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Geçerlilik ve Güvenirlilik Analizi

4.3. Araştırmanın Yöntemi

4.3.3. Geçerlilik ve Güvenirlilik Analizi

Nesse episódio, analisaremos alguns momentos de diálogos e interações nos encontros, que, de certo modo, mudam a dinâmica das atividades. Aqui, analisamos trechos de diálogos ocorridos ao longo de todos os encontros.

No que se refere à aprendizagem da Matemática, Lave argumenta que aprendizagem e prática da Matemática são atividades sociais (coletivas e individuais),

183 sociais, culturais e contextuais. “Os aprendizes aprendem a pensar, a argumentar, a actuar e a interagir de forma cada vez mais sabedora, com as pessoas que fazem algo bem, fazendo-o com elas enquanto participantes legítimos periféricos” (LAVE, 1990, p. 311 apud FERNANDES, 2004, p. 109).

Passamos a mostrar alguns exemplos dessa forma de participação (em diálogos) ocorridos nos encontros, os quais evidenciam o engajamento mútuo, a cooperação, a pessoa em ação em atividades situadas, em contrapartida a posição passiva, que é uma característica comum em salas de aula de Matemática.

Passamos a mostrar aqui, como exemplo, uma situação ocorrida no 4ª encontro da pesquisa. Mostrávamos aos alunos mapas com as rotas marítimas entre África e Brasil, mostrávamos os lugares na África de onde vieram os escravos para o Brasil.

P- Esses são os caminhos que os portugueses fizeram para chegar no Brasil.

Vanessa- Eles vieram de que professora? Carlos- De barco.

P- É. De navio, conhecidos como navios negreiros.

(Trecho da transcrição do dia 4 de junho de 2013, 4º encontro)

Analisamos aqui que, a indagação da aluna Vanessa “Eles vieram de que professora?”, gera um novo direcionamento para a dinâmica da atividade, não prevista. Percebe-se o aluno, assim, como parte integrante da ação (diálogo).

Novamente, na continuidade da discussão, os alunos questionaram sobre o tempo de viagem entre Brasil e África, a aluna Nádia questionou se era muito demorada, mas como não sabíamos com exatidão esses dados, pedimos que fizessem uma pesquisa para o próximo encontro. Essa nossa ação, decerto ilustrou para os alunos que o professor não é detentor de todo o conhecimento, e que eles (alunos) podem contribuir para enriquecer a atividade.

Embora todos tenham se empolgado com a pesquisa, alguns acharam dificuldades para fazê-la porque não dispunham de internet e o próximo encontro já seria no dia seguinte. Percebemos nessa situação descrita, que os alunos faziam perguntas que demonstravam interesse, alguns buscavam informações fora da escola – internet – ao contrário do que, usualmente, costumava se verificar em sala de aula e através dos relatos de professores das demais disciplinas. Nesse estudo, os alunos manifestavam um comportamento diferenciado.

Percebemos também, ao longo dos encontros diversos, momentos nos quais os alunos expressaram um desejo de se expor, uma necessidade de ‘falar de qualquer jeito’

184 – o que sugere uma forma de manifestação, de envolvimento com o tema e o trabalho. Podemos dar como exemplo o relato seguinte.

Nádia- Professora, me deixa eu falar. Nádia- Corta pra mim.

Nádia- Corta pra mim. Corta pra mim, corta pra mim... Nádia- Professora, corta pra mim...

(Trecho da transcrição do dia 4 de junho de 2013, 4º encontro)

Ouvindo a gravação, percebemos que a Nádia estava tentando falar e nós não demos atenção para ela, dando a voz somente ao Carlos, que estava comentando sobre a casa da sua bisavó. Depois de um tempo, demos a voz para a aluna Nádia que estava com dúvidas sobre a construção em barro, sua resistência às chuvas.

Novamente, a pergunta da aluna redireciona o diálogo, de forma a enriquecê-lo, pois nos leva a falar da fragilidade das casas construídas em barro. A aluna, no entanto, quer saber mais, e outra vez questiona: “Tem casa de barro até hoje?”. Dessa vez, é o aluno Carlos que dá sua contribuição: “Tem sim, a casa da minha avó é toda de barro e tá lá até hoje”, e a partir dessa resposta, começamos a falar da existência de diversas construções em barro. O diálogo acabou nos conduzindo ao assunto central desta pesquisa, ‘arquitetura africana’. E mais, incentivava os outros alunos a participar. É o que ocorre com o Carlos, que a partir das questões da Nádia “Professora, o barro é argila, não é?”, dá sua contribuição ao diálogo respondendo: “É, ele tem uma liga especial, que fica grudento”. Ora, isso demonstra que, além de participar, ele apresenta respostas às questões, ou seja, os sujeitos também aprendem com outros aprendizes mais experientes, sugerindo uma mudança de participação na ação, ou seja, no próprio diálogo.

