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Bireysel Psikoloji ve Alfred Adler’in Kişilik Kuramı

Em Pernambuco no seio da população espalhada pela costa, as contradições sociais por vezes se transformaram em tensões sociais. Entre os grupos subalternos120 livres havia poucas alternativas de sobrevivência na sociedade, uma delas era partir para a subversão da ordem, outra, era tentar ingressar nas forças constituídas para a manutenção da ordem, ainda que tal ordem, objetivamente, não fosse favorável a ele, no longo prazo. Esta última alternativa se concretizava ao percebermos pessoas do grupo subalterno sendo recrutadas para

117 Apud REGINALDO, Lucilene. O Rosário dos Angolas: irmandades de africanos e crioulos na Bahia

setecentista, p. 54.

118 BARBALHO, Luciana de Carvalho. Op.cit., p. 80-81.

119 MAC CORD, Marcelo. O Rosário de D. Antônio: irmandades negras, alianças e conflitos na história social

do Recife 1848-1872, p. 52-53.

compor as forças militares da ordem vigente, muitas vezes se colocando contra outras, que estavam expostas a condições materiais e sociais semelhantes.121

Em 20 de Julho de 1768, o governador de Pernambuco, Luís José da Cunha Grã Ataíde e Melo, escreve ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, informando que o capitão-mor de Goiana, Sebastião Correa Lima, apresentou-lhe, dois meses antes, um problema que estava ocorrendo naquele distrito nos lugares chamados “Carissê” e “Terra-Dura”.

Dois bandos formados por pretos, mamelucos e outros mestiços estavam roubando pessoas e casas, e, além disso, praticavam “cruelíssimos” assassínios na região, que “haviam posto em terror todos aqueles habitantes” da região. Aqui queremos destacar quem eram as pessoas que, segundo a carta do governador, participavam daqueles bandos, a saber, pretos e mestiços. Não se cita a presença de brancos.122 Eram pessoas que, na estratificação social do período colonial, estavam na base subalterna.

O governador de Pernambuco expediu ordem com o objetivo de “surpreender com a brevidade possível aos agressores”, direcionada ao coronel de cavalaria de Goiana, Antonio Albuquerque e Melo e ao capitão-mor da vila, Sebastião Correa Lima, para que unissem esforços no combate aos “facinorosos”. Nesta tarefa o coronel deveria mobilizar suas forças militares. No documento do governador não conseguimos perceber qual era o perfil destas forças militares, porém, acreditamos que ela poderia ser formada por mestiços e pretos livres.123

O governador de Pernambuco também convoca o diretor da vila de Alhandra, localizada perto de Goiana, para ajudar na captura dos integrantes daqueles bandos, com “índios competentes para a empresa”. A presença de índios nas forças da ordem talvez se explique pelo conhecimento que os mesmos deveriam ter dos caminhos da região. Um conhecimento equivalente ao conhecimento dos integrantes dos bandos.124 Percebe-se a contradição neste episódio tenso, que envolvia membros de camadas subjugadas, uma vez que estavam colocados em lados opostos (ou com interesses diferentes), grupos subalternos dentro do espaço social sob a administração do governador de Pernambuco. É possível que aqueles que cooperavam com as forças do governo, o faziam sobre pressão ou coação.

121 SILVA, Kalina Vanderlei. O Miserável Soldo e a boa ordem da sociedade colonial, p. 115-138. O ingresso de pretos e mestiços livres nas milícias estava aberto pelo número reduzido de brancos livres pobres. E, para aqueles grupos subalternos ingressar nas milícias poderia significar uma chance para se ascender socialmente. 122 AHU_ACL_CU_015, Cx. 105, D. 8186. OFÍCIO do governador de Pernambuco ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar.20/07/1768.

123 Idem. 124 Idem.

Em 25 de Junho de 1768, a primeira diligência executada contra os bandos obteve sucesso, ao capturar cerca de 16 pessoas e encerrá-las na cadeia de Goiana, a fim de que aguardassem a condenação definitiva daquele governo.125 As tensões sociais também ocorriam no Sul da Capitania.

Na mata Sul de Pernambuco, vários engenhos se formaram originando povoações que se vinculavam a Olinda, pois alguns povoados se tornaram freguesias da vila Duartina. Naquela região de produção açucareira no período colonial em função do propício solo massapé, um engenho foi estabelecido por Bernardo Pereira Simões no lugar chamado “Arandepe”, sito a dez léguas do Recife.126

Contudo, o proprietário afirmou em requerimento de 25 de Janeiro de 1787, que não podia ir ao seu engenho por este ter se tornado um local que lhe oferecia “risco de vida”, razão pela qual requeria ele o “privilégio de trazer pistolas e armas para a inculpável e necessária defesa da vida”.127

A insegurança de Bernardo Simões, provavelmente afetava a outros proprietários de engenhos em Pernambuco no século XVIII, causando novas tensões, porque ela estava diretamente ligada a relação escravo-senhor, que na América portuguesa significava um conflito que envolvia negros escravizados e senhores brancos. O motivo da insegurança que levou o senhor de engenho a solicitar permissão para portar armas de fogo é o que se depreende no trecho abaixo:

