A partir da anuência do Departamento de Energia e, posteriormente, dos Orgãos Colegiados competentes da Unesp – Campus de Guaratinguetá, realizou-se o curso de educação continuada “O uso racional da energia: ensino e cidadania” (mesmo título do material paradidático), no período de 26 set. 2002 a 31 out. 2002, através da estrutura apresentada no item 5.2.
Inscreveram-se 11 professores, dos quais sete participaram do primeiro módulo e, nos nove módulos seguintes, os participantes constituíram um grupo fixo de cinco pessoas16, os quais concluíram o curso conforme o programado. Apesar de pequeno o grupo de professores, os mesmos apresentavam alguma diversidade, conforme apresentado na Tabela 6.1.
Tabela 6.1 – Perfil dos professores participantes do curso “O uso racional da energia: ensino e cidadania” Pr of ess or Id ad e (a no s) Se xo ** Formação E xp er iê nc ia (a no s) Disciplinas que leciona Carga horária semanal (horas) Número de alunos atendidos por semana Possui computador em casa? Utiliza computador com freqüência? Utiliza internet?
1 28 F História 7,8 História 33 400 Sim Sim Sim
2 47 F Letras e Pedagogia 27,0 Inglês 28 300 Sim Não Sim 3 37 F Ciências 13,7 Ciências
Matemática Biologia
40 240 Sim Sim Sim
4 37 F Engenharia Elétrica 13 Física 33 − Sim Sim Sim 5 43 F Eng. Mecânica/Física 6 Física 21 360 Sim Não Não 6 * 48 F Ciências 25,5 Ciências
Biologia
34 280 Sim Não Sim
7 * 50 F Ciências 10 Ciências 40 320 Sim Não Não
* Professores que participaram somente no primeiro módulo; ** F: feminino; M: masculino
16 Uma das justificativas apresentadas pelos professores a respeito do reduzido número de inscritos no curso,
apesar de ser gratuito, diz respeito a característica não institucional do mesmo, ou seja, para que houvesse uma maior participação dos professores dos ensinos fundamental e médio da rede pública, o curso necessitaria ser promovido pela Secretaria de Educação do Governo do Estado.
No início do desenvolvimento do primeiro módulo do curso foi apresentada a esquematização dos conteúdos que participariam nos processos de ensino-aprendizagem (vide item 5.3.1), juntamente com as justificativas e objetivos de cada capítulo do material paradidático. Após a apresentação da metodologia, os professores foram submetidos à primeira avaliação, cujo desempenho por habilidade é mostrado na Figura 6.5, na qual estão presentes os resultados da segunda avaliação (realizada no meio do curso) e da terceira avaliação (no encerramento do curso).
Legenda:
A Conhecimento de assuntos relacionados com a energia
B Percepção dos conteúdos pertinentes à energia nos meios de comunicação C Habilidade de operar com valores numéricos
D Percepção com relação às conseqüências no desequilíbrio dos ciclos naturais E Forma de conduzir as primeiras ações para a economia de energia
Figura 6.5 – Desempenho dos professores no decorrer do desenvolvimento do modelo educacional
A partir dos resultados obtidos com as avaliações, com relação à habilidade A, notou- se a razoável familiaridade com os temas pertinentes ao uso da energia e suas conseqüências; todavia, ao longo das avaliações, ainda persistiam alguns conceitos pertencentes ao conhecimento do senso comum. Tal constatação pode ser justificada pelos desafios individuais no sentido da busca dos conhecimentos sistematizados (conceito de zona de desenvolvimento proximal), os quais normalmente são atingidos em intervalos de tempo distintos, considerando-se os incentivos educacionais e o perfil psicológico do indivíduo.
0,0 20,0 40,0 60,0 80,0 100,0 0 1 2 3 4 5 6 Habilidades Aproveitamento (%) Avaliação 1 Avaliação 2 Avaliação 3 A B C D E
As atividades ligadas às operações com valores numéricos, com as respectivas unidades de medida das grandezas físicas envolvidas, trazem consigo certas deficiências presentes no ensino formal e nos meios de comunicação, principalmente quando torna-se necessário interpretar os fenômenos naturais e os produtos do desenvolvimento tecnológico. Os resultados apresentados nas avaliações, em relação à habilidade C, refletem essa tendência do indivíduo em sentir dificuldades na quantificação dos processos presentes no cotidiano.
A maior sensibilização, quanto aos objetivos do uso racional da energia, foi verificada na avaliação das habilidades B, D e E. Tais habilidades estão presentes nas primeiras etapas de aceitação dos procedimentos que permitem o uso eficiente da energia, ou seja, atuam sobre a construção de valores que conduzem à superação de barreiras comportamentais antagônicas ao uso racional da energia. A compreensão das informações vinculadas ao uso da energia, associadas às relações de causa e efeito sobre a humanidade e o estabelecimento de formas de ação para a racionalização dos recursos energéticos, permitem transitar dentre as variáveis psicológicas e posturais (Constanzo et al., 1986), possibilitando posteriormente a obtenção de resultados mais satisfatórios no desenvolvimento das habilidades A e C, com a ressalva de que isto se dá em intervalos de tempo distintos para cada indivíduo.
Quanto ao modelo educacional proposto, levando-se em conta os aspectos qualitativos das avaliações, surge a sinalização da importância de se criarem estratégias didáticas para conduzir os conteúdos que envolvam operações matemáticas e lógicas a partir das características operacionais de certos equipamentos. Isso não significa entender de forma pormenorizada as propriedades de um determinado sistema, pois isso estaria se afastando dos objetivos do método, mas exercitar o raciocínio para a compreensão de fenômenos físicos. Como exemplo, pode ser citada a avaliação de um equipamento que liga e desliga em intervalos regulares de 20 minutos; ao solicitar o tempo total de operação em 24 horas, não é raro surgir alguma dificuldade na “montagem do problema”.
Pensando na dificuldade de visualização de certos aspectos operacionais, a criação de recursos ilustrativos são de considerável valia para o entendimento das pessoas. Isso pode ser verificado na explicação do uso adequado do ferro de passar roupas, o qual deve ser ligado para passar a maior quantidade possível de roupas de cada vez. Os participantes do curso, ao serem questionados sobre esse procedimento, não tinham dúvidas quanto à economia de energia, mas não compreendiam com clareza as justificativas para tal ação. Aproveitando esse momento didático foi apresentada a esquematização de um ciclo operacional hipotético para um ferro de passar roupas (Figura 6.6), a partir da qual agregaram-se outras informações a respeito do seu funcionamento.
Figura 6.6 – Esquematização didática para a explicação do princípio operacional do ferro de passar roupas.
Durante o desenvolvimento dos conteúdos do material paradidático, evidenciou-se a importância da fundamentação didático-pedagógica, pois dessa forma torna-se possível perceber os pontos críticos no processo educacional, possibilitando a identificação de algumas estruturas que conduzem, ou que falham, na construção do conhecimento. Assim sendo, os indivíduos se sentem inseridos nos processos de ensino-aprendizagem, o que, no contexto do uso racional da energia, se traduz numa maneira de explorar tal assunto respeitando-se os procedimentos educacionais que fazem parte das expectativas dos professores. Essa afirmação fez parte dos comentários dos participantes ao final do curso, havendo inclusive o interesse, por sugestão dos mesmos, da apresentação dos conceitos discutidos no curso na ocasião do planejamento escolar de determinados estabelecimentos de ensino.