(...) Ordenar-vos em primeiro lugar que desde o momento que receberdes esta minha Carta Régia deveis considerar como principiada contra estes índios e antropófagos, uma Guerra ofensiva que continuareis sempre em todos os anos nas estações secas e que não terá fim, senão quando tivéreis a felicidade de vos senhorear de suas habitações, e de os capacitar da superioridade das Minhas Reais Armas, de maneira tal, que movidos do justo terror das mesmas peçam a Paz (...)1
A vida continuou intensa e violenta entre as florestas e rios de Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais. Continuamos a levar o leitor pelo processo de desterritorialização, antes de tratar especificamente da EFBM, começando este capítulo com uma pequena mostra do ocorrido na ocupação e estabelecimento do espaço conhecido como nordeste mineiro.
Mesmo depois do fim da Companhia do Mucuri as promessas de uberdade e riqueza da região continuaram a ecoar na opinião e no imaginário do Estado Imperial, das elites provinciais que desejavam ocupar e produzir as terras até então pouco conhecidas do país dos Botocudos.
Nesse processo temos de um lado, os herdeiros políticos de Teófilo Otoni com seu projeto civilizador leigo e de outro, o exemplo do aldeamento de Itambacuri, território do município de Teófilo Otoni. Aldeamento montado pela Igreja, com o apoio do Estado Imperial, para manter sob controle e absorver culturalmente os povos indígenas ali estabelecidos.
Segundo Izabel Mattos, este aldeamento surgiu sob a influência do processo eclesiástico de romanização que se mostra como um esforço da Igreja Católica visando a substituir os modelos da Cristandade colonial que carregavam um vínculo profundo com o Estado (as leis do Padroado). Desta forma, as representações regionais da Igreja ficariam ligadas diretamente ao Papa.2
Em 1873, data de fundação do aldeamento, Itambacuri fazia parte de um território que foi pouco explorado durante a ocupação da Companhia do Mucuri, tornando-se área de refúgio dos grupos indígenas acossados pelos colonos.
O Frei capuchinho Serafim de Gorízia, primeiro responsável pelo aldeamento, e Frei Ângelo de Sassoferrato chegaram a Itambacuri embebidos de um projeto “redentor” e “civilizatório”3. Em seus relatórios de 1882, Frei Serafim visualizava o “desenvolvimento de uma população nova e espalhada” que substituiria o “mato virgem”, “abrigo de índios e feras” transformando-se num “vasto, salubre e ubérrimo território, muito próprio para toda cultura e indústria agrícola.”4
A ocupação das matas do Itambacuri, a exemplo do ocorrido no Jequitinhonha, realizou-se principalmente por levas de mestiços que abriam posses e praticavam agricultura de subsistência, dirigindo-se aos arraiais somente aos domingos e dias santos, onde participavam de ritos religiosos e atividades de lazer.5
Em 1893 temos notícias do aldeamento:
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Carta Régia de Constituição da Junta de Civilização e Conquista dos Índios e Navegação do Rio Doce de 13 de maio de 1808, emitida pelo Príncipe Regente D. João ao Governador da Capitania de Minas Gerais, D. Pedro Maria Xavier e Mello. APM – Sessão Colonial (SC) Códice 335.
2
MATTOS, Izabel Missagia - Civilização e Revolta: os botocudos e a catequese na província de Minas – Bauru, EDUSC, 2004 p. 262.
3
MATTOS, op. cit. p. 265. 4
MATTOS, op. cit. p. 267. 5
Esta citação nos indica uma das características de toda região que se pereniza e influencia na construção de uma identidade regional que vai constituir as formas de manifestação artística, cultural, religiosa existente até hoje no espaço entre os rios Jequitinhonha e Mucuri. Um exemplo disso são os mercados municipais que até hoje marcam presença importante. MATOS, op. cit. p. 268.
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“O aldeamento do Itambacuri, talvez o mais importante deste país, tem prosperado de maneira tal, que possui hoje uma grande população que impulsiona uma imensa lavoura, talvez a primeira daquela zona que é por excelência agrícola. Em seu seio encontram-se 42 engenhos movidos a bois, além do engenho de ferro. Esses engenhos fabricam grande quantidade de rapadura, açúcar e aguardente que abastece a cidade de Teófilo Otoni que por sua vez exporta grande parte destes produtos para a estrada de ferro “Bahia e Minas”. A cultura de cereais é importantíssima, pois ... é o Itambacuri o inesgotável celeiro da cidade de Teófilo Otoni.”6
Nos primeiros anos da república aparecem também a relação da ferrovia com a produção local que proporciona a vinda de migrantes da seca que afetava o nordeste brasileiro à época.
