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31 ARALIK 2013 İTİBARIYLA KONSOLİDE OLMAYAN FİNANSAL TABLOLARA İLİŞKİN AÇIKLAMA VE DİPNOTLAR

VII. Hisse Senedi Pozisyon Riskine İlişkin Açıklamalar

“Sonho que se sonha só É só um sonho que se sonha só Mas sonho que se sonha junto é realidade”

(Raul Seixas)

Fazer esse apanhado histórico com base nas ações traçadas por essas lideranças que foram delineadas até aqui – Orlando Leite, Katie Lage, Izaíra Silvino e Elvis Matos –, nada mais é do que tentar estabelecer parâmetros que fundamentaram o processo de estruturação do campo musical na UFC e que foi fomentada coletivamente por esses agentes. A respeito do processo de institucionalização da Música na UFC, observa-se que Orlando Leite, Katie Lage e Izaíra Silvino pensaram e trabalharam para a constituição de uma escola acadêmica de música na UFC. Contudo,

[...] não conseguiram ver efetivado seu objetivo, devido às conjunturas desfavoráveis à instituição e ao reconhecimento da Arte na Universidade. Mais adiante, em um novo contexto e conjuntura histórica, já no século XXI, Elvis Matos encontraria o momento oportuno para finalmente ver criado e efetivamente instalado o Curso de Educação Musical da UFC. (SILVA, 2012, p. 149-150)

De alguma maneira, esta conjuntura de ações e pessoas permitiu e garantiu, gradativamente, a legitimidade do espaço da Música dentro da UFC, seja de forma musical ou educacional. Destaco uma reflexão trazida por Durkheim (1938 apud BOURDIEU, 2011b) que nos ajuda a entender esse processo de elaboração contínua em torno de um objetivo comum, que em si parece desorganizada ou inconsciente, mas que resulta na construção de um habitus pelos agentes sociais engajados e na constituição de um campo:

Em cada um de nós, de acordo com proporções variáveis, há o homem de ontem; é o mesmo homem de ontem que, pela força das coisas, é predominante em nós, uma vez que o presente não significa grande coisa se comparado a esse longo passado ao longo do qual nós nos formamos e do qual somos resultado. Mas esse homem do passado, nós não o sentimos, porque ele é inveterado em nós; ele forma a parte consciente de nós mesmos. Conseqüentemente, se é conduzido a não levá-la em conta, não mais do que de suas legítimas exigências. Pelo contrário, temos das mais recentes aquisições da civilização um sentimento vivo, porque sendo recentes elas ainda não tiveram tempo de se organizar no inconsciente (DURKHEIM, 1938, p. 16 apud BOURDIEU, 2011b, p. 93)

Dos desejos inconscientes aos sonhos conscientes, a soma dos esforços conjuntos que se fizeram presentes nas ações desses agentes sociais para a constituição de um campo coletivo dentro e fora da UFC, contribuiu, sobremaneira, para a formação de um novo habitus e, por conseqüência, proporcionou uma disputa/luta por posições no interior do campo em torno dos sentidos atribuídos à formação em Música/Educação Musical na cidade de Fortaleza43. Com outras palavras, Izaíra Silvino enuncia um pensamento semelhante em sua reflexão, quando afirma que:

43 É importante ressaltar que a proposição de mudanças estruturais na concepção do olhar formativo em

Música/Educação Musical não ocorreu sem que houvesse momentos de conflitos ou disputas internas no campo. Por exemplo, ao rememorar o período da minha formação na primeira turma do curso de Licenciatura em Música da UFC/Fortaleza, compreendida entre 2006 e 2009, recordo que desde o início do curso existiram oposições externas “veladas”, por parte de outras instituições formadoras em Música, frente à proposta político- pedagógica elencada pelo referido curso na constituição de um perfil discente voltado para a formação do educador musical/professor de música, ao invés de um perfil estudantil de músico-profissional voltado para a prática performática. Além disso, houve, também, embates internos por parte de alguns estudantes ingressos que estavam habituados com o modelo conservatorial de ensino de Música, e que resultou em vários debates com ideias divergentes em torno do pensamento contido na proposta curricular do curso de Licenciatura em Música da UFC/Fortaleza. Outra característica perceptível de ser destacada – e que foi melhor compreendida por mim, apenas após à conclusão do referido curso – foi a constatação de que nem todos os professores do curso de Licenciatura em Música da UFC/Fortaleza compactuavam integralmente com a proposta curricular elencada no Projeto Político-Pedagógico do curso, embora prevalecesse um discurso predominante na maioria das ações desses agentes com determinados interesses específicos comuns. O estudo elaborado por Silva (2009) traz apontamentos interessantes que retratam estas diferenças de posicionamento entre os docentes do curso através da análise de depoimentos coletados em entrevistas com esses agentes envolvidos.

