2. GENEL BİLGİLER
2.1. AFETLER VE AFET SAFHALARI
2.1.3. AFET SAFHALARI
Menezes Cordeiro assevera que a ideia da confiança surgiu, de modo repetido, nas diversas manifestações da boa-fé e indaga sobre a possibilidade da elaboração de um princípio da confiança que pudesse integrar parte do conteúdo substancial da boa-fé. Este autor ainda discorre sobre a confiança, na medida em que ela exprime a situação em que uma pessoa adere, em termos de atividade ou de crença, a certas representações, passadas, presentes ou futuras. O princípio da confiança explicitaria o reconhecimento dessa situação e a sua tutela.
Nessa questão, a confiança, Menezes Cordeiro, citando Giuseppe Stolfi (L’apparenza del diritto – 1934), esclarece que não pode prevalecer a aparência (corrente na literatura alemã do princípio do século), posto que nenhum legislador possa sacrificar o ser ao parecer e que a aparência jurídica não seja um vetor do ordenamento. Para o autor “patente está aqui a ausência de se interrogar a realidade dogmática da confiança e, em vez disso, o que se vê é o avanço numa discussão de princípios, metodologicamente pobre e incapaz de dar corpo à complexidade do real”.
A confiança foi esquecida pelos juristas, pela escassez de estudos, embora tenha se mantido instalada em alguns institutos, dando um desenvolvimento institucional que permite intuir que a confiança constitui, por excelência, uma ponte entre a boa-fé objetiva e a boa-fé subjetiva. Nos ordenamentos jurídicos de origem latina, entende Menezes Cordeiro, que essa possibilidade de progresso fica um pouco prejudicada justamente pelo
66DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Responsabilidade civil no direito do trabalho, cit., 4.ed., p. 575. 67Id. Ibid., p. 577.
acanhamento do cultivo da boa-fé objetiva, assim como no Direito germânico, posto verificar-se uma série de dificuldades, motivadas pela diversidade linguística entre Treu und Glauben e guter Glaube (lealdade e boa-fé), para aproximar as duas noções.
Menezes Cordeiro, citando Luhmann, que faz uma leitura sociológica da confiança, afirma que esta assume um papel de relevo, uma vez que na sociedade em que vivemos, os comportamentos humanos são inúmeros e obviamente interferem nas decisões. A confiança permitiria, nesse cenário, excluir algumas possibilidades, afastando perigos, cuja concretização comprometeria a atuação humana; a confiança, portanto, permite reduzir a complexidade social e constitui para o ser a base de um comportamento, quando não, haverá mera esperança. Por outro lado, a confiança atua como uma alternativa na qual os danos de sua quebra podem superar os benefícios aguardados da sua manutenção.
A doutrina portuguesa é pouco sensível à tutela da confiança, não lhe dando relevo particular no domínio das declarações negociais. Mas, essa particularidade deve ser minimizada, posto que todos os ordenamentos jurídicos aceitam o erro, em sede negocial, o que vai contra a confiança. Importante também a ponderação dos resultados alcançados, quando a confiança – normalmente pela via da boa-fé subjetiva – é protegida.
Por fim, este autor releva a questão de que nas suas manifestações subjetiva e objetiva a boa-fé esteja ligada à confiança: a subjetiva revela o momento essencial; a objetiva confere-lhe a base juspositiva necessária quando, para tanto, falte uma disposição legal específica68.
Judith Martins-Costa, quando adentra no princípio da confiança, assinala inicialmente que o conjunto dos interesses envolvidos na relação não são apenas aqueles vinculados direta ou indiretamente à prestação principal, mas também aqueles derivados dos demais deveres de conduta, os vinculados à manutenção do estado pessoal e patrimonial dos integrantes da relação, advindos do liame de confiança que toda a relação envolve. A autora propõe que se encare o cumprimento da prestação concretamente devida, tendo em conta também os deveres derivados da boa-fé que se fizerem instrumentalmente necessários para o atendimento satisfatório da relação. Essa proposta é compatível com o novo Código Civil, posto que estejam presentes as suas diretrizes éticas e solidaristas, das quais surge o princípio da confiança.
