2.6. Personel Güçlendirmenin BaĢarılı Olması Ġçin Gereken ġartlar
2.6.1. Güçlendirme Ġçin Gerekli Organizasyon Yapısı
No âmbito da capitania do Rio Grande, as experiências dos holandeses com os nativos, além de garantirem pactos de aliança militar para propiciar sua estada mais prolongada abaixo do Equador, permitiram que se visualizasse aqueles que, no final do século XVII, se interpuseram contra a extrema atitude do Império Português de despovoar de índios para povoar de colonos as terras do sertão: os tapuias.
O significado atribuído ao termo “tapuia”, nos séculos XVI e XVII, tem ampla relação com os contatos iniciais que os europeus fizeram com os nativos da costa da América portuguesa. Cedo ficou evidenciado, pelos lusitanos, que os indígenas com quem primeiro tiveram contato falavam uma língua cujas palavras assemelhavam-se em quase toda a extensão do litoral, o que viria a facilitar a política de alianças da Coroa com os seus principais36. Pero de Magalhães Gândavo, cronista luso da época, nos informa, a propósito, que “A lingoa de que usam, toda pela costa, he huma: ainda que em certos vocabulos differe n’algumas partes; mas nam de maneira que se deixem huns aos outros de entender (...)”.37
A opinião desse cronista, que é corroborada nos escritos do padre Fernão Cardim, seu contemporâneo, indica quão foi importante a questão da língua para os primeiros relacionamentos entre brancos e índios38. Ademais, os nativos que habitavam a costa e falavam praticamente a mesma língua – ou línguas ligadas ao mesmo tronco lingüístico – ficaram conhecidos como Tupi39. A sua participação no processo de colonização oscilou a ponto de serem considerados seres passivos, dóceis e prontos para serem subjugados (seja pela fé, seja pela espada) ou, de forma paradoxal, peça indispensável para o sucesso da empresa colonial, tanto pela sua utilização como força de trabalho como por constituírem um contingente populacional que facilmente poderia suprir o desejo da Coroa de povoar as novas terras.40
Ao passo que a ocidentalização se encaminhava em direção ao interior do território, afastando-se da área próxima ao mar, outros grupos foram sendo conhecidos, os quais falavam várias línguas e pertenciam a diferentes etnias. Os discursos coloniais que apontam essa diferença entre os nativos afastados do litoral com relação aos Tupi – sobretudo crônicas de colonos e de jesuítas e ainda a correspondência oficial mantida entre a colônia e o Reino – colaboraram para “produzir uma visão bipolar da humanidade indígena na América Portuguesa”, utilizando-se das palavras de Pedro Puntoni41. Dessa forma, os indígenas que habitavam o sertão da América portuguesa ficaram conhecidos como tapuias, nome que lhes era atribuído pelos Tupi, tradicionalmente considerados como seus inimigos.
Tupi e tapuia. Dois pólos opostos que refletiam a lógica colonial de se utilizar as divergências locais (disputas entre grupos) para se beneficiar e instituir a política de dominação dos territórios por parte da empresa ibérica. A distinção entre eles se originava da dualidade firmada quase que exclusivamente no critério lingüístico, já que os Tupi falavam a chamada “língua geral” ou nheengatu, de “grandíssimo bem para a sua conversão”, como relatou o jesuíta José de Anchieta42 e de bom entendimento para os falantes da língua
portuguesa, ao passo que os tapuias falavam a “língua travada”, “tremendo o papo”, assim como escrevia o cronista quinhentista Gabriel Soares de Souza43.
Seguindo o mesmo raciocínio, podemos dizer que, sendo o Tupi uma língua inteligível aos olhos dos primeiros representantes da cultura ocidental a pisarem no Novo Mundo, favoreceu a colonização à medida que o Catolicismo romano pôde compilar e difundir sua gramática44, prosseguindo com o ideal de catequese e salvação das almas nativas. Historicamente os povos de língua Tupi, guardadas as devidas exceções, estiveram mais expostos ao fenômeno da ocidentalização no decorrer do Quinhentos e parte do Seiscentos. Os Tapuias, pelo contrário, emergiam como um substrato a se afastar cada vez mais da cristandade pelo obstáculo que se constituía o seu disciplinamento aos moldes do que se fazia na costa com a parceria da Igreja Católica Romana. Razão pela qual, durante os tempos coloniais, eram vistos como uma “unidade histórica e cultural” que era antagônica não apenas ao mundo cristão, mas, também, aos povos do litoral45.
