• Sonuç bulunamadı

De origem grega, o termo autonomia é formado pela junção das palavras “autos”

(próprio) e “nomos” (regra, autoridade ou lei), cujo significado etimológico é “autogoverno”, “governar-se a si próprio”, ou seja, representa a faculdade que detém determinado indivíduo

ou instituição para reger-se por regras próprias. Contudo, apesar de pressupor a ideia de liberdade e de autodeterminação, não há porque confundir o seu conceito com o de independência e nem muito menos com o de soberania. Conforme ratifica SILVA (2009),

“autonomia absoluta detém o déspota, o tirano, que tudo pode e nada responde”.

Em termos comparativos, MAZZILLI (1997) distingue autonomia de independência

ao dizer que, “enquanto independência é conceito absoluto, autonomia é conceito relativo”.

Por isso, devido a esse aspecto relacional, o conceito de autonomia apresenta necessariamente graus variados de interdependência, devendo, por isso, ser sempre considerado em relação a outros órgãos ou Poderes. Por isso, segundo Silva (2009), é possível dotar uma determinada instituição ou indivíduo de autonomia, não em sentido pleno, mas de forma limitada, especificando que parcela dos seus atos está livre de ingerências internas ou externas.

Para Vergara (1986), a autonomia é um constructo que envolve diversas dimensões ou gradações, cada uma correspondendo à parcela dos atos que a pessoa ou o ente pode exercer sem ingerências, mas dentro dos limites de seu próprio conceito. Como diz MAZZILLI (1997), “as garantias da instituição em suas atividades-meios são suas autonomias”.

No tocante à autonomia da função pericial, a pesquisa bibliográfica revelou que o termo autonomia apresenta basicamente as seguintes dimensões conceituais: funcional, técnica, científica, administrativa e orçamentário-financeira. Inclusive, dentre essas dimensões, as três primeiras estão juridicamente asseguradas no Brasil por meio da Lei nº

12.030/200936. A seguir pretende-se apresentar o significado que cada uma dessas dimensões conceituais tem para a Perícia Oficial.

2.3.5.1 AUTONOMIA FUNCIONAL DA PERÍCIA CRIMINAL OFICIAL

Mazzilli (1997) define a autonomia funcional como sendo a liberdade que tem o órgão para exercer seu ofício, ou seja, suas atividades-fim em face de outros órgãos ou instituições do Estado, limitando-se apenas ao princípio da legalidade. Trata-se, portanto, da autonomia atribuída ao órgão para desempenhar a função para a qual foi criado; daí o uso do termo funcional. Para SILVA (2009), essa autonomia significa que, depois da lei:

[...] as atividades inerentes ao papel social do perito oficial de natureza criminal devem ser regradas tão somente pelo órgão pericial, não devendo sofrer ingerências nem de órgãos externos à instituição onde o órgão pericial se encontra e nem de órgãos internos a esta, na atividade fim pericial [...].

Portanto, a partir dessa definição, depreende-se que para usufruir de sua autonomia funcional, é preciso que o órgão pericial não sofra qualquer forma de ingerência de outro cargo ou órgão, seja externo ou interno à estrutura administrativa na qual se encontre inserido. Ou seja, limitando-se aos termos da lei, cabe exclusiva e privativamente ao órgão pericial determinar a forma como deve funcionar para garantir o desempenho de seu papel social.

Vale lembrar que a autonomia funcional da perícia no Brasil não foi disciplinada somente a partir da vigência da Lei nº 12.030/2009. O próprio CPP já apresenta, desde 1941, dispositivos que a asseguram, tanto ao órgão quanto ao perito criminal. A título de exemplo, esse Código veda qualquer interferência na nomeação do perito, seja pela autoridade requisitante37 ou pelas partes38, que venha a prejudicar o resultado do exame pericial. Além disso, também prevê que, após a expedição do laudo pericial, somente a autoridade judiciária poderá determinar a sua revisão ou mesmo a feitura de um novo exame por outros peritos39. Segundo Espíndula (2009), fica, assim, vedada qualquer relação direta entre o requisitante ou as partes e o perito oficial, ou seja, a sua designação deve ser feita exclusivamente pelo diretor do órgão pericial. Mesmo assim, embora já houvesse sua previsão no CPP, a promulgação da

36 Art. 2o No exercício da atividade de perícia oficial de natureza criminal, é assegurado autonomia técnica, científica e funcional, exigido concurso público, com formação acadêmica específica, para o provimento do cargo de perito oficial.

37 Art. 178. No caso do art. 159, o exame será requisitado pela autoridade ao diretor da repartição, juntando-se ao processo o laudo assinado pelos peritos.

38

Art. 276. As partes não intervirão na nomeação do perito.

39 Art. 181, Parágrafo único. A autoridade poderá também ordenar que se proceda a novo exame, por outros peritos, se julgar conveniente.

Lei nº 12.030/2009 proporcionou, em razão de sua especificidade, um significativo avanço para a consolidação da autonomia dos órgãos de perícia criminal no Brasil.

