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Joseildo, 39 anos, nasceu surdo, tem dois irmãos surdos, é casado com uma surda e é pai de uma menina ouvinte. Quando eram crianças brincavam e comunicavam-se por meio de gestos estabelecidos entre os três irmãos e a mãe, para as necessidades do cotidiano. Com o pai e as duas irmãs ouvintes a comunicação sempre foi restrita. Até hoje, eles não aprenderam a Libras, sabem apenas alguns gestos, o que faz com que, na casa dos pais, converse apenas com os irmãos surdos.

Desde pequeno, apresenta grande habilidade para desenho. Pegava os esmaltes de sua mãe, que era manicure, e se escondia atrás dos móveis da casa para desenhar o que via: frutas, vasos..., até que um dia, sua “arte” foi descoberta, para grande surpresa e admiração da família. Dois vizinhos de Joseildo, que trabalhavam com desenhos, foram pessoas charneiras em sua vida. Um deles comprou-lhe material de pintura, o

Figura 4 – Sinal de Joseildo

outro vizinho, desenhista de propagandas em paredes, outdoors, tornou-se um modelo para desenvolver suas habilidades. Observava seus trabalhos e, “catando o lixo dele” para encontrar seus desenhos, procurava imitar o que ele fazia. Autodidata, Joseildo passou então a desenhar, a partir de seus próprios interesses e escolheu o que o vizinho não desenhava: carros, motos... Ele guarda na memória o incentivo do vizinho-desenhista no dia em que lhe mostrou seus desenhos, ele lhe fez acreditar que “quando crescesse poderia trabalhar como desenhista”.

Com a idade de cinco anos começou a frequentar uma instituição de atendimento a crianças com deficiências. Estava muito ansioso para ir à “escola”, pois seus irmãos contavam que na escola era muito bom porque tinha muitos surdos. Isso o emocionava e criava expectativas, pois deseja saber como eram eles, como se comunicavam, pois só tinha como referência as conversas com seus dois irmãos surdos. A instituição adotava as posturas da corrente oralista e dentre elas a proibição do uso de comunicação gestual entre eles. Então Joseildo e outros colegas surdos se reuniam, às escondidas, para criar e convencionar sinais entre eles. Ele lembra que muitos surdos não tinham sinais para se comunicar e que poucos traziam sinais de comunicações particulares de suas casas. Nesses encontros colocavam em comum o que traziam e partilhavam entre si formas de saírem do isolamento em que se encontravam e constituírem grupos mediantes os sinais por eles convencionados.

Recorda-se, também, dos treinamentos praticados pela fonoaudióloga que o deixavam nervoso, de sua dificuldade para oralizar e dos colegas surdos que riam dele. Por essa razão, não tinha vontade nem de oralizar nem de ir a essas aulas. Em casa, sua mãe e amigos tentavam incentivá-lo a treinar a fala, mas Joseildo sentia que não podia oralizar, então preferia ficar calado, não queria, pois não podia falar, por mais que as pessoas insistissem.

Em 1982, a instituição recebeu a visita de um surdo adulto, proveniente de Brasília, usuário da Libras, que tendo percebido, por meio de contato com os alunos, que usavam gestos para se comunicar, solicitou à direção a autorização para ensinar língua de sinais aos surdos com um material que havia trazido para o ensino dessa língua. A direção da instituição não permitiu, já que lá se utilizava apenas de oralização. Esse foi seu primeiro contato com a Libras, que embora efêmero, ficou em sua memória de criança que não conseguia oralizar, como uma experiência alternativa de comunicação com sinais.

Em 1987, começou a ter contato mais efetivo com a Libras. Um de seus irmãos surdos pediu emprestado a um surdo da cidade, que viajava por outras paragens vendendo chaveiros,

o dicionário do Padre Oates11 que trouxera consigo. Com a ajuda de sua irmã ouvinte, ele e os

seus dois irmãos surdos passaram a estudar e a se comunicar com sinais. Joseildo lembra ter lamentado com os irmãos de terem perdido a oportunidade de aprender a língua de sinais já em 1982, pois era o mesmo livro utilizado pelo surdo de Brasília. Os três irmãos puderam juntos desenvolver melhor o aprendizado de Libras e isso os encorajava a repassar para os outros surdos da EDAC, o que iam aprendendo. Estava formada uma pequena comunidade de surdos que se comunicavam entre ele em língua de sinais e logo perceberam a sua importância para suas vidas. Com o livro do Padre Oates, foram deixando de lado a oralização, e passaram a se apropriar, cada vez mais, da Libras para se expressar e partilhar suas vidas.

