Conforme já abordado anteriormente, a natureza da atividade pericial e sua relevância para a efetividade do Sistema de Justiça Criminal estão diretamente relacionadas com a própria finalidade da persecução penal, mormente quanto à materialização do crime e o alcance de sua autoria.
Segundo Lopes Jr (2009), o processo penal é um instrumento de retrospecção que visa, por meio do conjunto probatório, a instruir o julgador na reconstrução histórica (aproximativa) do fato ilícito passado narrado na ação penal, auxiliando-o, por conseguinte,
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no exercício de sua atividade recognitiva e no posterior convencimento externado em sua sentença. Dessa forma, como a prova pericial faz parte do conjunto probatório, ela também tem o condão de auxiliar o juiz na reconstrução histórica do crime e, consequentemente, em sua atividade recognitiva. Inclusive Fraser e Williams (2009) ressaltam, nesse contexto, que a análise das evidências forenses não tem fronteiras ou limitações em sua aplicação, sendo capaz de chegar de volta quase indefinidamente no tempo, como ocorreu nos casos reabertos
no já mencionado programa americano “Inocense Project”, cujos exames de DNA foram
fundamentais para inocentar pessoas que haviam sido indevidamente culpadas.
Diante disso, surgem, então, os seguintes questionamentos: a) o que diferencia, então, a prova pericial das demais provas apensadas ao processo penal (e. g. a prova testemunhal, a confissão, um documento ou objeto sem passar por uma análise pericial, as informações obtidas no interrogatório etc.)? b) que grau de relevância a prova pericial tem adquirido nas atividades realizadas por seus usuários?
Mesmo considerando que o conjunto probatório deve ser apreciado pelo juiz, segundo o sistema do livre convencimento motivado, conforme apresentado na alínea “c” da subseção2.1.3.5, este estudo parte da suposição de que a prova pericial, quando comparada com as demais provas, apresenta, segundo a percepção de seus usuários, um elevado grau de relevância para a efetividade do Sistema de Justiça Criminal. Destaca-se que essa suposição será submetida à validação neste estudo por meio da análise das respostas dos sujeitos da pesquisa às Questões nº 6 a 9 do questionário aplicado na pesquisa de campo.
Essa suposição foi construída com base na própria natureza da prova pericial, aqui dividida em três aspectos: técnico, científico e objetivo. Seu caráter técnico decorre do fato de o exame pericial ser realizado por um técnico (perito), que utiliza sua experiência para explicar os vestígios materiais juridicamente relevantes para o acertamento do fato (Manzano, 2011). Já a sua natureza científica, segundo o mesmo autor, deve-se ao fato de a perícia valer- se de um princípio científico, cujo conhecimento escapa, via de regra, ao domínio dos aplicadores do Direito, mas que é essencial ao deslinde da causa. Ao tratar do caráter científico da prova pericial, GUZMAN (2000, p. 37) diz que esta prova tem objetivos
“semelhantes aos das ciências naturais, isto é, [...] envolver-se na busca da verdade através
da aplicação do método científico, em oposição à subjetividade do testemunho que é mais
aberto à especulação”. (Tradução nossa).
Do caráter técnico-científico da prova pericial resulta, por conseguinte, sua natureza objetiva, uma vez que possibilita outros profissionais, a exemplo dos assistentes técnicos das partes, a analisar e a confirmar ou refutar os resultados obtidos nos exames periciais já
realizados. Daí porque, a técnica e o método científico, além de servir-lhe de base de sustentação, também lhe conferem o caráter de objetividade. Entretanto, há autores, a exemplo de Manzano (2011) e Capez (2010), que desconsideram a plena objetividade da prova pericial, sob o argumento de que o perito criminal pode estar sujeito a juízos valorativos, preconceitos e subjetivismos. Velho et al (2011, p. 7) contrapõem esta argumentação defendendo que essa característica, na verdade, não se perde como um todo, pois o perito, ao se deparar com duas opções metodológicas possíveis à conclusão de seus exames, deve optar por uma delas, desde que tenha validade científica e que consigne no laudo sua opção metodológica.
Além de seu caráter técnico-científico e objetivo, há outros fatores que também contribuem para que a prova pericial ganhe relevância no âmbito do conjunto probatório, sendo aqui destacados apenas dois: um de ordem instrumental e outro de ordem ontológica. O primeiro decorre da existência, na sociedade moderna, de determinados tipos de crimes, cuja materialização extrapola o subjetivismo inerente às outras provas (e. g. prova testemunhal ou o depoimento prestado pela vítima), tais como: (i) os crimes cibernéticos; (ii) as falsificações em geral, realizadas por meio do uso de modernas tecnologias (medicamentos, documentos, papel moeda etc.); (iii) os crimes contábeis e financeiros (corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e colarinho branco); (iv) os crimes que demandam análises laboratoriais de alta tecnologia (e. g. exames de DNA, exames por mio do uso do Microscópio Eletrônico de Varredura – MEV etc.), dentre outros. São, portanto, crimes que, na grande maioria das vezes, somente podem ser comprovados, de forma mais precisa, por meio do uso instrumental de técnicas e metodologias desenvolvidas pelas ciências forenses. Em razão disso, Guzmán (2000, p. 38) diz que os vestígios criminais são verdadeiras “testemunhas silenciosas ou mudas”, pois somente após sua revelação, por meio da análise pericial, poderão comprovar a ocorrência dos crimes.
No estudo realizado pela NAS (2009), consta um aspecto importante quando se discute a relevância da prova pericial. Se por um lado, a Criminalística tem um potencial adicional para auxiliar o Sistema de Justiça Criminal na identificação dos crimes e de seus autores, por outro lado, a importância excessiva dada às provas e testemunhos periciais, quando baseadas em análises defeituosas das ciências forenses, apresenta o mesmo perigo potencial de contribuir para a condenação injusta de inocentes. Por isso, para que esses riscos sejam minimizados, é preciso criar mecanismos administrativos que objetive aperfeiçoar a função pericial do Estado e a consequente efetividade do Sistema de Justiça Criminal.
Já o segundo fator, responsável por também conferir relevância à prova pericial, está associado ao princípio de sua imparcialidade, já que, quanto maior for a garantia da isenção da Perícia Criminal Oficial, no desempenho de sua função, mais precisa será a convicção do juiz, ao julgar a lide penal, e, consequentemente, mais justa será a sua sentença. Por isso, conforme será visto adiante, dentre outras motivações, a garantia da imparcialidade da prova pericial está no centro das discussões em torno da autonomia da Criminalística.
Diante disso, é importante que os órgãos de Criminalística sejam posicionados, na estrutura estatal, em um arranjo organizacional que lhes assegure a autonomia necessária para gerir a atividade pericial, de forma a garantir a qualidade no serviço prestado à sociedade e a proteção de seus profissionais contra qualquer tipo de ingerência ou de interferências na condução da investigação pericial, favorecendo, assim, a credibilidade, a imparcialidade e a previsibilidade de sua função social. Nesse contexto, cabem os seguintes questionamentos, os quais foram apresentados aos sujeitos da pesquisa por meio das Questões nº 17 e 18: (i) os usuários da prova pericial e a própria sociedade não sentiriam uma maior confiabilidade quanto à imparcialidade do perito criminal se ele estivesse inserido em um órgão autônomo e independente de qualquer outro órgão do Sistema de Justiça Criminal?; e (ii) é possível garantir o requisito da imparcialidade do perito criminal estando o órgão pericial inserido na estrutura administrativa da Polícia Judiciária?