data incerta, se prosseguiram as inquirições, agora na Beira Baixa, além de algumas outras particulares. Com D. Sancho II, fizeram-se inquirições aos bens que possuíam no termo de Lisboa diversas ordens religiosas, na Beira Alta (Sátão), e várias particulares. D. Afonso III intensificou os inquéritos. Em 1258 percorreram os seus agentes as regiões de Entre Douro e Minho ( Entre Cávado e Minho, Entre Douro e Ave, Entre Cávado e Ave), Trás-os-Montes ( Entre Douro e Tâmega, terras de Barroso e Chaves, região de Bragança) e Beira Alta ( Seia, Gouveia, bispados de Lamego e de Viseu , até Trancoso). Foram seguidas, durante todo o reinado, por inquirições particulares a vários reguengos, termos, concelhos e julgados. D. Dinis ordenou as suas inquirições gerais em 1284 . Respeitaram a Entre Douro e Minho e a parte da Beira Baixa. Quatro anos mais tarde [1288], de novo os funcionários régios percorreram o Minho, Trás - os Montes e Beira , preocupando sobre tudo com as honras recém e indevidamente criadas. O inquérito repetiu-se com idêntico objetivo em 1301 (quase todo o Minho e uma pequena parte da Beira), 1303 (Minho e Trás-os-Montes) e 1307 (Minho, Trás - os - Montes e Beira)” .89
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Com os mesmos objetivos, ou seja, de restringir o patrimônio da Igreja, e impedir que o mesmo aumentasse, e promover a centralização régia, D. Dinis também proibiu que membros do clero adquirissem bens de raiz.
“( . . . ) / E tabaliaães de meus Reinos saude sabede que os Reis que ante mym foram defenderam que ordeens nem creligos nom conprassem herdamentos em seu Reino. / E Outrosy o defendo eu. / E ora allguuns conçelhos xe me enujarom queixar que creligos E ordeens faziam muy grandes conpras em minha terra. E que esto era meu exerdamento . / E muy grande dapno delles de guisa que quando os eu E os caualeiros da minha Corte. / E os conçellos ouuese mester pera meu seuiço que nom poderian seruir asy como deuiam E eu asy entendo E soo marauilhado como sam tan ousados de conprar os herdamentos contra nosso defendimento E Porem mando E defendo que ordeens nem crelligos nom conprem herdamentos / E aquelles herdamentos que conpraren ou fezerem conprar ataa’qui pera sy des que eu fuy Rey dou-lhes prazo que os uendam desta santa Maria / d’agosto taa huum ano. / E se os nom uenderem taa este prazo perca’-nas./ (...) .”90
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ORDENAÇÕES DEL-REI DOM DUARTE . Edição preparada por Martim de Albuquerque e
Neste documento, D. Dinis estabelece de modo claro que pretendia dar continuidade à política dos seus antecessores, os quais já haviam proibido os clérigos de comprarem ou herdarem propriedades em testamento. Decide reiterar a medida legal porque foi informado por vizinhos de alguns concelhos que religiosos e clérigos seculares estavam a reincidir naquela prática ilegal, com vista a ampliar os respectivos patrimônios em detrimento do que pertencia à coroa, e que se destinava ao uso dos mesmos, sem que, no entanto, tivessem o direito de vender as terras. Assim, o rei estipula aos funcionários régios que verifiquem o que ocorreu, desde o início de seu reinado, e determina que os infratores, para não serem prejudicados financeiramente, vendam as terras, no prazo de um ano, a partir de 15 de agosto, e caso não logrem êxito, então, virão a perder as terras, as quais, com toda certeza, acreditamos, foram reintegradas ao patrimônio do reino.
Outro dado interessante que se nota no documento, é que o rei fez referência tanto aos seus cavaleiros quanto aos concelhos, demonstrando que esse assunto contava com apoio dos mesmos, isto é, do “poder senhorial” e do “poder local”, quer dizer, dos habitantes dos mesmos, que não poderiam servi-lo adequadamente, se continuassem a ocorrer esses abusos da parte dos clérigos e religiosos. Fica evidente, ao nosso ver, que os Concelhos já estavam, nesse momento do governo dionisino, desempenhando uma importante posição de peso político, no confronto entre o poder real e o clerical.
