Como explicamos, analisamos as ocorrências de te e de lhe em 186 cartas pessoais escritas por cearenses entre 1940 e 2000. Nestas cartas, as ocorrências desses pronomes somaram-se 481, das quais 245 foram de lhe e 236 de te, como mostra a tabela abaixo:
Tabela 1: Ocorrências de te/lhe nas cartas pessoais
Pronome Ocorr./Total %
lhe 245/481 50,9
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A tabela mostra um equilíbrio entre as duas formas em variação no corpus analisado, o que nos leva a concluir que se trata de uma competição bastante acirrada de duas formas linguísticas pela mesma função, que é a 2ª PESS SING no caso oblíquo. A forma te, na amostra analisada, apresenta 49,1% de uso e a forma lhe 50,9%. Esse fato corrobora a informação de Bagno (2012) de que lhe é muito frequente no Norte e no Nordeste, mesmo nas comunidades linguísticas em que ainda se emprega muito tu como SUJ, que é o caso do Ceará (SOARES, 1980).
Tendo havido um desequilíbrio entre as quantidades de cartas do primeiro período (1940/1950 – apenas 26) e as dos demais períodos (1960/1970 – 80 cartas; 1980/1990 – 80 cartas), resolvemos realizar, posteriormente, rodadas separadas: uma com as 26 cartas das décadas de 1940 e 1950 e outra com as 160 cartas das quatro décadas posteriores. O resultado foi que lhe mostrou-se mais usado tanto no primeiro período quanto nos demais, embora a concorrência com te seja muito acirrada em toda a extensão temporal analisada.
Tabela 2: Ocorrências de lhe por década considerando-se dois períodos Períodos Ocorr./Total %
1940-50 38/71 53,5
1960-90 207/410 50,5
Já analisando a ocorrência de lhe nos três períodos, percebemos uma queda gradual de seu uso ao longo do século XX nas cartas pessoais da amostra, como podemos verificar na tabela 3:
Tabela 3: Ocorrências de lhe nos três períodos
Períodos Ocorr./Total %
1940-50 38/71 53,5
1960-70 108/206 52,4
1980-90 99/204 48,5
Esse mesmo resultado pode ser visto de forma mais clara no gráfico 1, que traz o percentual de uso das duas formas nas 186 cartas escritas ao longo dos três períodos analisados:
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Gráfico 1: Percentual de te e de lhe em 186 cartas de 1940 a 2000:
Inicialmente, havíamos suposto que, nas décadas de 40 e 50, lhe como forma de 2ª
PESS era pouco frequente porque, conforme o estudo de Duarte (1993), a suplantação de tu (do
qual te é a forma objetiva) por você (cuja forma objetiva é lhe) começa a ocorrer a partir da década de 1930 e, na amostra que observamos do Corpus Compartilhado Diacrônico: cartas pessoais brasileiras, organizado por Oliveira e Lopes (2007), nas 97 cartas trocadas por um casal de noivos do Rio de Janeiro entre os anos 1936 e 1937, são raríssimas as ocorrências de lhe no lugar de te. Entretanto, em nossa amostra, ao contrário do que acontece nas cartas fluminenses, lhe revelou-se bastante usual já na década de 1940, aparecendo em 53,5% das ocorrências de pronome oblíquo átono de 2ª PESS, o que representa quase a metade do total,
contradizendo nossa hipótese. Já ao se considerar as duas décadas (1940 e 1950), percebemos que, na amostra, lhe foi mais usado do que te, com 53,5% das 71 ocorrências de pronome oblíquo.
Havíamos presumido também que, nas décadas de 60 e 70, lhe como forma de 2ª pessoa apresentava frequência tão alta quanto a antiga forma te, como consequência da reanálise iniciada décadas antes. A análise confirmou nossa hipótese, uma vez que a frequência de lhe é muito próxima da de te, sendo um pouco mais alta do que esta (52,4%).
Também havíamos presumido que, nas décadas de 80 e 90, lhe predominava sobre te, pois tendo lhe assumido o traço [+2ª pessoa], haveria uma tendência crescente ao seu
46,5 47,6 51,5 53,5 52,4 48,5 42 44 46 48 50 52 54 56 1940-1950 1960-1970 1980-1990 te lhe
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emprego no lugar de te. No entanto, a análise mostrou que te foi mais usado do que lhe, ficando este abaixo da metade das ocorrências de pronome oblíquo, com 48,5%.
Esses números corroboram a afirmação de Bagno (2012, p. 765)31, quando ele diz que “o lhe [de 2ª PESS] tem uma distribuição que poderíamos chamar de regional, porque não é em todas as variedades do PB que ele ocorre com frequência, sendo mais comum em alguns falares nordestinos (Bahia e Ceará, por exemplo).” Ao usar o termo “regional”, o autor refere- se ao fato de o lhe predominar em algumas regiões, o que nada tem a ver com urbano ou rural.
Embora o lhe de 2ª PESS seja frequente no Ceará, como mostram os dados obtidos
através das cartas pessoais escritas por cearenses, essa forma não fez com que te fosse eliminado dessa variedade regional, tampouco se tornasse esporádico. Ao contrário, a variação te/lhe, no Ceará, revela-se, através da amostra analisada, muito acirrada, sobretudo a partir da década de 1960, quando há uma pequena redução da frequência de lhe.
Numa mesma carta da década de 1940, o remetente alterna o uso de te e de lhe como índices de 2ª PESS em contextos muito semelhantes, como mostram os trechos (11) e
(12) abaixo:
(11) pessu-te desculpa dos Eros e da letra. [C003-29.4.1941]
(12) pessu-lhi que procuri juntar as cartas que estão cauzando aperreio ahi entre os crentes. [C003-29.4.1941]
A mesma alternância se verifica numa carta de 1992, em que a remetente ora usa lhe, ora usa te na referência ao destinatário:
(13) preciso lhe vê, falar coisas que não dão nas cartas e também a saudade é demais. [C174-9.12.1992]
(14) te agradeço por tudo [C174-9.12.1992]
Em linhas gerais, os resultados por período apontam para uma variação estável entre as formas te/lhe no português cearense, com uma pequena queda do emprego da forma lhe e retorno da forma antiga canônica nas últimas décadas do século XX.
31 Em sua Gramática pedagógica do português brasileiro (Parábola, 2012), Bagno utiliza dados do projeto
NURC-Brasil e recorre às pesquisas de Nívia Lucca (2005) e Dias (2007) – sobre a variação tu/você em Brasília; Vera Paredes Silva (2003), sobre tu/você no Rio de Janeiro; Lucchesi et al. (2009) sobre o português afro-brasileiro; Lopes (2005); Omena (2003) sobre nós / a gente; Sá; Cunha; Lima; Oliveira (org.) (2005) sobre a língua falada culta no Recife; Scherre (1988) sobre a variação na concordância nominal; além de pesquisas suas com textos jornalísticos.
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