Nos dias que correm, a informação e o conhecimento são considerados como os recursos mais importantes de uma economia e, consequentemente, o processo mais importante que lhe está subjacente é a aprendizagem (Vieira e Romero, 2005). Antes de detalharmos esta temática importa referir que, de acordo com Camara et al. (2010), a “aprendizagem organizacional pode ser entendida como um processo de deteção de erros.” A aprendizagem “está relacionada com atividades de rotina, em diferentes áreas da empresa, ou seja, na produção, na distribuição ou no consumo, permitindo assim a criação de importantes
inputs para o processo de inovação” (Lundvall, 1992, apud Vieira e Romero, 2005:88).
Apesar de ter atingindo o seu auge de visibilidade recentemente, Moreira (2002) afirma que a aprendizagem organizacional não é nova. Porém, nos dias de hoje esta temática tornou-
se extremamente importante para as empresas porque atualmente é fácil copiar um produto ou compreender a estrutura da prestação de um serviço, mesmo que os mesmos estejam a ser lançados no outro lado do globo, sendo que em apenas alguns dias ou semanas os concorrentes poderão lançar produtos ou serviços semelhantes com algumas melhorias (Camara et al., 2010) e perante esta nova realidade as empresas são obrigadas a introduzir melhoria constante nos produtos lançados no mercado. Assim, os ciclos de desenvolvimento dos produtos e introdução no mercado são cada vez mais reduzidos, sendo que a velocidade e inovação exigidas às empresas no mercado globalizado são cada vez maiores, o que reforça que a diferenciação das empresas se encontra atualmente naquilo que sabem (Camara et al., 2010).
Assim sendo, a competitividade passou a estar focalizada em recursos intangíveis dificilmente imitáveis, tornando-se estes as variáveis que caracterizam as competências distintivas das empresas, garantindo a sustentabilidade e vantagem competitiva durante um período de tempo mais longo, dando espaço para o aparecimento de projetos inovadores e mais rentáveis por serem mais dificilmente reproduzíveis por outros (Camara et al., 2010). Atualmente, e devido à globalização, concorrência e complexidade dos mercados, as empresas têm na aprendizagem organizacional uma fonte de vantagens competitiva, pois estas deixaram de estar localizadas nos produtos e serviços para passar a estar centralizadas no saber com que o fazem, ou seja, a vantagem competitiva sustentada de uma empresa que lhe permite uma elevada competitividade não está “nas coisas que fazem” mas “naquilo que sabem para as fazer” (Camara et al., 2010:619). As empresas que aprendem têm características que as diferenciam das outras pois, para além de incorporarem a experiência adquirida ao longo dos anos nas suas atividades do dia-a-dia, possuem outros elementos que alimentam de forma mais pró-ativa o sistema de aprendizagem organizacional (Camara et al., 2010).
Existem duas grandes questões relacionadas com a aprendizagem organizacional; a primeira reside no facto de não serem as empresas que aprendem mas sim as pessoas tanto a nível individual, como organizacional e a nível das rotinas relacionadas com as tarefas que desempenham nas empresas. Em 1981 Hedberg (apud, Lopes & Fernandes, 2002) advogava que as organizações não têm cérebros, porém têm sistemas cognitivos e memórias, e assim como os indivíduos desenvolvem hábitos e crenças ao longo da vida, as organizações também desenvolvem um conjunto de ideologias e pontos de vista. Para este autor, os membros das organizações entram e saem, mas as memórias, comportamentos, normas e valores permanecem ao longo dos anos. A segunda questão prende-se a desaprendizagem, através da eliminação das rotinas que não contribuem para o sucesso.
Importa mencionar que todo o processo de incorporação de novas aprendizagens de uma empresa pouco serve se não houver uma transferência do conhecimento rápida e
eficaz no seio da própria empresa. Porém, para que isso possa acontecer as empresas devem
possuir vários mecanismos de desenvolvimento deste processo que pode passar por meios de comunicação escritos, revistas internas, relatórios, divulgação na internet, medidas de gestão de pessoas como rotação de pessoal, entre outras. Mas acima de tudo, a empresa deve
desenvolver uma cultura de comunicação interpessoal aberta e assente na escuta ativa e na crítica construtiva (Camara et al., 2010).
Finalmente, gostaríamos de destacar a importância que os recursos humanos têm na inovação organizacional. Uma empresa pode ter um excelente sistema de inovação, onde podemos encontrar todas as características que identificamos anteriormente que contribuem para um ambiente favorável à inovação. Contudo, sem a presença de recursos humanos qualificados nas empresas não existe inovação pois, como já foi referido anteriormente, a inovação não é fruto de um passo de mágica. Todas as características supracitadas estão mais ligadas aos recursos humanos do que às tecnologias. Neste contexto, Moreira (2002) afirma que será necessário definir os problemas, oportunidades e objetivos para cada uma das características, para que os recursos humanos possam exercer a sua influência, de acordo com a estratégia de negócio, tanto a nível de estrutura como de cultura organizacional sempre alavancada num processo contínuo de aprendizagem organizacional. Para Moreira (2002:14), “a gestão de recursos humanos tem um papel importante na inovação organizacional: o futuro de muitas empresas vai depender da adequada gestão das capacidades e talentos das pessoas.”
Em suma, a nível da inovação organizacional foi identificado um conjunto de
características associadas às empresas inovadoras que devem funcionar de forma integrada para que a inovação possa ter sucesso. Estes componentes devem ser geridos de forma articulada, não atribuindo valorizações diferenciadas a qualquer um, pois todos são essenciais para garantir o êxito da empresa. Todas as características anteriormente identificadas foram estudadas em duas empresas do setor de componentes para a indústria automóvel, cujos resultados apresentaremos mais adiante neste trabalho. Antes, porém, dedicaremos os parágrafos seguintes a uma breve caracterização do referido setor.