B. Suçun Maddi Unsurları
3. Hareket-Netice-Nedensellik Bağlantısı
“Os primeiros sinais de uma inteligência alienígena podem muito bem vir deste planeta.”
Stelarc
Uma lógica que se apresenta vigorosa na passagem do século XX para o XXI é a do pensamento que acentua a possibilidade da transição de um corpo orgânico para um outro, híbrido, resultado de fusões tecnológicas e corpóreas. Este novo corpo, a que poderíamos denominar biocibernético, mostra-se também como um novo universo, pois é capaz de aglutinar elementos protéticos e orgânicos, artificiais e naturais que levam a contingência do humano, o antigo humano, não apenas ao ponto de não mais o podermos assim definir, mas de não o conseguirmos mais reconhecer.
Segundo Santaella, (2003:p.192) as tecnologias do pós- humano são: realidade virtual, comunicação global, protética e nanotecnologia, redes neurais, algarismos genéticos, manipulação genética e vida artificial. As combinações já possíveis entre essas
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tecnologias apontam para o fato de que muitas ações vitais já podem ser replicadas maquinalmente, assim como muitas máquinas já adquirem qualidades vitais. O pós-humano seria o efeito desse conjunto de hibridismos que nos coloca no centro de múltiplas realidades corporais, sempre voláteis, sempre abertas à entrada e saída de fluxos de informação, informa Couto (2008). A tradução do mundo em informação, ciberespaço, tempo real, como ocorre na atualidade está, evidentemente, ligada às tecnologias do virtual. Os discursos mais vibrantes e prometêicos a respeito da transmutação do humano em pós- humano vêm florescendo nesse contexto, com promessas de realização plena, individual e coletiva.
Contudo, há novidades que podem espantar aqueles que, por menos conectados, precisam para elas abrir os olhos pois são dignas de observação. Os elementos maquínicos vêm sofrendo uma espécie de encolhimento, de desmaterialização, suas dimensões físicas e materiais se reduzem de forma admirável, transformando o que, antes, era físico e visível em invisível e mínimo. Passamos a conviver com as chamadas tecnologias brandas, softwares genéticos e, já se diz por aí, softwares mentais. Assim, as relações entre homem e máquina, entre corpo e tecnologia se alteram profundamente, as interfaces deixam de ser físicas e materiais, mas intelectuais.
Com isso, o novo corpo passa a mostrar total sintonia com as tecnologias de informação e comunicação, de modo que a sua nova morfologia e configuração são resultantes da associação física e
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mental do biológico com o tecnológico. Parece que não haver mais dúvida de que tecnologias de comunicação e biotecnologias são as ferramentas apropriadas para refazer e metamorfosear nossos corpos de modo a definí-los, definitivamente, como híbridos.
Olhando para a ainda breve história da modernização, Stein (2007) nos auxilia a entender a questão homem-máquina que, para ele, se apresenta de forma progressiva e simultaneamente ambígua. Novamente o destino do corpo constitui o centro, já que a modernidade concentrara desde sempre suas baterias na introdução da noção de sujeito, numa subjetividade que deveria se sobrepor ao corpo e suas fragilidades. Essa extraordinária ampliação das possibilidades de interferência técnica no corpo, e até mesmo nos genes, evidenciam o desconforto com um certo projeto antropológico e filosófico de homem, ligado ao conceito moderno de sujeito. Vê-se, aí, uma espécie de anúncio premonitório que nós não deveríamos de modo algum negligenciar, pois a repercussão desse processo é o próprio estatuto do momento de acabamento de que falava Heidegger e que estamos hoje começando a vivenciar. “Essa modernização significa, no problema do sujeito, no problema do mundo que o sujeito enfrenta, uma modernização em que, de alguma maneira nos queixamos das fragilidades do corpo”. (Stein, 2007:p.10)
A apoteose que hoje se anuncia, com o mundo e a vida inseridos no espectro digital – no qual espaço, temporalidade, presença são noções em completa dissolução - nos faz cogitar de que,
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definitivamente, poderemos nos livrar do estorvo que um corpo frágil, limitado, úmido e suscetível representa. “(...) passamos a perceber que finalmente parece ter chegado aquilo por onde podemos viajar, onde podemos nos desenvolver, sem que levemos a sério o corpo em todo trajeto” (p.10)
Ademais, já se ouve falar da necessidade de uma dissolução das antigas categorias que estruturavam nosso entendimento do mundo e que eram originárias da divisão entre natureza e tecnologia, entre naturalidade e artificialidade. Com essa dissolução, passa-se a encarar naturalmente a mistura entre o biológico e o artificial, o natural e o tecnológico. Mas devemos examinar esse ponto com a ressalva fundamental, embora ameaçadora, de que o corpo é algo muito problemático, na medida em que sua fragilidade, a fragilidade da carne, impõe constrangimentos à tecnologia. Como se vê, aquilo que vem sendo chamado de pós-humanismo compõe um quadro a partir do qual estão postas em questão as habituais distinções entre natural e artificial, real e simulação, orgânico e mecânico, mas com indisfarçável predominância da artificialidade. Redes neurais, inteligência artificial, vida artificial, nanotecnologia, protética são vertentes que desembocam numa só e crucial questão: o corpo já não serve. O que fazer de um corpo que nós queríamos diferente, pergunta Stein. Pois “(...) a organização atual do corpo, para a tecnotrônica, parece inteiramente desnecessária.” (p.22) Mais do que desnecessária, ela é inadequada ao projeto que está em curso, diríamos.
