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Ao tratar da origem de Curralinho, Derval de Castro descreve primeiro o que deu motivo a sua fundação que, no seu afirmar, remonta aos meados do século XVIII. Narra o autor que com o Conde de São Miguel, Dom Álvaro Xavier Botelho de Távora, governador da capitania de Goiás de 1755 a 175935, chegaram à capitania

alguns de seus irmãos, todos ricos fidalgos portugueses.

Ocuparam de imediato as terras do alto vale do rio Uru, onde construíram duas fazendas, a Quinta e a Santo Isidro.

Com o attentado, em 3 de Setembro de 1758, contra a vida de D. José I, cognominado o Reformador, que então já reinava em Portugal, e do qual foram accusados outros Távoras, (o marquez Francisco de Assis Távora, sua esposa e filhos), parentes do Conde de São Miguel, e acontecendo ter-se verificado ser este Conde um administrador deshonesto e sem escrúpulo, foi demittido disciplinarmente, passando o governo em 7 de julho de 1759 a João Manoel de Mello. Sendo por esses motivos perseguidos pelo Marquez de Pombal, Ministro de D. José I, foram todos presos e assassinados em execução quasi sumaríssima, quando se achavam em suas propriedades à margem do Rio Uruhú, em 1762 (CASTRO, 1933, p. 16).

No entanto, continua, em 1760, época em que se procedia ao processo do Conde de São Miguel, seu irmão, o comendador José Joaquim de Távora que se tornara criador – por causa de uma grande geada e uma seca que ressecara os pastos e cuja culminância se deu em 1774 – viu o seu gado afastar-se das pastagens do rio Uru, demandando em busca de pastagem fresca. Assim, à medida que a seca ia aumentando diminuindo as águas e os pastos, o gado ia se afastando para outras regiões mais distantes.

Desta forma, à procura de pastagem, parte do gado veio se empastar às margens do rio das Pedras, onde a vegetação era fecunda e viçosa, em decorrência da umidade das várzeas quase sempre inferiores aos barrancos do rio.

José Joaquim de Távora, pela circunstancia da época, em que via offuscada a estrella de sua influencia, e ante o período de assolamento que se prenunciava imminente, impossibilitado de arrebanhar o gado para as salgas na sua estancia de ‘Santo Izidro’, resolveu fazer um curralzinho de madeira à margem direita do Rio das Pedras, pouco distante da estrada real de Goyaz à Pyrenopolis, afim de que pudesse dar sal ao gado pelas vaquejadas (CASTRO, 1933, p. 17).

Continuando, escreve Derval que, feito o curralzinho, apenas muitos anos depois, já quase ao findar o século XVIII, surge o primeiro rancho, e com este, de procedência ignorada, um certo Cabral que tratou logo de apossar-se do local.

O Capitão-Mor Salvador Pedroso de Campos, que por sua vez já occupava as terras da fazenda ‘Engenho do Palmital’, cioso de seus domínios, procurou firmar definitivamente a sua posse mandando tambem fazer um curralzinho, onde está hoje situada a Matriz, e uma pequena casa.

A presença de Cabral e a actividade que o Capitão-Mor desenvolvia na sua fazenda em iniciativas industriaes, atrahindo outras pessôas da lavoura, fez com que nascesse a idéia de se realizarem ladainhas aos domingos em uma das casas, que se tornou logo conhecida por ‘casa das orações’ (CASTRO, 1933, p.18).

Aqui entram em cena os dois personagens, ambos já conhecidos, o capitão- mor Salvador Pedroso de Campos e o tal Cabral, cujo prenome não se descobriu. Segundo o autor do Annaes, é por essa época que tem origem o arraial:

Data dessa época a existencia propriamente dita de Itaberahy, que, devido ao pequeno curral feito pelo Capitão-Mór Salvador Pedroso de Campos, foi logo

denominada Curralinho, que, por curruptela da gente roceira, se tornou em breve Curralinho, nome este porque foi conhecida durante mais de século (CASTRO, 1933,18).

Nota-se, claramente, pela narrativa de Derval, que a intenção do autor é a de provar (convencer o leitor) que o fundador de Itaberaí é inequivocamente o capitão- mor Salvador Pedroso de Campos. Perseguindo este mister, o autor desdobra-se em referências a fatos históricos e ilações outras que venham confirmar o seu desejo, ou seja, desfazer “à luz de provas irretorquíveis” (CASTRO, 1933, p. 3) a falsa concepção histórica que a tradição, segundo ele, vinha ensinando sobre a origem de Itaberaí.

Procurando, porém, narrar os motivos que deram início ao povoamento da região do arraial do Curralinho, antes que se iniciasse a pequena povoação, Derval, lançando mão do imaginário existente em Goiás sobre a família Távora, expõe a triste sina desses fidalgos, nobres portugueses que chegaram à capitania de Goiás em meados do século XVIII, os quais, desventurados, foram, segundo ele, sumariamente mortos a mando do marquês de Pombal, seu implacável perseguidor.

O comendador José Joaquim de Távora surge como o pioneiro do desbravamento do lugar em que surgiria o arraial. Esta narrativa dos Távora será o suporte sobre qual Derval construirá o mito Salvador Pedroso de Campos, partindo da realidade dos fatos para o terreno do imaginário e desprezando os outros elementos da tradição local e mesmo documental.

Na pesquisa documental empreendida em busca de documentos que pudessem subsidiar o conhecimento sobre a origem de Curralinho, duas coisas chamaram a atenção. Em primeiro lugar o depoimento dos cronistas e viajantes do século XIX : Silva e Souza, Cunha Matos, Pohl, Castelnau e Dalincourt, os quais são todos concordes em afirmar ter Curralinho se originado da reunião de roceiros da região, não citando fundador; e, em segundo lugar, as afirmações de Derval de Castro no Annaes da Comarca do Rio das Pedras, em 1933, quando, ao reconstruir a história da origem de Curralinho, procura, claramente, fazer sobressair um personagem que antes, no século XIX e no século XX (até 1933, quando da publicação do Annaes), não fora contemplado como fundador nem pelos cronistas e viajantes, alguns dos quais o conheceram pessoalmente como se verá adiante, nem na documentação histórica compulsada.

Um outro aspecto que se deve observar é o persistente discurso de Derval em dizer que a “tradição histórica local” (CASTRO, 1933, p. 10), sempre afirmou que o

capitão-mor Salvador Pedroso de Campos é o fundador de Curralinho, o que, perceber- se-á, não está conforme as fontes pesquisadas.

Benzer Belgeler