Senhora

Diz Bernardo Pereira Simoens que ele suplicante, e pelos documentos juntos, mostra ter fundado hum engenho de assucar a sua custa em Arandepe,... adonde não podia hir risco de vida pela invazão de escravos fugidos, que andam por aqueles matos e solitárias estradas...128

Temia Bernardo Pereira Simões o fato de a região ter se tornado refúgio de pessoas que haviam conseguido escapar de locais onde eram escravos. Tais pessoas deveriam se ressentir daqueles que os oprimiram no tempo do cativeiro. De maneira que um senhor de engenho em poder de comunidades negras “clandestinas”, naturalmente, não esperaria outro tratamento que não fosse proporcional à violência que ele empregara sobre seus escravos. Bernardo Simões devia saber disso, por isso não queria cair nas mãos daqueles pretos que,

125 AHU_ACL_CU_015, Cx. 105, D. 8186. OFÍCIO do governador de Pernambuco ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar. 20/07/1768.

126AHU_ACL_CL_015, Cx. 158, D. 11414. REQUERIMENTO do Senhor de Engenho em Arandepe à rainha D. Maria I. Anterior a 25/01/1787.

127 Idem. 128 Idem.

próximo a sua propriedade, haviam se refugiado e, provavelmente, organizado ou se incorporado a um quilombo.

Sobre o significado da expressão “quilombo”, devemos considerar que remete a um tipo de organização guerreira que existia na África central composta por jagas. Os jagas eram conhecidos no século XVI como combatentes habilidosos e ferozes que atuavam tanto no território do Congo como em Angola. O “campo militar e confraria de iniciação de novos guerreiros” jagas em África chamava-se kilombo.129

Na América portuguesa, os quilombos podiam ter a conotação de serem locais onde viviam guerreiros e ex-escravos que estavam dispostos a lutar pela sua liberdade, não procurando atuar de acordo com as leis sociais da época, mas apresentando claro comportamento que visava subverter a ordem. Mas, por outro lado, alguns quilombos mantinham relações freqüentes com as vilas administradas pelos brancos, o que revela os arranjos que foram se delineando no processo de construção dos espaços coloniais na América portuguesa. Por serem organizações que ensejavam uma coletividade de indivíduos, os quilombos na América portuguesa, seriam representações das aspirações de parte da população negra e subalterna onde quer que eles tenham se constituído. Neles havia hierarquia, inclusive com reinados130, a semelhança do que, como veremos adiante (item 4), acontecia nas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

O senso de comunidade ou coletividade seria o aspecto que aproximaria os quilombos das irmandades de negros. Assim como os quilombos, as irmandades negras terminaram representando algumas demandas daquela população que nelas se enfileiraram, entretanto, as irmandades eram organismos constituídos nos limites da legalidade da época, sob a vigilância das autoridades constituídas pela coroa. Assim, veremos nos itens 3 e 4, os mecanismos utilizados por estas irmandades, que, mesmo sendo estriados pelo poder vigente, permitiram “alisamentos” 131 ao se observar o comportamento da comunidade negra, sobretudo nos períodos festivos, que operavam e ajudavam a construir novas identidades culturais na América portuguesa em geral, e, em Pernambuco, em particular.

Nas áreas centrais da vila do Recife, onde não se praticavam atividades rurais, muitos escravos procuravam se desvencilhar do cativeiro através do anonimato que o aglomerado de pessoas poderia proporcionar, camuflando-se na multidão.132 Nos espaços rurais, as fugas

129 ALENCASTRO, Luis Felipe de. Op. cit., p. 90. 130 SOUZA, Marina de Mello e. Op. cit., p. 241.

131 Ver a discussão feita na Introdução deste trabalho, sobre espaços estriados e espaços lisos. Páginas 13 a 15. 132 CARVALHO, Marcus J. M. de. Liberdade..., p. 177.

para o mato com a conseqüente constituição de quilombos, parece ter sido uma estratégia mais plausível para se alcançar a liberdade.

Contudo, de maneira nenhuma queremos aqui enquadrar um ou outro comportamento de maneira dura. Pois, escravos do eito podiam tentar fugir para as cidades e escravos urbanos poderiam buscar refúgio nos quilombos que se formaram nas matas de Pernambuco. O que determinaria a opção por uma dessas alternativas era a oportunidade. O quilombo Malunguinho, nas imediações de Olinda e Recife, por muito tempo foi refúgio de escravos urbanos. Sua destruição no século XIX, fez com que fugir para o mato tenha perdido o sentido para os escravos urbanos das ditas vilas.133

Como veremos nos itens adiante, que tratam das Irmandades do Rosário de Recife, Goiana e Olinda, as confrarias negras como estas citadas, também poderiam atuar como elos condutores de liberdades individuais, mas, diferente dos quilombos, reafirmamos que na maioria das vezes atuavam em conformidade com os mecanismos legais.

2.3.2 Tensões na administração: Câmaras Municipais de Olinda, Goiana e Recife contra