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Quanto ao uso variável de te/lhe por remetente, nossa hipótese inicial era a de que a forma lhe seria mais usada pelo conjunto dos indivíduos do que a forma antiga, visto que o Ceará localiza-se na região do país em que o lhe como 2ª PESS é bastante frequente (BAGNO,

2012, p. 753-6). Embora duas ou três cartas em que se usou uma forma variante por duas ou três vezes não possam garantir que, na fala do indivíduo que a escreveu, a outra forma variante não ocorra, supúnhamos que haveria remetentes que empregariam apenas uma das formas, que esta seria, portanto, de uso categórico para tais remetentes. Nesse sentido, nossa hipótese era a de que o uso categórico de lhe fosse superior ao uso categórico de te e inferior ao uso das duas formas em alternância pelo mesmo remetente. Os resultados confirmaram nossas hipóteses.

Para expormos como a variação te/lhe acontece no indivíduo, isto é, em relação aos 86 remetentes, apresentamos o resultado num quadro com dois grupos:

1) uso categórico, que compreende:

a) a quantidade de indivíduos que usaram apenas te; b) a quantidade de indivíduos que usaram apenas lhe; 2) uso variável, que compreende:

a) a quantidade de os indivíduos que usaram de forma igual te e lhe (te = lhe); b) a quantidade de os indivíduos que usaram mais te do que lhe (+ te);

c) a quantidade de os indivíduos que usaram mais lhe do que te (+ lhe). O resultado está exposto na tabela seguinte:

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Tabela 5: Uso de te/lhe por remetente Uso das formas por

remetente te/lhe Total

Uso categórico Apenas te 21/86 Apenas lhe 47/86 Uso variável + te 10/86 te = lhe 6/86 + lhe 2/86

Observando a tabela 5, percebemos um fato curioso: apesar de lhe ter sido amplamente usado de forma categórica (47 dos 86 indivíduos só usaram lhe), esta forma pronominal não predominou quando a variação ocorreu no indivíduo: apenas dois remetentes que usaram te/lhe de forma variável deu preferência a lhe.

Somando-se o número de remetentes que usaram lhe de forma categórica (47) com os que usaram a variação te/lhe (18), percebemos o uso de lhe por 65 indivíduos em suas cartas pessoais, o que significa dizer que esta forma foi usada por 75,6% dos remetentes da amostra.

O uso das formas variantes te e lhe pelos 86 remetentes das 186 cartas da amostra pode ser conferido na tabela abaixo:

Tabela 6: Uso das formas variantes te e lhe por remetentes das cartas Uso das formas

te/lhe

Quantidade de

remetentes %

Categórico 68/86 79,1%

Variável 18/86 20,9%

A tabela acima revela que, na amostra, a quantidade de remetentes que usaram apenas uma das variantes (ou só te ou só lhe) foi maior do que a quantidade de remetentes que fizeram uso variável desses pronomes.

Será que esse resultado seria igual se comparássemos o uso dos pronomes nas 186 cartas? Vejamos. Para isso, procedemos da mesma forma, isto é, dividimos as cartas em dois grupos:

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1) uso categórico, que compreende:

a) a quantidade de cartas em que se usou apenas te; b) a quantidade de cartas em que se usou apenas lhe;

2) uso variável, que compreende a quantidade de cartas em que se usaram tanto te quanto lhe.

A tabela seguinte mostra esse resultado:

Tabela 7: Uso de te/lhe por carta

Uso das formas por carta te/lhe Total

Uso categórico apenas te 74/186

apenas lhe 83/186

Uso variável te/lhe 29/186

A tabela mostra que, assim como entre os remetentes, o uso de te e lhe nas cartas aconteceu mais de forma categórica (157 cartas, sendo 74 em que só aparece te e 83 em que só aparece lhe) do que de forma variável (apenas 29 cartas).

Comparando-se os dois resultados, temos a tabela 8 abaixo:

Tabela 8: Uso das formas te/lhe por cartas e por remetentes Uso de te/lhe Quantidade de remetentes % Quantidade de cartas % Apenas te 21 24,5 74 39,8 te/lhe 18 20,9 29 15,6 Apenas lhe 47 54,6 83 44,6 Total 86 100,0 186 100,0

Apesar de o uso categórico de lhe predominar tanto no resultado por remetente quanto no resultado por cartas, o percentual desse uso apresenta leves diferenças: 54,6% dos remetentes utilizaram lhe de forma categórica e lhe apareceu de forma categórica em 44,6% das cartas. O gráfico 2 dá-nos uma visão melhor da comparação desses resultados:

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Gráfico 2: Percentual de uso de te/lhe por remetentes e por cartas

Pelo gráfico 2, notamos que a forma lhe foi preferida pelos 86 remetentes que escreveram as 186 cartas de nossa amostra e que, por conta disso, encontramos mais cartas em que aparece só o pronome lhe do que só o pronome te ou ambos em variação.

