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As relações do trabalho são de longe as mais complexas de nossa sociedade, uma vez que o próprio ordenamento jurídico reconhece a desigualdade entre as partes. Sendo assim, não sem razão, o sistema normativo ampara, sobremaneira, o trabalhador, figura hipossuficiente.

Não é difícil concluir, portanto, a grande importância da responsabilidade civil para o Direito do Trabalho, especialmente em relação à nova regra de coexistência das responsabilidades civil subjetiva e objetiva. A responsabilidade civil poderá ser tanto do empregador como do empregado, em função de danos causados na relação jurídica de direito material trabalhista.

O empregado, ao celebrar um contrato de trabalho, atrai para si a obrigação de prestar serviço de forma subordinada. Quando se celebra um contrato de trabalho, o empregador e o empregado também deverão estar de boa-fé; mas, não é só. O poder diretivo do empregador (jus variandi), que dirige a atividade do empregado de acordo com as necessidades de serviço da empresa, deve se ater à finalidade social e econômica do contrato, sob a pena de caracterizar abuso de direito (art. 187 do Código Civil).

Ao contrário do empregador que, segundo o § 1º do art. 2º da CLT, assume os riscos da atividade, o empregado, quando celebra o contrato de trabalho, não assume qualquer risco. Sendo assim, qualquer dano, dentre eles o corporal, moral ou financeiro, ocorrido em face da atividade profissional fará com que a indenização recaia sobre o empregador, figura que detém verdadeiramente o risco da atividade e, ainda que o empreendimento não tenha finalidade lucrativa, mesmo assim, o risco será assumido por aquele que emprega139.

Assim também defende Maurício Godinho Delgado, no sentido de que o conceito jurídico de risco vincula o empregador pelos custos e resultados de sua atividade. Para ele, conforme também o citado posicionamento de Dallegrave, esse conceito se estende aos

138DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Responsabilidade civil no direito do trabalho, cit., 5.ed., p. 101. 139Id. Ibid., p. 118-119.

empregadores que não exercem tipicamente uma atividade econômica, tal como os empregadores domésticos, e àqueles que desenvolvam uma atividade de caráter beneficente140.

O ilustre Professor Octavio Bueno Magano discordava dessa posição, na medida em que entendia não se estender esse risco a todo e qualquer empregador, mas somente aos que desempenham atividade rigorosamente econômica, lucrativa (empresas, portanto). E assim entendia o jurista:

“no conceito de empregador não é essencial a ideia de assunção de riscos, porque nele se compreendem tanto os entes que se dedicam ao exercício de atividades econômicas quanto os que deixam de o fazer, dedicando-se, ao revés, a atividades não lucrativas, como é o caso das instituições de beneficência e das associações recreativas”141.

No contrato de trabalho há dois tipos de responsabilidade: a subjetiva, com assento na inexecução culposa de obrigação, e a objetiva, cujo dano tem como nexo causal o simples exercício regular da atividade profissional. Em qualquer uma dessas responsabilidades, será o empregador a responder pelos danos causados ao empregado.

O Código Civil de 2002 inseriu cláusula geral (parágrafo único de seu art. 927) de responsabilidade objetiva nos casos de risco da atividade privada em geral, possuindo longo alcance, na medida em que estabelece a obrigação de indenizar o dano, independentemente de culpa, diferentemente das normas esparsas até então existentes, que tratavam de casos específicos, a exemplo do Decreto-Lei n. 318/1967 (trabalhadores em minas de carvão). Já a cláusula geral do referido parágrafo único fala de uma responsabilidade objetiva para toda e qualquer atividade que, normalmente exercida, possa implicar riscos, tema este aqui tratado.

Conforme já esposado, há quem defenda o sistema dual, ou seja, de que as responsabilidades objetiva e subjetiva estão justapostas. Mas, não é o que defende, por exemplo, Dallegrave, uma vez que este autor entende que se extrai do caput do art. 927, em estudo, a responsabilidade subjetiva, assim como da leitura do art. 7º, inciso XXVIII,

140DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 10. ed. São Paulo: LTr, 2011. p. 394. 141MAGANO, Octávio Bueno. Manual de Direito do Trabalho. V. II, 2. Ed. São Paulo: Ltr, 1986. p. 50 apud

da CF/1988, quando este prevê a indenização acidentária a cargo do empregador nos casos em que este incorrer em dolo ou culpa142.

O inciso XXVIII do art. 7º da Carta Magna é expresso e específico ao se referir à responsabilidade subjetiva do empregador nas ações de indenização. Em regra, o dever de indenizar o empregado por acidente ou doença de trabalho exige a comprovação da culpa do empregador. Mas, como já frisado, nos casos previstos em lei ou por força do parágrafo único do citado art. 927, claro está que o Código Civil abraçou a teoria do risco, sem abandonar a responsabilidade subjetiva. Significa dizer que o legislador estipulou que certas atividades geram um risco, sendo que o prejuízo por elas criado deve ser suportado por aquele que se beneficia dos riscos criados. O parágrafo único aqui em análise, por ser regra mais favorável ao empregado, será o fundamento aplicável para os casos de acidente de trabalho. O entendimento é de que o caput do art. 7º da CF/1988 assegura ao empregado um rol mínimo de direitos, sem prejuízo de outros, sendo então o dispositivo constitucional meramente exemplificativo143.

O Supremo Tribunal Federal, por meio da Súmula 341144, verifica que a responsabilidade civil do empregador por ato causado por empregado, no exercício do trabalho que lhe competir, ou em razão dele, deixou de ser uma hipótese de responsabilidade subjetiva, com presunção de culpa.

