Josinalva, 40 anos, nasceu em Campina Grande. Filha de pais ouvintes, ela pertence a uma família com cinco irmãos, dentre eles, três surdos. Começou a estudar com cinco anos de idade, em uma sala de aula improvisada na garagem da casa de uma surda adulta (a mesma que ensinou a Flávio), que havia estudado em Recife, onde ficou por poucos meses. Depois, passou a frequentar uma instituição de atendimento a crianças com deficiências, recém-aberta na cidade de Campina Grande.
Lembra que naquela instituição, as atividades desenvolvidas com os surdos se limitavam à oralização e que as demais estimulações ocorriam junto às pessoas com Síndrome de Down. Após alguns anos, apesar de sua mãe insistir que estudasse, abandonou os estudos, por causa do método utilizado e preferiu ficar em casa.
O período em que frequentou aquela instituição foi, para ela, de muito sofrimento. Os surdos se comunicavam através de gestualização, mas, como ela era proibida, eles só utilizavam os gestos clandestinamente. Precisavam se reunir, às escondidas, para combinar os gestos que iriam utilizar para se comunicar entre eles. E era nas brincadeiras que combinavam o sentido dos gestos, sempre observando se tinha alguém por perto que pudesse surpreendê- los. Josinalva toma como exemplo a combinação dos gestos utilizados para sinalizar as cores que iam utilizar na jogo de dominó.
− O que você pensa que pode ser o vermelho? Como a gente pode sinalizar essa cor? Aí íamos pensar como poderia ser o sinal. Ah, quando corta o braço sai sangue. Então, vermelho vai ser esse sinal, vai representar essa cor. E não era rápido, era demorado. E se chegasse alguém, a gente se calava, ficava todo mundo parado. A gente só combinava às escondidas (JOSINALVA, entrevista narrativa, linhas 301-310)
Em sua narrativa, recorda que nesse período, ela e os outros colegas surdos tinham medo de tudo. Ficavam calados, escondidos, com vergonha de gestualizar. Fingiam estar participando das atividades propostas e que entendiam o que os ouvintes diziam. Tudo está marcado para ela como situações de “muito sofrimento”.
Alguns anos depois, seu irmão surdo mais velho convidou-a para voltar a estudar, desta vez na EDAC. O que a agradava nessa escola, era que se usava a língua de sinais. Ao chegar, viu seus colegas sinalizando, pouco entendia, mas aprendeu a Libras rapidamente, não só nas interações com os outros surdos da escola, mas também com o auxílio do livro
Figura 3 – Sinal de Josinalva
Linguagem das Mãos10, de Padre Eugênio Oates, conhecido entre os surdos como o “Livro do Padre”. O livro tinha sido adquirido por seu irmão e juntos passaram a estudar a como realizar os sinais e a desenvolver a aprendizagem da Libras.
Ao comparar sua infância com a das crianças surdas que hoje frequentam as escolas bilíngues, lamenta a distância existente entre elas. Atualmente, as crianças aprendem rapidamente, enquanto ela tinha muitas dificuldades para estudar e entender o que lhe ensinavam. Atribui essa diferença à apropriação tardia da Libras. Ao contar sua história, constata que, de fato, só aprendeu a Libras aos 18 anos de idade. Fica estarrecida. Decepcionada. Acreditava ter aprendido a Libras aos 14 anos de idade. Considera que seria mais inteligente se tivesse tido acesso à língua de sinais mais cedo.
Josinalva permaneceu estudando na EDAC por alguns anos, mas também abandonou os estudos por ter que repetir várias vezes o quinto ano, uma vez que a escola, à época, só tinha turmas até esse nível de escolarização. Resolveu ser costureira em uma empresa de confecção de roupas. Quando a empresa fechou, mais uma vez, ela ficou sem trabalho e sem estudar. Por insistência de seu irmão surdo, voltou à EDAC, onde continuou a aprendizagem da língua de sinais e concluiu o Ensino Fundamental e Médio.
Josinalva ressalta a importância da EDAC em sua vida. Além da aprendizagem da Libras, ela pode se desenvolver ali como pessoa e cidadã com a ajuda que sempre recebeu de seus professores, que acreditavam no potencial dos surdos, sem sentimentos e atitudes de compaixão, mas estimulando a sua autoconfiança e a autoestima.
