Girlaine, 20 anos, nasceu em Campina Grande. Perdeu a audição aos sete meses de idade, provavelmente, em função de fator genético-hereditário.
Dos seis aos nove anos de idade, frequentou uma instituição especializada no atendimento a deficientes, que à época já utilizava práticas bimodais para a comunicação ouvintes/surdos. As atividades constavam de atendimento
pedagógico e fonoaudiológico, este último com ênfase no desenvolvimento da linguagem oral. Gostava de estar lá, mas não gostava das atividades de oralização. Fazia-as porque era obrigada. Em 1997, passa a estudar na EDAC, onde cursa o Ensino Fundamental e Médio, tendo sido aluna da turma pioneira do Ensino Médio, concluído em 2007.
Para Girlaine, estudar numa escola bilíngue representou uma mudança importante em sua vida, porque ali toda as interações ocorriam por meio da Libras. Se antes não tinha muita compreensão das coisas, rapidamente, com a aquisição da língua de sinais foi se desenvolvendo. Ressalta que além do aprendizado de conteúdos formais, era na escola que tinha conhecimento de mundo, nas conversas com outros surdos, que aprendia na família a se comunicar em Libras. Destaca, como exemplo, as informações veiculadas pela televisão, das quais só sabia por que tinha sempre um colega surdo que dominava língua de sinais. Ela pedia para ele lhe falar da televisão e ele falava para ela e os demais colegas surdos. Critica essa privação experienciada pela criança, e pelo adulto, surdos que não podem ter acesso aos programas da TV. Nesse sentido, espera que no futuro a programação seja interpretada para a Libras, permitindo que os surdos não dependam ‘de favores de ouvintes’ para ter acesso às informações e, sobretudo, que possam acompanhar o que está acontecendo, de modo que, suficientemente informados, não sofram, nem pela falta de autonomia, nem por se surpreenderem, constantemente, com os acontecimentos, por falta de informação sobre eles.
Quando cursava o segundo ano de ensino médio, foi convidada pela Associação de Surdos de Campina Grande (ASCG) para participar, como representante da ASCG, no Curso de Formação de Instrutores de Libras, oferecido pela UFCG. Nos três anos que estudou nesse curso (2005, 2005, 2006), percebeu a importância de estudar a Libras, informar-se sobre sua história e regulamentação, compreender sua gramática, ter acesso às metodologias e aos planejamentos para seu ensino. Passou, então, a compreender melhor a importância da língua
Figura 7 – Sinal de Girlaine
de sinais para os surdos como também da necessidade de a sociedade perceber que o surdo é diferente, mas capaz. Daí a necessidade de ensiná-la em vários espaços sociais, com o intuito de que se estabeleça a comunicação entre surdos e entre surdos e ouvintes. Girlaine entendeu que ser instrutor de Libras é muito importante por que permite ampliar a comunicação do surdo na sociedade e garantir ao surdo o seu direito de opinar, trocar experiências, agir no mundo e na vida. Desse modo, é que ela pode ajudar a fazer crescer a ideia de uma sociedade nacional bilíngue, onde a Língua Brasileira de Sinais seja reconhecida e valorizada tanto quanto Língua Portuguesa, entre cidadão ouvintes, brasileiros, usuários do Português.
Com base nos conhecimentos e experiência adquiridos no Curso de Formação, passou a planejar melhor suas atividades docentes, a organizar e ministrar aulas nos cursos de Libras, oferecidos à comunidade campinense pela ASCG. Aos poucos, a experiência foi mostrando como ensinar e ela foi paulatinamente se apropriando da docência. Continuou estudando, pesquisando sobre livros didáticos e materiais de ensino de Libras, elaborados por surdos de outras localidades do Brasil. Participou de palestras e cursos ministrados por instrutores de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, que lhe servem de referências para o ensino. Assim, segue se desenvolvendo e “melhorando” sua atuação como instrutora de Libras.
Em 2008, começou a atuar com instrutora de Libras na EDAC, por meio de contrato de prestação de serviço, ensinando a crianças surdas e ouvintes. Passou, então, a participar dos encontros de planejamento para o ensino de Libras, coordenados por professoras da UFCG, dos quais fizeram parte os instrutores da EDAC, da EMSGB, da EMSA e da ASCG. Para ela, esses encontros são importantes, porque neles há trocas de informações e de conhecimentos, discussões sobre a adequação do ensino de Libras aos vários níveis e características do alunado. Destaca, ainda, a colaboração das professoras da UFCG nesses encontros, assessorando o grupo com conhecimentos teóricos e metodológicos para o ensino de Libras.
Apesar de reconhecer a importância dos instrutores surdos mais velhos, por sua contribuição para o desenvolvimento dos instrutores mais jovens, transmitindo-lhes suas experiências de ensino, ela percebe nos primeiros dificuldades de aprendizagem, um desenvolvimento mais lento e resistências às mudanças relacionadas à Libras, como, por exemplo, a aceitação de novos sinais. Atribui essas dificuldades ao fato de terem tido acesso tardio à língua de sinais.
Comparando os professores ouvintes com os professores surdos, Girlaine reconhece que, nas escolas para surdos, há uma relação de poder dos primeiros sobre os segundos, em
função de os ouvintes serem formados em nível superior e terem se desenvolvidos mais em termos de conhecimento. Compreende que essa situação deve-se ao triunfo do Oralismo na história da Educação brasileira. Para ela, tudo ia bem até que o Oralismo fechou todos os espaços para as pessoas surdas, fazendo com que cem anos de inserção social fossem perdidos. Os ouvintes continuaram a se desenvolver, a trabalhar, a participar da sociedade. Os surdos não. O processo de mudança começou há pouco tempo e acredita que, no futuro, com os surdos voltando a se formar, eles estarão em pé de igualdade com os ouvintes.
Ainda no ano de 2008, passou no vestibular para a Licenciatura em Letras|Libras oferecido pela Universidade Federal de Santa Catarina, na modalidade ensino a distância, ficando vinculada ao Polo do Rio Grande do Norte. Nesse curso, está tendo acesso a um conhecimento mais profundo sobre a Libras e seu ensino, de forma que vem se apropriando do que é ser professor, o que lhe proporcionará, no futuro, condições para trabalhar em diferentes espaços educacionais, inclusive no ensino superior. Submeteu-se, também, ao PROLIBRAS, no qual foi aprovada e recebeu certificação para o ensino de Libras. Está “pegando” tudo o que é possível para se desenvolver e tornar-se “professora de verdade”.
Com a conclusão do Letras/Libras, quer ser professora, ser uma profissional surda igual aos profissionais ouvintes e ter a liberdade de ensinar em diferentes espaços. Pensa, no futuro, em participar de mais cursos, poder viajar para vários países, conhecer diversas sociedades e partilhar esses conhecimentos com a comunidade surda de Campina Grande, para que também se desenvolva. Espera, também, que a sociedade conheça a realidade dos surdos, compreenda que ‘não são mudos’ e que se cabe com esse preconceito.