Segundo Izabel Mattos, o trabalho coletivo entre indígenas e brasileiros pobres/mestiços foi uma estratégia importante para o desenvolvimento do aldeamento e conseqüente conversão e acomodação dos índios. Foram construídas igrejas, casas, escolas, aquedutos, além de plantios comunais e grandes derrubadas.7
Lugar de exílio e esperanças que agregou missionários, índios, mestiços, livres/pobres numa “promessa” de prosperidade baseada na idéia de uma nação construída sob o esforço de transformação das matas impenetráveis em terras agricultáveis/produtivas.8
A prosperidade parece ter chegado em Itambacuri ao considerarmos o comentário do engenheiro Pedro José Versiani, inspetor da EFBM sobre a sua infra-estrutura em 1893.
(...) o Itambacuri , apesar de aldeia, é sob alguns pontos de vista superior à cidade de Teófilo Otoni.
Ali estão as duas casas de escola, o que não temos, a igreja muito superior à nossa, que é um casebre velho.
6
Relatório do diretor geral dos índios, Antonio Alves Pereira da Silva, ao secretário da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de Minas Gerais, 4 de novembro de 1893. MATTOS, op. cit. p. 270
7
MATTOS, op. cit. p. 280. 8
Se lá não existe uma rua calçada e nem um lampião de iluminação pública, também aqui acontece o mesmo; estando nós em piores condições, porque a nossa rua principal e de mais ativo comércio é um extenso atoleiro, ladeado por dois charcos de lama podre que exala pestilentos miasmas.”9
Neste mesmo ano ocorreu uma revolta indígena que ameaçou a existência dos freis capuchinhos e do aldeamento. Revolta que possivelmente teve origem na separação das crianças indígenas de seus pais para serem educadas dentro dos parâmetros católicos – dentro da perspectiva do Decreto nº 426 de 1845 que incentivava a conquista do sertão e das almas dos índios – e a uma epidemia de sarampo que em apenas um dia matou dezoito pessoas. No dia 24 de maio cerca de setecentos índios organizaram um levante tendo como alvo principal os dois capuchinhos fundadores do aldeamento. 10
Reforços chegaram de Teófilo Otoni, os índios recuaram para a mata e em alguns dias a revolta foi reprimida, violentamente, provocando uma verdadeira diáspora da maioria da população indígena que se estabeleceu no aldeamento durante vinte anos de trabalho missionário. Os resultados foram dramáticos para esses grupos que passaram a ser perseguidos, ferozmente, por colonos e fazendeiros e dizimados por doenças (principalmente o sarampo).
Desta forma, Itambacuri passou a representar uma frente pioneira que seria capaz de absorver/acomodar novos contingentes populacionais, já que o elemento indígena passou por um processo de eliminação material e cultural, levando-se em conta que, após a revolta de 1893, várias sanções foram impostas aos indígenas remanescentes: como não falar o idioma nativo, não realizar festas/cerimônias não católicas. Além disso, incutiu-se uma memória negativa da herança indígena em seus descendentes que até hoje se
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envergonham de seus antepassados por terem tentado matar os venerados missionários capuchinhos fundadores da cidade. Os índios praticamente desaparecem, sendo registrados como mestiços, abrindo a fronteira para a sociedade majoritária. O aldeamento cumpriu sua missão. “Civilizou”.11
Acirra-se o processo de desterritorialização do elemento indígena que é visto pelo colonizador brasileiro como um empecilho à ocupação das terras. No caso da região, o “desaparecimento” dos índios também seria interessante para diluir os direitos indígenas e assimilar sua mão-de-obra, já que era difícil conseguir braços por aquelas bandas.
A abertura de estradas foi uma das principais atividades econômicas do aldeamento. O interesse do governo e dos políticos em financiá-la era óbvio: demarcação e registros de propriedades caminhavam ao longo das estradas. Muitos pioneiros assim enriqueceram, aumentando a distância social que relegava aos índios cada vez mais à condição de excluídos.12
Para reforçar o sentido deste processo desterritorializante, Izabel Mattos nos mostra o olhar dos missionários sobre o meio ambiente e a idéia de conversão do indígena. O primeiro era visto como “medonho”, “hediondo”, “bruto”, “inóspito” à “civilização” que se fazia presente nas construções, derrubadas e queimadas. Cria-se uma oposição entre o espaço sagrado cristão (o aldeamento, a civilização) e o espaço sem salvação (a floresta impenetrável). A conversão do índio acontece à medida que há um afastamento da floresta, isto fica claro com a separação das crianças índias dos pais para serem educadas na visão de mundo católico/ocidental. Olhar que fica nítido no trecho do sermão de frei Ângelo: 13
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Para aprofundar os motivos e a análise desta revolta ver MATTOS, op. cit. pp. 325-388 e GAGLIARDI, José Mauro – O Indígena e a República – SP, Hucitec, 1989 pp. 92 – 97.
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MATTOS, op. cit. pp. 381-2. 12
Idem p. 387. 13
(...) Se não cultivamos nossa alma, ela procederá como a floresta, que depois de ser limpa e queimada, não sendo cuidada, volta ao estado primitivo (...)14
A tentativa de domesticar a floresta e eliminar a presença indígena franqueiam as fronteiras do Mucuri e arredores para os mais diferentes interesses, provocando um crescimento econômico da região que constatamos nas primeiras décadas do século XX, que veremos adiante.
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