Ainda no mesmo contexto, a autora levanta a questão, já trazida pela doutrina portuguesa, de que, em cada ordenamento, a confiança encontra particular e concreta eficácia jurídica como fundamento de um conjunto de princípios e regras que permitem, de um lado, a observância do pactuado, conforme as circunstâncias da pactuação e, de outro, a coibição da deslealdade (em sentido amplo), nesta hipótese possuindo eficácia limitadora do exercício de direitos subjetivos e formativos.
Martins-Costa afirma que o princípio da confiança é traduzido pela boa-fé objetiva, prevista no art. 422, do Código Civil. No substrato da boa-fé objetiva está a ideia da relação obrigacional como relação de cooperação, assim esclarece Emílio Betti, mencionado pela autora. A cooperação entre as partes deve preponderar, pois, por meio da relação obrigacional, o interesse de uma pessoa é prosseguido pela conduta da outra pessoa69.
Citem-se ainda, outros autores, a exemplo de Paulo Nalin, que asseveram que o princípio da confiança está localizado antes mesmo da formação do contrato e nele fica instalado até a sua execução. Na fase de aproximação negocial, o princípio da confiança dá conta de proteger os legítimos interesses daqueles que pretendem contratar. Cuida, portanto, de salvaguardar as expectativas contratuais dos que se aproximam e contratam.
A confiança guarda relação com a boa-fé objetiva, não apenas porque se apoia nos deveres anexos de cuidado, informação, segurança e cooperação, mas também, por ser um mecanismo de interpretação dos contratos. A confiança surge das diversas manifestações da boa-fé, sugerindo a doutrina, conforme já dito, de modo que ocorra a integração da confiança no conteúdo substancial da boa-fé70.
Na seara laboral, é no Direito espanhol, segunda a professora Conde Marín, que se vê explorado mais amiúde o princípio da confiança nas relações do trabalho. É ela quem diz que em razão da boa-fé, como princípio essencial das relações jurídicas e vetor dos comportamentos contratuais, é exigida, do empresário e do trabalhador, uma atuação leal, fiando e confiando que em suas atuações estarão presentes contratualmente a postura correta e honesta esperada. Conclui-se, portanto, que a confiança é um requisito vital, do ponto de vista da boa-fé, para o êxito contratual.
69MARTINS-COSTA, Judith. O adimplemento e o inadimplemento das obrigações no novo Código Civil e o seu sentido ético e solidarista. In: FRANCIULLI NETTO, Domingos; MENDES, Gilmar Ferreira; MARTINS FILHO, Ives Gandra da Silva (Orgs.). O novo Código Civil: homenagem ao Professor Miguel Reale. 2. ed. São Paulo: LTr. 2006. p. 367-370.
70NALIN, Paulo. Princípios do direito contratual: função social, boa-fé objetiva, equilíbrio, justiça contratual, igualdade, cit., p. 155.
Não somente a doutrina como também as decisões judiciais têm valorizado a confiança como imprescindível e essencial no contrato de trabalho e em toda a relação laboral. Confiança e boa-fé têm efeitos sinônimos nas decisões. O dever de confiança se coloca como protagonista no aspecto pessoal de uma relação de trabalho, o que deixa em segundo plano o aspecto econômico, que sem dúvida todo contrato abarca, e, assim sendo, o trabalhador deve se constituir em uma garantia da lealdade e confiança depositadas pelo empregador.
Interessante ressaltar que a concepção de fidelidade pessoal não deve ser considerada questão de origem feudal. Ainda que se considere o contrato de trabalho quase um contrato de adesão, não se deve perder de vista o aspecto pessoal como motivo essencial e determinante do consenso contratual laboral.
No dever de confiança, de lealdade e de honestidade estão incluídos os deveres de não concorrência ou concorrência desleal, de não aceitar subornos, não receber gratificações ou guardar segredos relativos à empresa. Tal comportamento é também denominado como dever de cooperação do trabalhador.
Desta feita, tal é a importância do dever de confiança no contrato de trabalho que a sua falta ou violação é capaz de produzir a mais grave sanção, qual seja, a dispensa por justa causa, tratado no Direito espanhol como dispensa por abuso de confiança, conforme o art. 54.1d do Estatuto de los Trabajadores.
Entre outros trabalhos, onde o elemento pessoal é especialmente valorado, citem-se aqueles de especial confiança necessária e exigível nos cargos de alta direção, que se baseiam na recíproca confiança, constituindo uma obrigação para as partes acomodar o exercício de seus direitos e obrigações junto às exigências da boa-fé71.