M’Boy Guaçu é uma ficção sobre uma lenda da região, repleta de imagens do
sítio arqueológico São Miguel Arcanjo (da igreja, em especial). Há uma boa captação de áudio, planos precisos, unidade estética, interpretação um pouco mais natural (o que demonstra também o papel de codireção de um dos integrantes da equipe da produtora contratada).
O curta-metragem revela o desempenho da equipe profissional “estrangeira”, a importância do folclore local e a marca de quem trabalhou no IPHAN, busca a valorização da história da cidade e já fez um documentário sobre um importante zelador do sítio arqueológico. Em São Miguel das Missões, 64 pessoas responderam ao questionário aplicado durante as sessões itinerantes. Dessas, 19 não conheciam a lenda, 17 não responderam à questão, mas 28 disseram já
conhecê-la. Quanto à questão sobre quais outras histórias poderiam ser contadas sobre a cidade, destaco as repetições sobre a temática da redução jesuítica e o tesouro dos índios, marcando novamente esses elementos culturais.
O filme inicia com um plano geral, em que se vê a igreja do sítio arqueológico São Miguel Arcanjo, imagem recorrente nos materiais de divulgação sobre São Miguel das Missões. Os letreiros revelam São Miguel das Missões e localizam o curta-metragem.
Figura 69: Igreja e indicação de lugar.
Ocorre uma sequência de primeiros planos, dos pés de dois meninos jogando futebol, seus ombros e cabeças. Um primeiríssimo plano de uma mulher de perfil que os observa mostra a recorrência de planos aproximados na fotografia e montagem do filme. Há outro primeiríssimo plano de uma menina ao lado da mãe. Em um plano conjunto, aparecem os meninos jogando em um gramado com árvores ao fundo. Eles brigam, caem e a câmera os acompanha. A fala “Mãe, os guris tão brigando” mostra a relação de parentesco dos personagens.
A câmera acompanha a mãe que levanta um dos meninos e, em primeiro plano de perfil, ela diz: “Por que brigarem desse jeito? Nem parecem dois irmãos!”. Mandados para casa pela mãe, eles vão embora. Um plano geral mostrando a lua revela o nome do curta M’Boy Guaçu, em outra imagem semelhante ao curta Duas Cruzes; duas lendas, dois mistérios, e a lua sendo usada como um código.
Figura 70: a recorrência das imagens da lua em M'Boy Guaçu e em Duas Cruzes.
Segue a fusão do plano geral com o detalhe da fogueira. Em um plano médio, ângulo normal, frontal, entrecortado com meios primeiros planos e primeiros planos, desenha-se a sequência dos três personagens em torno da fogueira, onde a mãe conta a história da cobra grande. O áudio é claro, facilitando o entendimento da fala das personagens. A passagem de tempo entre os meninos brincando, indo embora, e depois retornando diante da fogueira, perto da igreja, parece não fazer muito sentido. Parece haver um problema de continuidade ou de estrutura do roteiro, sobre a justificativa do retorno à fogueira diante da igreja.
Figura 71: Imagens que indicam a importância do fogo e da reunião de mãe/avô com filhos/netos para a contação das histórias.
Depois de falar que os meninos não devem dizer que se odeiam, pois isso chamaria a cobra grande, ela começa a história: “Tudo começou...”. Em Duas
Cruzes, avô inicia com a expressão muito conhecida “Era uma vez...”. São modos de narrar amplamente difundidos e utilizados nos curtas-metragens.
Figura 72: Enquadramentos de mãe e filhos.
Ela conta das brigas com o irmão e que eles brincavam em frente à igreja, assim como faziam os dois meninos do início do filme. O recurso utilizado para fazer referência ao passado foi a sombra chinesa. Vemos as sombras de um grupo de crianças que brincam diante da igreja, imagem superposta à do pano que faz a sombra. Inicialmente, há a sombra do que seria a igreja, mas optaram, possivelmente, na montagem, por incluir uma imagem da igreja. Essa imagem era algo que o realizador disse não querer mostrar, pois é amplamente difundida. Ainda que não seja exatamente o enquadramento da igreja com a cruz, como descrito pelo diretor, assemelha-se, mostrando que ele não conseguiu fugir do clichê do qual tentava distanciar-se.
Figura 73: Recurso da sombra chinesa para narrar a lenda.
Nas falas em que a mãe refere-se ao “perigo que se aproximava”, vê-se uma sugestão de câmera subjetiva com imagens de degraus desde dentro da torre: o olhar da cobra, intensificado pelo barulho do guizo. As sombras dão um tom fantástico ao passado, uma representação menos realista. As sequências se alternam entre as sombras com narração em off da mãe e os quatro diante da fogueira.
