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Durante todo o processo psicodiagnóstico, o pai de Wendy, que aqui será designado por Thomas, compareceu somente uma vez. Por mais que fosse convidado, não pôde comparecer na Entrevista Familiar Diagnóstica e nem na Entrevista de Devolutiva. Sempre havia algum motivo, geralmente associado às dificuldades para afastar-se do trabalho. Vou relatar agora o único encontro que tive com ele e a mãe.
Neste dia ambos compareceram para anamnese e foram atendidos por volta das 14h10 e permaneceram até as 15h25. A princípio Thomas ficou bastante quieto, por mais que eu e sua esposa o encorajássemos, ele não dizia uma palavra. Pareceu-me um homem bastante imaturo e maltratado pela vida, apesar de ser mais jovem do que a esposa. Esta disse: “Peguei pra criar” devido ao fato de ele ser três anos mais jovem.
Em um momento da entrevista, ele me perguntou se ali havia “oculista”. Investiguei, pois a pergunta parecia fora do contexto e assim percebi que ele estava olhando um quadro comumente utilizado em exames de acuidade visual que estava pregado na parede da sala. Desta forma, ele nos esclareceu que estava enxergando
PAI 28a MÃE 31a WENDY 7a
“embaçado”. Esta fala do pai levou-me a refletir sobre suas dificuldades para entrar em contato ou mesmo enxergar sua própria história e a de sua família. Na entrevista mostrou-se muito passivo, chegando a ser inexpressivo, deixando que a esposa falasse praticamente sozinha.
Durante a anamnese chamou-me a atenção que a criança nasceu diferente dos pais, principalmente do pai - que é negro. Ela nasceu branca com olhos esverdeados, depois, segundo a mãe, ficou com os olhos cor de mel, “Parecia filho de rico”, ela verbalizou e assim imediatamente complementou que o pai chegou a duvidar de sua paternidade. A mãe justificou que na família dela há pessoas muito claras, apesar de ela também ser morena.
Outro assunto que apareceu foi a ausência do pai quando a menina tinha cerca de quatro anos. Neste período ele foi trabalhar em outra cidade, ficando ausente de casa durante um ano, todavia vinha visitar a família mensalmente. Na entrevista, percebi que existia possibilidade de ele trabalhar fora novamente e a esposa não pareceu muito satisfeita com essa perspectiva.
Enquanto Rose foi ao banheiro, Thomas falou que ela não tinha muita paciência com a filha. Também contou sobre a própria infância que não foi boa, pois a mãe bebia e ele não teve pai, foi criado pelos “outros”: a tia e os vizinhos. Hoje, de acordo com ele, a mãe dele não bebe mais, porém vive dependente de remédios e quase não é possível entender o que ela diz.
Pude perceber em sua história suas próprias dificuldades para amadurecer e exercer sua função paterna. Após essa sessão, não consegui mais vê-lo e, e em vários momentos do psicodiagnóstico, ficou bastante presente a solidão e a consequente fixação de mãe e filha.
Outra questão observada na anamnese foi a dificuldade com o desmame. Rose relatou que “passou muito nervoso” na gravidez, visto que tinha “pedra na vesícula” e não podia operar até que Wendy nascesse. Assim, aos oito meses da filha, Rose foi submetida à cirurgia, fato que, segundo ela, quase a levou a morte, pois houve complicações no momento da operação. Pude constatar, por meio do relato de Rose, que foi um período de grande sofrimento para ela, visto que sentiu muita dor durante a gravidez e no período de amamentação da filha. Além disso, Rose também descobriu uma anemia neste período, fato que levou a suspeitar que a anemia prejudicou a cirurgia. Registrei o seguinte comentário: “A minha anemia passava pra ela. Já era pouco o que eu comia, eu comia pouco
porque atacava a dor.” Fiquei com a impressão de que a amamentação durante os oito meses de Wendy tirou-lhe o pouco que tinha de energia e alimento para si mesma. Também o desmame parece que foi acelerado devido à eminência da cirurgia. Ela contou que demorou uma semana para tirar o peito e substituí-lo pela mamadeira. Rose relatou “que foi uma luta!” e que Wendy “chorava até!”. A filha queria bater na mamadeira e assim para conseguir alimentá-la e evitar que batesse na mamadeira, a mãe segurava e prendia a mãozinha dela em seu corpo. Logo depois, a mãe foi para o hospital, ficando cerca de uma semana longe de Wendy, neste período ela foi cuidada pela avó.
