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2. OĞUZ ATAY’IN ROMAN VE ÖYKÜLERİNDE PSİKOLOJİK TİPLER

2.1. İçedönük Tipler

2.1.4. İçedönük Sezgisel Tip

No princípio do século XVIII, a Capitania de Pernambuco, tinha na vila de Olinda o seu principal pólo irradiador de missionários católicos394 que partiam em direção a regiões distantes do litoral, na busca de encontrar povos catequizáveis no sertão. Olinda também era a então sede do bispado de Pernambuco. A partir de um acerto entre o bispo D. Frei Francisco de Lima e o seu principal assessor, João Máximo de Oliveira, algo foi projetado, a revelia da Irmandade do Rosário da cidade, envolvendo as instalações do templo daquela Confraria. Em 1701 o arcedíago da Sé de Olinda, João Máximo de Oliveira, fez um requerimento ao rei D. Pedro II.

João Máximo, enquanto assessor do bispo, e também procurador geral das missões dos padres do hábito de São Pedro, foi nomeado administrador de uma hospedagem ou acolhimento destinado aos padres daquela ordem, que foi instalada na igreja do Rosário dos Pretos de Olinda. Em seu requerimento, João Máximo de Oliveira, comunica ao rei sua condição e informa que, para melhor condução dos trabalhos daquele asilo, doou todos os seus bens para a igreja do Rosário. O requerimento era para que o rei confirmasse a sua condição de administrador do hospício erigido na Igreja dos “pretos”, nos seguintes termos:

394 Como vimos na página 77, em Olinda, desde o final século XVI, estavam edificados um convento carmelita, um franciscano, um beneditino e um colégio jesuíta, instituições que formavam naquela vila o caráter missionário.

Diz o P. João Maximo de Olivrª Arcedíago da Seé de Olinda q’ o Bispo da dita Seé o nomeou procurador geral das Missois dos Sacerdotes do Habito de São Pedro daquelle Bispado Administrador do Hospício que para elles se erigio na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos da dita Cidade ao qual fes doação de todos os seos bens para que melhor se conseguise e estabelesese aquela obra santa... 395

A idéia de João Máximo, com o aval do bispo, era vincular os bens doados à igreja do Rosário, para que eles pudessem ser explorados economicamente e gerassem renda que se destinaria ao sustento dos administradores do hospício que o sucedessem. Esta condição seria definitiva. Os seus sucessores, além de pertencerem ao hábito de São Pedro, deveriam ser investidos por indicação do bispo.

Na escritura de doação existia uma lista dos bens doados à igreja do Rosário e, por extensão, ao hospício, que lá já estava instalado. Neste documento havia a afirmação de que o administrador do hospício também administraria a igreja do Rosário. A escritura foi realizada em Olinda, a 23 de Maio de 1700, numa reunião no palácio do bispo. A lista dos bens doados segue a seguir:

... que entre os maiz benz que de seu tem, e possue de que está de mansa e pasifica pose; que são os seguintes; huas cazas de pedra e cal térreas de fronte da Igrª de São Pedro Mártir nesta cidade ... hua morada de cazaz de fronte a Igrª de Nossa Senhora do Rozario dos Pretos, e por detrás da tribuna da ditta Igreja outra morada de cazas pequenas ... 396

Aquela escritura previa também que os ditos administradores do hospício do hábito de São Pedro, se obrigariam pessoalmente ou nomeariam algum padre daquele hábito para que em seu lugar cumprisse todos os terços e outros serviços costumeiros realizados na igreja do Rosário de Olinda:

... e será sempre em hum dos Misionarios do Habito de São Pedro do melhor talento, letras e virtude, que tiver asistido naz Missoinz do Sertão, o qual será obrigado a fazer o terço, e os mais exercícios que se costumão fazer na mesma Igrª de Nossa Senhora do Rozario... 397

Percebe-se o cuidado com a manutenção dos trabalhos religiosos que eram feitos na igreja do Rosário. Acreditamos que este aspecto envolvia a rotina da Irmandade, ainda que

395 AHU_ACU_CU_015, Cx 19, D. 1870. REQUERIMENTO do padre e arcedíago da Sé de Olinda, João Máximo de Oliveira, ao rei D. Pedro II. Anterior a 14/03/1701.

396 Idem. 397 Idem.

não se faça menção a ela. Contudo, o que queremos evidenciar, é a atribuição de um novo sentido ao espaço da igreja do Rosário, certamente diferente, daquele que os edificadores da igreja, a saber os homens pretos da vila irmanados em torno da Santa do Rosário, haviam pensado quando a construíram. E esta evidência significou uma usurpação daquele espaço. Não conseguimos, nesta pesquisa, perceber o tempo que durou o hospício do hábito de São Pedro. Entretanto, o processo de doação de bens à igreja de Nossa Senhora do Rosário por parte de João Máximo de Oliveira, apesar de algumas ressalvas apresentadas pelo provedor da Fazenda Real, teve o apoio do bispo, e também recebeu parecer favorável do Ouvidor Geral de Pernambuco, Manoel da Costa Ribeiro.398

Um documento sobre esta questão, apresentado por Maria Aparecida Quintão, indica que a Irmandade do Rosário de Olinda não ficou conformada com o destino dado a sua capela. No documento os irmãos solicitam ao governador de Pernambuco que trabalhasse para que sua igreja não se tornasse um convento. Isso em Outubro de 1707, portanto, mais de cinco anos depois do envio da carta de João Máximo ao rei.399 Esse fato é um exemplo da condição de subalternidade que pairava sobre os membros da Irmandade do Rosário de Olinda no início do Setecentos, quando pessoas externas àquela Irmandade procuraram decidir o futuro de sua capela, em detrimento da vontade da Associação.

