2.1.2. Tüketici DavranıĢ Modelleri
2.1.2.2. Modern (Tanımlayıcı) DavranıĢ Modelleri
2.1.2.2.2. Howard ve Sheth Modeli
Na dissertação de Póvoa (2007), focada no estudo da implantação na paisagem e da cultura material dos Abrigos CERA, em Aquidauana/MS, também foi registrada a ocorrência de alguns fragmentos cerâmicos decorados com técnicas similares às da Fase
Jacadigo, bem como às da vasilha atribuída à Tradição Serra da Bodoquena. Os Abrigos CERA, formados por uma cavidade compartimentada por outras quatro concavidades menores no seu interior, denominado abrigo Aquiduana IVa, e por outra concavidade menor, localizada à 200 m da primeira, chamado Aquidauana IVb, estão localizados no sopé de uma escarpa da Serra de Maracajú, em uma matriz rochosa arenítica da Formação Aquidauana, associada às camadas basais da borda noroeste da Bacia Sedimentar do Paraná, em ambiente de Cerrado e Cerradão, nas proximidades de calhas plúvio-fluviais tributárias da margem direita do rio Aquidauana, o principal afluente da sub-bacia do Miranda-Aquidauana. Os Abrigos CERA distam menos de 100 km, em linha reta, da TI Lalima.
O sítio Aquidauana IVa foi submetido à escavação arqueológica, por intermédio do método das superfícies amplas. As decapagens evidenciaram a presença de três camadas de sedimentos, porém Póvoa (2007, p. 117) identificou apenas um estrato arqueológico, formado principalmente por materiais líticos e cerâmicos. A autora aludiu à presença de sedimentos antropogênicos e vestígios zooarqueológicos, e enfatizou a “ausência ou a não preservação de fogueiras” (Ibid., p. 111, 116-7). Considerando os processos associados à formação dos depósitos sedimentares, de um lado, e os dados das análises dos registros líticos, cerâmicos e rupestres, Póvoa (op. cit., p. 116-7) concluiu que o sítio pode ser entendido como um “palimpsesto do tempo”, ocupado por populações ceramistas diferentes, e que houve um “achatamento estratigráfico”, na medida em que os eventos de ocupação não foram diferenciados por camadas sucessivas.
A autora analisou materiais líticos e cerâmicos recolhidos no Aquidauana IVa e a arte rupestre deste e do Aquidauana IVb. Os materiais líticos, confeccionados principalmente sobre seixos rolados de arenito silicificado, abundantes nas proximidades, são formados principalmente por vestígios de lascamento, relacionados à redução de núcleos e à produção de artefatos, tais como resíduos de lascamento, percutores, núcleos, lascas e artefatos talhados e retocados. Entre estes, destacam-se as lascas retocadas e os raspadores, inclusive um plano-convexo, descrito como uma “lesma”. Se compreendi as conclusões em relação aos significados do “conjunto lítico”, Póvoa (2007, p. 57-8, 78), “partindo do pressuposto de que a organização tecnológica apresenta os mesmos princípios”, rechaçou a hipótese inicial de que as camadas evidenciadas com a escavação do abrigo representariam “horizontes distintos de
ocupação”, e adotou um “viés sistêmico”, entendendo os Abrigos como “acampamento de longa duração (ou visitas contínuas)... de um ou mais grupos humanos”.
Figura 9: Acabamento de superfície nos fragmentos cerâmicos encontrados dos Abrigos Cera (Póvoa 2007, anexos, prancha 12, modificado).
Os materiais cerâmicos, sucessivamente, são constituídos por apenas 128 fragmentos de vasilhas cerâmicas e uma rodela de fuso. A análise dos fragmentos revelou que o vasilhame era confeccionado com pastas compostas apenas por argilas e minerais, por meio da técnica da sobreposição de cordéis. A maioria das vasilhas era alisada e/ou polida, porém a face externa de algumas foi decorada com engobo e pintura vermelha, ponteado, escovado e aplicado, e a face interna com engobo e pintura vermelha (Figura 9). Foram observadas vasilhas não restringidas e restringidas, simples e compostas, globulares, semi-elípticas horizontais, cilíndricas e trapezoidais, com bordas extrovertidas, introvertidas e diretas, lábios arredondados, diâmetro da boca entre 9 e 30 cm, altura entre 7 e 11 cm, e volume entre 0,33 e 2,35 l. A queima do vasilhame era incompleta e, provavelmente, a céu aberto. Um dos fragmentos foi datado por termoluminescência, fornecendo a idade de 690 ± 80 AP (Póvoa, 2007, p. 40). Em relação à análise cerâmica, a autora considerou que a baixa densidade de materiais cerâmicos indicaria que o abrigo “tenha sido utilizado em momentos esporádicos”; que a “diversidade de formas” e a “alta diversidade... relacionada à técnica de manufatura, tratamento de superfície e decoração... não havendo padronização entre os elementos cerâmicos”, resultariam das diferenças entre os grupos que ocuparam o abrigo ao longo do tempo; e que seriam “vasilhames pequenos comportando pouco volume, o que indica que podem ser adaptados às questões de portabilidade” (Ibid., p 105).