A tabela abaixo mostra como a variação por remetente aconteceu ao longo do recorte temporal compreendido pela pesquisa, isto é, quantos remetentes fizeram uso categórico e quantos fizeram uso variável em cada período estudado:

Tabela 9: Uso de te/lhe por remetente nos três períodos

Usos

Períodos

Apenas te te/lhe Apenas lhe

Total de remetentes por período 1940-1950 5 4 9 18 1960-1970 8 8 21 37 1980-1990 8 6 17 31 Total de remetentes por uso 21 18 47 86

Pela tabela acima, percebemos que a variação te/lhe ocorreu em cada um dos períodos analisados, assim como em cada um desses períodos houve quem só usasse te e quem só usasse lhe. Como o número de remetentes varia por período, é preciso estarmos

39,8 15,6 44,6 24,5 20,9 54,6 0 10 20 30 40 50 60 te te/lhe lhe cartas remetentes

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atentos quanto a um aumento ou declínio do uso categórico ou variável de te ou de lhe por remetente em cada um desses três períodos. Assim, do total de 86 remetentes tem-se a seguinte distribuição:

Nas décadas de 1940-1950, 28% dos remetentes usaram apenas te, enquanto 50% usaram apenas lhe, tendo os demais 22% usado os pronomes de forma alternada. Há de se considerar que as cartas desse período são, em sua maioria (com exceção de apenas duas), escritas por senhores e senhoras acima de 30 anos. Os remetentes que utilizaram apenas te eram todos femininos, sendo uma delas irmão do destinatário de suas cartas.

Nas décadas de 1960-1970, o uso categórico da forma te caiu: 21,5% dos remetentes usaram apenas esse pronome, enquanto o uso categórico da forma lhe teve um aumento: 57% o usaram de forma exclusiva. Os dois pronomes foram usados de forma alternada na mesma medida em que te foi usado de forma categórica: por 21,5% dos remetentes.

Já nas décadas de 1980-1990, te voltou a ser usado mais vezes de forma categórica: 25,8% dos remetentes usaram apenas esse pronome, enquanto o uso categórico da forma lhe caiu: 54,8% usaram esse pronome de forma exclusiva. A alternância entre as duas formas ocorreu em 19,4% dos remetentes. Vejamos estes percentuais na tabela10:

Tabela 10: Percentual de uso das formas te/lhe por remetente nos três períodos

Períodos Apenas te te/lhe Apenas lhe

1940-1950 28% 22% 50%

1960-1970 21,5% 21,5% 57%

1980-1990 25,8% 19,4% 54,8%

O gráfico 3 abaixo mostra o uso de te e de lhe pelos 86 remetentes das cartas escritas ao longo dos três períodos analisados:

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Gráfico 3: Percentual de uso de te e lhe por remetente nos três períodos

Pelo gráfico, podemos ver que lhe foi mais usado pelos 86 remetentes e que a variação entre as duas formas ocorreu nos três períodos analisados, porém com uma pequena redução ao longo do tempo.

As tabelas e os gráficos apresentados nesta seção nos mostram que:

a) a forma lhe foi a forma mais usada pelos 86 remetentes da amostra ao longo dos três períodos analisados;

b) o uso variável de te/lhe por remetente mostrou-se em declínio ao longo dos três períodos analisados;

c) nas décadas de 1960 e 1970, o uso categórico de te deu-se, na amostra, na mesma proporção (21,5%) que seu uso em variação com a forma lhe entre os remetentes do período;

d) o uso categórico de lhe pelos 86 remetentes foi verificado nos três períodos, ocorrendo com metade dos remetentes do primeiro período e com mais da metade dos remetentes do segundo e do terceiro períodos, embora tenha havido uma queda no número de remetentes que fizeram uso categórico de lhe no último deles. Em outras palavras, lhe, como pronome de 2ª PESS, teve um aumento de uso nos anos 1960 e 1970, mas sofreu declínio nos anos 1980 e 1990, enquanto a antiga forma te, que teve uma queda de uso nas décadas de

28% 21,50% 25,80% 50% 57% 54,80% 22% 21,50% 19,40% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 1940-1950 1960-1970 1980-1990 te lhe te/lhe

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1960 e 1970, voltou a ser mais usada de forma categórica nas décadas de 1980 e 1990, embora ainda em menor frequência do que lhe.

e) uma vez que temos muitas cartas de jovens abaixo de 25 anos durante as décadas de 1980 e 1990, conforme mencionamos na seção 4.3, página 75, esses resultados vão ao encontros dos apontados por Almeida (2009) quando estudou a variação te/lhe como ACUS na fala de Salvador (BA) e concluiu que o uso do pronome lhe tem entrado em declínio entre os indivíduos mais jovens e que te tem ressurgido como forma cada vez mais usada.