Somos, todos nós, fruto de um entrelaçar de compartilhas de momentos vivos onde o cenário geográfico e o lugar onde nascemos, a família que nos abriga, o mundo cultural que nos cerca, a formação que recebemos, as escolhas e as conquistas que conseguimos alcançar, o corpo que adotamos como nosso, induz-nos à construção dos muitos eus que somos. (MORAES, 2007, p. 11)

Além disso, é possível inferir, com base nesta trajetória histórica apresentada até o momento a respeito da estruturação do campo musical na UFC, que há uma forte influência de pensamentos instigados pelas reflexões trazidas por Koellreutter, explorando a noção de “música para formação humana” e, também, do pensamento educacional de Paulo Freire, com o conceito de “pedagogia da autonomia” e “formação ética e estética”. É possível averiguar que tais pensamentos estão entrelaçados na filosofia do Projeto Político-Pedagógico do Curso de Música da UFC/Fortaleza atual.

Outro elemento importante a se ressaltar é a compreensão de como as experiências acumuladas pelos agentes envolvidos com o processo de legitimidade do campo musical na UFC partiram do artístico (Coral da UFC, Orquestra de Câmara, Camerata de Violões, Grupo de Flautas, etc.) para o educacional (cursos, oficinas, eventos, projetos de Extensão Universitária, curso de Licenciatura em Música, pós-graduação em níveis de Mestrado e Doutorado no eixo “Ensino de Música”; etc.), numa perspectiva de buscar a mudança e a transformação do status quo do campo musical local estabelecido. Algo semelhante é apontado na fala de Silva quando reflete que:

A criação do curso de Educação Musical seria realizada com muita luta, com ações direcionadas ao reconhecimento do saber musical na Universidade, pois a música apresentava-se apenas como um fazer musical dentro da academia, e não como um

saber, um saber-fazer, um campo de conhecimento inserido no meio acadêmico

(SILVA, 2012, p. 104, grifo nosso)

A respeito desse papel das instituições na construção do habitus e as mudanças que lhe são inerentes devido ao movimento contínuo da sociedade, promovendo a sua autotransformação e renovação constante através da ação dos agentes sociais, trago o pensamento de Bourdieu para complementar essa reflexão:

Princípio gerador duravelmente acrescido de improvisações reguladas, o habitus como sentido prático opera a reativação do sentido objetivado nas instituições: produto do trabalho de inculcação e de apropriação que é necessário para que esses produtos da história coletiva que são as estruturas objetivas consigam se reproduzir sob a forma das disposições duráveis e ajustadas que são a condição do seu funcionamento, o habitus, que se constitui ao longo de uma história particular, impondo sua lógica particular à incorporação, e por quem os agentes participam da história objetivada nas instituições, é o que permite habitar as instituições, se apropriar delas na prática, e assim mantê-las em atividade, em vida, em vigor, arrancá-las continuamente do estado de letra morta, de língua morta, de fazer reviver

o sentido que ali se encontra depositado, mas impondo-lhe as revisões e as transformações que são a contrapartida e a condição da reativação. (BOURDIEU, 2011b, p. 94-95, grifo no original)

Com relação a esse breve apanhado histórico sobre a trajetória de fortalecimento e organização do campo da Música em nível local apresentados até aqui, no que diz respeito ao caminho entrelaçado destes sujeitos para a construção da educação musical na UFC, Izaíra Silvino enuncia em sua fala, ainda no ano de 1993, alguns prenúncios de legitimidade para a área de educação musical, demonstrando a força e o potencial latente em Música existente no estado do Ceará, identificando estratégias para a mobilização dos agentes e traçando caminhos para a institucionalização de espaços junto à área de Música/Educação Musical:

Uma cadeia de seres singulares, pedagogos preocupados com a qualidade de vida e de formação de seres humanos cearenses dotados de qualidades singulares, cônscios de participarem da comunidade humana. Sabedores do poder/função da arte no processo de formação do homem, fazendo história, a História da Pedagogia Musical Cearense e Brasileira. Que é rica, embora descontínua, e pobre. No entanto não me faz solitária nem empírica. Na aquisição de estratégias conseqüentes de experiências artísticas compartilhadas, esta História aponta-me caminhos, novas possibilidades. Novas possibilidades e alternativas para um fazer universitário. (MORAES, 1993, p. 56)

Enfim, é possível constatar que tais mudanças, quanto ao processo de constituição do habitus docente e do campo musical em nível local, têm raízes nas heranças herdadas a partir do fazer musical coletivo conquistado e das experiências formativas acumuladas por esses agentes no espaço institucional da UFC. Por isso a importância, neste momento, de direcionar o olhar investigativo para a observação e análise do Projeto Político-Pedagógico do curso de Licenciatura em Música da UFC/Fortaleza, no intuito de avaliar as influências e pensamentos estruturados neste documento que são oriundos da trajetória histórica incorporada por esses agentes.

4.2 ANÁLISE DO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DO CURSO DE