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“Assaltaram a gramática, assassinaram a lógica, botaram poesia, na bagunça do dia-a- dia. Sequestraram a fonética, violentaram a métrica, meteram poesia, aonde deviam e não deviam.” (Assaltaram a gramática, Lulu Santos, Wally Salomão, Gabriel O Pensador)

Nesse tópico irei apresentar as informações que as referidas colaboradoras forneceram acerca de suas aulas de artes, bem como, fazer uma associação do que eu pude observar durante as observações dessas lições, quando estas cursavam o primeiro ano do ensino médio.

A informante A estudou a vida toda em escolas situadas no bairro em que reside. Foram dois colégios e seus prédios situam-se um ao lado do outro.

Na primeira escola na qual foi matriculada, a informante A cursou mais da metade de seu ciclo na educação básica, estudando nesse local até o sétimo ano do ensino fundamental. Ao concluir tal série, a referida colaboradora mudou de escola, matriculando-se em seu atual colégio, onde concluiu o ensino fundamental e, durante essa pesquisa de campo,

cursava a primeira série do ensino médio. “Eu estudei aí (primeira escola) até o sétimo ano, aí no oitavo e o nono, e agora eu estou no primeiro e vou terminar os estudos aqui.” (Entrevista realizada em 20/11/2017).

Durante a entrevista ela revela que em suas escolas nunca teve aulas de música, ou, ao menos, o que em sua concepção são aulas dessa linguagem artística: “não tive, não peguei professor assim para me dar aula, nunca na escola… Não tinha, quando eu comecei a estudar aqui não tinha aula de violão.” (Entrevista realizada em 20/11/2017).

Por meio da entrevista, foi possível compreender que a referida informante entende que uma aula de música deve ser uma aula de instrumento. Ele fez uma conexão entre aula de música e aula de violão quando foi questionada sobre ter tido aulas de música na escola. Apesar de eu ter observado momentos em que houve conteúdos de música em suas aulas de artes, inclusive momentos de prática musical coletiva, ela afirmou que nunca teve aulas dessa linguagem artística nas escolas em que estudou.

Ficou nítido, dessa maneira, que a ausência de aula de instrumento e sua concepção de como é uma aula de música, foram decisivos para ela realizar tal afirmativa. Dessa maneira, tudo aquilo que pode compor um currículo de educação musical, por conta desse seu entendimento, passa a ser excluído como aula de música.

Ainda durante essa entrevista, a informante A revela diversas informações acerca de suas aulas de artes, apresentando aquilo que era ensinado e estudado em tal disciplina, desde seu primeiro colégio. “Ele meio que passa mais, é, letras de música e sobre essas coisas que meu professor Alisson passava assim, paisagem sonora, essas coisas assim, mal ele passava música. Falava muito pouco de música.” (Entrevista realizada em 20/11/2017).

Conforme ela mesmo relata, em seu segundo colégio, há sim, conteúdos de música nas aulas de artes. No trecho acima ela informa claramente que seu professor de artes aplicou com sua turma uma proposta de intervenção pedagógica criada pelo educador musical Murray Schafer. Entretanto, mais uma vez, é evidenciado em sua fala a associação entre aula de música e a prática instrumental, pois, apesar de ela revelar a presença de assuntos de música, ela também afirma que ele mal passava música.

Ao comparar as aulas de artes de sua atual escola com seu colégio anterior, ela informa que houveram mudanças nos conteúdos apresentados, na abordagem das aulas, bem como, de compreensão de que música é conteúdo curricular de tal disciplina.

Mudou. Porque antes não tinha aula de música. Porque música incluía artes também. Mas não tinha. Aí depois que eu vim ter conhecimento que música fazia parte de artes, essas coisas assim. Desenhava… Maioria dessas coisas assim, porque música ele não falava muito. Era mais desenho, essas coisas assim. Já quando eu vim para cá, já comecei a ter aula de música assim, tipo assim, aulas ele dando normal, falando sobre música e tal, essas coisas assim, mas instrumento mesmo nunca deram não. (Entrevista realizada em 20/11/2017)

É mais uma vez nítida a presença da aula de instrumento em sua concepção de aula de música. Talvez sua insistência nessa concepção venha do senso comum, onde sempre as pessoas costumam associar o estudo da música a tocar instrumentos. Sugerindo que a qualidade de um músico é revelada por ser instrumentista e sua competência acentuada pelo número de instrumentos que este consegue tocar.

