No que toca ao trabalho tradutório da obra arltiana publicada em El Mundo, deve-se observar que a dificuldade de acesso aos originais, bem como a necessidade da consulta física desse material, pode ser apontada como importante fator para o rarefeito estudo, crítica e tradução dessa parte da obra, ao lado de questões paralelas, como os direitos autorais, enquanto vigoraram. Nesse sentido, trabalhos como a seleção e compilação das Aguafuertes, realizados por Sylvia Saítta no final da década de 199030, podem ser considerados fundamentais para os processos de circulação desses textos e consequente geração de fortuna crítica dessa faceta de Arlt. Entretanto, como observa Carvalho (2009: 16), a compilação de trabalhos inéditos e a entrada da obra em domínio público não afetaram significativamente o afluxo da crítica e a produção de novas traduções, de modo geral. Desse modo, a autora considera que o caráter periférico de gêneros como a crônica e o conto e "o fato de a crítica ver no trabalho jornalístico apenas a profissionalização do escritor, uma atividade que visa exclusivamente garantir
27 Para maiores informações acerca dos trabalhos acadêmicos citados, verificar a seção Referências. 28 Águas-fortes portenhas seguidas de Águas–fortes cariocas. São Paulo: Iluminuras, 2013. Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. Águas-fortes cariocas. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. Tradução de Gustavo Pacheco.
29 Aguafuertes cariocas. Crónicas inéditas desde Rio de Janeiro. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2013. 30 Saítta selecionou e organizou boa parte das publicações de Arlt em El Mundo hoje disponíveis em livro, em especial aquelas que cobrem o período da viagem à Europa (entre elas, as Aguafuertes
seu sustento” (2009: 17) impedem ou permitem de forma muito lenta a alteração desse panorama.
Com a finalidade de melhor analisar como se desenvolveu o processo de difusão da obra de Roberto Arlt, fiz um levantamento das traduções já publicadas. Em seguida, organizei os dados em tabelas. É possível notar, entre outras coisas, que a pesquisa corrobora a formulação de Carvalho citada acima. Como se pode observar através da
Tabela 1 (em anexo), somente cinco das cinquenta e oito traduções identificadas são de
crônicas, o que equivale a apenas 9% (nove por cento) do total. Além disso, observa-se que entre essas cinco obras, duas são de Aguafuertes porteñas, ou seja, beneficiam-se da existência da compilação publicada por Arlt em 1933, e duas se referem às já mencionadas traduções brasileiras para Aguafuertes cariocas. Desse modo, apenas a tradução italiana para as chamadas Aguafuertes patagónicas31 se valeu da melhoria de acessibilidade das crônicas já mencionada (nesse caso, possivelmente a compilação de Saítta32).
Podem ser observados alguns fenômenos a partir da leitura dos dados tabulados. Primeiramente, cabe notar que a entrada em domínio público da obra de Arlt em 2013 foi responsável por um novo impulso tradutório. Entre 2013 e 2016, foram identificadas mais de vinte novas publicações, nos mais diversos idiomas. Como mencionado anteriormente, esse novo ciclo da obra arltiana também produziu frutos no Brasil, embora de publicação concentrada no primeiro ano de domínio público.
Outro fator relevante na recepção de Arlt foi a instituição do Programa Sur, em 2009. Trata-se de uma iniciativa governamental de apoio financeiro à tradução de literatura argentina gerido pelo Ministerio de Relaciones Exteriores y Culto da Argentina, que conta com mais de oitocentas obras publicadas em trinta e oito idiomas, segundo seu site33. A partir de 2010, foram identificadas dezoito traduções de Roberto Arlt com o apoio do programa, entre contos, crônicas e romances, em nove idiomas.
