• Sonuç bulunamadı

5. SONUÇ VE ÖNERİLER

5.2. Öneriler

5.2.7. Gözlem Verilerine İlişkin Öneriler

Um dos três livros dedicados ao público infantil escritos pelo autor (os outros são a

Pequena história da República, de 1940, e as Histórias de Alexandre, de 1944), A terra dos meninos pelados poucas vezes teve a sua importância reconhecida pela crítica. Muitos dos

ensaios mais célebres escritos sobre o autor nem mesmo o mencionam, como ocorre, por exemplo, com Ficção e confissão, de Untonio Candido, Graciliano Ramos: autor e ator, de Rolando Morel Pinto e Estruturas, de Rui Mourão. Em parte, as razões dessa exclusão e desse relativo silêncio dizem respeito a um julgamento estético excessivamente severo. Muitos estudiosos consideram o livro como coisa menor, texto circunstancial17 que seria, em última instância, um simples exercício literário de Graciliano Ramos. Por outro lado, uma parcela da crítica também ignora A terra dos meninos pelados por motivos que poderíamos chamar metodológicos: seria preciso, segundo tais pesquisadores, compartimentar a produção do escritor, separando-a e analisando-a a partir dos gêneros a que, supostamente, se filia – literatura adulta e literatura infantil18. U uns e outros respondemos, no entanto, que 17

Como se sabe, A terra dos meninos pelados foi escrito para participar de um concurso promovido pelo Ministério da Educação, que distribuía prêmios em dinheiro para os vencedores. O livro de Graciliano ficou em terceiro lugar.

18

U separação rígida entre esses dois tipos de literatura vem sendo questionada pela crítica especializada, revelando-se muito mais arbitrária e limitadora do que se poderia supor. Para uma análise mais acurada do

apesar do despojamento com que o texto é escrito e da sua destinação mais evidente às crianças, sua inclusão no cânone do autor é importante – se não decisiva – para a compreensão do seu percurso escritural, já que, como a análise seguinte procurará demonstrar, o livrinho não é nem tão ingênuo (do ponto de vista da sua elaboração formal) nem tão desligado dos temas e debates propostos pelo restante da obra de Graciliano, em particular a questão ética.

A terra dos meninos pelados narra a história de Raimundo, um menino em conflito

com outras crianças de sua localidade. Us características físicas do personagem estabelecem as bases da dificuldade de convivência. Sem cabelo algum e com olhos de cor diferente (um azul e outro preto), ele era rejeitado pelos demais, sendo constantemente humilhado por apelidos como “pelado”. Imaginando uma terra nova, Tatipirun, onde todas as pessoas eram como ele, Raimundo, agora renomeado Pirundo, se perde nas elucubrações da sua fabulação, passando a percorrer o novo espaço em busca de crianças com quem pudesse brincar. Depois de alguma andança por Tatipirun e de muitas conversas com os meninos pelados de lá, ele decide retornar a sua cidade (ficticiamente nomeada Cambacará pelo próprio Raimundo), talvez querendo reaproximar-se da sua realidade, das dificuldades da vida de todos os dias, uma vez que a experiência no universo fantástico o havia, provavelmente19, transformado.

Contada por um narrador neutro, de terceira pessoa, distante dos acontecimentos e sabedor de todas as informações a ela concernentes, a história dos meninos pelados é linear e direta, redigida com vocabulário mais simples e sem grandes efeitos de estilo. Tanto Raimundo, personagem principal, quanto os outros garotos, dentre os quais vale destacar a problema recomendamos a leitura de Crítica, teoria e literatura infantil, de Peter Hunt.

19

Dizemos provavelmente porque os indícios deixados pelo texto indicam essa transformação, mas não a comprovam em definitivo, já que a narrativa se interrompe neste momento, quando Raimundo/Pirundo decide

criança sardenta, Talima e Caralâmpia, são tipos pouco complexos, do ponto de vista narratológico, e a sua força estética não é do mesmo tipo da que possuem, por exemplo, Paulo Honório ou de Luís da Silva, respectivamente protagonistas e narradores de S.

Bernardo (1934) e Angústia (1936). O apelo dos pequenos personagens de Graciliano reside

justamente na sua simplicidade, na delicadeza com que foram construídos e na maneira despojada (mas nem por isso ingênua) que têm de lidar com temas tão intrincados como os que se colocam em tela: diferença, exclusão e tolerância.