Esse antagonismo abria a possibilidade dos tapuias serem chamados de bárbaros, gentios ou até mesmo de gentios bárbaros – denominações que aparecem com freqüência tanto nas crônicas como na documentação burocrática colonial, indicando uma das classificações em que esses índios estavam enquadrados. O fato de não estarem tão próximos da cristandade quanto os Tupi, destarte, não tirava as chances de serem envolvidos pela catequese. Sendo bárbaros, ou designados como tal, eram passíveis também de serem integrados à Igreja de Roma, desde que esta última empreendesse estratégias convenientes e que atendessem aos desígnios da colonização, mesmo sendo consciente das dificuldades decorrentes da diversidade lingüística dos tapuias.
Devemos atentar, junto com Pedro Puntoni, para o fato de que que a barbaria se tratava de uma noção duplamente construída, decorrente da dualidade que estamos discorrendo. Ao passo que os Tupi eram aceitos como elementos legítimos do Império Português, pela sua aparente integração à cultura ocidental, os tapuias, por outro lado, estavam comprometidamente inscritos como integrantes da barbárie. Essa representação, que evidenciava o etnocentrismo do Ocidente, estava carregada de preconceitos que paulatinamente imprimiam aos tapuias uma imagem negativa e eivada de signos pejorativos, como o da antropofagia, o da selvageria e da ferocidade46.
O entendimento desse antagonismo entre os Tupi e os tapuias, discutido por Pedro Puntoni, parte de três elementos: a) o fato de que essa bipolaridade refletia com precisão o destino do projeto colonizador, já que aos Tupi era destinada a cristandade, quando aldeados por agentes da Igreja Católica e aos tapuias a escravidão, pois alguns grupos indígenas hostis
poderiam ser cativados em observância aos princípios da “guerra justa”47; b) as alianças dos Janduí com os holandeses e a “conversão de alguns à fé reformada”, em meados do século XVII, o que fazia com que os tapuias passassem do estatuto de bárbaro para o de infiel; c) a situação geográfica dos índios não-Tupi, que se localizavam no sertão.48 Elementos que levam-nos a concordar com a idéia de que o termo tapuias traduz-se, efetivamente, como um “marcador étnico genérico”, que servia como instrumento da dominação colonial e distribuía os povos surbordinados (ou potencialmente subordináveis) pelos europeus em categorias naturalizadas e estanques, a ponto de não contabilizar a sua extrema diversidade lingüística, sobretudo no sertão49.
“Tapuia”, portanto, não se traduz como um etnônimo50 e sim na qualidade de uma categoria colonial, generalizante, onde estava oculta uma miríade de grupos indígenas que entraram em contato com os colonizadores à medida que a ocidentalização se alastrava pelos territórios nativos afastados do litoral. Os discursos coloniais, assim, nos fazem perceber uma determinada associação entre os tapuias e o sertão, como se essas duas categorias estivessem a tal ponto entrelaçadas que seria mesmo dificultoso separá-las.
Nesse sentido, a análise procedida por Maria Elisa Mäder, tomando como ponto de partida os textos mais antigos escritos sobre a América Portuguesa, evidencia uma clara oposição entre a região colonial e o sertão, como se a conquista tivesse se processado sobre espaços cheios e vazios, respectivamente. A região colonial seria o espaço cheio, preenchido pela colonização, onde a ordem havia se estabelecido graças à presença de duas instâncias de poder, a Igreja e o Estado. O sertão, por sua vez, seria o território do vazio, onde reinava o desconhecido e imperava a barbárie e a selvageria, porquanto ausente dos súditos do rei51. Mediante a compreensão dessa oposição binária, anuímos à asserção de Cristina Pompa quando enuncia que a noção de “tapuia” foi construída anexada à de sertão, como espaço vazio, interior, desabitado (de súditos do rei), selvagem, afastado da costa52.