2. OĞUZ ATAY’IN ROMAN VE ÖYKÜLERİNDE PSİKOLOJİK TİPLER
2.2. Dışadönük Tipler
2.2.3. Dışadönük Duyumsal Tip
No início do século XVIII, um importante debate foi travado em Lisboa, entre os conselheiros do rei D. Pedro II, acerca de caso ocorrido em Olinda, envolvendo um escravo idoso e seu senhor. O fator que desencadeou a discussão foi uma requisição feita pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda, dirigida ao rei, a 30 de Outubro de 1702.
Tratava-se de intercessão realizada pela Irmandade do Rosário de Olinda, em favor de Domingos Gomes, “homem de idade de sessenta anos, falto já da vista”. Domingos era escravo de Lourenço Gomes Mourão e almejava se casar. Para isso pleiteou junto ao seu senhor a concessão de carta de alforria. Diante da resistência do senhor em atender a solicitação do escravo Domingos, alguns membros da Irmandade juntamente com religiosos foram então falar com o senhor Lourenço Gomes Mourão a fim de persuadi-lo. Na ocasião a Irmandade ofereceu-lhe, pela liberdade do preto Domingos, “muito mais do que valia”. Lourenço Gomes Mourão não só negou a oferta como também, por causa daquela situação, impôs severo castigo ao seu cativo.36
36AHU_ACL_CU_015, Cx. 20, D. 1897. CARTA da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Olinda ao rei D. Pedro II, pedindo que o ouvidor-geral da Capitania, convença a Lourenço Gomes Mourão a vender o seu escravo. 30/10/1702.
Diante do comportamento hostil do senhor Lourenço Gomes Mourão, a Irmandade recorreu ao Ouvidor geral de Pernambuco e ao rei para que este último orientasse o Ouvidor a convencer o dito senhor a vender seu escravo. Em Lisboa o pedido da Mesa da Irmandade do Rosário de Olinda causou reações diferentes entre os conselheiros do rei.
Roque Monteiro Paym, em parecer dado em 27 de Fevereiro de 1703, portanto, quase 4 meses depois do envio da carta da Irmandade, afirmou que:
Tudo o que relatam os irmãos pretos de Nossa Senhora do Rozario da Cidade de Olinda, he tão certo que passou na minha presença, e de Justiça e piedade lhe deve Sua Magestade, que Deus guarde, deferir e ainda acrescento mandar castigar rigorozamente ao Senhor do preto para exemplo de outros, pois, se tem havido neste particular tão impiamente, como se fosse Turco e não Catholico Romano, e por que se podem offerecer semelhantes casos, me parece que deve V.Magestade ordenar que o Ouvidor Geral de Pernambuco os discida...37
Este parecer foi favorável ao pleito da Irmandade e ao escravo em sua demanda. Sugerindo, inclusive, que o senhor deveria ser castigado por sua atitude diante do preto Domingos. Roque Monteiro Paym aproximou o comportamento de Lourenço Gomes Mourão a práticas turcas. A mentalidade católica da época tendia a associar atitudes negativas ou pouco piedosas aos turcos, pois foi contra eles que os católicos batalharam e alcançaram sucessivas vitórias na Europa no século XVI, XVII e XVIII.38 Vitórias que como vimos, contribuíram para a popularização ao culto à Nossa Senhora do Rosário naquele continente.39
Outros pareceres foram mais cautelosos. Em documento conjunto assinado a 6 de Março de 1703 pelos seguintes conselheiros: Conde de V. Flor, Joseph Serrão, Francisco Pereira Silva e Gregório Pereira Fidalgo da Silveira, foram emitidos pareceres mais conservadores do que aquele de Roque Monteiro Paym, pois, receavam as conseqüências que poderiam surgir, ao se libertar o escravo Domingos, naquelas circunstâncias. Por isso, na época:
Pareceo ao Conselho fazer presente a V.Magestade que como esta causa pende em Juízo, se não deve por este caminho extraordinário decidir
37AHU_ACL_CU_015, Cx. 20, D. 1897. CARTA da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Olinda ao rei D. Pedro II, pedindo que o ouvidor-geral da Capitania, convença a Lourenço Gomes Mourão a vender o seu escravo. 30/10/1702.
