2. OĞUZ ATAY’IN ROMAN VE ÖYKÜLERİNDE PSİKOLOJİK TİPLER
2.1. İçedönük Tipler
2.1.1. İçedönük Düşünen Tip
2.1.1.4. Hikmet Benol
As fontes sobre o número populacional da Capitania de Pernambuco para o século XVIII, não são muitas, e por isso não conseguimos nesta pesquisa fazer um mapa evolutivo da população, como pretendíamos, mas, buscaremos registrar aqui um retrato da população, em alguns momentos específicos, com o intuito de perceber nos números ou enumerações da população, as pistas da comunidade negra no seio da sociedade.
150 Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Arq. 1.2.11. Conselho Ultramarino. CERTIDÃO assinada por Miguel da Cunha Ferreira Souto Maior. 1778, p. 171V e 172.
151 Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Arq. 1.2.11. Conselho Ultramarino. QUADRO informativo sobre a quantidade de escravos de Angola que entraram e saíram de Pernambuco, p. 103V, 104, 104V.
Na descrição da Capitania de Pernambuco, documento do século XVIII, que não precisa o ano, a Capitania é apresentada como um espaço com população formada por “brancos, pretos, mulatos, mamelucos, índios tapuias, caboclos e coribocas”. O documento também define as características dos tipos mestiços que existiam em Pernambuco. O mulato, de acordo com o registro, resultava da mistura entre branco e preto; carijó, índio mais preto; mameluco, índio e branco; e coriboca, mulato e negro.152
Vê-se que entre os mestiços somente o tipo mameluco ocorre sem a participação do negro. Ao que a mestiçagem no século XVIII teria como base o negro, o que representa as interfaces variadas que este grupo poderia ter com os outros dentro do espaço colonial. Os mestiços faziam parte de um grupo que apresentava grande complexidade na sociedade colonial, considerando que as diferenças de cor de pele entre os membros da sociedade colonial ou metropolitana, eram “marcas simbólicas de distinção social”.153
Os mestiços, enquanto indivíduos que resultavam de “mistura de sangue” não apresentavam um fenótipo padrão, de maneira que as investigações de “pureza de sangue” não eram tão rigorosas, dependendo da situação. Na sociedade colonial a estrutura da divisão racial que separaria brancos, negros e mestiços não era tão rígida, quanto uma primeira vista, pode sugerir. Ela também refletia as contradições presentes no espaço colonial, onde, por exemplo, nos regimentos de milícias os soldados deveriam ser brancos, porém muitos eram mulatos, cafuzos ou mamelucos, isso devido a dificuldade de se estabelecer quem era realmente branco. Desta forma se admitiam “brancos de origem duvidosa” entre os pares das milícias.154
Algo semelhante deveria ter ocorrido em relação às irmandades, não as voltadas para o público negro e pardo, que eram obrigadas a aceitar elementos brancos, porém, sobretudo, àquelas voltadas para os brancos. É possível que alguns mestiços tenham tido participação nelas devido aos problemas de investigação do “sangue” dos indivíduos, sendo determinante, nesta análise, muito mais a aparência do que qualquer outra coisa, isto é, a clareza da pele.
Sobre a população da Capitania no século XVIII, visualizamos outro documento que descreve seu perfil a partir dos grupos raciais encontrados em seu espaço. Quando a Capitania era governada por Luiz Diogo Lobo da Silva, um “mapa geral” dos fogos, filhos, filhas, clérigos, pardos forros, pretos forros, agregados, escravos e escravas, capelas, almas,
152 Biblioteca Nacional. Ref. 10, 03, 018. DESCRIÇÃO da Capitania de Pernambuco, século XVIII. 153 REGINALDO, Lucilene. Op. cit., p.148.
freguesias, curatos e vigários, foi confeccionado. Extraindo-se os dados do período entre 1762 e 1763.
Em números absolutos, temos o seguinte quadro para o biênio 1762-1763:
QUADRO 2
Pessoas de ascendência africana em Pernambuco
Pardos forros 4.381 Pardas forras 5.339 Pardos cativos 2.080 Pardas cativas 2.333 Negros forros 3.289 Negras forras 2.264 Negros cativos 12.910 Negras cativas 5.976 TOTAL 38.572
Fonte: Biblioteca Nacional. 03, 01, 038. Mapa Estatístico de Pernambuco. 1763.