31 Patagonia. Viaggio nella terra del vento. Ascoli Piceno: Sigismundus, 2013. Tradução de L. Marfé e A. Prunetti.
32 En el país del viento. Buenos Aires: Simurg, 1998.
Gráfico 1 – Distribuição das traduções por país
É possível identificar – e provavelmente sob a influência dos fatores citados – uma nova fase de penetração da obra arltiana em diversos polissistemas, sobretudo naqueles com menor tradição literária, após décadas de lenta e contínua introdução da obra traduzida em idiomas de maior tradição no mundo ocidental, em especial o italiano, que conta com quinze traduções, o francês, com nove, e o inglês, com quatro. O português, graças à longa tradição de importação e exportação literária do Brasil com o país vizinho, é o segundo maior receptor de obras traduzidas de Arlt, com doze títulos publicados.
Gráfico 2 – Distribuição das traduções realizadas por livro
ITA BRA FRA ALE EGI BUL ING EUA HOL ROM SER TUR GRE POL POR CZR RUS
los Siete Locos el Juguete Lanzallamas Ag. Portenãs el Amor Brujo el Jorobadito Viaje Terrible ag. Cariocas Saverio/Isla outros*
A pesquisa realizada confirma ainda a preferência pela tradução dos romances (quase setenta por cento da obra traduzida), e em especial de Los siete locos (traduzida vinte vezes, em quinze idiomas). Seguramente, a posição central deste romance na obra de Arlt, abalizada pela fortuna crítica e pela ampla popularidade em seu sistema literário original, a credencia a ser o “cartão de visitas” de Arlt ao inscrever-se em novos sistemas literários. Por outro lado, a obra jornalística não foi objeto de tradução até 2010, apesar de o autor ser amplamente reconhecido como cronista. Tal fenômeno poderia ser explicado pelo fato de essa parte da produção de Arlt ser fortemente vinculada à imagem das Aguafuertes porteñas, recheadas de lunfardo e coloquialismos dos anos 30, o que as tornaria demasiado localizadas e datadas para “exportação”. No entanto, tais características são compartilhadas com os romances do autor, contemporâneos da primeira fase do projeto literário arltiano, e assim reconhecidas pela crítica.
Gráfico 3 – Distribuição das traduções por gênero
No Brasil, observam-se algumas diferenças em relação à distribuição da obra traduzida por gêneros. Os romances também são os mais traduzidos, porém com menos preponderância em relação aos demais gêneros (são cinco traduções, ou quarenta e cinco por cento do total). As crônicas, no entanto, ocupam posição de mais relevância, com três traduções, superando os contos traduzidos, numa inversão em relação ao panorama geral, atribuível ao estatuto privilegiado ocupado pelo gênero crônica no Brasil. Para contextualizar o fenômeno, cabem as observações realizadas acerca da importância dos trabalhos acadêmicos brasileiros no processo de recepção e do caso das
Aguafuertes cariocas.
CRÔNICA CONTO ROMANCE TEATRO
Gráfico 4 – Distribuição das traduções realizadas no Brasil por gênero
Como se verificou, as obras traduzidas parecem seguir o mesmo processo de conhecimento e valoração observável na fortuna crítica, sendo influentes ainda fatores como o prestígio de cada gênero no sistema literário. Assim a cronística, apesar de numerosa e do extenso período em que Arlt dedicou-se a elas, geralmente está fortemente associada às Aguafuertes porteñas, num processo reducionista que se reflete nas traduções. No entanto, são notáveis os recentes avanços nos estudos e na tradução das crônicas, a partir do levantamento realizado. Ao menos no caso brasileiro, vislumbra-se que o processo de redescoberta das crônicas caminha em paralelo com o movimento de revisão de seu papel na obra arltiana por parte da crítica, em boa medida graças à academia. A posição da crônica como gênero ‘menor’ – o relativo prestígio de que goza no Brasil é uma exceção – e demais problemas mencionados (dificuldade de localização, textos apenas em suporte físico, fortuna crítica específica ainda incipiente), dificultam a celeridade desse processo, que embora esteja em início de desenvolvimento, é campo fértil para o aprofundamento na obra literária de Arlt e um caminho natural em suas novas fases de recepção.
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