38 QUINTÃO, Antonia Aparecida. Lá Vem o Meu Parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro
e em Pernambuco (século XVIII, p. 79. 39 Ver o item 3 deste trabalho, páginas 74-75.
comforme o direyto e as leys de V.Magestade, e só se deve recomendar ao Ouvidor Geral a setencie breve e sumariamente... 40
Os conselheiros recomendaram que aquela questão fosse arbitrada pelo Ouvidor Geral de Pernambuco, com base nas leis régias. Temia-se que aquele caso pudesse abrir precedente jurisdicional, uma vez que atender o pedido da Irmandade poderia significar: “...abrir porta, concedido este caminho a huma grande Ruína de todo o Brazil, pois constam de escravos todas as fazendas delle...” 41
Se mais escravos, além de Domingos Gomes, conquistassem sua liberdade por este meio, estaria decretada a falência da América portuguesa, haja vista a total dependência de escravos que a economia da Capitania de Pernambuco em particular, e da colônia de modo geral, tinha da mão-de-obra escrava. A manutenção da ordem, que também significava manter a economia da América portuguesa atendendo as expectativas da metrópole, era mais importante do que o atendimento dos pedidos por alforrias, por mais justificáveis que eles pudessem ser.
Os conselheiros questionavam também, caso se procedesse a libertação de Domingos, quais seriam os instrumentos que os senhores poderiam utilizar para manter a obediência dos escravos? Assim afirmavam:
... em algum (escravo) sendo menos obediente a seu Senhor, e, por essa cauza o castigar, tratará da liberdade por este meyo ... e como o temor do castigo he o único motivo que conserva os escravos na obediência de seus Senhores, faltarão com facilidade a ella...42
Os conselheiros falavam nos problemas que a indisciplina entre os escravos poderia causar a economia e a manutenção da ordem social, uma vez que os senhores de escravos ficariam de mãos atadas, sem poder castigar seus escravos e assim manter a ordem escravocrata. Outro efeito danoso, do ponto de vista religioso, relacionava o ato de se conceder liberdade ao escravo Domingos como um fator desestimulante aos senhores permitirem que seus escravos participassem de Irmandades. Assim, os conselheiros diziam:
40 AHU_ACL_CU_015, Cx. 20, D. 1897. CARTA da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Olinda ao rei D. Pedro II, pedindo que o ouvidor-geral da Capitania, convença a Lourenço Gomes Mourão a vender o seu escravo. 30/10/1702.
41AHU_ACL_CU_015, Cx. 20, D. 1897. CARTA da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Olinda ao rei D. Pedro II, pedindo que o ouvidor-geral da Capitania, convença a Lourenço Gomes Mourão a vender o seu escravo. 30/10/1702.
... além de que os Senhores, que sempre repugnaram mandar seus escravos as doutrinas, e ainda as missas de obrigação, pellos ocupar sempre em seu serviço, vendo agora que lhes permitir a assistência das Igrejas e Confrarias, lhes resultará o perdê-los, os retirarão dellas, em grande prejuízo de suas Almas...43
Muitos senhores não gostavam de mandar seus escravos à Igreja ou as missas de obrigação previstas nos estatutos das Irmandades, porque tais atividades religiosas os desviavam do serviço. No entanto, o permitiam, por desencargo de consciência ou por conveniência estratégica (diminuir as tensões). Contudo, se os escravos começassem a usar as Irmandades para buscarem a alforria, então os senhores se viriam estimulados a retirarem seus escravos daquelas organizações.