Tratemos agora apenas da forma lhe nas cartas, comparando o total de ocorrências desse pronome nos três períodos analisados e seu uso categórico em cada um desses períodos. A tabela abaixo apresenta o percentual de uso da forma lhe por carta (186) e por remetente (86):

Tabela 11: Ocorrências de lhe por carta e como uso categórico por remetente em cada período

analisado

Períodos Por carta

Uso categórico por remetente Ocorr./Total % Rem./Total % 1940-50 38/71 53,5 9/18 50 1960-70 108/206 52,4 21/37 57 1980-90 99/204 48,5 17/31 54,8 total 245/481 50,9 47/86 54,7

A partir da leitura da tabela, percebemos que, nas cartas, a forma lhe foi caindo ao longo dos três períodos, ao contrário de seu uso categórico por remetente, que teve um aumento no segundo período (de 50% para 57%), porém uma queda no terceiro (de 57% para 54,8%).

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Gráfico 3: Percentual de lhe nas cartas e como uso categórico por remetente

As tabelas e os gráficos dos resultados por remetente revelam-nos detalhes interessantes da variação te/lhe nas cartas cearenses do século XX, os quais não conseguiríamos perceber sem controlarmos o remetente como um grupo de fatores.

É importante ir além da análise do todo, no caso, as cartas, pois, conforme Menon, Loregian-Penkal e Fagundes (2013, p. 334), “se tratarmos só da variação na comunidade – só do todo – as diferenças podem se diluir e não conseguem dar uma explicação ao fenômeno da variação e ao da mudança, caso esta esteja acontecendo.”

Analisar o comportamento dos indivíduos quanto a uma variação permite averiguar o quanto o usuário da língua reflete o comportamento do grupo e vice-versa.

Como estamos trabalhando com cartas, vamos tomá-las como sendo o todo (186 cartas em que houve 481 ocorrências de um dos pronomes em variação – te ou lhe). Note-se que, quando analisamos o uso de lhe pelos remetentes das 186 cartas, o resultado se deu de forma diferente de quando analisamos o uso de lhe no total de cartas: do total de 481 ocorrências, a forma lhe foi mais usada (50,9%) e seu uso de forma categórica ocorreu com 54,7% dos 86 remetentes, porém o número de ocorrências de lhe foi caindo ao longo dos três períodos, assim como também caiu o número de remetentes que fizeram uso categórico de lhe ao longo desses mesmos períodos, embora tenha havido um acréscimo desse número no período intermediário. 53,5 52,4 48,5 50 57 54,8 44 46 48 50 52 54 56 58 1940-50 1960-70 1980-90

uso nas cartas

uso categórico por remetente

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A análise por remetente também nos permitiu comprovar que, sim, há escribas em que o uso de uma determinada forma variante parece ser categórico, predominando em uns a forma lhe, em outros te. Além disso, há remetentes que oscilam entre as formas variantes te/lhe, também ora predominando a escolha por lhe em uns e a escolha por te em outros.

Dos 86 remetentes, J. E. S. N. foi o que mais usou lhe, sendo este categórico nas cartas deste remetente, como comprovam os trechos de suas duas cartas selecionadas para esta rodada:

(23) como mandei lhe chamar e você não veio (...) Eu mandei lhe chamar exatamente para acerta esse negócio [C114-11.10.1980]

(24) Com estas poucas linhas quero lhe falar de um assunto (...) quero lhe dizer que não quero que esta carta venha trazer inimizade entre nós dois (...) quero lhe dizer que ando um tanto preocupado (...) Já lhe fiz algum mal? (...) Será que em algum momento não lhe fui útil? Será que no futuro também não posso lhe servir em alguma coisa? Gostaria de lhe assegurar que sou candidato (...) e queria lhe pedir como irmão, o seu apoio (...) Mas gostaria também de lhe propor um pacto (...) peço-lhe uma coisa (...) Eu até lhe sujeria uma coisa muito importante. (...) Eu lhe asseguro que não falarei mal de você, ok? (...) Será que isso não lhe serviu ao menos de favor? (...) Lembre-se da sujestão que lhe faço no início desta carta (...) [C162-30.6.1988]

Note que o remetente usa lhe indiscriminadamente como OD (“mandei lhe

chamar”), como OI(“quero lhefalar”) e como CN(“não lhefui útil?”).