É, pois, o momento de rapidamente esboçarmos a história dessa instituição, sobre a qual, iremos dirigir atentamente nossa atenção nos próximos capítulos desta pesquisa, em especial, para aqueles concelhos
estabelecidos em Trás-os-Montes, como um instrumento que D. Dinis habilmente lançou mão para também alcançar alguns dos outros propósitos que tinha em mente, e aos quais já nos referimos, a saber, o povoamento do território e a proteção de suas fronteiras.
1.3.2. - OS CONCELHOS
Os concelhos eram a forma como se organizavam as administrações locais. Os monarcas dos séculos XII e XIII se apoiaram neles para se contraporem à nobreza e ao clero. Assim, concederam vários forais a várias regiões do país, notadamente com finalidades sócio-políticas e econômicas e, ainda, com o objetivo géopolítico de realizarem o povoamento dos espaços fronteiriços do Reino.
D. Dinis, com esse propósito, se preocupou em conceder vários forais que facilitassem a vida dos homens que viessem a habitar os lugares de difícil ocupação, quer fosse pelo tipo de solo, ou pelo clima, ou pela dificuldade de se chegar ao local, ou pelas escassas vias de comunicação, etc. A região de Trás-os-Montes possuía algumas dessas características e foi beneficiada com um grande número de forais, especificamente Bragança e seu termo. Foram ao todo 33 forais.
Assim, antes de nos aprofundarmos sobre as relações políticas e sociais que se estabeleceram entre o concelho e seus vizinhos, acreditamos que convém explicitarmos primeiramente a origem desse termo, sem
querermos resolver a polêmica existente sobre as possíveis origens dos concelhos portugueses que, ao nosso ver, não deixa de apresentar certas verdades.
Alguns dos historiadores lusitanos concordam que o termo concelho vem da palavra Concilium, significando concelho, reunião ou assembléia. Como já falamos paginas atrás. “. . . - concilium - foi a palavra que designou, durante o império visigótico, os concílios ou assembléias de bispos efectuadas em Braga, Toledo, Sevilha e, já sob o domínio muçulmano, em Mérida, Toledo, Sevilha, ou depois Leão, Coyanza, Oviedo”.91No reino visigótico, usava- se, também, a palavra Conventus, que podia significar a associação ou reunião de monges, e conventus publicus vicinorum, expressão essa que denotava a assembléia dos chefes de família.
Há alguns historiadores, entre eles A. Herculano, que acreditam que essa instituição germânica podia estar no princípio das assembléias de vizinhos. Sobre essa questão, Maria H. da Cruz Coelho comenta: “Para além de que, em certas localidades montanhosas, de acesso mais inóspito, onde os invasores, de Romanos e Germanos, jamais teriam conseguido dominar, se poderia ter mantido a velha estrutura gentílica, que em redes de parentesco organizava todo o quadro da vida comunitária”.92 Concilium podia significar, ainda, uma assembléia judicial.
Foi no início da centúria dos duzentos que essa palavra surgiu no sentido de reunião de moradores. É “no livro III da Crónica
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A. B Coelho. Comunas ou Concelhos.Lisboa: Caminho, 1986. p. 149.
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Compostelana, [que] a palavra aparece finalmente no significado restrito de assembléia e governo municipal”.93
O estabelecimento dos concelhos com referência à sua origem deve ser percebido em toda a sua dinâmica social, relacionando-a com vários fatores, por exemplo, “consoante a sua distribuição geográfica , a sua dinâmica socio-econômica ou mesmo a sua matriz civilizacional-cultura”. Por isso se fala em concelhos nortenhos ou meridionais, em concelhos do litoral ou do interior, em concelhos de planície ou de montanha, em concelhos rurais ou urbanos, em concelhos de raiz cristã ou muçulmana”94, de modo que não há um padrão geral de classificação dos mesmos, até se pode dizer, sem o receio de estar a cometer exageros, que os concelhos possuíram suas especificidades. Baste, para tanto, citar alguns exemplos esclarecedores: os concelhos chamados rurais eram diferentes dos urbanos. Nestes, v. g. a cavalaria-vilã conseguiu sobrepor-se à comunidade e aos vizinhos, que eram, na sua maioria, os peões. Naqueles, ao contrário, prevaleceu o espírito mais comunitário, de modo que não havia uma preeminência mais acentuada deste ou daquele grupo social.