No mesmo período, em Recife, a Irmandade do Rosário erigida naquela cidade, buscou reafirmar o direito que possuía sobre o seu templo, erguido a partir do esforço da própria Irmandade. Em 1696, a igreja do Rosário da vila do Recife foi solicitada pelo bispo Dom Frey Francisco de Lima, o mesmo do caso do hospício instalado na igreja do Rosário de Olinda, para que provisoriamente pudesse abrigar o Santíssimo Sacramento, até que se construísse uma nova igreja matriz na vila, que seria o seu local definitivo. Verificou o bispo que os moradores de Santo Antônio estavam desfalcados pela falta dos sacramentos e por isso fez aquela solicitação à Irmandade do Rosário do Recife:

noz rezolvemos mudar o Santíssimo Sacramento para esse Ressife para melhor e com mais promptidão se accodir aos infermos, e com Beneplácito da Irmandade de Nossa Senhora do Rozario puzemos o Sacramento na ditta Igreja; e que a Irmandade consentio com Zello... por Empréstimo em quanto se não eregia Freguezia...” 400

398 AHU_ACU_CU_015, Cx 19, D. 1870. REQUERIMENTO do padre e arcedíago da Sé de Olinda, João Máximo de Oliveira, ao rei D. Pedro II. Anterior a 14/03/1701.

399 QUINTÃO, Maria Aparecida. Op. cit., p. 106.

400 AHU_ACL_CU_015, Cx. 22, D. 2018. REQUERIMENTO dos Irmãos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Recife ao Ouvidor-geral da capitania de Pernambuco pedindo traslado de um termo. Anterior a 09/03/1706.

Desta forma, mais uma vez um templo de irmandade negra passou a ter outro significado social e simbólico: abrigar o Santíssimo Sacramento. Neste caso, percebemos que o pedido do bispo direcionado à Irmandade do Rosário, foi sucedido pela permissão dos “irmãos pretos”, o que sugere que a Irmandade tinha o controle sobre o que estava acontecendo, e mais, queria manter o seu templo como um espaço reservado para as atividades da Confraria. Por isso o consentimento foi feito por empréstimo.

No entanto, passaram-se quase dez anos, desde que o “Santíssimo” havia se mudado para a igreja do Rosário do Recife e não havia avanços na construção da matriz. Por isso a Irmandade do Rosário do Recife procurou se precaver para garantir o controle sobre o templo, ao requerer uma cópia do termo passado em Setembro de 1696, para que de posse de tal documento pudesse ter melhor respaldo legal para afastar qualquer possibilidade de usurpação da igreja pelas autoridades ou pela Irmandade do Senhor, responsável pelo Santíssimo

Sacramento. O termo dizia que:

... em nenhum tempo a Irmandade do Senhor do Aressiffe ou outra qualquer Instituhida pellos Prellados nossos Sucessores, se chamem a posse e prettendão haverse na ditta Igreja com domínio e queyrão uzurpar aos ditos moradores a sua Igreja; Noz e quem em nosso lugar estiver satisfará os ditos Irmaons da Senhora do Rozario, e os concervará na posse e administração da sua dita Igreja... E outrosy declaramos que a dita Irmandade de Nossa Senhora do Rozario dos Pretos emprestarão o vazo em que de prezente está o Sanctissimo Sacramento... 401

O zelo pelo templo, por parte da Irmandade do Rosário do Recife, era tanto que até o vaso onde o “Santíssimo” foi depositado estava declarado neste termo como pertencente à Irmandade, revelando que não era só o imóvel objeto de cuidados por parte das irmandades negras, mas, também as peças móveis do mesmo. Nada poderia ser usurpado. Todo o cuidado era pouco, é possível que a Irmandade do Rosário do Recife tivesse conhecimento do que ocorrera naquele mesmo período com o templo da Irmandade do Rosário de Olinda, que passou a servir como hospício religioso. A prática de se usurpar templos de irmandades negras, não acontecia apenas em Pernambuco, pois, irmandades e sacerdotes investidos de autoridade disputavam, no século XVIII, o controle dos templos de confrarias negras também no Rio de Janeiro, na Bahia e em Minas Gerais.402

401 AHU_ACL_CU_015, Cx. 22, D. 2018. REQUERIMENTO dos Irmãos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Recife ao Ouvidor-geral da capitania de Pernambuco pedindo traslado de um termo. Anterior a 09/03/1706. .

3.3.2 O olhar da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Goiana,