Ela também expõe que no princípio de sua formação escolar houve uma ausência de música em seu currículo de artes. Assim, ela apresenta que o foco dado por seus antigos professores de artes era nas artes visuais e traziam no desenho a prática artística mais recorrente.

A informante A, revela ainda que suas aulas de artes trazem em seu currículo outros conteúdos de música, que proporcionam conhecimentos sobre acordes musicais, história da música e dos instrumentos musicais e, análises sobre as letras de canções.

É mais conhecimento dos acordes, porque tem acordes assim que eu não sei. É história, saber mais sobre o instrumento e história sobre a música. O que é que significa a música? O que ela te chama atenção, essas coisas assim. É uma coisa muito interessante, chama muito a minha atenção. (Entrevista realizada em 20/11/2017).

Assim como a informante A, B também não teve em sua escola aulas de música em suas aulas de artes. “Nós não tínhamos música na nossa escola, nós não tinha música. Tipo arte, ele só passava dever na lousa, ela não dava oportunidade para as pessoas cantar, entendeu? Tinha aula de artes, mas não colocava música no meio. Só colocava coisa do livro.” (Entrevista realizada em 27/11/2017).

Através desse relato da informante B, é possível afirmar que em toda sua trajetória escolar, ela nunca teve qualquer conteúdo de música em suas aulas de artes. Assim, ela nos apresenta que o professor baseava toda sua aula em conteúdos advindos do livro didático. Entretanto, ela não revela qual era o foco que tal livro possuía, qual era a linguagem artística

que era explorada em tal material didático. Uma vez que ela não informou de qual livro se tratava, não tive acesso a esse material, não sendo possível consultá-lo.

A prática musical é algo pelo qual essa informante ansiava em suas aulas de artes. Fica evidente nesse trecho da entrevista que sequer houve momentos de apreciação musical em suas aulas. Se o foco dos conteúdos era pautado pelo livro, o foco das práticas em sala de aula era guiado pelas atividades colocadas no quadro.

Nesse trecho, também, é exposto por B que as aulas de artes que ela teve ao longo de sua formação não incentivaram a realização de práticas artísticas. Diferente de A que foi levada a desenhar, B aponta que seus aulas era expositivas de conteúdos do livro, de deveres na lousa. Desta forma, podemos concluir que suas aulas eram puramente expositivas e teóricas, bem como, tais atividades passadas por seu professor.

Por meio das observações das aulas de artes, do professor Alisson, pude verificar que a música foi um conteúdo sempre presente em suas lições. Na maior parte das aulas ele dava um foco maior a essa linguagem artística. No entanto, suas aulas, na maioria das vezes foram puramente expositivas e teóricas, não sendo deixado muitos espaços e momentos para a prática musical.

Os conteúdos das aulas costumaram acompanhar a cronologia do livro didático adotado por essa escola. Em muitos momentos os conteúdos abordados em uma aula não eram continuados e/ou retomados na semana seguinte, fazendo com que não houvesse uma continuidade.

Em todo o segundo semestre letivo, ele somente viabilizou três momentos de prática musical. O primeiro foi uma atividade que buscou realizar a construção de uma paisagem sonora. Vale ressaltar que essa atividade não ganhou uma grande adesão por parte da turma.

Na segunda oportunidade ele proporcionou para a turma uma prática de percussão, utilizando materiais que estão disponíveis na sala de aula (cadeiras, mesas, canetas, cadernos, lousa, corpos etc.). Essa segunda atividade já teve uma participação de todos os estudantes presentes. No entanto, mais uma vez essa ação não ganhou continuidade.

Por último, já para encerrar o ano letivo, ele solicitou que os estudantes formassem grupos e executassem músicas em grupo. Nessa ocasião, as colaboradoras desse

estudo realizaram suas atividades por meio de suas predileção e habilidades musicais. Assim, a informante A tocou violão em sua equipe e B cantou.

Para essa atividade, o repertório que foi escolhido pelas equipes trazia músicas que estavam sendo tocadas com frequência em rádios de Fortaleza, inclusive nas rádios pelas quais essas informantes possuem predileção. As músicas escolhidas foram: Deixe-me ir, Me Namora, Desenho de Deus, Trem Bala e Deixa Acontecer.

As equipes estavam inseridas as informantes A e B, escolheram canções que estão em alta na mídia e que compõem seus Habitus Musical. Assim, o grupo da colaboradora A executou dois reggaes, Me namora e Desenho de Deus, e a de B, Trem Bala. É importante destacar que a música escolhida por B é lenta, mostrando a influência de seu Habitus Musical para a realização dessa atividade.