Ainda, com relação à origem de muitos concelhos, é importante não se esquecer de que, em razão da invasão muçulmana, a qual provocou a fuga de muitos senhores para a Astúrias e dos camponeses para as matas, a terra ficou abandonada. Entretanto, o invasor, algumas vezes, retornava à sua terra natal e, não voltando ao território que havia tomado, contribuía para que
93
A. B. Coelho Op. cit., p. 152
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M. H. da Cruz Coelho. Concelhos. In : M. H. da Cruz Coelho e A. L. de Carvalho Homem. Op. cit. p. 557.
os antigos habitantes ou seus descendentes regressavam ao local em que antes haviam ocupado, pois,
“(...) de novo a terra chamava os homens, para que o ciclo da vida se cumprisse. [ . . . ]. Uma liberdade de facto, ainda que não de direito ( o que pouco importaria ), irmanava os homens e uma identidade de funções levava- os a ultrapassar o individual e a sentir o coletivo. Problemas de águas, de gados e pastagens, de novas terras a cultivar chamavam os homens, assentes num mesmo povoado, a decidir em conjunto”.95
Mas tarde, com a reconquista, também ocorreram diferentes formas de ocupação do espaço vazio e surgiram novos núcleos, com suas especificidade próprias, os quais se organizaram, ou subordinados aos detentores do poder local, os bispos, os condes, as ordens monásticas e as ordens militares, ou gozando de uma certa autonomia em relação a eles, mas subordinados à Coroa.
Com efeito, o processo de reconquista possibilitou às comunidades se organizarem novamente. Muitas pessoas já traziam experiências vividas no seio da comunidade moura e não aceitaram facilmente se submeter, sem que as suas “liberdades” fossem preservadas. Desse modo, os outorgantes tiveram o cuidado de oferecer condições atrativas a essa população, que havia estava sob o jugo muçulmano, por exemplo, a possibilidade de se autogovernarem e/ou de elegerem os seus administradores.
Alguns desses núcleos populacionais igualmente obtiveram essa autonomia daqueles senhores, proprietários de vastos domínios, que fizeram isso com o intuito de povoar e arrotear as suas terras. Assim, estabeleceram contratos agrários coletivos -- ad populandum, (cartas de povoamento), ou ad laborandum (cartas de cultivo), nos quais fixaram normas entre eles e os beneficiados. Por outro lado, a concessão feita pela Coroa, o era mediante uma carta de foral, através da qual o Rei oficializava a administração autônoma deste ou daquele núcleo populacional.
O Concelho era constituído pela sede, que podia estar localizada ou na cabeça da aldeia, ou na vila ou na cidade, e o seu termo (o campo e a sua plantação). Era comum haver muralhas ao redor das vilas e cidades para as proteger. Nelas havia portas, as quais ao escurecer eram fechadas, e ao raiar do dia abertas. Era através delas que os seus habitantes se comunicavam com o exterior, e pessoas de fora, mercadorias e animais ingressavam em seu interior. O número de portas variava conforme o tamanho do núcleo urbano. Junto das portas ficavam os funcionários do concelho incumbidos de cobrarem as portagens daqueles que vinham vender seus produtos e mercadorias aos habitantes da sede. Os termos, por sua vez, eram geralmente pequenos povoados, próximos ou mais distantes do núcleo urbano, cujos moradores forneciam aos habitantes da sede, a carne, o vinho, o azeite, a fruta e as hortaliças de que careciam.96 Os habitantes do termo dependiam do centro urbano por vários fatores: necessitavam comprar os materiais que não fabricavam, como ferramentas utilizadas na
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M. H. da Cruz Coelho. e Joaquim Romero Magalhães. O Poder Concelhio: das origens às
cortes constituintes .Coimbra: Edição do Centro de Estudos e Formação Autárquica, 1986. p. 2
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A. H. de Oliveira Marques, e Joel Serrão. Portugal na crise dos séculos XIV e XV. Volume