Não sequência, a autora sintetiza a hipótese advinda das suas conclusões em relação à cerâmica:
... nossa principal hipótese averiguável pelo conjunto artefatual cerâmico é que o obrigo estava sendo utilizado por diferentes grupos, em diferentes momentos (portanto em longa duração), enquanto acampamentos temporários, onde eram efetuadas atividades relacionadas à proteção e alimentação (em primeiro plano) e outras tais como lascamento e reparo de instrumentos...(sic) (PÓVOA, 2007, p. 105-106).
Em relação à arte rupestre, Póvoa (2007, p. 107-11 passim) identificou pictografias no Aquidauana IVa e petroglifos neste o no Aquidauana IVb. As pictografias são formadas por pinturas vermelhas e brancas, sobre suportes verticais e inclinados, defronte e no teto do abrigo. As gravuras, por sua vez, foram confeccionadas
através da técnica do picoteamento, em suportes horizontais, sobre blocos e lajedos. Tanto as pictografias quanto os petroglifos representam figuras em formas geométricas, antropomorfas e zoomorfas, tais como traços, tridáctilos, ampulares, figuras humanas e répteis (cágados e “um lagarto ou um jacaré”), entre outros. As pinturas brancas, “melhor fixadas e menos borradas”, estão sobrepostas às vermelhas, “menos discernível”, sendo que, em alguns casos, estas serviram de “base” e “tela” para aquelas. Os petroglifos, por sua vez, são mais parecidos com as pinturas brancas.
Com base nestas observações, a autora sugeriu que “as pinturas vermelhas sejam mais antigas que as brancas e as gravuras a elas associadas”, e que a reprodução de certos elementos nas pinturas brancas do Aquidauana IVa e nas gravuras deste e do Aquidauana IVb, sobretudo a figura do cágado, são “um... elo simbólico entre os dois sítios e uma prova de que a apropriação desses espaços se deu por um mesmo grupo cultural” (Póvoa, 2007, p. 111). Por outro lado, diante da “ausência de crayons”, a autora (Ibid., p. 108, 111) concluiu que, devido à falta “da evidência da execução de pinturas pelos mesmos grupos humanos que lascaram seixos e blocos de arenito silicificado e utilizaram pequenos recipientes cerâmicos”, a relação entre a arte rupestre e a “camada arqueológica lito-cerâmica não é provada”.
Com efeito, na opinião da autora, tais constatações reforçaram a hipótese sugerida com base na análise cerâmica, citada adrede, sobre a “pluralidade ocupacional e o caráter multicomponencial dos sítios”:
Assim, retomamos observações realizadas no capítulo 4 acerca da diversidade morfo-estilística cerâmica, estendemos seus dados para uma compreensão mais ampla do Aquidauana IVa. A constatação empírica da diversidade dos tipos de tratamento de superfície e decoração plástica dos vestígios cerâmicos, bem como de sua quantidade numérica muito pequena no sítio, reporta-nos a diferentes presenças de grupos ceramistas no sítio que, embora em mesmo nível estratigráfico, reforça a possibilidade de estarmos diante de um palimpsesto do tempo (PÓVOA, 2007, p. 116).
Todavia, apesar de concordar que os Abrigos CERA foram ocupados por povos indígenas distintos ao longo do tempo, principalmente em atividades específicas e efêmeras, porém regulares e sazonais, associadas à subsistência, à tecnologia e aos
aspectos ideacionais e simbólicos da cultura, não sei até onde as “constatações empíricas” utilizadas como base das proposições da autora, sobretudo em relação aos dados da análise cerâmica, se sustentam. O tratamento de superfície, considerado “diverso”, conta apenas com cinco técnicas decorativas distintas do alisamento: engobo vermelho, preponderante, seguido por pintura vermelha, ponteado e pintura vermelha, escovado e aplicado. Conforme a prancha 12, situada nos anexos da dissertação em discussão, o fragmento aplicado trata-se de uma borda de vasilha cerâmica decorada com apliques de filigrana de argila na face externa e no lábio, o qual é praticamente idêntico aos fragmentos destacados por Schmitz et al. (1998, p. 235) nas figuras 3 e 13 da “Figura 76 – Formas das vasilhas da fase Jacadigo” (Figuras 5 e 9).