Com a idade de 17 anos, passou a estudar na EDAC, onde frequentou até o segundo ano do ensino médio, que concluiu prestando o exame supletivo. Em 1985, por intermédio da escola, teve a oportunidade de participar de um curso profissionalizante em marcenaria no SENAI. Teria preferido cursar mecânica de automóveis, mas o SENAI não admitia nesses cursos alunos surdos. Com a ajuda de um colega ouvinte do curso, que sabia um pouco Libras, e com o apoio de professores que pediram cursos de Libras para o grupo de surdos, ele concluiu com facilidade o curso de marcenaria, entretanto, nunca exerceu a profissão de marceneiro.

Em 1997, mediante a aprovação de processo seletivo, foi contratado para trabalhar na Prefeitura Municipal de Campina Grande, como servidor de serviços gerais na EDAC. Devido a sua fluência em Libras, a sua habilidade para desenho, e sua participação ativa na Associação de Surdos de Campina Grande, em 1998, passou a exercer a função de instrutor de Libras. Não sabia o que, nem como ensinar. Ele partilhava com três outros instrutores de Libras da escola suas dificuldades e tocavam experiências, embora muito intuitivas, uma vez que não tinham conhecimentos mais específicos nem em Libras, nem no ensino de línguas.

Naquele mesmo ano, iniciaram-se os encontros de planejamento para o ensino de Libras, atividade de formação continuada e em serviço, assessorada por professoras da UFCG. No início, participavam apenas os instrutores da EDAC, aos poucos foram sendo incorporados os instrutores das EMSGB, da EMSA, dos cursos da ASCG, e intérpretes de Libras da EDAC. Joseildo permaneceu nessa instituição até o ano de 2005, quando foram suspensos, por força de lei, todos os contratos de prestação de serviço do município.

Paralelamente ao trabalho na EDAC, em 2001, começou a lecionar as disciplinas Libras I e II, para alunos do Curso de Pedagogia da UFCG, sem vínculo empregatício com a universidade, sendo remunerado como prestador de serviço, por hora aula ministrada. A partir de 2006, foi contratado por uma firma que presta serviço terceirizado à UFCG, por 40 horas semanais de trabalho, para além de ministrar as disciplinas de Libras na UFCG, participar, com professoras da universidade, de projetos de extensão, e das reuniões de estudo e de planejamento com os instrutores das três escolas para surdos (EDAC, EMSGB, EMSA), as quais a UFCG presta assessoria.

Quando iniciou a docência na Universidade, não sabia nem o que, nem como ensinar, nem como avaliar ou planejar as atividades das disciplinas. Contou, então, com o apoio das professoras da área de educação de surdos da UFCG, que, semanalmente, planejavam as aulas para ele, mais do que com ele, Joseildo considera importante para usa formação o apoio desses professores que além de propiciar estudos da Libras, colocavam à sua disposição os materiais disponíveis para o ensino dessa língua, o que foi lhe assegurando bastante autonomia no exercício de sua profissão.

Desde 2001, participa da formação continuada, oferecida pela parceria UFCG |EDAC aos instrutores de língua de sinais. Durante três anos, 2004, 2005 e 2006, Joseildo participou do Curso de Formação de Instrutores de Libras, também oferecido pela UFCG. Apesar de ter esses cursos como importante para sua formação, não só pelos conhecimentos adquiridos, mas pelo espaço de trocas e discussão propiciado aos instrutores, considera-se, ainda, em posição inferior aos professores ouvintes, uma vez que não tem curso superior. Por esta razão, pretende cursar Desenho Industrial, para aliar a Libras sua habilidade de desenho e produzir material didático para o ensino de Libras. Entende, assim, não estar abandonando a docência, mas exercendo-a de forma diferente.

Benzer Belgeler