Este mapa, apesar de não referir-se diretamente a população branca, cita o número de casados, filhos, filhas, agregados e clérigos. Estas categorias, provavelmente seriam representadas por pessoas brancas, uma vez que o quadro faz questão de definir o número dos indivíduos da “cor” preta e parda155 e sua condição social. O documento afirma que eram 14.538 os casados, 10.259 os filhos, 8.588 as filhas, 954 os agregados e 487 os clérigos. Perfazendo um total de 34.826 indivíduos. 156
Se esta conta se mostra correta, temos na passagem de 1762 para 1763, um universo populacional em Pernambuco com cerca de 73.398 pessoas onde quase 32% era formada por pessoas cativas distribuídas entre pardas e negras. Entre os cativos a maioria era de pessoas negras. Por outro lado entre os livres e forros de Pernambuco, pouco mais de 32% era
155 Pardo no século XVIII, segundo Bluteau, era o indivíduo filho (a) de negro (a) com branco (a). Também poderia ser considerada a cor entre branco e negro. Vocabulário português e latino [1712] apud REGINALDO, Lucilene. Op. cit., p. 149.
formado por pessoas pardas, negras e brancas na condição de agregados. Deste grupo com 16.227 indivíduos, cerca de 9.720 eram pardos, 5.533 negros e 954 agregados.157
Pouco mais de 46% da população era formada por uma “elite” branca, onde se inclui os filhos, as filhas, os clérigos e as mulheres. Portanto, mais da metade da população, aproximadamente 54%, encontrava-se na condição de subalternidade, incluindo-se aí pretos, pardos e brancos pobres.158
Como vimos, a mortalidade entre os escravos era elevada. Os riscos à vida deles começava na travessia do Atlântico, e continuava ao longo da vida de trabalho na América portuguesa. Entretanto um caso chamou a atenção do governador de Pernambuco, José César de Meneses, quando realizava a elaboração de um “mapa de enumeração dos povos” em 1777, que vai contra esta tendência. Tratava-se de um caso de longevidade de uma “preta”, por nome Antonia da Costa que supostamente teria a idade de 130 anos.159
Trazida a presença do governador, que queria tirar a limpo esta informação, a mulher, que era crioula e moradora na freguesia do Recife, respondeu a alguns questionamentos. A impressão inicial do governador, quando a viu, foi achá-la “muito trêmula, com cabelo todo branco...”. Respondia o que lhe era perguntado, dando conta de acontecimentos do século XVII, pelo menos ocorridos há 99 anos. Portanto, se ela não tinha 130 anos, sua idade se aproximava deste número.160
A população de Pernambuco no século XVIII mostrava-se heterogênea.161 A divisão racial ou pela cor da pele dos indivíduos estava estampada na cosmovisão162 dominante na sociedade e em suas instituições. Um exemplo disso foi o estabelecimento de irmandades religiosas na América portuguesa, formadas por leigos, porém, segregadas a partir do critério classificatório da cor. Assim organizaram-se no espaço colonial irmandades para brancos,
157 Apud REGINALDO, Lucilene. Op. cit., p. 149.
158 Idem.
159 AHU_ACL_CU_015, Cx. 127, D. 9668. OFÍCIO do Governador da Capitania de Pernambuco, José César de Menezes. 30/09/1777.
160 No ofício do governador, ele menciona as declarações feitas pela velha mulher. Antonia da Costa fez declaração sobre Miranda Henriquez que havia tomado parte do governo de Pernambuco em 1667. Também disse que assistiu a primeira Missa que disse o bispo Dom Estevão Briozo, ao tomar posse do bispado em 28 de Maio de 1678.
161 REGINALDO, Lucilene. Op. cit., p. 148. De acordo com a autora, na cosmovisão social do século XVIII, no Brasil, o indivíduo da cor branca indicava distinção e liberdade, já o da cor negra associava-se direta ou indiretamente a escravidão. Os pardos viviam diante de uma incerteza social, por nem serem brancos e nem pretos. Esta estrutura aponta para a presença de heterogeneidade e diversidade racial e cultural.
162 PEARCEY, Nancy. Verdade absoluta: libertando o Cristianismo de seu cativeiro cultural. p. 56-57. A autora aborda a cosmovisão como o modo a como se responde a questões importantes da vida como o sentido dela e seu propósito, ou a existência da verdade.
pardos e pretos.163 De acordo com Julita Scarano, esta característica diferia das irmandades que se formaram no espaço metropolitano.164
Porém, como vimos, a estruturação da sociedade nestas bases não era rígida ou totalmente impossibilitada de mover-se em direção a situações novas. Havia rachaduras, brechas e partes sensíveis ou maleáveis, onde, independente da cosmovisão dominante no século XVIII, os grupos subalternos poderiam produzir fissuras em prol de obterem espaço na sociedade.
Desta forma, podemos perceber as representações que se faziam acerca da atuação de indivíduos negros em Pernambuco por intermédio dos discursos oficiais apresentados pela representação das Câmaras municipais, pelos governadores, por religiosos e pelos representantes da Companhia Geral, nos próximos capítulos analisaremos como os negros, escravizados e forros, desenvolveram ou construíram representatividade social na Capitania (ainda que limitada ou filtrada pela elite), através de irmandades religiosas reservadas a eles, em Recife, Olinda e Goiana, ao longo do Setecentos.
163 SOARES, Mariza de Carvalho. Op. cit., p. 99-100. 164 SCARANO, Julita. Op. cit., p. 44.
3 ROSÁRIO “DOS PRETOS” EM RECIFE, GOIANA E OLINDA