Quando cursava a segunda fase do Ensino Fundamental, a direção da EDAC convidou-a para ser monitora voluntária de uma sala de primeiro ano do Ensino Fundamental. Junto com a professora da turma, tinha o papel de interagir com os alunos em Libras, para auxiliá-los na aquisição da língua de sinais. Gradativamente, foi aprendendo a ensinar e intuitivamente começou a pensar em suas atividades de ensino de língua de sinais. Em 2001, foi contratada como instrutora de Libras na recém-criada Escola Municipal de Surdos de Gado Bravo (EMSGB). Começou ensinando língua de sinais para as professoras da escola, e se ressentia por não ter o devido preparo, nem saber planejar suas atividades de ensino, mas saia-se bem com as atividades lúdicas para que os alunos aprendessem brincando. Em abril do
10 Trata-se de um dicionário ilustrado organizado pelo padre redentorista Eugênio Oates, com cerca de 1300
palavras e expressões da Libras, resultado de pesquisa, depoimentos e convivência com surdos por todo o território nacional. Publicado pela Editora Santuário, desde o final da década de 70. É conhecido entre os surdos como o “livro do padre”.
mesmo ano, começou a ensinar aos alunos surdos, e sem conhecimento formal de metodologia de ensino e de planejamento, recorria as suas próprias ideias. Lembra que a diretora da escola chamou sua atenção para não se limitar ao ensino do vocabulário com brincadeiras, mas pensar em ensinar a língua de sinais como uma “disciplina”. Amargou um sentimento de ter errado e ficou extremamente envergonhada, mas buscou superar a situação participando, desde 2002, dos planejamentos gerais da escola, partilhando experiências. Essa experiência constituiu para ela a base do trabalho que passou a desenvolver na EMSGB.
A sua participação no Curso de Formação de Instrutores de Libras, oferecido pela UFCG, ao longo dos anos de três anos – 2004, 2005 e 2006 – também constitui um “momento charneira” em sua vida. Nesse momento, “descobre a Libras como uma língua” e de igual valor linguístico que a Língua Portuguesa. Se por um lado essa “impressionante” descoberta lhe trazia muita satisfação, pois vinha transformar a representação que possuía dos ouvintes como pessoas “melhores”, porque falavam Português, e da Língua Portuguesa como língua superior à língua de sinais, porque não usava sinalização, essa alegria mistura-se a uma grande decepção, a de “descobrir” tardiamente essa verdade. Pois as representações que construíra dos surdos e da língua de sinais na escola e nos espaços em que vivia, também significavam um grande peso para a construção da representação de si e de sua comunidade, pois não contribuíam para elevar a sua autoestima.
O curso veio, portanto, reconstruir essas representações e proporcionar-lhe um novo horizonte para sua vida e para sua autoestima; se antes se sentia muito dependente de outros instrutores, não ousava dar sua opinião, a partir de então, aprendera a descobrir que era capaz de fazer trocas. Essas mudanças fundamentais para sua vida e para sua atuação profissional como docente lhe foram proporcionadas não apenas pelo conhecimento adquirido, mas, sobretudo, pelo espaço de interação do curso. Inserida nesse contexto começa a descobrir que pode interagir nos encontros de planejamento e não ‘tinha mais que ter ideias, ‘sozinha’. Se antes, ela ‘ensinava errado’, agora podia partilhar com o grupo suas experiências, pois o grupo troca e acorda novas possibilidades de ensino, o que lhe permite sentir-se como professora.
Ao ensinar na EMSG, com base no que foi aprendendo, sentia-se mais autônoma. Ressalta ainda, em sua narrativa, a importância da formação continuada, tanto nos encontros orientados por professoras da UFCG e uma intérprete da EDAC, que congregam os instrutores da EDAC, da Escola Municipal de Surdos de Aroeiras, e ela da EMSGB, assim como os instrutores dos cursos de Libras oferecidos pela Associação de Surdos de Campina Grande. Nesses momentos, as trocas de informações e de experiências de ensino, as
orientações didáticas, a aprendizagem de padronização de novos sinais, o estudo da Libras, oferecem aos instrutores conhecimentos enriquecedores de que não dispunha quando iniciou sua carreira. Os participantes surdos participam ativamente, trabalham e com os ouvintes planejando com eles. A responsabilidade é de todos, de professores surdos e de professores ouvintes, todos na mesma condição de trabalho e de aprendizagem.
Embora se considere uma professora como as demais ouvintes, o que a faz sentir-se muito bem, ela acredita que os instrutores surdos mais jovens são “superiores” a ela, e isso porque tiveram acesso a Libras quando crianças. A aprendizagem precoce da Libras lhes permitiu ter “a mente mais aberta”, por isso pesquisam mais, estudam mais e adquirem conhecimentos da Libras com mais facilidade. Esses conhecimentos e facilidades lhes permitem também propor mais ideias para o ensino da Libras e alcançarem melhores resultados, sobretudo, no vestibular e no exame de proficiência de Libras, oferecido pelo MEC.
Acreditando, portanto, no importante papel do Instrutor de Libras, principalmente, como modelo que abre novos horizontes para as crianças surdas, ela deseja ir além de sua condição atual de instrutora e cursar a Licenciatura em Letras/Libras, para se tornar “uma professora de verdade”.