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Nietzsche já advertia de que o homem é uma ponte e não um fim, ele é uma passagem e um ocaso. É de se perguntar, afinal, qual o paradeiro final daquele sujeito do projeto da modernidade. O ocaso que se anuncia para o corpo carrega consigo a subjetividade tão pretendida, parece não haver dúvida. O corpo e tudo aquilo que com ele caminha - que não é pouco nem inexpressivo: sensibilidade, percepção, consciência, inconsciência, cognição – torna-se obsoleto. O ocaso do humano pode-se dizer que, literalmente, implode o sujeito, em favor do surgimento de algum outro tipo de ser, resultante dessa espécie de mutação: o pós-humano como expressão física de uma era que poderíamos chamar pós-biológica.
É de se supor, realmente, que a definitiva superação das oposições originais que havia entre o orgânico e o tecnológico em favor de um novo contexto corpóreo, faz o acabamento conclusivo da vida do corpo, agora como híbrido, mediado interna e externamente pelas lógicas maquínicas e biotecnológicas. Para alguns – o que a nós soa aterrador, embora de nada mais se possa desconfiar num ambiente com tal subserviência tecnológica – não constitui grande problema cogitar de que algo melhor do que nós possa nos tomar o lugar, nem supor que sejamos obrigatoriamente e presunçosamente o ápice da cadeia evolutiva. “Não é mais vantagem permanecer humano ou evoluir como
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espécie, a evolução termina quando a tecnologia invade o corpo” diz Stelarc.19 (1997:p.55)
Contudo, é preciso dizer e reconhecer, o homem aceitou pacificamente a sua própria sujeição à tecnologia, como uma prótese dela e não o contrário, como seria de se imaginar, ou mesmo como o projeto original parecia ter desenhado.
Stein se pergunta se a lógica da tecnologia já não contém escrita em si própria a fatal obsolescência e a superação da espécie. Essa superação já não estaria vigindo, ao menos no que se refere ao corpo, questiona. A ser verdadeira a suposição, “o declínio do corpo assinala, ao mesmo tempo, no plano da consciência, o princípio daquele processo de ofuscamento e de dissolução do sujeito empírico”. (2007:p.20)
Pois tudo indica que estamos todos sendo afetados pelas reconfigurações em curso, sobretudo pela incontrolável mecanização tecnológica do homem, associada a uma certa humanização e subjetivação da máquina. Nessa acelerada contingência, estamos nos encaminhando – nós e as máquinas – para a condição de criaturas cada vez mais melhoradas. Esse aprimoramento paralelo, mas com tendências convergentes, não seria de fato o indício de que caminhamos para a unificação, é a pergunta inevitável.
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Stelarc é um teórico e artista performático australiano cujas ideias e obras concentram-se fortemente no futurismo e na extensão das capacidades do corpo humano. Como tal, as teses que defende e a maioria de suas obras estão centradas no conceito de que o corpo humano é obsoleto.
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O pós-humano seria o destino a ser alcançado por assimilação corpórea de tecnologias hoje emergentes como a biologia sintética - que pretende criar vida artificial - bem como a definitiva convergência das nanotecnologias, das biotecnologias e das tecnologias de informação e comunicação. Mas o projeto parece não se esgotar aí, a ambição vai muito além, pois o mundo pós-biológico deseja ser marcado pela definitiva libertação do pensamento, até então escravizado em um corpo frágil e mortal, dizem seus defensores. Na visão radical de Stelarc “Não faz mais sentido ver o corpo como um lugar para a psique ou o social (...) O período psicossocial foi caracterizado pelo corpo que girava em torno de si mesmo por meio de estímulos físicos e de contemplação metafísica.” (1997:p.54)
Não seria melhor, realmente - como muitos já sugerem - se passássemos a levar um tipo diferente de existência, pois a mente poderia muito bem ser transferida para um ambiente neural artificial, já que circuitos eletrônicos aí arranjados poderiam substituir nossas débeis células neuronais, e com isso livrarmos a mente do corpo limitado que a abriga ? (Rüdiger, 2006:p.11)
Ocorre lembrar, a propósito, do festejado senhor dos
robôs, Hans Moravec, cientista americano. Em seu livro Mind Children,
(de 1988 !), há um relato fantasmático e arrepiante para nós, do que poderia vir a ser o mais completo acabamento do projeto. “Transmutação” (p.109,110 - tradução livre do autor):