De acordo com a mãe, o desenvolvimento de Wendy, excluindo o período do desmame ocorreu, sem maiores incidentes. Entretanto, algo que também chamou atenção diz respeito ao sono da criança. Rose relata que, às vezes, Wendy parece fazer as coisas dormindo, isto é, quando muito sonolenta, ela não lembra do que fez, como, por exemplo lembrar-se de que saiu quase dormindo do sofá e foi para a cama. Ou ainda, que saiu sonolenta da casa da vizinha com a mãe e voltou para casa. A mãe esclarece, após a minha pergunta, que Wendy não é sonâmbula. Também questionei se esta sonolência não estava relacionada com algum medicamento. Ela respondeu que não, que antes da medicação ela já agia assim. Neste ínterim, Rose esclareceu que a filha começou a tomar Imipramina em novembro de 2010 e Ritalina após fevereiro de 201114.
Rose também contou que aos quatro anos (nesta época já ia para creche e o pai trabalhava fora) Wendy tinha pesadelos. De acordo com o relato da mãe, as duas dormiam juntas porque o pai não estava na casa e porque ela mesma não se sentia muito segura na casa onde moravam, pois os cômodos da casa ficavam no fundo, distantes da rua e perto de um pasto. Entretanto, desde que o pai voltou, Wendy não dormia mais na cama dos pais. É interessante observar que, de acordo com o relato da mãe, a criança chupa o dedo desde os quatro anos.
Quanto ao desenvolvimento psicomotor, registrei os seguintes aspectos: Wendy engatinhou e andou quando tinha um ano e um mês, mais ou menos. Ela usou andador e fralda de pano. A mãe relata que não houve dificuldades na educação da higiene da criança e nem com o controle de seu intestino, visto que com um ano já não usava mais nenhuma fralda. Todavia a mãe relata como um
período “ruim” a época em que a criança foi para creche. Wendy tinha cerca de dois anos e chorou quase três meses porque não queria ir. Rose tentava dialogar com ela, explicando que “era preciso ficar”, pois ela precisava trabalhar para auxiliar no orçamento da casa, mas a situação era percebida “como se fosse um abandono”.
Como já foi citado anteriormente, devido ao fato de a mãe ser bastante prolixa durante a entrevista, senti a necessidade de marcar mais um encontro para finalizar a anamnese. Isto foi importante porque pude ter acesso a dados importantes sobre a dinâmica familiar, principalmente em relação ao estado de saúde da mãe. Esta chegou, em uma sessão, apresentando uma fisionomia bastante abatida. Deste modo, explicou-me que foi detectada em seus exames atuais uma forte anemia, a tal ponto que tivera que tomar sangue. Ela já havia relatado que, após o recente aborto, sua menstruação não parava de vir, todavia Rose parecia se recuperar, já estava trabalhando normalmente e nos encontros comigo demonstrava estar bem de saúde.
O que me chamou atenção é que a gravidade de seu estado só foi percebida pelo resultado dos exames, isto é, Rose trabalhava normalmente sem nenhum sintoma ou queixa mais específica. Ela relatou que, a médica viu que seus exames revelaram uma forte anemia, ficou bastante admirada pelo fato de ela estar realizando seus afazeres normalmente. Além de ter que tomar sangue, Rose foi submetida a outra curetagem. Ela também relatou, após eu questionar se ela fazia seus hemogramas regularmente, que depois do nascimento de Wendy (período em que foi submetida à uma cirurgia da vesícula e também foi constatada uma anemia) nunca mais realizou um exame de sangue.
Seu relato e aspecto físico provocaram em mim preocupação, cuidado e um receio de que estivesse com alguma doença grave. Pareceu-me também que Rose tinha pouca percepção de seu próprio corpo, visto que não conseguiu dar-se conta de sua fragilidade física ou de seu adoecimento.