2.3.5.2 AUTONOMIA TÉCNICO-CIENTÍFICA DA PERÍCIA CRIMINAL OFICIAL

Unificando a definição de autonomia técnica e de autonomia científica, apresentada por Silva (2009), pode-se dizer que a dimensão técnico-científica da autonomia diz respeito à possibilidade de a instituição pericial ou o perito criminal determinar-se quanto aos critérios técnicos e científicos a serem aplicados em suas atividades periciais. No tocante a essa autonomia, embora o órgão pericial tenha plena liberdade para orientar o trabalho de seus profissionais, na verdade cabe ao perito criminal definir, em virtude da prevalência de sua autonomia funcional, qual técnica ou metodologia científica será utilizada em seus exames, desde que seja devidamente demonstrada em seu laudo.

2.3.5.3 AUTONOMIA ADMINISTRATIVA DA PERÍCIA CRIMINAL OFICIAL

De acordo com Motta (1997) apud Costa (2010), a autonomia administrativa pode ser sintetizada como sendo a capacidade de auto-organização que deve ter o órgão, assim como a liberdade de produção de suas próprias normas para a escolha de seus dirigentes e para a administração de seus recursos humanos, materiais e patrimoniais, o que inclui desde a seleção e contratação de seus profissionais até o planejamento de seu desenvolvimento e a elaboração de seu orçamento. Portanto, seu objetivo é evitar que o órgão seja submetido a

uma administração, cujas decisões sejam tomadas “externa corporis”, ou seja, por pessoas

que não conheçam a sua realidade.

2.3.5.4 AUTONOMIA ORÇAMENTÁRIO-FINANCEIRA DA PERÍCIA CRIMINAL OFICIAL

Esta dimensão conceitual da autonomia diz respeito à disponibilidade de recursos que deve ter o órgão para gerir suas atividades administrativas e efetivar seus planos e projetos. Para Nogueira (2007), com esta autonomia, o órgão torna-se mais dinâmico, pois possibilita resolver os problemas e imprevistos, que surgem em seu dia-a-dia, com certa agilidade. Além disso, ela reduz a burocracia e facilita o planejamento e as decisões, tornando a gestão mais eficiente, seja na aquisição e ou na distribuição de bens e serviços.

No caso da Polícia Federal, considerando-se a forma como a perícia se encontra inserida e gerida em sua estrutura administrativa, pode-se dizer que a Perícia Criminal Oficial não dispõe, em sua plenitude, de autonomia orçamentário-financeira e nem administrativa, já

que, além de não possuir recursos próprios, os principais atos administrativos inerentes a sua funcionalidade não são decididos pelos gestores das unidades de Criminalística.

2.3.5.5 AS INTER-RELAÇÕES ENTRE AS DIMENSÕES CONCEITUAIS DA AUTONOMIA

Considerando que o constructo autonomia apresenta várias dimensões conceituais, cabe verificar se essas dimensões apresentam alguma relação de interdependência entre si, formulando, por exemplo, os seguintes questionamentos: (i) até que ponto a ausência de autonomia administrativa e/ou orçamentário-financeira potencializar algum risco à garantia das autonomias funcional e/ou técnico-científica, previstas na Lei º 12. 030/2009? (ii) dito de outra forma, é possível assegurar-lhe as autonomias funcional e/ou técnico-científica, estando a Perícia Criminal Federal inserida na estrutura orgânica da Polícia Federal ou é necessário, para esse fim, inseri-la em uma estrutura própria, com autonomia administrativa e financeira?

As respostas a esses questionamentos fazem parte, inclusive, de um dos objetivos específicos deste estudo. Para esse fim, foram inseridas no questionário aplicado na pesquisa de campo as Questões nº 11 a 15, por meio das quais se pretende identificar a percepção dos sujeitos da pesquisa quanto à existência de algumas dessas inter-relações.

Objetivando compreender como essas inter-relações ocorrem nas organizações, buscou-se identificar, na pesquisa bibliográfica, alguns estudos sobre esse tema, sendo identificados alguns trabalhos. Contudo, apenas Silva (2009) apresentou uma abordagem mais voltada para a atividade pericial. Para este autor, existe uma relação de interdependência entre a autonomia funcional e a técnico-científica, já que sem a primeira o órgão pericial não consegue exercer a segunda. RANIERI apud COSTA (2010, p. 124), ao estudar a autonomia das universidades, relata que a autonomia administrativa é “pressuposto da autonomia de gestão financeira patrimonial”. Já ARAGÃO (2007, p. 26) apud NOGUEIRA, em sentido inverso, diz que a “autonomia financeira é requisito essencial para que qualquer autonomia se efetive na prática”. Portanto, dependendo do tipo de organização, podem existir diversas formas de inter-relação entre as dimensões conceituais de autonomia.

Para fins deste estudo, parte-se da seguinte suposição, a qual será objeto de validação na pesquisa de campo: para garantir suas autonomias funcional e técnico-científica, conforme prevê a legislação, é imprescindível que os órgãos de Criminalística possuam autonomia administrativa e orçamentário-financeira, pois só assim, poderão praticar, com autonomia, os atos administrativos e financeiros necessários para que atinja seus objetivos institucionais. Ou seja, conforme ilustra a Figura 7 abaixo, pressupõe-se neste estudo que as autonomias

administrativa e orçamentário-financeira servem de base de sustentação para que a Perícia Criminal Oficial possa exercer suas atividades com autonomia funcional e técnico-científica.

Figura 7 - Inter-relação existente entre as dimensões da autonomia aplicada à função pericial

Fonte: O autor (2012).