Há menos locações, figurinos, atores do que nos outros curtas. Esta foi uma opção da produção, mas também decorrente da falta de auxílio que o diretor teve para a realização do curta-metragem. Apesar da dificuldade em encontrar uma atriz para fazer o papel da mãe, a personagem foi interpretada com certa naturalidade, o que nos mostra que o improviso pode ser produtivo também nesses curtas- metragens.
Figura 74: Câmera subjetiva dentro da torre da igreja.
O sino volta a tocar e as crianças vão desaparecendo aos poucos. A mãe fala da cobra que hipnotizava as crianças, assim como dito anteriormente na descrição de Duas Cruzes, da noiva que hipnotizava os pescadores. São elementos que
perpassam as lendas. Quando uma das crianças pergunta: “E como a cobra morreu?”, a mãe reafirma seu testemunho, dizendo que foi vítima da hipnose da cobra e que foi diante dela que um raio atingiu o animal. Diz que se ajoelhou e pediu que deus a salvasse e que, apesar de estar morta, a cobra ainda assusta quem passa por lá. Assim como em Duas Cruzes, há o sobrenatural que apavora as crianças. Finalmente, a mãe aponta a moral da história: “Agora vocês sabem por que eu não gosto que vocês briguem?”. Eles saem de quadro e vão embora.
Figura 75: Irmãos fazendo as pazes.
Em M’Boy Guaçu, é clara a diferença da qualidade de definição das imagens,
de fotografia, luz e enquadramento. Existe uma unidade na proposta da direção de fotografia e na montagem. O curta-metragem parece mais bem fechado e definido, com um papel importantíssimo da produtora Tokyo. Essa produtora, cuja equipe também trabalhou em Partituras do Tempo, deixou a sua marca nos filmes em que se fez presente. A qualidade na fotografia, na produção e na montagem de M’Boy Guaçu e de Partituras do Tempo se destaca em relação aos outros, em uma
Figura 76: olhos da cobra na torre.
É importante resgatar a experiência anterior de V. com a produção audiovisual. Ele foi responsável pelo argumento e pela direção do documentário JH -
O zelador, desenvolvido durante oficina de produção audiovisual oferecida pelo
Ponto de Cultura de São Miguel das Missões. O filme trata da história de Hugo, zelador do sítio arqueológico, o qual conseguiu coletar as obras sacras que estão no museu, uma façanha realizada batendo de porta em porta e resgatando as peças que foram “roubadas”.
Os testemunhos dos filhos e de uma museóloga, entremeadas a imagens do sítio arqueológico São Miguel Arcanjo, vão narrando o documentário. A temática da redução jesuítica, no caso do primeiro filme, atualizada no papel do zelador e das obras, é repetida por V. no segundo filme, o do Revelando os Brasis.
Os professores da oficina Ivanir Migotto e Mariana Muller, da Epifania Filmes, estão presentes na realização de JH – o Zelador, e também na realização do
primeiro filme em que H. trabalhou, Dormentes do Tempo. Ocorre, aqui, a presença de sujeitos do espaço audiovisual gaúcho que se fazem presentes também nas produções nas pequenas cidades, imprimindo, de alguma forma, suas influências.
Figura 77: Imagens do documentário JH – o zelador.
Entre os filmes do também projeto de oficinas de capacitação audiovisual
Vídeo nas Aldeias, há um realizado após a formação em aldeias guaranis do Rio
Grande do Sul, com realizadores indígenas de São Miguel das Missões. Apesar de a temática também estar relacionada ao sítio arqueológico São Miguel Arcanjo, a problematização é bastante distinta.
Chamado Nós e a cidade, o documentário de Ariel Duarte Ortega, da etnia Guarani-Mbya, relata a questão da exploração da imagem dos indígenas naquele espaço. Nesse sentido, percebe-se como duas produções audiovisuais, de V. e de Ariel, realizadas em projetos de capacitação e tendo o mesmo cenário como temática para o registro, podem possuir abordagens tão distintas. Se, por um lado, nota-se uma crítica social no filme de Ariel Ortega, cineasta indígena, por outro, não vemos uma abordagem dessas questões sociais no filme de V. , realizador do
Revelando os Brasis IV. Entretanto, há uma preocupação com o
Figura 78: Imagens do vídeo Nós e a cidade55.
Novamente, retomo alguns questionamentos de Odin (1999) ao falar dos filmes do cinema amador que se caracterizariam por determinados tipos de temas. Haveria os assuntos “proibidos”, como os de ação política, filosóficos ou religiosos, desconectados dos problemas da vida cotidiana. Por isso, alguns filmes amadores seriam próximos à fantasia. São pertinentes essas colocações, pois nos filmes do
Revelando... também são recorrentes tipos de temáticas (tanto que os DVDs são
divididos por temas que se repetem nas edições). Parece existir um tipo de abordagem nos filmes feitos no Rio Grande de Sul, com moral ou mensagens positivas, um direcionamento nas escolhas das histórias.