Dentre os poucos críticos que se debruçaram sobre A terra dos meninos pelados, destacam-se aqueles que procuraram compreender o livro dentro do sistema literário de Graciliano, enquadrando-o, sem exercer demasiada violência interpretativa, dentro do esquema comum que aproxima os livros escritos pelo autor. Um deles, o romancista Osman Lins, no belo ensaio “O mundo recusado, o mundo aceito, o mundo enfrentado”, posfácio da antiga edição de Alexandre e outros heróis, afirma que os seus livros infantis, redigidos mais ou menos no mesmo período (o fim dos anos de1930 e o início da próxima década), “representam uma espécie de pausa, de recreio, que se concede este escritor severo, sofrido, tão exigente em relação à forma e tão penetrado do sentido trágico da existência” (LINS, 1981, p. 188). Upesar de concebê-los como intermezzo criativo, espécie de intervalo distraído entre os duros romances compostos antes e a exploração “áspera e ascética” (LINS, 1981, p. 188) da linguagem que os livros de memórias farão depois, o ensaísta analisa os textos infantis de Graciliano com perspicácia, apontando em A terra dos meninos pelados pelo menos um ponto de interesse.

O ensaísta aponta a persistência, no opúsculo, da mesma força e motivação que moviam os demais trabalhos literários de Graciliano. Desse modo, reconhece que o livro

merecia atenção, na medida em que nele se deixam entrever as obsessões, as reflexões do escritor sobre os motivos que o mobilizavam como artista: “Talvez – tanta é a força dos problemas que preocupam um escritor – revela esta simples parábola infantil o pensamento do autor sobre a sua condição” (LINS, 1981, p. 195). Pouco antes o crítico afirmaria, dando a entender que a recusa, ato por natureza de resistência, é um desses valores da obra de Graciliano que permanecem na sua narrativa para crianças: “o Menino Pelado recusa as maravilhas do mundo visitado e opta, voltando, pela convivência com o mundo imperfeito e áspero que o hostiliza” (LINS, 1981, p. 195, grifo nosso). Ussim, Lins vai ressaltar o substrato ético presente n’A terra dos meninos pelados, mesmo sem o nomear diretamente, na medida em que sua leitura recai sobre a escolha do personagem Raimundo, que prefere retornar ao convívio com as outras crianças do que permanecer isolado, fechado nos limites na aparência ilimitados de sua própria imaginação. U preferência pelo mundo real, pelos conflitos tangíveis – por piores que fossem – conforme destacado pelo autor de Avalovara, revela o significado da recusa de Raimundo/Pirundo ao mundo maravilhoso: o enfrentamento é a sua atitude, não a fuga, e a oscilação entre esses dois polos opostos representa, ao longo da narrativa, os dois caminhos possíveis ante o dilema instaurado pela intolerância. “Sua função”, diz ele, referindo-se tanto ao protagonista da narrativa quanto ao seu autor, “não é, sob qualquer pretexto, evadir-se” (LINS, 1981, p. 195).

Situação distinta será a de Silviano Santiago, que no seu Em liberdade oferecerá outra possibilidade de leitura para A terra dos meninos pelados, concentrada tanto nos métodos de construção do texto quanto no seu significado dentro do conjunto da obra de Graciliano. Colocando-se na pele do escritor, Santiago oferece-nos uma tentativa de explicação das origens do livro, já que o momento da sua escrita coincide com o período

Silviano:

Na história procurei não cair em três armadilhas comuns nas histórias infantis de que me lembro: nada de tom piegas ou sentimental; nenhuma referência concreta ao chamado mundo real (é um conto “maravilhoso”); nenhuma distinção precisa entre crianças e adultos. O sentimento, o realismo e a diferença de geração estão ao nível das intenções e não ao nível da execução. Joguei constantemente com os dois níveis, e só espero que tenha obtido, no final, um verdadeiro conto maravilhoso que fala de problemas do homem concreto. (SUNTIUGO, 1981, p. 136)

O primeiro aspecto da interpretação que o crítico faz de A terra dos meninos pelados é este: demarcar a diferença da narrativa para as demais obras destinadas ao público infantil, especialmente no momento em que Graciliano dá a público o livro20. Enquanto muitos outros textos para crianças assumiam um tom didático e moralista, com personagens cheios de sabedoria e lições a oferecer (fossem lições de gramática, história ou bom comportamento), Graciliano optava por uma narrativa direta, que criava um universo ficcional claramente reconhecível enquanto tal – daí o seu aspecto maravilhoso, conforme indica Silviano – na qual os valores debatidos aparecessem como consequências do desenvolvimento das ações apresentadas, e não como explicação, externa e impositiva, dos conflitos postos em questão. Ucreditamos, na esteira de Em liberdade, que a potência reflexiva do livro reside, pelo menos em parte, nessa escolha. U articulação entre trama narrativa e discussão filosófica se revela não só a maneira mais adequada de compor um texto destinado a crianças, pela eficaz delicadeza com que consegue dialogar com elas, respeitando-as sem paternalismos, mas também – e principalmente – pela capacidade de expor, sem reducionismos, uma visão de 20

Dentre os grandes escritores brasileiros que se dedicaram à literatura infantil, Clarice Lispector é aquela que, segundo nossa leitura, mais se aproxima do que Graciliano fez nesse terreno. Em livros como A mulher que

matou os peixes, A vida íntima de Laura e O mistério do coelho pensante, a escritora também se afasta do tom

didático e do caráter paternalista de muitos livros infantis, preferindo a elaboração de histórias relativamente mais complexas em que temas igualmente complexos (como a morte, por exemplo) iam sendo discutidos ao mesmo tempo em que a narrativa se desdobrava frente aos olhos dos leitores.

mundo, um conjunto de problemas que de outro modo só apareceria como elemento externo ao texto, peça retórica mal ajustada ao corpo da obra literária.

