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Ao analisar os estudos sobre família na Europa, deixamos Portugal, em último lugar por ser a família brasileira derivada desse país, sob as vias da colonização. Também foi a família portuguesa que deu subsídios para Gilberto Freyre escrever e criar o tipo da família patriarcal brasileira.

A família portuguesa, desde os momentos do surgimento de Portugal como Estado, século XIII, até a colonização do Brasil, sofreu pouquíssimas alterações.

Em Portugal medieval, a população era dividida por casais. O conceito de casais não referia-se a um par formado por homem e mulher, e sim a um conjunto de bens considerados bastante para o sustento de uma família. O tamanho do casal variava muito e era motivo de grande desigualdade social, entre as famílias. O casal era constituído por terras dispersas, onde eram construídas casas, que eram dominadas por uma casa central: a do senhorio, ou do senhor. O quotidiano das famílias que viviam da terra, habitando os casais, estava sujeito à autoridade do senhor, ou de um “homem bom”, componente da burguesia.

Apesar das famílias viverem sob a autoridade senhorial, seus membros eram livres e lutavam constantemente para a manutenção dessa liberdade. Podiam mudar de localidade, eram assalariados, escolhiam os senhores a quem queriam servir. Exploravam as terras dos senhores por contratos ou por vias hereditárias, o que os ligavam com um vínculo contínuo às propriedades, aos lugares e aos senhores. Encontravam-se em uma constante dependência.

Além dos casais, haviam também as Quintas, prédios rústicos de maior importância, que incluíam sempre mais de um agregado familiar. Essas Quintas eram de proprietários não lavradores e dispunham de várias moradas, para o senhorio, caseiros, contendo um ou mais fogos e abrangendo até mais de um casal.

Haviam ainda, os pardieiros, compostos por casas ou cabanas, habitados por famílias de lavradores ou jornaleiros. As famílias dos casais, pardieiros ou Quintas, habitavam fogos independentes.

Segundo Angela Mendes, as obras dos séculos XVI e XVII que podem nos dar indicações a respeito da mentalidade dos portugueses sobre família, podem ser agrupadas em diversas categorias, mas ela considera que os três manuais de casamento, por ela analisados, constituem, os que mais diretamente tocam na questão familiar. Esses manuais são, segundo essa autora, um filão para reconstruir a visão sobre a família portuguesa desse período. Trata-se de obras escritas por leigos, mas que situam na fronteira entre os textos religiosos, dedicados ao comportamento ideal do homem na corte, procurando fixar as regras de cortesia e civilidade diante das novas condições criadas na Europa pela urbanização em torno da corte. A autora analisa os três manuais, respectivamente são eles: Espelho de

Casados (1540), do Doutor João de Barros; Casamento Perfeito (1630), de

Diogo de Piva de Andrada; e Carta de Guia de Casados (1651), de D. Francisco Manuel de Melo. São três textos com mais ou menos a mesma estrutura, escritos para indicar os defeitos femininos que devem ser evitados na escolha da esposa, ou reprimidos depois do casamento.

O contexto em que essas obras foram produzidas, é mencionado pela autora, tratava-se do século XVI quando Portugal já era uma potência colonial e as rotas das descobertas haviam transformado a sociedade, mais

urbanizada em torno da corte. Havia terminado a política conciliatória da dinastia de Avis com relação aos judeus. A Inquisição, com desígnios diferentes dos propostos por Roma, em Portugal visava perseguir os judeus. Esta viria a Ter um papel determinante na vida cultural e moral do país nos séculos XVI e XVII. A divulgação das idéias humanistas que vinha sendo difundida na Europa, foi de certa forma neutralizada em Portugal, em seu sentido renovador, pela instalação da Companhia de Jesus.

Algumas décadas mais tarde Portugal alcançaria a passagem do reino ao domínio da Espanha até 1640. Os três manuais de casamento, portanto, tiveram como pano de fundo acontecimentos cruciais para Portugal. Eles estão norteados pela preocupação de convencer os homens de que vale a pena casar-se. O horizonte que os envolve é totalmente dominado pelos mandamentos da Igreja católica, entre eles a indissolubilidade do sacramento do matrimônio. Era preciso o homem escolher bem, casar certo, já que o erro poderia levar a uma situação-limite insuportável, cuja solução, a separação, não era vista como solução, sobretudo para o homem. E não era solução porque implicava, ou na “continência”, o abster-se de relações sexuais não sacramentadas, e portanto, pecaminosas ou na “desordem do pecado e da paixão”. O casamento era, portanto, equivalente à ordem e ao conforto e bem estar.

Para esses três autores, casar era um dever social, para com os pais, um dever político e um dever religioso. (ALMEIDA, 88/89:192-207).

Ao estudarmos as formas de vida da família portuguesa percebemos, de onde Gilberto Freyre retirou sua idéia de família patriarcal extensa, composta por um chefe, onde a mulher e os filhos eram-lhes, submissos e onde havia ainda lugar para um grande número de agregados. Porém, devemos questionar um pouco Freyre, com relação às semelhanças

entre a família portuguesa e a brasileira, do período por ele estudado, já que em Portugal, as relações entre os agregados, que no caso eram os lavradores ou jornaleiros que viviam em torno da propriedade senhorial, estavam em constantes lutas com seu senhor para garantir seus direitos, e sabendo ainda, até onde lhes eram submissos, por conhecerem claramente seus deveres. (COELHO, 1990:25).

Na análise de Freyre é ressaltada a constante dependência dos agregados com relação ao senhor, porém por vias que não eram as do contrato de trabalho, ou seja, Freyre deixa claro, que os agregados eram de certa forma parte da família numa relação de troca entre agregado e senhor, enquanto que em Portugal, essa relação ocorria através da forma contratual de trabalho, não propiciando a criação de vínculos de parentelas, entre o senhor e seus dependentes.

ESTUDOS SOBRE FAMÍLIA NO BRASIL