pelo acompanhamento de todas as operações, elencando-as em relação a cada um dos comissários (ou sociedades corretoras) que entre si têm posições sempre credoras e devedoras em razão das vendas e compras efetuadas em um mesmo dia”.
Outra função igualmente importante da Câmara de Compensação consiste na custódia (depósito), em favor dos investidores, dos valores mobiliários negociados no
138
VAUPLANE, Hubert de; e BORNET, Jean Pierre. Droit de la Bourse, Litec: Paris, 1994 apud SOUZA JÚNIOR, Francisco Satiro. Regime Jurídico das Opções Negociadas em Bolsas de Valores, 2002. 185 fls. Tese (Doutorado). Universidade de São Paulo -Faculdade de Direito, Programa de Pós Graduação, São Paulo. Orientador: Waldírio Bulgarelli, p. 120.
139
Cf. VAUPLANE, Hubert de; e BORNET, Jean Pierre. Droit de la Bourse, Litec: Paris, 1994 apud SOUZA JÚNIOR, Francisco Satiro. Regime Jurídico das Opções Negociadas em Bolsas de Valores, 2002. 185 fls. Tese (Doutorado). Universidade de São Paulo -Faculdade de Direito, Programa de Pós Graduação, São Paulo. Orientador: Waldírio Bulgarelli, p. 120.
140 SALLES, Marcos Paulo de Almeida. O Contrato Futuro. São Paulo: Cultura Editores Associados, 2000,
ambiente de bolsa de valores141. Isso significa que o patrimônio da sociedade corretora ou distribuidora de valores mobiliários não se confunde com o patrimônio do investidor, razão pela qual, na hipótese de falência ou de impedimento da corretora de operar no mercado de capitais, seus títulos e valores mobiliários continuariam preservados, sem risco de perda. Bastaria ao investidor escolher uma nova corretora para intermediá-lo nas operações bursáteis. Antes da CBLC (hoje incorporada pela BM&FBovespa), a corretora de valores mobiliários era quem custodiava as ações, razão pela qual, na hipótese de falência da corretora, competiria ao investidor propor ação de restituição das ações custodiadas ou, alternativamente, a cotação das ações do dia da decretação de liquidação da sociedade corretora, conforme entendimentos jurisprudenciais da época142-143.
As Câmaras de Compensação podem ser constituídas através de sociedades empresárias autônomas ou, então, ser setores ou departamentos dentro de uma bolsa ou entidade de mercado. No Brasil, a função de Câmara de Compensação, que até 2008 era exercida pela CBLC, foi completamente absorvida pela BM&FBovespa144 no ato de incorporação societária, consoante Assembleia Geral Extraordinária realizada em
141 Lei nº 6.385/1966. Art. 24. “Compete à Comissão autorizar a atividade de custódia de valores mobiliários,
cujo exercício será privativo das instituições financeiras, entidades de compensação e das entidades autorizadas, na forma da lei, a prestar serviços de depósito centralizado. Parágrafo Único. Considera-se custódia de valores mobiliários o depósito para guarda, recebimento de dividendos e bonificações, resgate, amortizações ou reembolso, e exercício de direitos de subscrição, sem que o depositário, tenha poderes, salvo autorização expressa do depositante em cada caso, para aliena os valores mobiliários depositados ou reaplicar as importâncias recebidas”.
142
“Falência. Restituição. Ações custodiadas. Atendimento com as ações ou, na impossibilidade, de seu valor
em dinheiro. Cotação do dia da liquidação e não do dia da quebra”. (Apelação Cível nº 251.317, j. em 11.6.1976, rel. Des. Sousa Lima – RJTJSP 41/74).
143
“Falência. Ações custodiadas. Restituição. Na impossibilidade de entrega das próprias ações, equivalente em
dinheiro deve ser apurado pela cotação do dia da liquidação da corretora de valores mobiliários falida. Adoção da cotação à época da representação da habilitação de crédito. Inadmissibilidade. Falta de amparo legal. Decisão mantida. Recurso desprovido”. (TJSP. AI 0417311-90.2010.826.0000, Rel. Des. Rui Cascaldi. J. 29.03.2011)
144 “A partir de 2002, com a implantação do Sistema de Pagamentos Brasileiro (o SPB) e suportada pela Lei nº
10.214, de 27.03.2001, a BM&F alargou suas atividades de clearing de modo a abarcar, além da liquidação de operações com derivativos, também a liquidação de operações no mercado de câmbio interbancário (em princípio não relacionadas a atividades bursáteis) e, posteriormente, a liquidação de operações com títulos públicos. Para o suporte a tais atividades foi criado, ainda, como subsidiária integral da BM&F, um banco liquidante – o Banco BM&F e Serviços de Liquidação e Custódia S.A. -, nos termos e para os fins da Resolução CMN 3.165, de 29.01.2004. No que tange ao desenvolvimento de novos sistemas de negociação, também a partir de 2002, com base em um novo acordo operacional, a BM&F adquiriu da DVRJ os direitos sobre o já referido Sixbex (havendo adquirido, na mesma ocasião, títulos de emissão da BVRJ). Em 2006, iniciam-se as negociações, no pregão viva-voz, de operações de câmbio no mercado interbancário (a vista). Além disso, da mesma forma que a Bovespa, também a BM&F vem desenvolvendo novos sistemas de negociação, inclusive em meio eletrônico”. (YAZBEK, Otávio. A regulamentação das bolsas de valores e das bolsas de mercadorias e futuros e as novas atribuições da Comissão de Valores Mobiliário. Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais. Vol. 34. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. p. 212).
28/11/2008145. Analisaremos mais à frente a relação jurídica que a Câmara de Compensação estabelece com os Agentes de Compensação e com os Agentes de Custódia.