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Em uma mesma sessão foram aplicados o Teste das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema. Wendy apresentou uma boa colaboração para participar de ambos os procedimentos, apesar de logo no início demonstrar que o seu maior desejo era de brincar comigo.

Wendy compreendeu rapidamente as instruções do Raven, realizando o teste em mais ou menos oito minutos, e os resultados obtidos indicaram um desempenho “Definidamente acima da média na capacidade intelectual”. Com relação ao Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema é importante detalhar um pouco mais o que foi vivenciado nesse dia.

Wendy pareceu ficar um pouco decepcionada quando informei que o desenho não era livre como ela imaginava. Isto é, o desenho foi aplicado no mesmo dia que o Raven e assim, logo que terminamos o referido teste, ela verbalizou: “Vou fazer uma casa!”

Então eu respondi que agora ela iria fazer um desenho com um tema: desenhar pessoas com dificuldades na escola. Wendy posicionou-se: “Não sei desenhar pessoas!”

Disse-lhe que poderia desenhar da forma como quisesse. Assim ela iniciou o desenho e falou bastante durante a aplicação. Enquanto ela desenhava, eu fazia anotações, procedimento que a fez questionar a minha atitude. Eu respondi que escrevia as coisas que dizia para mim, que eu anotava o que ela fazia.

Senti certa resistência ou falta de motivação para fazer o desenho. Percebi também que ela estava insegura e questionava-se sobre a qualidade do que fazia. Registrei o seguinte diálogo entre nós duas:

Wendy: Tá feio, não tá?

Wendy: Não sei desenhar pessoas. Wendy: Queria desenhar uma casa... Wendy: Desenhei.

Pesquisadora: Já?

Eu respondi que sim e procurei escutar e registrar o que ela dizia.

Wendy: Esqueci de desenhar o sol. Vou desenhar três sol! - Ela pergunta para mim se está bom.

Wendy: Pronto. Agora vou desenhar ... Não! Vou pintar!

Ela achou feio quando pintou o sol de amarelo devido a uma mancha que ficou do lápis preto. Depois que começou a pintar, lembrou que não fez a grama, posteriormente também fez a cachoeira.

Wendy perguntou-me se eu iria dar o desenho para a mãe dela. Eu respondi que não, mas poderia mostrá-lo se ela quisesse. Ela coloca que sempre faz desenhos para sua mãe e que a mesma sempre gosta deles.

A ponta do lápis quebrou e ela pediu para apontá-lo. Wendy perguntou se eu estudava de manhã. Depois questionou se eu tinha mãe, se minha mãe morrera. Disse a mim que queria ver a mãe, falou sobre o trabalho dela, que sua mãe ia de perua ao local de trabalho e que sentia falta dela.

Após terminar o desenho, pedi para que contasse uma estória. Entretanto ela respondeu que não sabia ler. Disse-lhe então que não precisava ler, era só falar. Assim, Wendy não construiu exatamente uma estória, apenas relatou- me o que desenhou:

- Desenhei uma ponte, um pipa, uma grama, um menino, uma menina, um sol, outro sol e outro sol. Só.

Deste modo, resolvi fazer algumas perguntas. Pesquisadora: O que eles estão fazendo?

Wendy: Ele tem sete anos e ela tem dez anos, eles estão olhando a paisagem, as coisas.

Pesquisadora: Por que tem três sóis?

Wendy: Para clarear muito a paisagem. Ela é Gabriela e ele é Gabriel. Pesquisadora: Onde está a escola?

Wendy: Esqueci de fazer. Ela não tá na escola, ela só tá vendo a pipa voando. Ela não gosta da escola. (Wendy chupa o dedo). Ela não gosta porque a professora passa muita lição e ela não copia. Ele copia.

Pesquisadora: Quem são eles? Wendy: São primos. Pronto.

Após este diálogo, solicitei que desse um título para a estória. Ela então colocou o seguinte título: “A menina e o menino.”

COMENTÁRIOS

Para não perder alguns conteúdos que emergiram durante a produção de Wendy, gostaria de adiantar aqui algumas reflexões.

Primeiramente o que chama a atenção no desenho desta criança são as duas cabeças soltas no espaço e os “três sóis”. Além disso, podemos observar uma imensa onda indo na direção das duas cabeças que foi nomeada por Wendy como “cachoeira”.

Wendy também desenhou uma pipa pontiaguda, sozinha e em pé, como se fosse uma lança, sem ninguém a segurando. Sua produção gráfica, associada ao material da anamnese leva-me a sugerir que esta criança parece estar a mercê de suas pulsões sádicas-agressivas, bastante desvitalizada, com a necessidade dos “três sóis”. Estes também podem estar representando a presença de objetos idealizados e persecutórios/vigilantes.

As duas cabeças solitárias, sem corpo, podem também estar significando o quanto a escola e a família estão preocupadas somente com sua cabeça (a aprendizagem, a desatenção), desconsiderando que a emoção e

cognição são processos indissociados. O intelectual é o sintoma, visto pelas instituições - família e escola - apenas como algo a ser combatido, mas não compreendido e pensado. Desta forma, Wendy expõe ainda sua resistência para desenhar a instituição escolar, projetando seus conflitos e dificuldades para este lugar, que poderia estar mais conectado com a vida e o pensamento.

Além da resistência de Wendy é importante esclarecer que após a realização do procedimento, percebi que poderia tê-la deixado mais livre para fazer o desenho que desejou inicialmente: uma casa. Penso que esta atitude minha revelou as diversas questões que atravessam o trabalho psicodiagnóstico como instrumento de pesquisa. O pesquisador - no intuito de realizar seus objetivos e cumprir prazos de trabalho - pode correr o risco, inconscientemente, de ficar “engessado” e não estar aberto aos imprevistos. Mesmo assim, a produção de Wendy revelou um material importante para a análise.