É nesse sentido que a ideia de culpa, na modalidade in elegendo, tornou-se legalmente irrelevante para se aferir a responsabilidade civil do empregador, propugnando- se pela mais ampla forma de ressarcir a vítima. O empregador então deve responder pelos riscos econômicos da atividade exercida e essa responsabilidade é objetiva, independentemente de quem seja o sujeito vitimado pela conduta do empregado, pouco importando que seja outro empregado ou um terceiro (cliente, fornecedor etc.)145.

142DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Responsabilidade civil no direito do trabalho, cit., 5.ed., p. 120. 143Processo TRT/SP n. 0001888-26.2011.5.02.0361 (20140012986). Recurso Ordinário. 1ª Vara do Trabalho

de Mauá. Ementa: Recurso Ordinário. Ação de indenização por dano moral e material decorrente de acidente do trabalho. Responsabilidade objetiva. Aplicação do parágrafo único do art. 927 do Código Civil. Em regra o dever de indenizar o empregado por acidente ou doença do trabalho exige a comprovação da culpa do empregador, conforme inciso XXVIII do art. 7º da CF/1988. No entanto, nos casos previstos em lei ou nos casos em que o risco for inerente à atividade desenvolvida normalmente pelo empregador a sua responsabilidade será objetiva, conforme parágrafo único do art. 927 do Código Civil.

144Súmula 341. É presumida a culpa do patrão ou comitente pelo ato culposo do empregado ou preposto. (Data de aprovação: Sessão Plenária de 13/12/1963.)

145PAMPLONA FILHO, Rodolfo; GAGLIANO, Pablo Stolze. Novo curso de direito civil: responsabilidade civil, cit., v. 3, p. 282.

Ressalte-se aqui o direito de regresso daquele que ressarciu o dano causado por outrem, previsto no art. 934 do Código Civil. No campo do Direito do Trabalho, a questão é mais complexa, devendo ser interpretada considerando o que dispõe o art. 462 da CLT146. É pacífico na jurisprudência que a possibilidade de desconto por dano há de ser expressa em contrato, quando decorre de culpa do empregado. Se decorrente de dolo devidamente provado, é lícito o desconto, ainda que não ajustado expressamente147.

Na esteira da responsabilidade objetiva do empregador por danos causados pelo empregado, há entendimento de que não existe qualquer óbice quanto ao terceiro prejudicado propor a ação além do empregador, ou seja, também direcionada ao empregado, sustentada na ideia de responsabilidade civil subjetiva. Assim, a ação seria proposta diretamente contra os dois sujeitos, buscando uma solução integral da lide, com todos os campos da responsabilidade em uma única lide, evitando sentenças contraditórias. Sendo a propositura apenas contra o empregador, há entendimento de que seria possível a intervenção de terceiros, conhecida como denunciação da lide148.

Mas, além da responsabilidade civil objetiva positivada que trata dos danos causados pelo empregador, relevante tratar daquele dano causado ao empregado. Porém, aqui não temos uma norma disciplinadora que traga a resposta, dependendo, dessa maneira, das circunstâncias em que o dano ocorreu para que a solução se apresente.

Pamplona e Stolze defendem a tese de que se trata da responsabilidade subjetiva e exemplificam com o caso de um cliente do empregador que colida com o carro estacionado do empregado. Nesta situação, a responsabilidade não será imputada ao empregador ainda que o carro do empregado esteja estacionado no estabelecimento da empresa e que a colisão tenha ocorrido dentro do horário de trabalho do empregado prejudicado.

No entanto, diferente seria se o próprio empregador colidisse seu carro com o automóvel do empregado. O elemento dolo ou culpa deverá ser demonstrado em juízo, sem

146“Art. 462. Ao empregador é vedado efetuar qualquer desconto nos salários do empregado, salvo quando este resultar de adiantamentos, de dispositivos de lei ou de contrato coletivo.

§ 1º Em caso de dano causado pelo empregado, o desconto será lícito desde que esta possibilidade tenha sido acordada ou na ocorrência de dolo do empregado.

§ 2º ... § 3º ... § 4º ...”

147MANUS, Pedro Paulo Teixeira; ROMAR, Carla Teresa Martins. CLT e Legislação Complementar. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2010. p. 156.

148PAMPLONA FILHO, Rodolfo; GAGLIANO, Pablo Stolze. Novo curso de direito civil: responsabilidade civil, cit., v. 3, p. 283-284.

que isso queira dizer que os danos causados ao empregado sejam sempre de ordem subjetiva, embora, os autores em destaque entendam que sim, posto que, neste caso, não se levaria em conta o aspecto empresarial, no qual a responsabilidade seria a objetiva149.

Vemos como tendência nos julgamentos pelos tribunais do trabalho o, entendimento a favor da responsabilidade objetiva do empregador e, embora existam julgados em contrário, as decisões demonstram claramente um acolhimento importante da teoria do risco empresarial. Essa tendência significa um avanço nos rumos da responsabilidade civil, tendo em vista que um grande contingente de atos danosos podem ficar sob a proteção da culpa, nem sempre possível de ser provada.

O Direito contemporâneo com forte inclinação para a socialização dos riscos, em harmonia com o objetivo fundamental da construção de uma sociedade livre, justa e solidária, inovou os contornos antes demarcados, fazendo com que o julgador, no conjunto de atos do empregador, considere também os prejuízos causados ao meio ambiente do trabalho e à saúde do trabalhador, prejuízos estes que independem da culpa.

Dessa forma, a expansão da responsabilidade civil objetiva fez com que a doutrina, o legislador e a jurisprudência, definitivamente, se distanciassem dos antigos paradigmas, voltando-se hoje para as circunstâncias objetivas que interferem e prejudicam o meio ambiente de trabalho, posicionando-se ao lado da vítima do dano e, assim, o enfoque central da responsabilidade civil não é mais o autor do ilícito.

Benzer Belgeler