A Nádia questionou, em outro encontro, a forma de secagem das casas.

Nádia- Professora, quando eles terminavam de fazer a casa, eles secavam a casa com fogo? André- Não, ela é secada no sol.

Carlos- O sol é que seca a casa. Nádia- Mas se estivesse chovendo?

P- Eles não construíam casas em tempo de chuva.

Vanessa- Professora, se na hora que estavam construindo a casa começasse a chover? Nádia- É, eles não tinham televisão pra saber. Como é que eles tinham a capacidade de saber

se ia ou não chover?

P- Os antigos tinham formas de olhar para o céu e saber se ia ou não chover. Eles tinham uma forma de olhar para as nuvens e perceber isso. Meu avô era assim, ele olhava para o céu e sabia exatamente que horas era. Tinha dia que a gente ia chamar ele pra almoçar e ele olhava para o céu e falava: é, espera um pouco, falta cinco minutos para o meio dia.

André- Mas, como ele sabia?

Carlos- Ele sabia a posição do sol no céu.

P- É isso mesmo, de tanto observar, ele sabia.

Fernanda- Professora, a minha avó também fala que vai chover aí, de repente, começa a

185 Amanda- Minha mãe diz que quando tem neblina baixa, é sol. E quando a neblina tá alta é

chuva.

Nádia- Mas hoje teve neblina e não choveu.

P- Eu não sei olhar isso, tem que ser uma pessoa que conhece.

Nádia- Mas a minha avó por parte de mãe também sabe quando vai chover.

P- As pessoas mais antigas observavam mais o tempo do que nós hoje. Hoje nós olhamos a televisão.

André- Eu olho a metrologia todo dia. Vanessa- Eu também.

P- Nós deixamos de olhar pro tempo por causa da tecnologia.

(Trecho da transcrição do dia 12 de junho de 2013, 7º encontro) A aluna Nádia já havia demonstrado uma preocupação em relação aos dias chuvosos. Ela não conseguia entender como que uma casa feita de barro poderia resistir aos dias chuvosos.

Nádia- Professora, quando eles estão fazendo a casa, se chover o que eles fazem? Carlos- A gente nunca constrói em dia de chuva, é só em dia sem chuva.

Vanessa- Mas, se quando começou não tem chuva e se chover depois que já tinha começado. André- É só olhar a meteorologia pra ver se vai chover ou não.

Nádia- Mas, antigamente, não tinha meteorologia.

(Trecho da transcrição do dia 12 de junho de 2013, 7º encontro)

Os alunos começaram a questionar a maneira como os povos antigos faziam a previsão do tempo.

Carlos- Meu avô olha pro céu e diz se vai chover ou não. Nádia- E se ele não acertar?

Carlos- Ele nunca errou quando eu estava lá, ele conta que é uma forma de prever a chuva é

olhar para as nuvens pra ver se é nuvem de chuva.

André- Que doido, é só olhar pro céu. Então vou ver se tá com chuva hoje.

P- Vocês estão achando engraçado! Mas é assim mesmo que o povo antigo previa as chuvas. Meu avô só ia almoçar quando ele olhava para o céu e via o sol no meio do céu, aí ele dizia que era meio dia. Dava certo sempre.

P- Outra coisa é que não precisa de transporte para o barro para fazer as construções, geralmente, cava-se um buraco perto da construção mesmo.

Carlos- Já na do cimento tem que pedir para entregar em casa, fazem o carreto.

P- E tem que pagar para entregar. P- Então vamos construir....

Angélica- É nós, professora!

Trecho da transcrição do dia 12 de junho de 2013, 7º encontro)

A sequência de questões propostas pelos alunos, além demonstrar interesse pelo tema e de dinamizar a discussão, possibilita a abertura para outros alunos se manifestarem, se exporem, dando relatos pessoais e compartilhando conhecimentos adquiridos em vivências dentro e fora da escola, ou seja, socialmente e historicamente adquiridas. O que torna o ambiente de sala de aula agradável e de real troca de saberes

186 entre professor/ aluno e aluno/ aluno. Outro momento dos encontros no qual constatamos essa interação está descrito a seguir.