Porém, do grupo de conselheiros que emitiram pareceres sobre o caso, a opinião do Dr. Gregório Pereira Fidalgo, também seguia a inclinação do que disse Roque Monteiro Paym, favorável ao escravo. Gregório Pereira Fidalgo considerou as circunstâncias em que o senhor Lourenço negou a liberdade a Domingos e recomendou que o rei ordenasse o Ouvidor de Pernambuco a dar logo a liberdade ao dito escravo, estabelecendo primeiro em juízo o valor do escravo a ser pago ao seu dono, “porque não considera poder haver causa para que o Senhor do dito escravo, lhe possa impedir o resgatar-se...” Além disso, o dinheiro com que seria pago o regate do escravo pertencia à Irmandade do Rosário de Olinda, o que diminuia qualquer razão de contestação por parte do Senhor Lourenço Mourão.44
Não conseguimos verificar o desfecho final desse caso, contudo, percebe-se o papel desempenhado pela Irmandade do Rosário de Olinda como instituição desencadeadora de uma discussão sobre um tema tão sensível à sociedade escravista: a alforria. As opiniões daqueles que representavam o Estado se viram divididas. Muito provavelmente, o preto Domingos Mourão fazia parte da Irmandade, e por isso obteve o favor dela na defesa de seu interesse por liberdade. Ainda que a alforria não tenha sido alcançada, a voz de Domingos se fez ouvir entre pessoas do grupo dominante e seu pleito suscitou discussões e reflexões. A Irmandade do Rosário de Olinda se tornou o porta-voz daquele escravo nesta matéria. Porém, Domingos ainda fazia parte do grupo dos subalternos. Seu destino ainda estava nas mãos de outros, porém, a Irmandade do Rosário de Olinda, buscava auxiliar Domingos a traçar o seu próprio destino, em clara atitude de resistência.
43AHU_ACL_CU_015, Cx. 20, D. 1897. CARTA da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Olinda ao rei D. Pedro II, pedindo que o ouvidor-geral da Capitania, convença a Lourenço Gomes Mourão a vender o seu escravo. 30/10/1702 .
Apesar de não ser uma preocupação central nas irmandades negras, o problema das alforrias na Capitania de Pernambuco, no final do século XVIII, não deixou de ser enfrentado por elas. Mesmo a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Recife, que, segundo Virgínia de Assis, chegou a possuir pelo menos “uma criança escrava”, na 1ª metade do século, 45 no seu Compromisso de 1782 estabeleceu-se qual seria a participação dela nos processos de alforrias: sempre a favor. 46
Porém, como explicar tal situação ambígua vivenciada pela Irmandade do Rosário do Recife? A resposta é: considerando a sociedade escravista colonial como um poço de contradições, sobretudo porque era formada por grupos e culturas muito distintas. As práticas da classe dominante certamente influenciaram as aspirações sociais do grupo subalterno, assim como, igualmente, certas práticas dos grupos subalternos foram reinterpretadas e passarão a ser operatórias pelo grupo dominante. Ora, trata-se da circularidade cultural.47 Porém, é notório nos Compromissos, ainda que só em um capítulo, a preocupação em normatizar como a Irmandade deveria proceder junto a irmãos cativos que desejavam se tornar forros.
Das 42 constituições ou capítulos do Compromisso do Rosário do Recife de 1782, a de número 30, define que a Irmandade não emprestaria dinheiro a juros a ninguém. Esta não devia ser uma ação principal na Irmandade, pois os recursos deviam ser destinados principalmente as obras da Igreja e seus ornamentos. Contudo, o Compromisso previa um único caso em que a Irmandade poderia emprestar dinheiro a algum irmão: só se este estivesse negociando a sua carta de alforria. O dinheiro emprestado dessa forma não renderia juros à Irmandade, porém, para fazê-lo, a confraria exigia garantias sobre penhores de ouro ou prata, ou mediante a apresentação de um “fiador abonado”. Tendo o empréstimo o prazo de 2 anos para ser saldado pelo beneficiado.48
O Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Goiana, em 1783, estabeleceu o mesmo que a sua congênere do Recife, sem nenhuma diferença, no que tange ao tema da liberdade dos irmãos cativos. O capítulo XXX diz:
Nunca se dará dinheiro a juros, por quanto não falta em que se dispender, tanto em obras como em ornamentos e alfaias da Igreja, sim em extrema
45 ASSIS, Virgínia Almoedo de Assis. Op. cit., p. 92.
46 AHU_ACL_CU_COMPROMISSOS, Códice 1303. Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos do Recife, constituição 30ª. 1778.