Sem pôr a qualificação da autora em descrédito, a técnica decorativa mista apresentada nos fragmentos quantificados como “ponteado e pintura vermelha”, mostrados nas pranchas 6 e 12, são muito semelhantes à impressões de corda (Figura 9). Além disso, há, aparentemente, em um desses fragmentos, uma faixa preta horizontal abaixo de um faixa vermelha. A análise morfológica desses fragmentos, os quais correpondem a bordas da mesma vasilha, resultou na reconstituição gráfica de uma tigela suavemente restringida, contorno simples e forma globular, borda direta e lábio reforçado-externo, com 10 cm de altura, 9 cm de diâmetro de boca e 0,67 l de volume, provavelmente utilizada no consumo de alimentos líquidos (Figura 10). A decoração, formada por seis ou sete alinhamentos horizontais, paralelos à boca, de pontos losangulares semelhantes a impressões de corda, pinturas de faixas e linhas horizontais vermelhas sobre os ponteados e de uma faixa preta abaixo daquelas, talvez sobre fundo vermelho, localiza-se no seguimento superior da vasilha, a partir do lábio, ao seu turno decorado com pintura vermelha. Como visto acima, as impressões de corda foram observadas em todas as fases da Tradição Pantanal concebidas a partir do Projeto Corumbá, porém o sítio MS-CP-25 apresentou uma frequência muito maior da dita técnica, inclusive formando motivos estilizados combinados com cromatismo, sendo associado, em conjunto com a Fase Jacadigo, à ocupação histórica dos índios Guaikurú e Kadiwéu, devido à analogia técnica e estilística em torno das impressões de corda entre os contextos arqueológicos e etnográficos. Posteriormente, subentendo que outros grupos podem ter compartilhado as tais técnicas decorativas desde antes do colonialismo, Eremites de Oliveira e Viana (1999-2000) e Eremites de Oliveira (2004) associaram o MS-CP-25 à Tradição Chaquenha e à Macrotradição Pantanal. Por outro lado, Póvoa (2007) não menciona a ocorrência de categorias técnicas, decorativas ou
morfológicas que pudessem ser associados às tecnologias ceramistas mais conhecidas arqueologicamente, como a relacionada com a história cultural dos povos falantes de línguas Tupi-guarani, os quais, por sua vez, são relativamente recorrentes em abrigos situados nas escarpas e morros testemunhos na borda noroeste da bacia sedimentar do Paraná, no entorno da porção oriental do Pantanal, inclusive na Serra de Maracajú (BERRA; DEBLASIS, 2005; MARTINS, 2003; KASHIMOTO; MARTINS, 2009; WÜST, 1999).
Figura 10: Vasilha cerâmica reconstituída a partir de um fragmento de borda decorada com “ponteado e pintura cermelha” (PÓVOA, 2007, anexos, prancha 06).
A técnica de manufatura também foi tida como diversa, sendo igualmente utilizada pela autora na argumentação das suas assertivas em relação à diversidade da ocupação dos Abrigos CERA. Porém, paradoxalmente, a própria autora afirmou que “No caso do conjunto artefatual em estudo 100% dos elementos foram obtidos através da técnica do acordelado” (PÓVOA 2007, p. 93). No entanto, há alguns fragmentos desenhados na prancha 13 que se assemelham a apêndices (alças de suspensão), geralmente confeccionados a partir de uma mescla entre as técnicas roletado e modelado.
Quanto aos resultados da análise da forma do vasilhame, excetuando-se a forma infletida apresentada na prancha 09, a qual lembra o contorno de um yapepó Guarani, todas as outras são demasiadamente simples e recorrentes na maioria das tecnologias ceramistas indígenas nas terras baixas sul-americanas, tratando-se, provavelmente, de tigelas e pratos usados no consumo de alimentos sólidos e/ou líquidos. Nesse sentido, frente à redução das possibilidades aventadas a partir da decoração das vasilhas e à neutralização dos argumentos em torno da técnica de manufatura e da morfologia, é provável que a diversidade de povos ceramistas que ocuparam os Abrigos CERA não seja tão alta assim.
A indústria lítica, por sua vez, dado o seu caráter mais formal, pode estar associada a uma provável ocupação caçadora-coletora anterior ao surgimento da cerâmica, do mesmo modo como em outras áreas situadas no contexto do Pantanal e do Brasil Central e Meridional, mesmo considerando a complexidade da estratigrafia e a datação por termoluminescência. O mesmo raciocínio é válido no que se refere à arte rupestre, principalmente a pintura vermelha, supostamente mais antiga que as brancas e que as gravuras, mesmo levando em conta a ausência de crayon ou outros vestígios que correlacionem uma coisa à outra vis-à-vis. Outro ponto interessante é que a cerâmica está mais para o Chaco do que para a Amazônia e o Brasil Central, o que remete à origem oeste-sudoeste, provavelmente pré-histórica, porém posterior aos caçadores- coletores. Destarte, se houve sobreposição das pinturas vermelhas pelas brancas, se os petroglifos são mais similares a estas do que às outras, se o lítico é tecnologicamente caçador-coletor e se a cerâmica é exógena, é provável que os ceramistas também tenham decorado os suportes rochosos dos abrigos.