104 uma vez que representam, quando voluntários (e não reações imediatas), o domínio da própria conduta. Isso significa que o salto qualitativo que os domínios psicomotores descritos nessa categoria promovem no desenvolvimento do Mateus traz, ao mesmo tempo, uma nova condição de agir em sua realidade objetiva.
É importante compreendermos que, conforme os domínios psicomotores vão sendo conquistados pela criança, eles não deixam mais de existir ao longo de sua vida, por exemplo o andar: depois que aprendemos a andar, não temos como desaprender ou deixar de andar, salvo algum acidente que nos impeça de realizar esse domínio interiorizado.
Martins (2013) traz as neoformações como construções de novos nexos nervosos que são desenvolvidos no indivíduo pela inserção dos signos nos processos psíquicos. Conforme os signos se infiltram nos processos psíquicos, eles conferem a tais processos um traço psicológico específico, qual seja, a possibilidade de eleição de determinados signos como instrumentos mediadores da conduta do indivíduo. Diante dessa compreensão, podemos afirmar que os domínios psicomotores podem vir a ser a expressão do domínio voluntário da própria conduta, à medida que o indivíduo age tomando os signos como mediadores psicológicos de suas ações. O que significa dizer que os signos rompem a fusão sensomotora na proporção em que qualificam os estímulos, e assumem lugar de destaque na orientação da ação.
Ao analisar os movimentos do Mateus, descritos nessa categoria, podemos observar dois momentos diferentes que exigem domínios psicomotores e também, em contrapartida, os desenvolvem. Em algumas situações, as operações que ele realiza estão ainda inseridas na unidade primitiva percepção-afeto-ação, como os movimentos que realiza no parque, por exemplo. À medida que os brinquedos do parque o afetam, ele reage àquela determinada situação e explora suas novas possibilidades de atuação na realidade.
Mas há também momentos contabilizados nessa categoria em que o Mateus deixa de reagir imediatamente à situação dada, dominando a sua estrutura elementar, que são os momentos em que a professora está orientando às crianças a fazer determinadas ações. Nesses casos, também estão presentes os domínios psicomotores, porém orientados pela professora, o que significa que o autodomínio da conduta surge no desenvolvimento dessa criança como uma conquista interpsíquica, que está na iminência de interiorizar-se. Um exemplo que facilita o entendimento do leitor é a atividade de relaxamento que a professora organiza para o grupo de crianças, em que ela pede que as crianças deitem, alonguem-se, ouçam a música, relaxem os músculos. Tais operações promovem novos domínios psicomotores, motivo pelo qual foram contabilizadas nessa categoria, como também promovem o desenvolvimento do domínio da
105 própria conduta, razão pela qual também foram contabilizados na categoria de autodomínio da
conduta.
Ora, é a atividade da criança que promove a especialização das funções psíquicas, as quais expressam-se também nos domínios psicomotores alcançados pela criança, e nenhuma complexificação é possível ao indivíduo sem a inserção dos signos, mediadores culturais do desenvolvimento humano. Em outras palavras, à medida que as funções psicológicas se complexificam e se especializam, as respostas motoras da criança ganham autonomia e é também pela mediação dos signos que o domínio motor se torna possível e permitirá, gradativamente, a interiorização do domínio voluntário da própria conduta, cuja gênese radica na dissolução da sensomotricidade. Não sem razão ,Vigotski (1996) afirmou o desenvolvimento como evolução por revolução.
É nessa direção que inserimos também o episódio cantar (número 29) e o contato
consigo mesmo (episódio 19) nesta categoria. Ambos envolvem domínios psicomotores ainda
não voluntários para a criança, uma vez que as músicas são cantadas junto com a professora, e as operações em que a criança mantém um contato consigo mesma são também representativas de orientações da professora, tais como escovar os dentes e mastigar.
Com estes episódios, podemos também compreender o uso mágico dos signos que, segundo Martins (2013), significa o emprego externo de signos, ou seja, uma ação não voluntária, mas ainda assim mediada por signos. Quando a criança age junto com a professora, ou por orientação da professora, ela está usando signos, mas ainda não como mediadores voluntários de sua própria conduta, o que justifica a nossa afirmação de compreender o episódio
cantar (número 29), entre alguns exemplos de exploração de novos movimentos (atividade de
relaxamento citada anteriormente, por exemplo), como momentos em que o Mateus usou externamente os signos.
3.4.3 Desenvolvimento da fala
Nesta categoria estão inseridos os episódios que representam a objetivação do processo de desenvolvimento da fala na primeira infância. Como destacado no gráfico 02, há uma crescente inserção da fala no desenvolvimento global da criança na primeira infância, e afirmamos no capítulo 02 desse estudo a importância do desenvolvimento da linguagem nesse momento da vida do indivíduo. A linguagem, ao especializar-se e entrecruzar-se com o pensamento, irá requalificar o desenvolvimento de todas as demais funções psíquicas, especialmente a percepção, a atenção e a memória.
106 Assim, ao adentrarmos nesta categoria, é preciso a clareza de que não se trata aqui de analisar somente o desenvolvimento da linguagem, mesmo porque, considerando o sistema funcional, essa divisão lógico-formal não seria possível. Cabe, então, compreendermos que na objetivação da fala estamos também analisando o desenvolvimento do pensamento, da atenção e da memória da criança, funções psíquicas que se requalificam à medida que os significados das palavras adentram o psiquismo humano.
Segue, então, a frequência de ocorrência de episódios inseridos nessa categoria e que nos mostram as etapas do desenvolvimento da fala.
Gráfico 07: frequência de episódios contidos na categoria de desenvolvimento da fala.
O alto índice do episódio número 1, denominado fala comunicativa semântica, vai ao encontro do aporte teórico que vem sendo apresentado ao leitor e evidencia os momentos em que o Mateus usou palavras e frases conforme o seu real significado, seja para comunicar-se com a professora ou com as outras crianças. Usar as palavras conforme o seu significado também nos explicita o que está oculto a tal fato, ou seja, a articulação da linguagem com o pensamento e a requalificação da percepção, que passa a ser semântica; a requalificação da atenção, que passa a ser verbalizada; e a requalificação da memória, que, ao verbalizar-se, passa a atender à orientação das palavras.
No entanto, antes de usar as palavras conforme o seu significado, há momentos em que a criança na primeira infância ainda faz uso da face fonética da palavra, ou seja, relaciona o som da palavra com o objeto, sem compreender o seu significado, como representado no episódio 2, fala fonética. Podemos afirmar que a fala fonética e a fala semântica desenvolvem- se numa relação inversamente proporcional, ou seja, quanto mais o Mateus desenvolve a sua
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(1) Fala comunicativa semântica (2) Fala fonética (3) Fala egocêntrica (4) Emissão de sons