Outro ponto levantado por Silviano Santiago, a questão da diferença (e suas múltiplas nuances) será também matéria dos comentários do personagem/escritor sobre seu livro infantil. Esboçando uma síntese de seus significados profundos, o crítico, em nome de Graciliano, diz isto:

Estão vendo que optei por uma narrativa de caráter alegórico. O livro é sobre o conformismo e a divergência, a prisão e a liberdade. São dois os personagens principais: um garoto com um olho preto e outro azul a quem rasparam a cabeça, e uma princesa, nem menina nem mulher, sedutora e mágica, ingênua e fatal, a quem dei o nome de Caralâmpia, numa alusão a uma palavra que usávamos constantemente na Casa de Detenção. No menino, quis dramatizar a diferença não compreendida e na Princesa o único ser que o compreende totalmente. Pela compreensão e pelo afeto, Caralâmpia pode libertar o menino de todo o peso de culpa que traz por ser diferente, como ainda pode sustentá-lo na sua dissidência. Ela não quer torná-lo igual aos outros, como seria a tentativa de muitos. (SUNTIUGO, 1981, p. 136)

“Prisão e liberdade”, “conformismo e divergência”, elementos aqui destacados, são, como se vê, concernentes ao drama ético que atravessa a obra de Graciliano Ramos, tendo em A terra dos meninos pelados um dos seus pontos altos. U dicotomia posta em jogo por Silviano entre estaticidade e movimento, ação e passividade, representa, em parte pelo menos, o debate que se desenrola no livro. Raimundo, vítima da incompreensão das outras crianças, que o maltratam por ser fisicamente diferente delas, vê-se constrangido entre duas possíveis atitudes: ou escapa, via imaginação, para uma realidade em que todos são como ele – e assim está abolida toda e qualquer diferença –, ou decide enfrentar o mundo que o hostiliza, preferindo as dificuldades daí decorrentes do que a homogeneização estéril e

redutora.

U escolha que faz, optando pela recusa à uniformização, só pode ser compreendida em profundidade a partir da observação do compromisso ético manifesto na literatura de Graciliano Ramos, do qual tal episódio é expressão concentrada. Esse compromisso, conforme já tivemos oportunidade de dizer, não pressupõe um conjunto de regras ou dogmas morais fechado, universal e aplicável em qualquer tipo de contexto. Pelo contrário. Quando falamos nas questões éticas concernentes à obra de Graciliano, plasmada em seus textos, referimo-nos sempre à recusa das soluções simples, à necessidade do questionamento das verdades acabadas, à relativização dos próprios valores em função do contato com o outro – esse que permanentemente desloca as suas certezas e o faz abrir-se ao imprevisto, ao novo, ao que não pode ser mensurado com a razão.

U própria noção de escolha seria inapropriada aqui se os valores com os quais lidasse o escritor já estivessem todos dispostos, prontos para ser aplicados aos diversos casos concretos que vão se sucedendo. Escolher significa – e essa é uma reflexão derridiana, próxima da questão dos indecidíveis já antes assinalada – ter de deparar-se sempre, a cada nova situação, com a necessidade de criar respostas únicas aos eventos que se apresentam; se acaso o simples ajustamento de valores morais pré-determinados aos conflitos existentes fosse capaz de pô-los todos a termo, solucionando-os de modo eficaz, de modo algum a isso se poderia chamar ética, justiça ou escolha. Untes seria uma obrigação, a aplicação de uma norma, um ato decisório impessoal e maquínico, despido de toda responsabilidade e do dever de um posicionamento (Cf. DERRIDU, 2007, p. 46-47).

Desse modo, poderíamos afirmar que no livro de Graciliano – pensando a partir do que dele se diz no romance/ensaio Em liberdade –, é que uma dupla resistência se desenha

em suas páginas, (segundo aponta timidamente Santiago e que nosso trabalho pretende desdobrar analiticamente): resistência aos ditames e pressões do meio, que indicava uma integração violenta e coisificante, bem como resistência, também, aos impulsos narcísicos que impeliam o menino a refazer a realidade segundo sua imagem e semelhança – o que pode ser entrevisto tanto na interpretação de Santiago da personagem Caralâmpia (“ela não quer torná-lo igual aos outros, como seria tentativa de muitos”), quanto na negativa de Raimundo, no cerne da narrativa, à proposta do menino sardento, que pretendia salpicar de manchas o rosto de todas as outras crianças.

Benzer Belgeler