No 9º encontro, estávamos estudando vários formatos diferentes de casas africanas, questionamos se sabiam das possíveis justificativas dessas escolhas de construções das casas. Então, perguntamos: “Por que escolher casas com esse formato?”. Todos os alunos mostraram, com suas expressões, não saber dos possíveis motivos de tantas diferenças.

Nádia- Não sei

Angélica- Como assim?

Trecho da transcrição do dia 19 de junho de 2013, 9º encontro)

Então, explicamos que as casas não costumavam ter janelas para melhor se adaptarem às condições climáticas da região. Na África, que é um grande continente há regiões muito frias e regiões extremamente quentes. Dependendo da região, a janela só iria aumentar a possibilidade das casas serem invadidas pela areia, pelo vento e até por animais. Em meio a explicação, o aluno André surge com a pergunta: “Mas, professora, dá para morar no deserto?”, o que novamente redireciona a conversa, há demonstração de interesse pelo tema. E mais, percebe-se que os alunos consideram o espaço dos encontros como um lugar onde podem questionar, tirar dúvidas e fazer indagações. Realmente, um ambiente de trocas de saberes.

André- Mas, professora, dá para morar no deserto?

P- Tem regiões próximas ao deserto que são habitadas. Só que de dia faz muito calor e a noite muito frio. Por isso que eles usam o barro, que de dia ele é fresco e absorve o calor. Então de noite a noite fica quentinha. Além disso, se as casas tiverem muitas aberturas, entra muito calor e não dá pra ficar lá dentro durante o dia.

Renato- Nossa professora.

P- É. A madeira e o barro tem essa capacidade térmica maior que o cimento. Eles absorvem o calor de dia e a noite elas não esfriam demais.

Trecho da transcrição do dia 19 de junho de 2013, 9º encontro)

Aqui temos um exemplo dessa liberdade, construída ao longo dos encontros. No meio da discussão, fomos surpreendidos pelo questionamento da aluna Angélica sobre a presença negra na África: “Professora, por que na África só tem negros?”. Após essa discussão, apareceu uma dúvida ainda mais instigante, que se referia sobre a língua falada na África, apresentada, agora, pela aluna Fernanda: “Professora, os africanos falam que língua?”.

Uma forma de participação nos diálogos, que detectamos nos relatos, foi a exposição pessoal dos alunos nos encontros. Passaremos, pois, a relatar uma dessas

187 exposições. Estávamos relatando e mostrando a foto da casa da minha avó, que também foi construída com barro. Como tivemos problema de falta de energia elétrica na escola, não pudemos exibir o slide que montamos com as fotos. Mostramos a própria fotografia para os alunos. O aluno Carlos, passa a relatar, então, o conserto da casa de sua avó que é toda feita de madeira e barro “A casa da minha avó também é assim. Quando eu era pequenininho eu fui lá e estava rachando, meu tio ia consertar e nós ajudamos ele fazendo o barro. Foi muito legal”.

FIGURA 104 - Casa do avô do Carlos.

Carlos- Professora, voltando na questão da argila lá. Quando eu fui à casa de meu avô, eu

tinha oito anos ainda. Chegou lá meu avô tinha comprado um monte daqueles telhados, aquele sabe aquele telhado comum. Aí ele cortou a árvore e estava consertando uma das paredes. Nós fomos até o rio e pegamos a argila lá. Aí ele cortou um tanto de madeirinha e aí ele mandou a gente pregar a argila na madeira. Aí a gente foi tomar café, quando a gente voltou, estava sequinho.

P- É o barro seca rápido.

(Trecho da transcrição do dia 4 de junho de 2013, 4º encontro) O que demonstra que essas construções, antigas, estão presentes na vida dos alunos, e que eles têm muitas experiências históricas culturais (historicamente construídas) que podem contribuir para o enriquecimento de nossas aulas. Quando eles têm abertura para esse tipo de participação, participam efetivamente e colaboram para a participação de outros alunos, incentivando, ensinando, demonstrando com suas experiências. Um ambiente que, com certeza, gera aprendizagem.