47 GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição, p. 16-18.
48 AHU_ACL_CU_COMPROMISSOS, Códice 1303. Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos do Recife, constituição 30ª. 1778.
necessidade precizando algum Irmão ou Irmã, de bom prcedimento e boa vida, para a sua liberdade se lhe dará, havendo, sobre penhores de ouro e prata, que demais alguma couza cubra a dita quantia, ou dando fiador chão e abonado e dezembarassado de algum sequestro que por elle seja dificultoso a cobrança do dinheiro, o qual não passará do tempo de dous anos...49
Olhemos como se colocava esta questão no Compromisso da Irmandade do Rosário do Recife:
Nunca se dará dinheiro a juros, nem tampouco a pessoa alguma de qualquer condição, que seja por evitar inconvenientes, porquanto nunca faltam obras na dita Igreja que se façam, e juntamente ornalla com prata e todo o necessário e asseio della, e se no caso que algum Irmão ou Irmã, por sua alforria pedir algum dinheiro a esta Santa Casa, se poderá dar Emprestado sobre penhores de Ouro ou prata e com fiador abonado por tempo de dous annos...50
A semelhança do estilo da redação dos dois textos, de Recife e de Goiana, bem como o seu conteúdo, chama a atenção, podendo indicar uma possível correspondência existente entre estas Irmandades do Rosário, ou seja, a existência de uma rede entre elas, a semelhança das redes presentes entre as Câmaras municipais, conforme vimos no item 2.
O Compromisso da Irmandade do Rosário de Olinda, aprovado em 1786, apresenta algumas diferenças em relação aos estatutos do Rosário de Recife e de Goiana, no que tange a questão de empréstimos. O Compromisso do Rosário de Olinda estabelecia que os empréstimos poderiam ser realizados a juros, preferencialmente a irmãos, porém, não se vetava possíveis empréstimos a serem oferecidos a pessoas que não eram membros da organização. Exigiam-se garantias para a operação ser realizada, em penhores de ouro ou prata e não havia vinculação do empréstimo a pessoa que estivesse negociando alforria. Sobre as condições para empréstimo vejamos o extrato abaixo:
... se for a titulo de empréstimo a juro de Ley, será com caução de penhores de ouro ou prata, que cubrão a quantia, corroborando-se a segurança com que digo fiador idôneo de abonação do devedor, preferindo nesta conformidade quem for irmão ou irmã, de quem a Irmandade se há de constituir a credora... 51
49 AHU_ACL_CU_COMPROMISSOS, códice 1717. Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Goiana, capítulo XXX. 1783.
50AHU_ACL_CU_COMPROMISSOS, Códice 1303. Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos do Recife, constituição 30ª. 1778.
51 FCPSHO, Capilha nº 4, folha 01. COMPROMISSO da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda, (transcrição, 1988).
O fato de Olinda se diferenciar de Recife e Goiana, neste aspecto, pode indicar que a Irmandade do Rosário que lá estava estabelecida, buscava manter autonomia frente, principalmente, ao Rosário do Recife. Como vimos no item 3, as Irmandades do Rosário de Olinda e Recife provavelmente possuíam uma quantidade de membros mais elevada do que Goiana. Esse aspecto relaciona-se com a importância econômica e política das vilas em questão. Goiana tinha uma importância local, contudo Olinda e, principalmente, o Recife, destacavam-se como pólos urbanos que exerciam influência sobre um espaço mais amplo. Talvez, as rivalidades entre aquelas vilas, desde o início do século XVIII, tenham respingado nas Irmandades do Rosário presentes em seus territórios, e isso explique o posicionamento semelhante, mas não igual, no que tange às alforrias.
Sendo verdade que a Irmandade do Rosário de Olinda emprestava dinheiro a seus membros que necessitavam, e, de alguma forma tinham como oferecer garantias, então podemos compreender que nada impedia que o contratante do empréstimo não utilizasse o recurso para compra de alforria. Não havia nenhuma cláusula no Compromisso que proibisse o uso do dinheiro emprestado pela Irmandade para fins de se negociar a liberdade. Apesar da separação temporal, pois estamos tratando de documentos produzidos no final do século XVIII, não nos esqueçamos do exemplo do escravo Domingos Gomes em 1702. Foi a Irmandade do Rosário de Olinda quem intercedeu por ele, em favor de torná-lo forro, inclusive, pondo a disposição dinheiro para essa realização.
Percebe-se que entre as Irmandades do Rosário de Recife, Goiana e Olinda havia a inclinação de se facilitar a alforria de membros cativos, mas, não sem garantias de que a Irmandade não teria de volta os recursos investidos nesta ação, pois, o dinheiro da Confraria tinha outros fins, como analisamos no item 3.