Dentre os que fizeram uso categórico de te, destacamos o autor das cartas C093 e C105, cujos trechos transcrevemos abaixo:

(25) Deus te dê felicidade (...) que a virgem mãe de Deus te cubra com o manto (...) Deus te dê paz e paciência e te conserve sempre o mesmo que conhecia quando colega de aula. [C093-7.5.1979]

(26) mamãe e todos te envia um feliz natal (...) Francisco o que posso dizer-te, e que Deus ilumine teus passos (...) também te envio uma pequena lembrança (...) tudo que posso dizer- te, o que representa pra mim, é como fosse um irmão (...) já mais esquecerei te prometo, que sempre seremos amigos fieis. [C105-25.12.1979]

Tais ocorrências, porém, não trazem nada de inovador quanto ao uso de te, pois, como dissemos antes, não é uma só forma usada tanto para o ACUS quanto para o DAT, mas dois homônimos de étimos diferentes: quando o remetente escreveu “te conserve”, usou o te derivado do acusativo latino tē; quando escreveu “te dê”, “te envia”, “dizer-te” e “te

prometo”, usou o te derivado do dativo latino tibi.

Como já foi dito, a variação te/lhe mostrou-se acontecer no remetente em 47 dos 86 remetentes selecionados (54,7%). Interessante é que, apesar de o uso categórico de lhe ser maior do que o uso categórico de te, entre os remetentes que fizeram uso variável das duas

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formas (18/86 ou 21%), te predomina sobre lhe. Exemplo disso ocorre nas cartas C171 e C174, da mesma remetente:

(27) eu queria poder está aí e até ser uma pessoa em que pudesse fazer você esquecer quem tanto te magoou (...) O que eu puder fazer para ti ajudar eu estou aqui (...) um dia você irá encontrar alguém que realmente te ama (...) quero lhe mostrar que não devemos nos desesperar (...) estou aqui para te ajudar (...) Te Adoro meu amigo [C171-28.8.1992]

(28) Espero que esteje bem, que Deus lhe acompanhe (...) Não lhe escrevi antes pois estou um pouco ocupada (...) pois como lhe falei, não temos uma pessoa para investir. Preciso saber + ou – a data que você está aqui, preciso lhe vê (...) queria lhe pedir se possível mandasse para mim duas letras de música (...) te agradeço por tudo (...) te adoro [C174-9.12.1992]

A situação oposta, ou seja, lhe predominando na variação individual, pode ser verificada nos trechos das seguintes cartas do mesmo remetente:

(29) Você não imagina como lhe esperei na agência e como fiquei triste por ver que não vinhas. (...) Quero que desculpes o que escrevi naquele enderêço ou melhor naquele papel que lhe entreguei. (...) Não sei bem o que eu faria se algum dia eu te reencontrasse (...) como é que eu sendo esquecida não consigo te esquecer. (...) não sei se era de tristeza ou se era vontade de te ver, mas quando te vi percebi que não era tristeza. (...) Não destrua o enderêço que lhe dei, você irá precisar dele, quando eu voltar para o enderêço que lhe dei avizarei (...) Peço-lhe inúmeras desculpas se com a chegada desta você fique aborrecido (...) peço-lhe por tudo que você mais preza não deixe de me escrever. (...) Francisco já que vou custar a ver-lhe isto é só vou ver-lhe em dezembro. [C058-5.8.1974]

(30) eu lhe quero como você realmente é e não como queres ser (...) Quanto a escolha que você me fala pensarei bem e depois mandarei lhe dizer ok? (...) Na próxima carta mandarei lhe dizer uma coisa muito importante (...) Mais um grande beijo daquela que não te esquece e que te admira. [C059-9.8.1974]

Como mostram Menon, Loregian-Penkal e Fagundes (2013), a análise da variação no indivíduo deixa claro que se pode considerar o todo, porém sem se esquecer das partes fundamentais que o compõem e permite verificar se a ortogonalidade que a rodada geral apresenta também existe na amostra individualizada. Ao se considerar o indivíduo, no nosso caso, os remetentes, obtemos uma descrição mais confiável para dar conta do comportamento da variável em estudo.

Benzer Belgeler